sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Governar o Brasil não é difícil nem impossível: é inútil

Texto de Carlos Heitor Cony

Benito Mussolini terminou seus dias na face da Terra numa posição incômoda: pendurado de cabeça para baixo num gancho de açougue. Um fim de vida coerente com uma de suas frases mais famosas: "Governar a Itália não é difícil, é impossível". Menos trágicos, os presidentes do Brasil, mesmo sem o fim lastimável do ditador italiano, poderiam dizer: "governar o Brasil não é difícil nem impossível: é inútil".
Citando Suetônio poderíamos dizer que os 12 Césares tiveram as mesmas dificuldades dos presidentes dos dias de hoje. Um deles resolveu seus problemas e os problemas do Império Romano nomeando um cavalo para senador, que nada ficou devendo aos senadores que o sucederam.
Ernest Renan, no meu entender o maior estilista da língua francesa, considerou a linhagem dos Pios não só o melhor período do império como o período mais feliz da humanidade do seu tempo. Teve razões para isso, uma vez que seus antecessores e sucessores, segundo Cesare Cantù, não eram coisas que prestavam.
Falta ao Brasil um Suetônio e um Cantù, apesar de termos césares demais. Somente para ficar no ano da Graça de 2017, temos três ex-presidentes e estamos na iminência de termos mais um, além de outros que estão na fila.
Nenhum deles ficou pendurado num gancho de açougue, mas tivemos um suicida, um louco que renunciou, outro que foi exilado e dois que foram impedidos. Disso tudo resultou que o Brasil pode ter governantes em excesso, que prometerão pão e leite para todos, descobrirão a inutilidade do leite e do pão, mas farão licitações que abastecerão corruptos e corruptores.
Um ex-presidente que foi exilado dizia que governar era abrir estradas. A maioria preferiu abrir as burras da nação, tornando inúteis suas promessas e nomeando cavalos para os altos escalões.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/carlosheitorcony/2017/06/1893728-governar-o-brasil-nao-e-dificil-nem-impossivel-e-inutil.shtml

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Falta de grana mata o amor porque ele perece diante da falta de horizontes

Afeto tem preço? Sim, tem. E, enquanto você não descobriu o seu preço, ainda não pensou a fundo no tema.
Enquanto não pensarmos claramente no quanto amor e grana se misturam, não veremos nenhuma fronteira entre os dois.
Em nossa época, mentiras viraram moeda de troca no mercado do pensamento público. Agradar aos outros é métrica de valor. Eu não jogo esse jogo.
Devemos escapar da armadilha comum de pensar que assumir um preço para o afeto implica ser uma pessoa interesseira. Claro que esse caso óbvio também existe. Penso em pessoas motivadas pelo afeto mesmo e que, tristemente, às vezes, se batem com o limite material delas. Não era outra coisa que o grande Nelson Rodrigues tinha em mente quando dizia que dinheiro compra até amor verdadeiro.
O fato é que grana é um potencializador da vida. Com ela você pode criar um ambiente no qual confiança, bem-estar e um forte sentimento de muitas perspectivas se abrem diante de você. Onde bons sentimentos nascem? Num final de semana prolongado em Roma ou no trânsito de oito horas para Praia Grande?
Grana cria horizontes no quais você se desenvolve e pode sonhar com melhores modelos de você mesmo. Grana dá a você a chance de ser generoso, ousado, seguro de si mesmo. No caso das meninas se dá a mesma coisa.
Acrescentaria que no caso das meninas existe também um delicado sentimento (às vezes enterrado no mais fundo do cotidiano) de que, se alguém te dá uma bijuteria no lugar de uma joia, você se sente uma bijuteria, e não uma joia. E, em alguma medida, com razão. Porque o preço de uma joia representa o valor investido na mulher para quem você dá essa joia.
Homens, que na maioria das vezes ganham mais e são mais escravos da obrigação do sucesso material, se sentem investidos de amor pela mulher quando ela demonstra serem eles a sua prioridade. Quando ela reconhece potência em tudo o que eles fazem –o que não significa só ganhar dinheiro.
Falta de grana mata o amor porque ele perece diante da falta de horizontes. Do sentimento de que a vida está acabada naquela fórmula pobre de ser. Num cotidiano em que a rotina é sempre a da falta de liberdade de escolha. A dificuldade de enxergar isso torna ainda mais o afeto dependente da grana. A mentira sobre isso torna o amor ainda mais barato porque mais indefeso diante das contingências do dia a dia.
Quer outro exemplo? Você se casa com um cara que tem uma ex-mulher. Se ele der muita atenção para ela e se preocupar muito em deixá-la "bem materialmente" mesmo depois da separação, você vai, sim, achar que ele ainda a ama. Não minta sobre isso só pra ficar bem com o marketing do bem, que deixa o mundo ainda mais cretino do que ele já é normalmente.
O caso do amor entre pais e filhos não é tão diferente, apesar de depender mais da classe social e da cultura do país. No Brasil, da classe média alta pra cima, se você não der um apartamento para cada filho, fracassou como pai.
Imagine que seu pai deixou sua mãe por uma mulher 20 anos mais nova do que ele, e que ele teve um filho com ela. Sei, sei, dizem por aí que todos os jovens tiram isso de letra hoje, mas isso é, também, uma mentira do marketing do bem.
Agora imagine que ele nega para você uma viagem para Paris nas férias, mas faz um lindo quarto de bebê com todas as frescuras que sua nova jovem mulher pede. Quando encontra com você, só fala do novo "irmãozinho". Que tal?
Invertamos a situação. Imagine que você dedicou 40 anos da sua vida para seu filho. Imagine que agora ele é bem-sucedido profissionalmente, mas deixa você viver numa casa de repouso miserável paga com sua aposentadoria.
Onde está a fronteira entre amor e grana aí? Em Roma ou Praia Grande?

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Dizer para a criança que ela pode aprender tem impacto enorme

Você pode treinar seu cérebro e se tornar mais inteligente.
Essa é a mensagem de um programa educacional simples e barato, chamado "Expande tu mente", que o governo Peru tem testado em suas escolas com impacto relevante na aprendizagem de alguns alunos.
O projeto se baseia em pesquisas feitas nas últimas décadas por especialistas como Carol Dweck e Lisa S. Blackwell que mostram que a inteligência não é um ativo fixo e inalterável.
Quem acredita que pode desenvolver mais habilidades tem maiores chances de atingir seus objetivos, segundo esses estudos.
Partindo dessa premissa, o programa —que tem apoio do Banco Mundial, da Universidade de Oxford e do grupo peruano de pesquisa Grade— consiste em uma única sessão na qual os alunos de ensino médio recebem um artigo curto chamado "Sabias que puedes hacer crecer tu inteligencia?"
O texto explica, de forma amigável e com ilustrações, como a nossa capacidade cognitiva é maleável, como o cérebro funciona e como as conexões entre suas células nervosas crescem e se fortalecem à medida que aprendemos coisas novas.
Em seguida, a classe discute o artigo com o professor encarregado pela monitoria. Um cartaz para que os alunos se lembrem constantemente do que leram é pendurado na sala de aula.
E, no fim, cada estudante escreve uma carta contando para um familiar ou amigo o que aprendeu sobre o assunto e dando conselhos.
Segundo o Banco Mundial, o programa-piloto —que começou a ser testado em 2015— gerou um impacto positivo nas notas dos alunos, que, em média, equivaleria ao que seria conseguido por um aumento de dois a três anos na escolaridade de seus pais.
Esse tipo de comparação costuma ser usada porque há farta evidência de que o número de anos de estudo dos pais tem forte relação causal com o desempenho acadêmico dos filhos.
Embora o aumento da escolaridade da população adulta seja desejável, por inúmeros motivos, trata-se de um processo demorado. Não daria para contar só com isso como estratégia para melhorar a aprendizagem das crianças no curto prazo.
O que o governo do Peru está tentando fazer é justamente identificar soluções efetivas, escaláveis, com uma boa relação entre custo e benefício, que ajudem o país a melhorar a qualidade da educação em um horizonte mais próximo de tempo.
Criou para isso uma espécie de laboratório de inovações educacionais (MineduLAB) que se associa a pesquisadores da área para implementar, testar e mensurar novas iniciativas.
Foi nesse contexto que o "Expande tu mente" foi implantado em um grupo grande de escolas de três regiões do país e seus resultados, aferidos em um teste de aprendizagem nacional comparados posteriormente com os de outras instituições que não receberam a intervenção.
Segundo um relatório divulgado há duas semanas pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), as poucas iniciativas em países em desenvolvimento que buscam motivar os alunos e tiveram sua efetividade mensurada apresentaram efeito positivo sobre a aprendizagem.
Esse tipo de programa tem a vantagem de ser relativamente barato.
O estudo da instituição, cujo foco são as políticas públicas para o desenvolvimento de habilidades, ressalta que o "Expande tu mente" teve um custo de apenas US$ 0,1 por cada ponto a mais de aprendizagem dos alunos em testes padronizados. Iniciativas mais populares como reduzir o tamanho da classe e expandir a jornada escolar, diz o BID, custam, respectivamente, US$ 47 e US$ 210 por cada ponto a mais de aprendizagem gerado.
Num website que acabou de lançar, o BID fornece um resumo da evidência internacional da efetividade de diversas políticas educacionais, com foco em distintos objetivos e faixas etárias.
A mensagem da instituição multilateral para os formuladores de políticas públicas é clara, direta: não adianta aumentar os recursos investidos em educação sem mensurar, de forma bem-feita, com critérios e metodologia apropriados, os resultados de suas iniciativas.
É preciso saber se os tiros que damos têm atingido seu alvo e a que custo.
A julgar pelos resultados ainda decepcionantes da região em testes internacionais de aprendizagem, a despeito do aumento dos nossos gastos em educação nos últimos anos, essa mensagem ainda não parece ter sido bem apreendida. Mas iniciativas como a do governo peruano são um alento.
No mais, para quem lida com crianças, os resultados preliminares do "Expande tu mente" indicam que vale muito a pena explicar para elas, de forma simples, que elas conseguem aprender, podem melhorar, são capazes de desenvolver talentos se treinarem para isso.
É uma atitude simples que, na correria do dia a dia, dificilmente entra no nosso radar.

domingo, 24 de setembro de 2017

Professor Uber: a precarização do trabalho invade as salas de aula

Sob o comando do tucano Duarte Nogueira, a prefeitura de Ribeirão Preto, no interior paulista, apresentou em julho um projeto para contratar aulas avulsas de professores por meio de um aplicativo de celular, com o objetivo de suprir as ausências de docentes da rede municipal.
No “Uber da Educação”, como a proposta foi apelidada, o profissional não teria vínculo empregatício. Após receber a chamada, ele teria 30 minutos para responder se aceita a tarefa e uma hora para chegar à escola.
Com cerca de 5 mil habitantes, a cidade catarinense de Angelina, na Grande Florianópolis, também inovou, com a criação de uma espécie de leilão reverso para a contratação de professores. Em abril, a prefeitura publicou o Pregão nº 018/2017, baseado em uma licitação de “menor preço global”.
O edital partia de um pagamento máximo de 1.200 reais para uma jornada de 20 horas semanais, mas atrelava sua definição a um leilão que deveria ser feito com o envio de propostas salariais a menores custos. O processo só não foi adiante porque foi interpelado pelo Ministério Público de Contas do Estado.
Há tempos os professores da educação básica convivem com a precarização das relações de trabalho, um problema que deve aprofundar-se com a nova Lei de Terceirização e a reforma trabalhista sancionada por Temer. Diante do cenário, não chega a surpreender a iniciativa do Grupo Anhanguera, de buscar atrair novos estudantes para cursos de formação pedagógica com a promessa de uma fonte complementar de rendimentos.
“Torne-se professor e aumente a sua renda”, dizia a peça publicitária, com Luciano Huck de garoto-propaganda. Após a repercussão negativa da campanha nas redes sociais, a instituição de ensino superior pediu desculpas pela “mensagem equivocada sobre a função e importância do professor”.
A precariedade cobra um elevado preço dos profissionais. Em 34 anos de carreira, esta é a primeira vez que Maria Fátima Maia da Silva, 50 anos, se vê longe das salas de aula. Por recomendação médica, ela está afastada há dois meses em consequência de estresse acumulado ao lecionar em sete escolas do Paraná.
A peregrinação pelas unidades da rede estadual começou em fevereiro, quando o governo de Beto Richa (PSDB) reduziu as horas-atividade dos docentes, passando de 7 para 5, em uma carga horária de 20 horas/aulas semanais.
Até a decisão, Maia da Silva trabalhava em uma única escola de Curitiba, com uma jornada de 40 horas semanais, 20 horas dedicadas a aulas de Biologia e o tempo restante para ministrar a disciplina de Ciências. Após a medida, a professora teve as horas de trabalho reduzidas para 13 e viu-se forçada a procurar por outras instituições para compor o tempo de cada matéria.
“Na parte da manhã, passei a trabalhar em duas escolas. Para cumprir as 20 horas restantes, peguei mais cinco escolas para lecionar à noite, cumprindo por dia da semana uma carga de quatro horas em cada uma delas”, conta a professora.
Além da jornada exaustiva em diferentes salas de aula, pesava o tempo de deslocamento até cada um dos endereços. Entre idas e vindas, a professora chegava a passar quatro horas no transporte público. A rotina foi interrompida em junho, quando a estafa a afastou do trabalho.
Na avaliação da vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Marlei Fernandes de Carvalho, o caso desrespeita a Lei Federal nº 11.738/2008, que instituiu o piso salarial dos profissionais do magistério público da educação básica. Os professores deveriam ter assegurados dois terços da carga horária para a interação com os estudantes.
“O terço restante é reservado para o planejamento”, explica Carvalho. “Com a redução das horas, descarta-se esse tempo de trabalho fora da sala de aula, o que deve fazer com que muitos professores sacrifiquem o seu tempo livre, de descanso, para cumprir todas as demandas da escola.”
Presidente da CNTE, Heleno Araújo também se preocupa com os impactos da Emenda Constitucional 95, que congela os gastos públicos por 20 anos. “Com menos recursos para a educação, temos prejudicadas as metas 15 a 18 do Plano Nacional de Educação, que preveem a valorização docente.”
Hoje, muitos professores atuam como temporários na rede pública, ou seja, não fazem parte do quadro efetivo. Em Mato Grosso, por exemplo, 60% dos docentes estão contratados nesse regime, mas são igualmente expressivos os porcentuais em Santa Catarina (57%), Mato Grosso do Sul (50%), Minas Gerais (48%), Pernambuco (44%) e São Paulo (34%).
“Pela Constituição, o ingresso no serviço público deve ser feito exclusivamente por meio de concurso”, observa Araújo. Como os temporários não podem criar vínculo com as redes de ensino, esses profissionais precisam alternar tempo de aula com tempo de afastamento.
De acordo com a presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha, os professores temporários eram obrigados a cumprir uma quarentena para voltar a lecionar na rede paulista.
“Na greve de 2015, conseguimos assegurar a contratação de quatro anos sem quebra de contrato”, lembra. Benefícios como o quinquênio ou a sexta parte, gratificações por tempo de trabalho, só foram adquiridos para a categoria há três anos.
No contexto de liberação das terceirizações, teme-se que os concursos públicos deixem de ser realizados. Os professores efetivos dariam lugar a prestadores de serviços. Outra ameaça é a entrega da administração das escolas para organizações sociais.
A ação não seria novidade. No ano passado, o estado de Goiás publicou um edital chamando entidades a assumirem a gestão escolar. Contrários à proposta, estudantes ocuparam 28 escolas estaduais. O edital foi suspenso pela Justiça goiana.
Resposta da prefeitura de Ribeirão Preto
Em nota enviada à CartaCapital, a prefeitura de Ribeirão Preto afirma que "não existe projeto 'Uber da Educação' em andamento no município".
"A proposta que se encontra em fase de elaboração denomina-se “Professor Substituto” e visa a solucionar a grave situação de ausências de professores em sala de aula, motivadas por faltas ou licença saúde, em período inferior a 30 dias. As faltas acima de 30 dias são resolvidas com nova atribuição de aulas a outro professor.
A proposta é que o professor substituto seja aprovado por processo seletivo e receba atribuição de aulas por conjunto de escolas, formado por duas ou três unidades. O contato com o profissional para chamá-lo até a unidade escolar poderá ocorrer com a utilização de tecnologias hoje disponíveis, o que agregará agilidade ao processo.
Quanto à relação empregatícia, o projeto é objeto de análise por parte da Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos. Portanto, não há nenhuma solução definitiva a respeito do assunto."

 Fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/professor-uber-a-precarizacao-do-trabalho-invade-as-salas-de-aula

domingo, 3 de setembro de 2017

Pedagogia do amor é futuro da educação

Fala-se menos do que se deveria na pedagogia do amor e o pouco que se fala é, muitas vezes, vago. O tema, então, se perde pela sua abstração e incompreensão das pessoas, o que ocasiona desconfiança e desinteresse; todavia, tanto como parte do método pedagógico quanto como um dos objetos de estudo, o amor é aquilo que pode mudar completamente o mundo para melhor desde que seja bem entendido.
A noção predominante de amor é a romântica, que o entende como um sentimento afetivo entre dois seres, normalmente um homem e uma mulher, e daí surge, inclusive, o preconceito lastimável contra aqueles que procuram relacionamentos homossexuais. Esses dois seres buscam uma união quase sempre calcada na atração física e/ou sexual, quando a motivação não é ainda mais superficial, como financeira ou outra similar.
Para além dessa ótica predominante, há uma segunda, muito parecida, que estende o amor a um sentimento afetivo entre dois seres por laços familiares ou por simpatia. Esta é uma sintonia gerada por interesses ou outros elementos em comum, que podem ser positivos ou negativos.
Não existe amor ou desamor à primeira vista, mas apenas simpatia ou antipatia à primeira vista. Simpatia é sentimento direcionado a uma pessoa. Amor é um sentimento sem direção, que ultrapassa o ser humano, estendendo-se aos animais, ao elementos naturais (fogo, água, terra, vento), ao planeta, ao cosmo.
O amor amplamente prevalecente, almejado e praticado na humanidade não é aquele em sua profundidade e amplitude. É um amor romantizado, vendido em filmes, novelas e propagandas, muito mais ligado a paixões e interesses menores do que a sentimentos edificantes e libertadores.
Por tal razão, ele degenera facilmente em apego, cobrança, manipulação, quando não se transforma em ódio por conta da frustração das paixões e interesses mencionados. Quase sempre, o amor é praticado com egoísmo, muito mais em busca de algo em troca do que de apenas se doar ao outro e de fazê-lo um ser melhor.   
O amor, como deve ser compreendido em uma comunidade mais desenvolvida, é um sentimento muito mais próximo da fraternidade em um nível ótimo, um “‘estado afetivo de plenitude’, incondicional, imparcial e crescente”, como diria Ermance Dufaux.
O verdadeiro amor preenche, eleva o ser a um estado de felicidade incomparável, inabalável pelos arrastamentos menores das paixões humanas. Ele não é condicionado a retorno; não é diferente de acordo com o ser ou com qualquer outro critério; e só vai crescendo na medida em que a pessoa se desenvolve.
O verdadeiro amor é profundo, pois submete as paixões e interesses individuais em prol de uma ligação com tudo e todos, gerando respeito, paciência, indulgência, tolerância, unicidade com a natureza; sentimentos muito mais edificantes do que aqueles gerados, em regra, pela ótica de amor hoje predominante.
O verdadeiro amor não diferencia o sentimento que se tem do filho e do vizinho que causa incômodo, por mais utópico que isso possa parecer. O amor dos pais para com os filhos é talvez o mais puro que existe hoje. É, em diversos casos, um amor incondicional, que tira o fôlego e que perdura, não importa o que aconteça. No entanto, as pessoas não são ensinadas a amar os demais. “Os outros são os outros”. “A família antes de tudo”. Quantos chavões não existem hoje para expressar que só devemos nos preocupar com “os nossos” e os outros que se danem?
Devido à falta de amor da humanidade, se não houvesse a família, dentro da qual se estimula o amor pelos laços de sangue e pela convivência muitas vezes forçada, o planeta provavelmente já teria sido destruído, e observem que, mesmo assim, não falta muito para isso.
O problema é que as relações familiares se tornaram as únicas importantes para muitos, até porque da felicidade do cônjuge e dos filhos muitas vezes depende a felicidade do próprio indivíduo. Então, há frequentemente mais egoísmo do que amor por trás de certas atitudes protetivas da família. 
Com verdadeiro amor, não haverá escolhas em torno de quem deve ser protegido e quem deve ser prejudicado, a não ser sob critérios de justiça; não haverá injustiças aos outros em prol da família ou de si mesmo; não haverá nacionalismos que prejudicam outros países sem remorso; etc. O amor une a todos, torna a sociedade uma única família.
É esse sentimento que deve ser utilizado para ensinar nos lares e nas escolas por meio, sobretudo, de atividades práticas e do exemplo. Na medida em que se ensina pela pedagogia do amor, já se ensina o amor pelo exemplo, a melhor forma de ensino, por ser sentida e, principalmente, vivida, e não apenas racionalizada. Quando o outro compreende o verdadeiro amor em alguém, é difícil que não queria praticá-lo, pois nota como quem ama verdadeiramente emana positividade, é pleno e feliz.    
Diversos estudos comprovam que países mais desenvolvidos em termos de qualidade de vida e desenvolvimento em sentido amplo revelam altos graus de fraternidade. Sociedades com mais qualidade de vida são as que desenvolveram melhor o sentimento de verdadeiro amor, criando, por consequência, instituições mais inclusivas, fraternas. 
A pedagogia do amor foi o centro do método Pestalozzi, que tanto sucesso obteve na Europa no século XIX e que influenciou reformas educacionais em vários países que se tornaram muito desenvolvidos em seguida.
Pestalozzi dizia que o mérito da sua experiência na cidade de Stans foi transformar cerca de 70 crianças órfãs, embrutecidas pela vida, em irmãos, em indivíduos generosos, justos e morais.
O seu método era, primeiro, satisfazer as necessidades mínimas das crianças, garantindo-lhes condições básicas para a aprendizagem e para o desenvolvimento de sentimentos positivos. Deste modo, sem políticas sociais que garantam o mínimo de alimentação, saúde, lazer etc., é difícil que a criança tenha um desenvolvimento adequado e que cresça amorosa, pois o embrutecimento tende a gerar negatividade. Uma das principais tarefas da educação é estimular a sensibilidade natural, a conectividade e a fraternidade com as quais todos nascem.
Não se entenda a pedagogia do amor como mimos e tratamento infantil. Ao contrário, é dar o respeito necessário a cada indivíduo independentemente da sua idade; é corrigir comportamentos os mais negativos com instrução sábia e até mesmo rígida, porém com o máximo de paciência, tolerância e indulgência, entendendo profundamente a individualidade de cada um. 
A pedagogia do amor não quer modificar a essência natural do ser, mas dar as condições para que suas habilidades sejam maximizadas. Ao contrário da educação atual, que tem a presunção de saber aquilo o que os indivíduos precisam aprender, a pedagogia do amor lhes dá certa liberdade para escolher o que preferem aprender e percebe os talentos de cada um.
A pedagogia do amor foi, de certa forma, apresentada neste blog nos textos que trataram de Pestalozzi e sua eficiência foi, em alguma medida, cientificamente comprovada nos textos que trataram da Aprendizagem Socioemocional, que pode ser muito bem aperfeiçoada para uma maximização das habilidades morais e emocionais dos indivíduos, tão ou mais importantes do que a intelectualidade acadêmica.
Fala-se pouco na pedagogia do amor, pois não se compreende que ela representa muito do que se tem hoje por mais avançado em termos de pedagogia: a) mais liberdade aos educandos de escolherem o que querem estudar; b) menos imposição de ideias; c) desenvolvimento crítico; d) educação pelo exemplo; e) estímulos à sensibilidade, à conectividade, à empatia e à fraternidade; f) trabalho das mais diferentes habilidades (ou talentos, ou inteligências), considerando que cada ser é único, especial e suas inteligências se manifestam distintamente; etc.
Rivail, um dos principais discípulos de Pestalozzi, em obra publicada ainda no ano de 1857, deu contornos à contemporânea teoria das múltiplas inteligências e a muitas outras teorias tidas hoje por avançadas:
“A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação”.
Como se dá pouco valor aos grandes pensadores da história, a exemplo desses citados aqui e em outros textos, iremos analisar em artigos futuros a contemporânea teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner (Universidade de Harvard), buscando comprovar que a pedagogia do amor, preocupada com os diferentes tipos de inteligência, mas especialmente com as esquecidas inteligências moral e emocional, é um dos caminhos para um futuro com amplo desenvolvimento, sustentabilidade e elevada qualidade de vida para a humanidade.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Beber moderadamente reduz em até 34% o risco de morte

Boa notícia para quem não abre mão de um drink no final do dia. De acordo com um novo estudo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e da Universidade Shandong, na China, o consumo regular moderado de bebida alcoólica pode ajudar as pessoas a viverem mais.
Depois de analisar dados de 333.247 americanos que participaram da pesquisa nacional de saúde entre os anos de 1997 e 2009, levando em conta os hábitos dos participantes em relação ao consumo de álcool, os pesquisadores concluíram que a ingestão moderada de bebidas alcoólicas pode reduzir o risco de morte prematura e por doenças cardiovasculares.
Os autores consideraram o consumo moderado como menos de 14 doses para homens e sete para mulheres por semana, sendo que uma dose equivale a 285 ml de cerveja, 120 ml de vinho e aproximadamente 30 ml de destilado.

Redução do risco

Ao longo dos anos, 34.754 participantes morreram de diversas causas. Entre eles, 8.947 mortes estavam relacionadas especificamente à doença cardiovascular e 8.427, ao câncer.
A partir desses dados, os cientistas chegaram a conclusão de que o consumo moderado do álcool estava associado a uma redução de morte prematura de 13% em homens e 25% em mulheres. Em relação à probabilidade de morte por doença cardiovascular, houve uma diminuição de 21% em homens e 34% em mulheres.

Consumo exagerado tem efeito contrário

Em contrapartida, os homens que bebiam quantidades acima do limite tinham 25% mais chances de morrer precocemente, de diversas causas, e 67% mais chances de morrer devido ao câncer. Nas mulheres, entretanto, esses riscos relacionados ao consumo excessivo não foram percebidos de forma significativa.
“Nosso estudo mostra que o consumo leve e moderado pode ter um efeito protetor contra doença cardiovascular, enquanto o consumo exagerado pode levar à morte”, disse Bo Xi, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Shandong, na China, e principal autor do estudo, ao jornal on-line britânico The Telegraph. “Existe um equilíbrio delicado entre os efeitos benéficos e prejudiciais do consumo do álcool, que devem ser postos em evidência.”

Estudo rigoroso

No estudo, os participantes foram divididos em seis grupos baseados nos diferentes padrões de consumo de álcool: pessoas abstêmias; pessoas que, em geral, beberam pouco ao longo da vida; pessoas que costumavam beber, mas reduziram o consumo consideravelmente (menos de três doses por semana); pessoas que bebem com moderação (mais de três doses por semana, mas dentro do limite) e pessoas que bebem em excesso (mais de 14 doses por semana entre os homens e mais de sete entre as mulheres).
“Nós consideramos abordagens estatísticas rigorosas para abordar questões relatadas em estudos anteriores, como o viés da pessoa que se absteve a vida inteira, o fenômeno do paciente que decidiu parar de beber e o ajuste de possíveis fatores limitadores”, explicou Sreenivas Veeranki, professor de medicina preventiva e saúde comunitária da Universidade do Texas. “Ainda assim, existe uma relação proporcional entre o consumo de álcool e a mortalidade, então as pessoas devem beber com consciência.”

Idosos

Segundo os especialistas, as descobertas mostram que, para a maioria das pessoas idosas, os benefícios gerais do consumo do álcool podem superar o possível risco de câncer. Apesar de o consumo excessivo do álcool estar associado a uma série de problemas de saúde, inclusive o risco cardíaco, ele pode ter um efeito protetor contra doenças se consumido com moderação.

domingo, 6 de agosto de 2017

Repetência não muda rota de fracasso escolar

Alunos brasileiros com bom desempenho no Pisa, teste internacional de aprendizagem, são minoria.
Pouquíssimos estudantes de 15 anos demonstram proficiência nas disciplinas testadas (matemática, ciências e leitura).
Isso vale até para a rede privada de ensino, embora a situação da rede pública seja ainda mais grave.
Entre os alunos das escolas públicas que prestaram o exame em 2015, cerca de 105 –que representam ínfimos 0,7% do total– atingiram pelo menos o nível 4 de conhecimento nas três áreas (em uma escala que vai de 0 a 6).
Os dados são estimativas feitas pela Fundação Lemann com base nas estatísticas do Pisa, aplicado a cada três anos pela OCDE.
O recorte é ainda mais chocante se for analisado o desempenho específico de adolescentes que já foram reprovados no início da vida escolar.
Apenas 1 aluno que havia repetido uma vez nos primeiros anos do ensino fundamental estava entre as 105 exceções de escolas públicas que obtiveram um bom resultado em 2015.
Se, em vez de olharmos os poucos adolescentes que conseguem ir bem, focarmos na maioria que vai mal, a análise é ainda mais angustiante.
Na rede pública, os alunos que não conseguiram atingir o nível 2 –considerado o mínimo para exercer a cidadania– nas três áreas de conhecimento do Pisa representavam metade do total. Entre eles, 38,3% tinham repetido pelo menos uma série nos anos iniciais do ensino fundamental.
Esses números reforçam as conclusões de outros estudos que indicam que a repetência raramente recupera quem já está numa rota de dificuldade escolar.
"A ideia por trás da reprovação é que a escola precisa reter por mais um ano o aluno com dificuldades para que ele consiga alcançar um bom desempenho. Mas sistematicamente isso tem falhado", diz Ernesto Martins Faria, economista da Fundação Lemann, responsável pelo levantamento.
Muitas vezes, o que ocorre é o oposto desse objetivo. Ao ficar atrasado em relação aos colegas, o aluno se sente desestimulado. Isso tende a piorar ainda mais o desempenho escolar e não raro termina no pior dos mundos: a evasão.
A repetência no Brasil tem caído, mas em um ritmo lento para um país com níveis ainda altos de reprovação.
No ensino médio, por exemplo, a taxa de repetência recuou de 12,2% em 2012 para 11,9% no ano passado.
Além disso, os dados de reprovação oscilam enormemente entre os diferentes municípios e estados.
Muitas escolas e redes que têm conseguido reduzi-la dizem investir no acompanhamento do aluno, procurando "recuperar" os que apresentam maior dificuldade constantemente e não apenas no final de ciclos específicos.
Mas vários programas nessa linha, chamados de correção de fluxo escolar, foram abandonados nos últimos anos sem que seus resultados tenham sido mensurados.
Falta ao Brasil uma cultura de análise da eficácia de políticas públicas que apoie os gestores a tomar decisões certeiras em meio a tantos problemas que precisam ser atacados ao mesmo tempo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O seu eu digital: a imagem projetada nas redes sociais

Selfie é o neologismo que melhor define a nossa era. É um autorretrato da superexposição voluntária nesta enorme praça pública que são as mídias sociais.
As fotos que tiramos e postamos continuamente na internet são parte de uma nova identidade, um "eu" digital que ganha a cada dia novas pinceladas. Um novo ser que parece ter vida própria e que vai sendo moldado também pelos "likes" e pelas interações em um imenso mosaico costurado por algoritmos, os códigos que acabam por desenhar esta nossa nova face pública.
Quem é esse outro eu digital que tem a sua cara e até os mesmos gostos? Que imagem você projeta a partir de suas pegadas digitais? Estamos o tempo todo fornecendo informações preciosas sobre nós mesmos nos nossos perfis no Facebook, no Instagram. Dados que podem ser coletados e usados por empresas, governos, concorrentes, amigos e inimigos.
A grande maioria de nós ainda é analfabeto digital, está engatinhando nestes intrincados caminhos da revolução tecnológica. Por esta razão, refletir sobre o uso responsável das tecnologias e da internet é questão de sobrevivência. É vital para podermos nos relacionar bem, aproveitarmos melhor as oportunidades, potencializarmos o nosso trabalho e até exercer a nossa cidadania. 
A vida é bem maior do que os nossos incessantes posts em redes sociais. Um "like" offline aquece mais o coração do que milhares de falsas interações no Facebook ou no Instagram.
Não custa lembrar que a vida é aquilo que acontece enquanto você está postando, curtindo fotos de amigos e desconhecidos ou até stalkeando (ato de perseguir virtualmente uma pessoa, analisando cada postagem) alguém na internet.
Portanto, mais importante do que a "selfie" é o "self" –um conceito da psicologia que pode ser resumido como o seu "eu", constituído de personalidade, cognições, pensamentos e sentimentos. Uma identidade que se forma a partir de aspectos conscientes e inconscientes, nuances que a inteligência artificial ainda não parece capaz de captar e traduzir.
E vai além de sua pegada digital, aquela que faz pipocar na sua timeline ofertas e mais ofertas de hotéis para um destino apenas pesquisado.
É tudo aquilo que nos faz únicos, é aquela digital que se imprime fora do mundo digital, no universo dos afetos, das trocas interpessoais, em meio a um dia a dia cada vez mais impactado pelas novas tecnologias.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O ato de escrever nos modifica, e é por essa razão que ele faz sentido

Há muitos anos, o escritor português Augusto Abelaira (1926-2003) classificou toda a literatura do mundo em apenas duas famílias: "Grandes Esperanças" e "Ilusões Perdidas". A brincadeira com as obras-primas de Dickens e Balzac poderia ser estendida ao temperamento dos escritores, os soturnos e os solares.
Como classificar e coçar é só começar, e a ficção -o nome já o diz- não é uma ciência, pensei em separar os escritores em função de como eles veem o mundo que pretendem "revelar". As aspas se explicam adiante.
A primeira vertente seria a conspiratória. Segundo ela, somos naturalmente seres negativos que se dirigem à morte. Infelizmente, não há nada que se possa fazer a respeito porque a natureza é soberana e a subjetividade, uma mentira. Pela escrita, fomos arrancados do aqui e agora do mundo natural, ao qual não podemos voltar.
Assim, escrever será sempre um processo insidioso de ocultação, e são impressionantes os meios de que dispõe a escrita para nos enganar, criando fantasmas paralelos e arbitrários que asfixiam o real tentando simular um impossível retorno à suposta paz primitiva.
É falsa portanto a distinção entre ficção e não ficção -tudo é ficção; ou, pior, tudo é uma mentira, e a penosa ética da escrita seria torná-la límpida, trazer a mentira à luz do sol, denunciando perpetuamente o fracasso, que, queiramos ou não, se volta sobre si mesmo. Não há escape ou segurança, exceto no próprio ato de escrever, que é, necessariamente, um ato de desespero.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quando a escola 'mata' o aluno

Fazendo leituras por aí, encontrei este texto e resolvi reproduzi-lo.

Texto de Érica Fraga

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ericafraga/2017/06/1892819-quando-a-escola-mata-o-aluno.shtml


"Se a escola destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre."
Quando ouvi a frase acima durante entrevista recente com o pesquisador Ricardo Paes de Barros, foi como um soco na boca do estômago.
As palavras dele me remeteram a histórias que tenho escutado de pais convocados para reuniões escolares nas quais ouvem dos responsáveis pedagógicos que seus filhos são incapazes de acompanhar o ritmo, de se comportar ou de se concentrar.
Vou me restringir a narrar uma delas com algum detalhe aqui.
Há pouco tempo uma amiga psicóloga me contou que sua empregada doméstica chegou a sua casa aos prantos depois de participar de uma reunião na escola pública municipal do filho, localizada em um bairro de classe alta de São Paulo.
A convocação ocorreu porque o menino, de cinco anos, vinha apresentando comportamento desobediente e, por vezes, explosivo (como chutar brinquedos quando era contrariado por amigos).
Essa mãe foi recebida pela coordenadora pedagógica, que comandou a conversa, e por uma assistente de direção.
Começou ouvindo, segundo seu relato, que seu filho era o principal desestabilizador de sua turma, que tinha tendência à agressividade e era insubordinado. Assustada, a mãe começou a chorar.
Ela tentou contar algo positivo que pensava em fazer para ajudar o filho: colocá-lo no judô para aumentar sua disciplina e concentração.
A coordenadora teria retrucado que isso só iria piorar as coisas pois ele se tornaria ainda mais violento. E a mãe continuou chorando.
Em um momento, a coordenadora pediu que chamassem o aluno à sala. Quando a criança entrou, ouviu dela que era o responsável pelo estado emotivo de sua mãe e que, se ela perdesse o emprego por estar ali na hora do trabalho, a culpa seria dele.
O menino, claro, caiu no choro também.
A mãe ficou arrasada e envergonhada. Seu primeiro pensamento foi o de persistir na estratégia que já vinha tentando: brigar com o menino em casa e puni-lo com castigo.
Mas contou toda a história para sua empregadora, que, chocada, resolveu agir em duas frentes.
Confirmou para sua funcionária o que ela já suspeitava, que a profissional que a recebeu havia se excedido, e a orientou a mudar de estratégia com o menino, a falar que juntos iriam superar aquilo, que ela iria ajuda-lo, que ele conseguiria melhorar seu comportamento.
Minha amiga ligou também para a escola, se desculpou pela intervenção, mas argumentou que, diante da gravidade do fato, gostaria de conversar pessoalmente com a diretora.
Foi bem recebida pela profissional que contou ter assumido há pouco tempo, vinda de outro estabelecimento, e afirmou não estar presente no dia da reunião com a mãe.
A assistente de direção, que havia presenciado a conversa entre coordenadora e mãe, confirmou a maior parte das informações relatada por ela.
Alegou que não fez nenhuma intervenção porque, como a diretora, era recém-chegada ao estabelecimento, mas afirmou que elas estavam tentando mudar a atitude de profissionais como aquela coordenadora.
Minha amiga perguntou se elas conheciam a história do menino e da mãe, que foram abandonados pelo pai dele ainda na gravidez. As profissionais admitiram que não e que isso era uma falha.
Ela saiu da escola com a impressão de que as duas tinham sido sinceras e com uma ponta de esperança de que realmente estavam empenhadas em mudar as coisas.
Essa história é chocante. Chamar uma criança de cinco anos para assistir ao sofrimento da mãe e ainda dizer que ela é a causadora de tudo aquilo é mais do que despreparo e abuso. Entra na classificação de crueldade.
Será que acontecimentos assim são uma exceção? Quero muito acreditar que sim, mas, com base em outros relatos que ouço, não tenho certeza.
Por isso entendi Paes de Barros, que é economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, quando ele afirmou que a escola pode matar o aluno.
É uma morte simbólica, da confiança, que geralmente deixa marcas.
Ele acrescentou que, embora isso também ocorra em escolas de classe alta, os pais, nesses casos, estão mais bem equipados para ajudar seus filhos a reconstruir sua autoestima.
Concordo. Mas, mesmo nessas situações, quando a escola sugere que o aluno é incapaz —ainda que a palavra usada não seja essa e que a abordagem seja mais polida—, há consequências.
A filha de uma família conhecida trocou de escola há pouco tempo porque "não estava acompanhando o ritmo" do estabelecimento, considerado muito puxado e exigente.
A transição não tem sido fácil. Ora ela se sente bem, mais valorizada na escola nova, ora se sente inferior aos amigos antigos que não precisaram fazer a mesma transição.
Parece que ainda falta compreensão sobre o verdadeiro papel da educação, que não é o de fazer com que todos cheguem ao mesmo patamar, mas ajudar cada um a atingir seu próprio potencial, a acreditar que tem uma vocação e a perseguir seus sonhos. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A FORMA DE FALAR (LINGUAGEM), TAMBÉM É UMA FORMA DE EXCLUSÃO E DE PODER!

É ingenuidade achar que a linguagem existe para facilitar o entendimento e a comunicação, e que qualquer desvio desse caminho solar deve ser classificado como erro, ruído, falha. A LINGUAGEM É UMA FORMA DE PODER.
A linguagem tem seu lado iluminado e seu lado escuro. É feita para explicar e confundir, revelar e esconder, promover a compreensão e desnortear, incluir e excluir. Às vezes, faz tudo isso na mesma frase.
Nem tudo o que habita as regiões trevosas é ruim ou mal-intencionado. Acreditar nisso seria –mais uma vez– ingênuo, por pressupor a possibilidade de uma linguagem toda reta e franca.
É na escuridão ou na penumbra que nascem os textos sagrados, as fórmulas encantatórias, a criptografia, grande parte da literatura, as gírias e a língua cifrada dos amantes. Infelizmente, também vem de lá a vasta legião dos embromadores.
"Como Escrever Bem" (Três Estrelas), o clássico manual de escrita do americano William Zinsser, faz uma defesa intransigente da clareza do texto. A certa altura, volta sua artilharia para o lero-lero da política.
"Permanecem os motivos para sérias preocupações, e a situação continua muito séria. E, quanto mais ela continuar a ser séria, mais motivos haverá para estarmos seriamente preocupados", disse em 1984, sobre a crise política na Polônia, o então secretário de Defesa dos EUA, Caspar Weinberger.
Se incluísse a política brasileira em sua pesquisa, Zinsser teria tido tempo –morreu em maio de 2015– de se deliciar com esta joia incomparável da arca de Dilma Rousseff: "Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder".
O discurso político que, por ensaboamento ou desarticulação, tece uma capa de palavras em torno do seu vazio é só uma das modalidades de abuso da boa-fé pública que a linguagem possibilita.
Outra é o eufemismo descarado que transforma o fechamento da fábrica em "descontinuação da unidade de produção" e vítimas civis de bombardeios em "danos colaterais".
Há ainda o jargão cascudo dos especialistas, com seus hermetismos arquitetados para excluir da conversa a maior parte da humanidade. E muitas vezes, como ocorre no trololó acadêmico mais opaco, também para disfarçar seu núcleo feito de coisa nenhuma.
Nada disso é contingente, falha infeliz num projeto de comunicação. Trata-se de um sistema que usa como instrumento de poder a distribuição antidemocrática do conhecimento e da compreensão. E que defende seu direito à embromação de forma aguerrida.
Uma notícia da semana passada ilustra bem o parágrafo anterior. O economista-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, foi afastado do comando do departamento de pesquisa da instituição por pressão dos subordinados.
Romer liderava uma cruzada para tornar mais clara a linguagem do banco. Nas palavras de Andrew Mayeda, o repórter da agência Bloomberg que deu a notícia, ele estava "frustrado com o estilo denso e enrolado de muitos dos relatórios do departamento" e pressionava seus subordinados a "escrever com mais clareza, usando a voz ativa para serem mais diretos".
Não sei se Romer era leitor de Zinsser, mas combatia o mesmo bom combate que o autor de "Como Escrever Bem". Perdeu, mas a luta continua.

7 sinais de que você está num relacionamento feliz, segundo a ciência (Para refletir)

Muitos relacionamentos passam por altos e baixos. Apenas alguns vão resistir à passagem do tempo.
Na ausência de uma bola de cristal que revele como será nosso futuro romântico, fomos buscar na ciência algumas evidências sólidas e até antiquadas de que nosso relacionamento é tão bom quanto achamos que ele é.
Veja sete sinais de que tudo vai bem com você e com o seu par.

1. Vocês dois já tiveram relacionamentos longos anteriores.

Ninguém gosta de ficar pensando em relacionamentos passados quando está apaixonado por uma pessoa nova. Mas, na realidade, lembrar dos amores passados pode nos ajudar em nosso relacionamento novo.
Segundo a Dra. Jacqui Gabb, especialista em relacionamentos, quem já amou antes não deve "fechar aquela experiência passada numa gaveta e esquecê-la". Em vez disso, é recomendável aprender com nossas experiências amorosas passadas, captando os sinais de alerta quando algo não vai bem e aprendendo quem merece continuar ao nosso lado.

2. Vocês se conheceram no Tinder.

...ou qualquer outro aplicativo online de namoro.
Um estudo descobriu que casais que se conheceram online, em vez de no trabalho ou em um bar, estão mais satisfeitos um com o outro, e as chances de seu relacionamento terminar são menores.
Segundo o estudo, "esses dados sugerem que a internet pode estar modificando a dinâmica e os resultados do casamento".

3. Vocês não postam fotos irritantes no Facebook.

Por mais que possa parecer tentador postar aquela selfie com a hashtag #metasdocasal no Facebook, um estudo constatou que os casais que não postam suas fotos em toda parte na internet geralmente são os mais felizes.
Isso é porque eles não ficam ansiosamente esperando que seu romance seja validado por outras pessoas. Lembre-se disso da próxima vez que estiver escolhendo o melhor filtro para otimizar as fotos tão descoladas de vocês dois.

4. Vocês dois curtem assistir ao Netflix juntos.

É a terceira noite de sexta-feira seguida que vocês dois pedem um jantar para delivery e se preparam para curtir horas diante da televisão. Pode parecer que vocês não estão tendo uma vida social incrível, mas, segundo pesquisadores, assistir a filmes e seriados juntos faz bem para os relacionamentos e para sua saúde.
Supostamente, fazer isso melhora a qualidade do tempo que vocês passam juntos. Evidentemente esses pesquisadores nunca viram vocês dois discutindo sobre spoilers de "Game of Thrones"....

5. Vocês dois se lembram de elogiar um ao outro.

Todo o mundo gosta de ouvir um elogio. Mas em um relacionamento estável, é fácil as pessoas se habituarem uma com a outra e deixar que falar bem uma da outra fique parecendo algo forçado.
Você vai gostar de saber que a ciência recomenda fazermos mais elogios aos nossos companheiros e lhes dizermos "obrigado" com mais frequência. Essas duas coisas estão entre os fatores mais importantes para manter seu relacionamento saudável.

6. Vocês fazem sexo uma vez por semana.

Se você estiver preocupado, pensando que as outras pessoas transam mais que vocês dois, sentirá alívio ao saber que, para um relacionamento feliz, o melhor é fazer sexo apenas uma vez por semana.
É claro que passar a noite com seu amor mais que uma vez por semana não fará mal nenhum, mas também não fará diferença para o nível de felicidade de vocês dois. Então talvez vocês prefiram conservar um pouco de sua energia.

7. Vocês dois não tiverem filhos juntos.

Talvez este não seja seu plano para sempre, mas curtam seus anos juntos sem filhos. Um dos maiores estudos de relacionamentos já conduzido no Reino Unido revelou que, se vocês quiserem ser superfelizes, é melhor não terem filhos.
Homens e mulheres sem filhos ficam mais satisfeitos com seus relacionamentos e têm mais chances de se sentirem valorizados por seus companheiros.

domingo, 28 de maio de 2017

Os alunos estão na rede! E a escola, o que tem a ver com isso?

Seguem youtubers – e há os que criam seus próprios canais e colecionam seguidores, criam grupos no WhatsApp, fazem buscas no Google, conhecem a “Siri”, acompanham séries, sabem dos últimos lançamentos em jogos online, constroem cidades no Minecraft, postam fotos no Instagram, fazem vídeos no Snapchat, acham o Facebook ultrapassado, ouvem música pelo Spotify… Nossos alunos são usuários de tecnologia, interessam-se por ela, são atingidos pelos seus mecanismos em diferentes âmbitos da vida social e da percepção de mundo. Numa dada realidade social, este é um fato: os meios digitais pularam os muros para dentro da escola! E nós, o que fazemos com isso?

Não se trata da vida fora da escola? Já não cuidamos de tantas coisas? São tantos conteúdos, tantas demandas, tantos planejamentos, tantas ideias, tantas provas a corrigir, tantos cadernos na nossa mesa… É preciso estabelecer prioridades! Mas não podemos ignorar o fato de que os meios digitais integram a nossa cultura e que nossos alunos são afetados por eles. A cultura contemporânea é midiática, formada por meios massivos de comunicação e tecnologia. Somos atores sociais imersos nesse caldo, que é atravessado por interesses de diferentes âmbitos: educacionais, sociais, políticos, culturais, entre tantos outros.
Olhar atentamente para esses aspectos e considerá-los na nossa ação educativa é partir do pressuposto de que nossa tarefa vai além dos currículos preestabelecidos para os contextos escolares, trata-se de atuar visando contribuir com uma formação cidadã das crianças e dos jovens que circulam nas escolas.
Nesse sentido, parece importante conhecer os usos que os alunos fazem dos meios digitais e elaborar propostas que tenham como objetivo aproximar-se de uma leitura crítica dos mesmos.
Saber o uso que os alunos fazem dos meios digitais? Para quê?!
“Como você não conhece?!”, a frase citada com olhos arregalados e entonação de espanto foi dita por alguns alunos de dez anos em uma situação em que comentavam sobre youtubers que seguiam. É para eles tão natural circular entre esses canais que o “não saber” gera estranhamento. Por caminhos variados, mas tendo como braço-forte o grande alcance e a força de se tornar parte da rotina, as redes sociais, os aplicativos, entre outros tantos aparatos, chegam sem pedir licença e fazem morada no cotidiano das crianças.
Como professoras, ouvimos os comentários que fazem em conversas informais, ficamos sabendo – e não é raro termos que intervir – em conflitos relacionados às redes sociais, como divulgação de fotos pessoais ou compartilhamento de senhas. Uma geração de links, senhas, abas, redes e conexões que chegam diariamente às escolas e com as quais damos de cara sem saber muito bem o que se passa, mas com a certeza de que esses meios digitais são parte do que vai constituindo essas crianças e jovens.
Com o intuito de conhecer um pouco mais sobre os meios digitais de que nossos alunos fazem uso, propusemos a duas turmas de 5ºs anos uma brincadeira ao estilo de um “Stop”. A proposta havia sido realizada com o grupo de educadores que participou daViagem Pedagógica da Vila durante aula com Débora Nakache e Gabriela Rubinovich, em que trataram de propostas e experiências acerca do trabalho em escolas com a produção e leitura de meios audiovisuais.
Na brincadeira, deveriam entrevistar o maior número possível de colegas sobre quais meios costumam usar, dentre eles: onde ouvem música, o que assistem na TV, como se comunicam com os colegas a distância, se seguem algum youtuber, qual rede social mais usam, etc. Para as crianças, um momento de diversão; para nós, um bom quadro revelador dessa relação e uso dos meios.
Ao ler as respostas, tivemos a comprovação de nossas percepções sobre o grande uso desses meios na vida cotidiana das crianças. Em uma das turmas de 25 alunos, por exemplo, 19 seguem algum canal do YouTube, 13 utilizam WhatsApp, apenas 1 não acompanha uma série. Considerar essa realidade parece-nos um elemento importante se optamos por um trabalho que vise uma formação cidadã mais abrangente.
Ampliar potencialidades de saber mais sobre um tempo, sobre um espaço e sobre uma forma de conceber a sociedade e seus sujeitos é papel da escola, e não se pode desconsiderar que em nosso tempo e espaço os meios digitais são uma realidade. Se sabemos melhor como pensam os alunos, que ferramentas usam, que leituras – na maior parte das vezes ingênuas – fazem desses usos, podemos escolher caminhos e ajustar intervenções visando criticidade.
Mas afinal, o que cabe à escola?
As crianças usam os meios digitais de maneira intuitiva porque fazem esse manejo cotidianamente. Mas, no contexto escolar, é com a mediação do professor que pode haver reflexões mais intencionais sobre eles, possibilitando construir e desconstruir sentidos do que é observado e vivido.
“Os meios constituem uma dimensão fundamental de nossa experiência contemporânea. Estão em todas as partes, são cotidianos e permanentes. Não podemos fugir da presença deles e de suas representações. Dependemos deles para nos informar, para o prazer, para usar o tempo livre, para conforto e segurança. Estão com intensidade em nossa vida cotidiana.” (R. Silverstone)
Um ensino que considera o aluno como sujeito atuante, reflexivo, de um determinado espaço e tempo dinâmicos precisa oferecer situações nas quais ele possa olhar para os meios digitais como fruto de uma construção social e que, assim sendo, não são neutros ou isentos de intencionalidades, ao contrário, são resultados de escolhas, de recortes, de interpretações, assim como os livros, os filmes. O que determinará o caminho a trilhar e as propostas a serem construídas diante dessa nova realidade posta está muito mais relacionado à escolha do tipo de aluno que queremos ajudar a formar e a forma como enxergarmos nossas crianças do que o tipo de ferramenta ou tecnologia que serão usadas.
Para NAKACHE, os professores “deveriam ensinar-lhes [aos alunos] a orientar-se em um mundo contemporâneo, ensinar-lhes aquilo que a tecnologia por si só não pode ensinar e que um indivíduo isolado não pode construir”. (NAKACHE, 2003).
Todos os sites do mundo aparecem em uma pesquisa no Google? Você já reparou nas propagandas que aparecem no Youtube? Por que os programas de TV têm determinados cenários e trilhas sonoras, o que provocariam em quem assiste se as escolhas fossem outras? São muitas as possíveis perguntas que podem ser feitas dentro de um projeto de trabalho que procure promover o exercício de práticas sociais de interpretação e produção em meios digitais para que possam ampliar estratégias de entendimento de seus modos de funcionamento, suas lógicas de produção e circulação.
Os meios digitais na escola podem ser conteúdo e recurso de ensino, desde que as ferramentas escolhidas não ocupem o centro do trabalho, mas que estejam a serviço de resolver problemas postos tendo como grande objetivo a formação de alunos críticos que gradativamente passem a perceber que esses meios são produtos que geram determinados sentidos e significados para, dessa forma, desnaturalizá-los.
Finalizando, entendemos que compete à escola encarar a formação do usuário de tecnologias e converter seus usos em ricos processos de aprendizagem.

sábado, 20 de maio de 2017

10 atitudes para criar filhos mais felizes

Quem tem filho sabe: é quase impossível não se pegar olhando para essas criaturinhas - nas quais os pais ora se reconhecem, ora se estranham - e pensar: o que posso fazer para ajudá-las a desenvolver seu potencial, tornando-as pessoas interessantes, equilibradas, saudáveis física e emocionalmente, capazes de cuidar de si mesmas e tomar decisões, lidando da forma mais serena possível com as adversidades inevitáveis?
Quanto melhor informados e mais cientes da própria responsabilidade, mais nos preocupamos com nossas crianças. Dedicar-se a um ser humano nos anos fundamentais de sua formação e educá-lo, contribuindo ativamente para seu desenvolvimento, é um projeto complexo e trabalhoso - requer tempo, disponibilidade e investimento (econômico e psíquico). Dá um trabalho...
As pesquisas apontam a importância de algumas atitudes por parte dos pais na educação dos filhos. Foram relacionadas dez atitudes/competências que produzem bons resultados na educação deles em ordem de importância. Retiradas de artigos científicos, estão classificadas de acordo com a eficiência com que promovem fortes ligações entre pais e filhos e com o grau de felicidade, saúde e sucesso das crianças. As dez principais habilidades dos pais para criar filhos mais felizes e com maior capacidade de lidar com os problemas na infância e vida adulta são:
  1. Amor e carinho. É indispensável apoiar e aceitar os filhos, entendendo que são pessoas com ideias e gostos próprios, e respeitar essas diferenças, demonstrando afeto e usufruindo dos períodos passados juntos;
  2. Administração do estresse dos pais. Praticar técnicas de relaxamento e esportes e investir na própria psicoterapia favorece a capacidade de entender melhor o que sentimos e as chances de cuidar bem de crianças;
  3. Habilidades do relacionamento. Aqueles que mantêm uma relação saudável com o cônjuge ou com outras pessoas importantes em sua vida demonstram a importância de manter relações afetivas;
  4. Incentivo à autonomia e à independência. Apesar de ser difícil para alguns pais encontrar a medida certa, é fundamental tratar os filhos com respeito e estimulá-los a se tornar pessoas confiantes e com iniciativa;
  5. Acompanhar a aprendizagem. Ao valorizarem a curiosidade dos filhos e sua disposição para aprender, os pais lhes prestam um enorme benefício.
  6. Preparação para vida. É um ato de amor conversar com os pequenos sobre temas delicados como medos, sexo e morte em linguagem acessível, bem como prepará-los para assumir responsabilidades (a mesada, por exemplo, é uma forma de ensiná-los a lidar com dinheiro);
  7. Atenção ao comportamento. Reforçar positivamente as boas atitudes e recorrer ao castigo somente quando outros métodos, como conversas, já falharam mais de uma vez.
  8. Saúde. Bons pais propiciam um estilo de vida saudável e estimulam bons hábitos como exercícios regulares, higiene e alimentação adequada para seus filhos;
  9. Espiritualidade. Apoiar o desenvolvimento da religiosidade e a preservação da natureza, o respeito ao outro e às diferenças, evitando a disseminação de preconceitos e intolerância;
  10. Segurança. É fundamental o empenho constante para proteger os filhos de situações de risco e manter-se vigilante quanto a suas atividades e amizades.
Educar uma criança nos mobiliza como pessoas (nossas dificuldades, nossos sentimentos, a autoestima, a vida que estamos vivendo...). Ou seja: as crianças tanto nos encantam quanto nos tiram do sério. Mas na verdade não são os pequenos que o fazem: nossos próprios anjos e demônios acordam a criança que um dia fomos. Afinal, para ocupar a função de pai ou mãe é preciso antes aceitar o espaço de filho para depois renunciar a ele, passando do lugar de quem é cuidado para o de quem cuida.
E se não fosse suficientemente complexo esse processo, a ciência vem comprovar o óbvio: não basta amar, é preciso dizer, expressar, tocar - inventar jeitos de transmitir afeto mesmo quando não se teve essa experiência na própria infância. Para educar bem é preciso buscar ser uma pessoa “equilibrada, capaz de tomar boas decisões e de lidar com as adversidades”... Fácil? Bem que o poeta Vinícius de Moraes avisou: “Filhos, filhos, melhor não tê-los. Mas se não os temos, como sabê-lo”.

domingo, 7 de maio de 2017

O que atrai jovem professor é carreira decente, e não aposentadoria especial

A adesão de professores à greve de sexta-feira (28/04/2017) em oposição às reformas propostas pelo governo Temer causou barulho.
Muitos pais cujos filhos estudam em escolas privadas se sentiram incomodados pela perda de um dia de aula.
Um dos argumentos contrários mais mencionados por eles é o fato de que os docentes desses estabelecimentos têm remuneração melhor que a recebida por seus pares do setor público e, portanto, não deveriam parar.
Do lado dos professores, uma das principais queixas é que serão prejudicados pela reforma da Previdência.
O projeto original previa a equiparação das regras de aposentadoria para todos os trabalhadores, o que levaria a uma mudança significativa no regime mais benéfico dos docentes, que, de forma geral, conseguem se aposentar cinco anos mais cedo.
Desde então —e antes da greve—, o governo cedeu. Se o relatório em debate hoje for aprovado como está, os professores mantêm um regime especial, mas com regras um pouco mais duras que as atuais.
A queda de braços entre os grupos com benefícios especiais mais afetados pelas reformas e o governo, as paralisações, a revolta dos pais e os choques de ideias são desdobramentos esperados no jogo democrático.
Mas será uma pena se não aproveitarmos essa oportunidade para debater uma importante questão de fundo: por que, afinal, os professores brasileiros têm o direito de se aposentar mais cedo do que trabalhadores de outras categorias?
A resposta dos docentes é, geralmente, que recebem salários mais baixos embora trabalhem em situações mais adversas do que os demais profissionais.
Esses argumentos têm fundamentos em dados da realidade. Segundo o movimento "Todos pela Educação", a remuneração dos professores com ensino superior equivale a pouco mais da metade da média recebida pelos profissionais com essa escolaridade.
O alto nível de estresse envolvido no exercício do magistério —que inclui casos de violência por parte dos alunos— ajuda a compor o cenário complicado da profissão.
O problema é que inúmeras nuances no mercado de trabalho fazem com que seja difícil avaliar essas condições piores em termos absolutos, que justificariam uma aposentadoria especial para essa categoria, e não para outras.
Há, por exemplo, diferenças de salários percebidas entre os próprios docentes. Os de escolas privadas têm remuneração normalmente maior e atuam em contextos menos estressantes. Existem outras categorias pouco valorizadas, assim como outras profissões cujo exercício envolve condições precárias de trabalho.
Isso dificulta qualquer análise sobre onde colocar a régua que separaria os que merecem e os que não merecem condições especiais de aposentadoria, se o principal critério para isso for justiça social.
Resta, no entanto, outro argumento sobre o benefício no caso do magistério que tem bastante apelo: ele ajudaria a manter alguma atratividade para essa profissão tão crucial para o desenvolvimento de qualquer nação.
O problema é que, se isso for uma possibilidade de fato, não parece estar funcionando no caso do Brasil, onde o desinteresse pela carreira docente é galopante.
Como já mostrado nesta coluna, os jovens brasileiros não têm interesse pelo magistério e aqueles que o acabam elegendo são os de pior desempenho escolar.
Talvez isso ocorra porque fatores que desvalorizam a profissão têm peso muito maior do que benefícios como aposentadoria especial e férias mais longas.
Discutir e implementar medidas que tornem o magistério, de fato, mais atraente é, portanto, necessário.
A experiência de países bem-sucedidos indica que isso passa pela adoção de salários decentes e planos de carreira (com a criação de cargos que permitam que os melhores profissionais se destaquem), assim como pela oferta de cursos de formação práticos e interessantes.
No Brasil, assumimos metas para melhorar a remuneração dos professores e adotar planos de carreira no magistério, mas não temos nem mesmo critérios e indicadores bem definidos para acompanhar a evolução de ambos; e nossos cursos de formação de professores permanecem extremamente teóricos.
Se alguém acha que esses são temas menos urgentes que o da sustentabilidade do nosso sistema previdenciário, está redondamente enganado. Sem educação de qualidade não há possibilidade de desenvolvimento econômico.

domingo, 30 de abril de 2017

Se os holandeses tivessem vencido em Guararapes, seríamos um país desenvolvido?

Estou na Holanda, quase voltando ao Brasil. Ao passear por ruas limpas, canteiros de tulipas no Keukenhof, clima ameno de primavera, arquivos e bibliotecas organizados, vem ao cérebro de um brasileiro a ideia de como a história batava resultou no que contemplo e, quase por antítese, como a história brasileira nos conduziu até aqui. 
É um tema que apaixonava pessoas no passado: explicar as diferenças nacionais e sociais e, principalmente, o motivo de um “atraso” brasileiro. O devir nacional, como tema da História, tratava do nosso “atraso” comparativo. O problema do subdesenvolvimento deu lugar ao da desigualdade. Este, rapidamente, cedeu terreno às discussões sobre nossa corrupção aparentemente genética.
Para entender por que éramos subdesenvolvidos, invocamos, no passado, questões raciais. Foi assim no século 19 e no início do 20 (e talvez até hoje no inconsciente social). Sílvio Romero, por exemplo, esperava pouco de um país que teria misturado o pior de tudo na sua mentalidade: portugueses, africanos e indígenas. Determinações racistas já foram defendidas em livros e universidades. Um efeito colateral desse viés é pensar: e se os holandeses tivessem vencido em Guararapes, seríamos um país desenvolvido? Bem, a colônia holandesa da Indonésia seria uma boa resposta. 
Determinismos geográficos e climáticos também já foram hipótese. O Brasil é tropical: sol e calor, impeditivos da disciplina do trabalho. O frio estimularia a poupança e o pensamento estratégico. Se eu não guardar alimentos, estocar conservas ou lenha, morrerei. Rigores climáticos seriam aliados de desenvolvimento. Num país tropical, como o em que eu moro, “abençoado por Deus e bonito por natureza”, eu seria feliz sempre, rico nunca. Se isso fosse correto, economias mediterrâneas, a Austrália e a Califórnia seriam terras paupérrimas.
No cadinho dos preconceitos, já colocamos raça e clima. Falta o toque supremo, a explicação de cunho histórico: a colonização portuguesa. Catolicismo, aversão ao mundo do trabalho árduo, visão estatista do mundo, rejeição do pensamento crítico e racional: tudo isso veio no pacote lusitano. Como ser uma potência se nosso progenitor, Portugal, não o é? O que geraria um país pequeno e pobre da Europa? Um país grande e pobre na América. Essa explicação omite muito: Portugal foi uma potência nos séculos 15 e 16; o Brasil está longe de ser pobre... 
Quase toda discussão em torno do tema desenvolvimento pátrio e suas inviabilidades termina com uma tautologia: “Isso é o Brasil”! Assim sendo, pelo destino, pela natureza, pela história e pelas pessoas, somos, como no filme de Sérgio Bianchi: cronicamente inviáveis. Nossa sociedade repetiria, incessantemente, o mantra inevitável de desordem, caos, ineficácia, corrupção, atrasos, caráter predatório dos agentes econômicos e um estatismo gigantesco. O Brasil sempre seria o Brasil e todo Mauá fracassaria aqui, porque o empreendedorismo encontraria, na zona tupiniquim, seu túmulo perfeito. 
No contexto do quarto centenário de São Paulo, meu conterrâneo, Vianna Moog, pensou na comparação entre os bandeirantes do Brasil e os pioneiros dos EUA. Seu raciocínio passa pelas considerações geográficas e inclui a questão do calvinismo. O enfoque weberiano associa ao sucesso econômico a religião do trabalho, da condenação do ócio e da predestinação. Não existe país calvinista pobre. Em passagem interessante, Moog firma que, optando por fazer uma refeição pesada na metade do dia de trabalho, nosso almoço, escolhemos sabotar o restante do dia. Americanos comem mais no café da manhã e no jantar e consomem algo leve para o meio do dia. Menos lido hoje, o livro Bandeirantes e Pioneiros ainda traz questões pouco trabalhadas. 
A partir da influência de pensadores marxistas como Caio Prado Jr., a economia de um sistema colonial e de uma elite predatória e pouco adepta de um verdadeiro projeto nacional seria o vetor que nos acorrentava ao subdesenvolvimento. Eliminado o modelo de exportação de produtos de baixo valor agregado e instituída nova elite que pensasse o Brasil, teríamos um futuro brilhante. Esse pensamento está na base do nacional-desenvolvimentismo e de muitos projetos revolucionários surgidos ao longo da história recente. Geralmente, os projetos ligados ao pensamento conservador idealizam o passado: tudo era melhor antes, todos eram mais respeitosos, precisamos restaurar aquele amor ao país que existia outrora. Em contrapartida, a esquerda idealiza o futuro: tudo será bom se eliminar o ponto X ou Y e substituirmos essa prática por outra. O paraíso pretérito ou futuro é um divisor de águas no pensamento brasileiro.
O tema merece mais análise, claro. Interrompo aqui (voltarei depois) com um questionamento de um português muito culto. Quando pensávamos uma exposição em Portugal, uma parte do grupo repetia o mantra: somos pobres por causa de Portugal. O ilustrado lusitano ouviu muito os meus colegas e, após algumas reuniões, soltou essa: “Sim, a colonização é sempre predatória; vocês estão independentes há quase 200 anos. Não daria para ter feito algo?”. Os críticos ficaram em silêncio. A história como esconderijo é uma zona confortável. Bom domingo a todos vocês.

by Leandro Karnal
30 Abril 2017 | 04h00

sábado, 22 de abril de 2017

Cada dólar investido na pré-escola pode se multiplicar por sete

O investimento em pré-escolas públicas de qualidade traz ganhos enormes não apenas para as crianças de baixa renda atendidas e suas famílias mas para a sociedade como um todo.
É o que tem mostrado, incansavelmente, o americano James Heckman, Prêmio Nobel de Economia em 2000, com pesquisas realizadas ao longo da última década.
Em um estudo recente, o economista fez uma análise minuciosa dos retornos de dois programas de educação infantil adotados nos Estados Unidos na década de 1970, o Carolina Abecedarian Project (ABC) e o Carolina Approach to Responsive Education (Care).
Ele e seus três coautores concluíram que cada dólar investido nos dois projetos gerou US$ 7,3 em benefícios que incluíram desde a maior empregabilidade —e, portanto, menor dependência de serviços sociais— dos beneficiários já na vida adulta até seu menor envolvimento com crimes.
As meninas atendidas aumentaram em 13 pontos percentuais sua probabilidade de terminar uma graduação quando comparadas a outras garotas de origem familiar parecida que não participaram do programa. A chance de estar empregados aos 30 anos aumentou entre 11 e 19 pontos percentuais no caso dos meninos beneficiados.
Em ambos os grupos, fatores como menor envolvimento com drogas e melhores indicadores de saúde também foram identificados.
Embora envolva a realização de cálculos e estimativas complexos, esse tipo de análise tem se tornado viável em países onde é comum que beneficiados por projetos sociais sejam acompanhados ao longo de sua vida.
Os registros servem de insumo para que pesquisadores como Heckman se debrucem sobre os dados e cheguem a conclusões úteis do ponto de vista de política pública e, algumas vezes, até surpreendentes.
O próprio Nobel de Economia descobriu que outro projeto, criado na década de 1960, em Michigan, atirou no que viu e acertou no que não viu.
O chamado Perry Preschool tinha como meta principal aumentar o QI das crianças socialmente vulneráveis atendidas. Para a frustração de seus idealizadores, isso até aconteceu num primeiro momento, mas poucos anos depois não eram mais encontradas diferenças significativas no coeficiente de inteligência das crianças participantes quando comparadas a outras, vindas de contextos parecidos, que tinham ficado de fora do Perry.
Apesar disso, quando cresceram, as meninas e os meninos participantes começaram a exibir indicadores impressionantes de sucesso tanto escolar quanto pessoal e profissional em relação aos demais.
Heckman descobriu que os efeitos positivos do Perry vinham de traços de personalidade que o programa ajudou as crianças a desenvolver, como curiosidade, autocontrole e facilidade de relacionamento com os demais.
Essas habilidades, normalmente chamadas de socioemocionais, também são trabalhadas no ABC e no Care, que buscam estimular a resolução de conflitos entre as crianças e sua capacidade de tomar decisões.
Achados acadêmicos nem sempre conversam com a realidade cotidiana, as dificuldades e as barreiras que formuladores de políticas públicas e educadores encontram no dia a dia.
Contextos culturais, sociais e econômicos diversos também podem dificultar a replicação de experiências bem-sucedidas.
Mas isso não significa que pistas e conclusões de pesquisas como as de Heckman não devam ajudar a nortear decisões.
No Brasil, em meio ao limite imposto à expansão dos gastos do governo nos próximos anos, talvez seja necessário repensar prioridades.
Nossos investimentos públicos no ensino superior ainda são quase o dobro do que na educação infantil (como proporção do Produto Interno Bruto). Embora decrescente ao longo da última década, a diferença de gasto por aluno no ensino universitário ainda é 3,7 vezes maior do que por criança na pré-escola.
Será que esse é o caminho? 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Base nacional curricular exige laboratório de ciências que as escolas não têm

Apenas uma em cada dez escolas públicas que oferecem ensino fundamental no Brasil tem um ingrediente importante para colocar em prática algumas das recomendações da base nacional curricular em discussão no país: os laboratórios de ciência.
De acordo com dados do Censo Escolar 2015, apenas 9% das escolas públicas de ensino fundamental (1º ao 9º ano) contam com laboratórios voltados, de alguma maneira, à experimentação científica. Isso dá menos de 10 mil escolas de ensino fundamental regular, de um total de 112.393 espalhadas pelos país.
Alguns dos objetivos de ensino descritos na atual Base Nacional Curricular em discussão dependem de laboratórios de ciências. É possível, por exemplo, “desenvolver o interesse, o gosto e a curiosidade pela ciência” sem laboratórios voltados para isso? Não.
segunda versão da base que propõe conteúdos mínimos para as escolas –e que ainda deve ser reformulada– é ainda mais específica. De acordo com o documento, os alunos do 7º ano, por exemplo, devem realizar “experimentos simples para determinar propriedades físicas, como densidade, temperatura de ebulição e temperatura de fusão.” Sem laboratórios?
Mais: as turmas 7º ano também devem “distinguir substâncias de suas misturas”. E os do 8º ano devem, diz o texto, “verificar experimentalmente evidências comuns de transformações químicas.” Hein?
RUIM NA PARTICULAR
A carência de espaços de experimentação, no entanto, não está restrita às instituições públicas: as escolas privadas também carecem de laboratórios para ensinar ciências fora dos livros.
De acordo com dados do Censo Escolar, 65% das instituições privadas de ensino fundamental contam com laboratórios de ciência. As demais ensinam ciências da natureza apenas de maneira teórica.
Os dados revelam algumas obviedades. A primeira é que a Base Nacional Curricular é um grande devaneio se considerarmos a atual infraestrutura das escolas do país.
Nas áreas rurais, por exemplo, diz o Censo, só 1% das escolas públicas têm laboratórios de ciência. Como, então, implementar o que o documento propõe se a melhoria da infraestrutura dessas escolas nem sequer está na pauta?
ENSINO MÉDIO
A segunda obviedade é que, nessas condições, todo o debate sobre reforma do ensino médio –que também está em discussão no país– é questionável.
Ora, como um aluno vai escolher efetivamente sua trajetória no ensino médio, como propõe a atual reforma dessa etapa de ensino, se não teve acesso a condições mínimas para desenvolver conhecimentos científicos no fundamental?
Trocando em miúdos, estamos discutindo propostas impossíveis de serem realizadas nas escolas sem que outras medidas sejam tomadas em curto prazo.
E, pior, estamos impedindo que a imensa maioria de nossos brasileirinhos tenha condições de desenvolver a curiosidade científica, de se questionar efetivamente e de tentar achar respostas para suas perguntas por meio da experimentação.