Na semana passada, a ministra dos Direitos Humanos, Damaris Alves, anunciou, junto com Abraham Weintraub (Educação), os planos do governo federal de criar um canal para denunciar professores que atentassem contra “a moral, a religião e a ética da família”. Ainda não há detalhes sobre como funcionaria, mas já é possível antever sérios questionamentos a respeito da legalidade da iniciativa, visto que 99% das escolas de educação básica são administradas por municípios, Estados ou pela iniciativa privada (que, pela lei, são fiscalizadas pelas autoridades estaduais).
Além da questão legal, cabe a pergunta de quem analisaria, de forma objetiva, o que seria um atentado contra a moral ou ética. Damaris, só para lembrar, é aquela ministra que, antes de assumir o cargo, afirmou que na Holanda especialistas “ensinam que o menino deve ser masturbado com sete meses de idade” e que “menina precisa ser manipulada desde cedo para que tenha prazer na fase adulta”. Disse também que escolas do Nordeste estavam distribuindo manuais de bruxaria para crianças de seis anos de idade, e que havia no Brasil muitos hotéis fazenda de fachada, onde “turistas iriam para transar com animais”. Se os burocratas a serem designados para analisar as denúncias contra professores forem adeptos do mesmo grau de realismo mágico da ministra, as reuniões se assemelharão mais a Tribunais da Inquisição da Idade Média do que a qualquer juízo razoável em pleno século 21.
Na mesma coletiva em que foi citado o canal, Weintraub afirmou que escolas que não promovessem um ambiente “adequado” poderiam ser punidas com menos repasses federais, e ainda que Estados e municípios têm a obrigação de “prover um ambiente construtivo para as crianças”.
Resta saber o que o ministro – que na semana passada apareceu numa entrevista acusando universidades federais de terem “plantações extensivas de maconha” e de fabricarem em seus laboratórios drogas sintéticas - define como adequado e construtivo. Imaginem se um professor, do alto de sua autoridade, respondesse a crítica de uma aluna no Twitter xingando sua mãe de “égua sarnenta e desdentada”. Ou que se referisse, em mídias sociais ou em eventos oficias da escola, a opositores políticos e chefes de estado estrangeiros como safados ou cretinos.
Descartando fatores externos à escola, uma das variáveis de maior impacto no desempenho dos alunos é o clima escolar. Ele é construído através de diálogo pautado por relações de confiança e pelo estabelecimento de laços positivos entre alunos, professores e famílias. Instaurar um canal de denúncias vindo de Brasília em nada contribui para esse objetivo. Ter um clima escolar positivo não é garantia de que não existirão conflitos ou discordâncias motivadas por visões de mundo distintas. Mas, quando eles surgem, há maior chance de superá-los de modo civilizado e respeitoso. Algo que, infelizmente, anda muito em falta em nosso ambiente político.
Aprovada a reforma da Previdência, o ministro da Economia, Paulo Guedes, de novo dá indícios de que o governo apresentará uma Proposta de Emenda Constitucional ao Congresso para acabar com a vinculação orçamentária de recursos para a saúde e educação. Um dos argumentos de economistas que defendem a medida é que as regras atuais estariam engessando, de forma excessiva, o poder de gestores dos executivos federal, estaduais e municipais de redirecionarem recursos públicos para outras áreas e ajustarem contas públicas.
Hoje, a Constituição Federal obriga a União a gastar, no mínimo, 18% de da receita de impostos com educação. Para Estados e municípios, este percentual aumenta para 25%. Proteger a educação da má escolha dos governantes vinculando recursos para o setor não é uma prática nova. A Constituição de 1934 já previa percentuais mínimos para a área, e eles foram sendo ora ampliados, ora retirados, em sucessivas mudanças da Carta ao longo do século 20. Os atuais percentuais foram definidos pela Constituição de 1988, mas um dos maiores marcos dessa legislação veio cinco anos antes, com a aprovação, em 1983, da Emenda Calmon, que já estabelecia os percentuais de 25% para Estados e municípios, e estipulava 13% para a União.
E foi justamente na década de 80, após a aprovação da Emenda Calmon, que o país deu um dos maiores saltos no aumento da proporção do PIB investido em educação, de acordo com dados levantados pelo economista Paulo Maduro Júnior na tese “Taxas de Matrícula e Gastos em Educação no Brasil”. Ao refazer uma série histórica desde 1933, o trabalho mostra que foi só a partir de meados da década de 80 que o país ultrapassou e consolidou um patamar de investimento superior a 3% do PIB (o salto foi de 2,4% em 1984 para 3,8% em 1990). A Emenda Calmon não é a única explicação para isso. Cabe lembrar que este também foi o período de redemocratização, e no qual o crescimento populacional ainda ocorria em ritmo muito mais forte do que o de hoje, gerando demanda por mais vagas na escola.
Não foi em vão o esforço que o país fez para ampliar matrículas. De 1981 até hoje, a proporção da população de 4 a 17 anos fora da escola caiu de 35% para menos de 5%, ao passo que o gasto público continuou aumentando, também graças a mecanismos como o Fundef e o Fundeb. A maior escolarização pode não ter nos levado ao patamar de qualidade que desejamos, mas teve impactos significativos na redução do analfabetismo, do crescimento populacional, da mortalidade infantil, entre outras variáveis fora da escola impactadas pela educação.
No mundo ideal, políticos brasileiros comprometidos com o interesse público não precisariam de leis os obrigando a gastar com educação. Com mais liberdade, tomariam decisões melhores, sem comprometer o atendimento numa área tão vital. Na prática, é difícil de imaginar esse cenário por aqui. Do ponto de vista das escolhas imediatas, há uma perversidade a mais no caso da educação: seus resultados são menos vistosos no curto prazo. Ruas com buracos, hospitais sem médicos, ou um dia sem coleta de lixo e transporte coletivo têm impacto imediato na popularidade de um gestor. Escolas funcionando em condições inadequadas ou com qualidade insatisfatória têm bem menos apelo. A diferença é que o custo da omissão no presente é pago por gerações.
Diversos veículos da grande imprensa têm pecado pela fragilidade de argumentos no debate educacional brasileiro. Tirando algumas exceções, a maioria tem trazido simplificações equivocadas e discursos cínicos. O aspecto mais preocupante do fenômeno é o grave abandono do bom senso e da ulterior agenda dos direitos, como o direito a uma escola pública digna para se estudar. A opinião pública, a cada dia, vai se acostumando com uma agenda educacional medíocre, definida por termos que pouco ou nada dizem, como “expectativas de aprendizagem”, “exposição do aluno à aprendizagem” e outros disparates das mesmas e infelizes fontes terminológicas.
Com o acirramento do debate, alguns supostos “especialistas”, para encastelar sua posição e valorizá-la perante a sociedade, passam a cometer o absurdo de cindir o universo educacional entre aqueles que “defendem o professor” contra eles próprios, os autoproclamados “defensores dos alunos”. Nessa cínica e falsa divisão, que rebaixa o estudante à condição de vítima, não é preciso escola digna, bem equipada, boa merenda, professor intelectualizado, nada disso. Não é preciso respeitar os direitos de alunos e professores a espaços dignos. Com base em um grave pragmatismo ofensivo, independentemente das condições ofertadas, o objetivo é alcançar os fins, ou seja, um resultado mínimo de aprendizado em português e matemática, quando muito em ciências.
Sinceramente, não perco meu tempo me esforçando a entender essas revoltantes simplificações. Posso até ser limitado, mas tenho a humildade de saber que não há uma fórmula capaz de garantir educação de qualidade sem professor bem remunerado, com carreira atrativa, boa formação inicial e continuada. Também não consigo debater educação opondo os direitos dos educadores aos direitos dos alunos – e vice-versa. Acredito e defendo aquilo que até está sacramentado na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; Lei nº 9.394/1996): a educação se dá em um processo contínuo de ensino-aprendizagem.
Aliás, a boa e séria bibliografia nacional e estrangeira mostra que é preciso envolver no processo educativo, além de professores e estudantes, as famílias, diretores e coordenadores pedagógicos, os demais profissionais da educação, os gestores dos sistemas públicos de ensino, a comunidade do entorno da escola, a sociedade civil, etc. Em educação, a participação dos atores altera positivamente o produto.
Diante da minha experiência de trabalho, da minha aposta na escola pública e, principalmente, do meu respeito ao bom senso, não consigo mais ler, ouvir e ler as insistentes aspas e falas de que “a educação brasileira não precisa de recursos, mas de melhor gestão”. Esse discurso é falso mesmo em sua variante politicamente correta, “não basta mais recursos, isso até é importante, mas é preciso boa gestão”. É uma espécie de falácia circular, que como toda falácia, não leva a nada.
Em primeiro lugar, eu não conheço a mágica capaz de garantir boa gestão sem profissionais bem remunerados e motivados, tanto nas escolas, como nos órgãos gestores das redes.
De uma vez por todas, se o objetivo da nação for a consagração dos direitos sociais e a universalização de um padrão digno de qualidade de vida, não há outra saída: é preciso investir mais em educação pública. Até por que o Brasil é um dos países que mais envelhecem no mundo e, se não investirmos desde agora na atual e na próxima geração de crianças, adolescentes e jovens, não haverá gente capaz de investir no Brasil num futuro bem próximo. Nosso problema, concretamente, é muito mais profundo do que aquilo que o imediatismo ou a superfície do debate educacional e econômico nos permite observar.
Tudo isso posto, não temos mais tempo para insistir na reprodução de falácias ou na busca de soluções mágicas e falsas de gestão. Passou da hora de termos menos hipocrisia e falso bom mocismo no debate educacional. É urgente a necessidade de o Brasil pôr a educação, a ciência e tecnologia e a saúde no centro de suas prioridades. Objetivamente, pela distribuição orçamentária observada hoje, elas não são. Aliás, infelizmente, essas três áreas fundamentais estão muito distantes de alcançar algum status de prioridade no orçamento público brasileiro.
Educar requer maturidade, buscas, pois não existe fórmula mágica. Teorias são simplesmente teorias, e muitos, principalmente coordenadores sem paixão pelo seu trabalho, tentam encaixar a escola nesse molde disforme, muitas vezes ultrapassado, impondo que professores sigam essas tendências, permitindo que o ranço continue impedindo o avanço.
Como o milagre da atuação do Conselho Escolar não acontece, a proliferação dos problemas se intensifica, fazendo com que a responsabilidade dos órgãos competentes passe longe dos corredores da sala de aula, que, com a perda de autonomia do professor e o alastramento da indisciplina, está se tornando uma atmosfera cada vez mais difícil de respirar.
O mundo evoluiu numa velocidade tão alarmante que a escola se distancia da sociedade e se perde pelos caminhos que antes acreditava serem trilhas seguras; a escola de paredes e grades está perdendo terreno para a “escola da vida”. Seus atrativos são fantásticos: portões amplos, corredores iluminados e mestres com “habilidades e competências” para transformar seus alunos em doutores na arte de ser delinquentes, pois a tradicional continua estagnada no tempo, com técnicas e princípios que não educam, e, mesmo com os avanços da ciência, que buscam caminhos alternativos para sanar problemas emergentes, estamos distantes de termos uma educação que cumpra metas para que a escola atinja as suas funções sociais.
A explicação de tantos fracassos chega a galope, pois os acontecimentos transitam por corredores, pátios, salas… e não é preciso mergulhar no tempo para entendermos: há
pouco mais de uma década, pedagogos e psicólogos eram os senhores que retinham as teorias e técnicas educativas. Atualmente, simplesmente coordenam um grupo de formadores de opinião que não assimilam a dimensão da responsabilidade diante daqueles que passam por sua regência.
No novo contexto que visa à qualidade, um dos maiores desafios é ser coordenador, pois a missão de administrar problemas e transformá-los em soluções exige mais do que idealismo. É preciso assumir a responsabilidade de direcionar trabalhos pedagógicos, motivar um corpo docente acostumado a sentar à espera das atividades prontas com ideias que abram passagem para integrar a escola à sociedade e, através desse intercâmbio, fazer com que a unidade de ensino atinja as metas sociais, políticas e econômicas da Educação.
Na fase de estruturação, alunos, professores, governo e pais não falam a mesma língua. E cada um tem um pretexto convincente para explicar o não cumprimento dos seus deveres. O mercado de trabalho está recebendo profissionais despreparados e terá que capacitá-los para garantir a qualidade de seus serviços e produtos para não ser esmagado pela concorrência.
Ante o desequilíbrio, a escola se depara com dificuldades para cumprir o seu papel na aplicação dos valores humanos, pois, mesmo inserida nesse contexto, lança barreiras que a impedem de atingir seus objetivos.
Mas conduzir a escola por um caminho que atenda às necessidades, em meio a um furacão de instabilidade, é realmente um sonho que se torna cada vez mais distante de se realizar, pois educar uma sociedade deficiente de valores exige uma escola que descarte teorias frívolas, conteúdos evasivos e métodos ultrapassados através de reformas condizentes às necessidades da clientela.
Enquanto a escola permitir ser administrada sob interesse político-partidário e a Educação continuar com professores desmotivados e descompromissados com o ofício de ensinar, a escola dos meus sonhos continuará a ser apenas um sonho.
Nós, professores, temos um grande vício: somos apaixonados. E todo apaixonado é meio insano, faz alguma coisa que nem sempre deveria, se dedica mais do que pode, às vezes se esquece de si mesmo. Ou então não se lembra de que nós exercemos uma profissão, que precisamos receber nosso salário de forma adequada, que temos de lutar na estrutura sindical e organizar nossas reinvindicações no público e no privado. Às vezes, até disso nós nos esquecemos. Não deveríamos, mas esquecemos, porque somos apaixonados.
Todo professor íntegro leciona por paixão. Paixão pelo quê? Por ganhar pouco, correr o dia inteiro, ficar para lá e para cá? Não, claro que não. Temos paixão por aquela ideia de que gente foi feita para ser feliz. Como diria Shakespeare, “Vida é uma coisa cheia de som e fúria”. Nós somos furiosos, brigamos muito.
Imagine uma reunião de professores no final do ano. Um colega quase pula no pescoço do outro por causa de um aluno. Nós fazemos barulho e somos tão ruidosos porque somos apaixonados. Aliás, professor adora se encontrar, adora reunião — se for paga, então, gosta mais ainda. Reunião de professor dura, mais ou menos, uma hora e meia, sempre dividida da seguinte maneira: na primeira meia hora, ficamos às vezes falando mal de quem não veio, dizendo “Nós estamos aqui, é um absurdo”; na segunda meia hora, ficamos falando bem de quem veio, “Mas nós viemos, nós vamos levar isso à luta porque isso é importante”; e, na terceira meia hora, buscamos horário para marcar outra reunião. E acontece tudo de novo…
Professor adora o período de férias, quando os alunos desaparecem da escola. Ele aguenta um dia, dois, de repente começa a sentir falta. A escola fica triste e em silêncio, não tem aquele barulho. Tem professor que fica louco para as aulas começarem, e, quando elas começam, depois de uma semana, ele não aguenta mais, quer que tudo pare. É mais ou menos como a mãe que diz para os filhos: “Eu não aguento vocês; eu vou me matar; um dia, eu vou sumir, e vocês vão ver”. Nós também falamos demais.
Mas temos uma coisa inacreditável, que é uma amorosidade muito grande. Só isso explica por que uma pessoa dá aula por 20, 30 anos, se aposenta e depois volta a lecionar. Por que tem professor que não aguenta ficar fora de uma sala de aula? Ora, não tem gente que é louca por pizza? Então, também existe quem seja louco por gente. Que, em vez de cuidar só da própria vida, resolve ajudar outras vidas também.
Essa característica não é exclusiva dos professores, claro. Isso tem a ver com a amorosidade, que, por sua vez, tem a ver com amor, que é uma palavra que anda meio ausente na Educação e não deveria. Quem ama não desiste. Quando começamos a desistir um pouco da nossa atividade, dos nossos alunos, começamos a perder um pouco o gosto. Se você está deixando de amar, aí é melhor deixar, porque Educação pressupõe uma capacidade amorosa imensa, não é inesgotável, porque nada o é, mas ela deve ser imensa. E, por ser amorosa, essa atividade precisa de condições de trabalho, de estrutura salarial, de organização pedagógica, de jornadas adequadas… senão não dá para exercer essa amorosidade de forma concreta.
Lembrar sempre: insistir, repartir e não desistir.
CORTELLA, Mario Sergio. Nós e a Escola: Agonias e Alegrias, p. 20-22, Petrópolis: Vozes, 2018.
Há hoje um certo consenso, entre especialistas em educação e saúde, de que a primeira infância é o momento mais importante para se criar as condições para um desenvolvimento integral e saudável da criança.
É nessa fase que se ensaiam elementos de compreensão de mundo, de comunicação com os outros, de conhecimento do próprio corpo e o manejo das emoções.
A formação de sinapses permitirá que sensações sejam processadas e que aprendizados se acumulem, em um processo orientado pela riqueza das experiências vividas pela criança e pelo afeto de que se vê cercada.
O grande inimigo dessa fase é o chamado estresse tóxico ou traumático, em que a violência ou a negligência extrema podem trazer danos fortes, alguns irreversíveis, ao desenvolvimento infantil.
Pela complexidade e relevância dessa fase, há igualmente um consenso de que se trata de um período em que diferentes políticas públicas devem atuar para assegurar o pleno desenvolvimento da criança e a garantia de seus direitos.
Para a educação, o que se busca é assegurar que as crianças cujos pais assim o desejarem tenham acesso a creches de qualidade, com prioridade para as famílias em situação de pobreza extrema, e garantir a todas elas boas pré-escolas.
Mas não é suficiente —e, em alguns casos, nem desejável, institucionalizar crianças pequenas. A formação de vínculos fortes com pais e outros membros da família é tão ou mais importante quanto os cuidados e a educação de uma creche.
(...)
Ainda há muito o que fazer para promover igualdade de oportunidades em nosso país, mas, se todas as crianças em situação de vulnerabilidade se beneficiarem de atenção, educação e cuidados necessários, será um bom começo.
Claudia Costin
Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial.
O que nós verdadeiramente somos? Somos Seres Espirituais que habitam um corpo físico. Não somos nosso corpo, isso é matéria, é orgânico. O corpo é protegido pelo nosso ego. Somos seres sensitivos que pensam. Somos emocionalmente racionais.
Um dia, todos nós iremos morrer e ele vai acabar. O nosso verdadeiro Ser, aquilo que realmente somos é nossa Alma, que é infinita, e é isso que nunca morre. A alma necessita do corpo físico e do nosso ego para transcender em nossa existência neste plano terrestre.
A palavra Alma vem do latim animus, que anima. Ela é nossa parte imortal, é nossa vida, essência fundamental, é o Sopro de Vida. Ela é um movimento que é maior que o corpo, maior que a matéria. A Alma “vive dentro do corpo, por isso precisa dele, porém ela também é separada dele, pois não acaba quando ele morre, ela é eterna e não se dissipa.
É claro que manter nosso corpo físico saudável é essencial, essa é a função maior do nosso ego, afinal a manutenção de nossa Alma neste plano depende da manutenção da matéria. Mas não devemos esquecer que os desígnios espirituais são muito mais importantes que os materiais.
É comum não pararmos para refletir sobre o que é mais essencial em nossas vidas, assim focamos em acumular bens materiais que, na verdade, não tem valor. O ego tem necessidade da riqueza material, de relacionamentos e também de conhecer a bondade e compaixão. Afinal quando morremos, não levamos nenhum dinheiro, casa, e nem o prestígio ou poder que essas riquezas proporcionam no plano terrestre.
Temos que ter atenção para não nos perdermos na correria dos afazeres e dificuldades do cotidiano que nos distraem de ver o todo, apreciar os pequenos momentos de felicidade que estão em todo o lugar e finalmente nos desviam de encontrar nossa missão, realizar nosso propósito e deixar um legado terreno. Quando não focamos em nossos objetivos maiores as distrações nos aprisionam. Você já parou para refletir sobre aquilo que está aprisionando seu Ser, sua Alma, que não a deixa ser livre?
Podemos viver em dois estados internos, o Estado de Graça, beleza interior, paz, não comparação, não julgamento, que é a Consciência da Unidade“ ou o Estado de Sofrimento, de dor, de comparação, julgamento, um estado destrutivo, que é a “Consciência do Ego.
Temos o poder de escolher de qual Estado interno e de qual consciência partimos, de qual Estado interno realizamos nossas tarefas, tratamos as pessoas, buscamos atingir nossas metas, conviver com o outro e convivemos com nós mesmos.
Convido você a refletir também: de qual Estado você quer criar Riqueza, Abundância e Prosperidade? Você vive em um Estado de Paz ou Guerra Interna? E o que isso gera para você e para as pessoas dos seus sistemas?
Se você vive em um Estado de Sofrimento seu Ego está dominando você. O Ego é parte de nós, mas não é nossa Alma, o Ego é criado pela Alma e tem como propósito protegê-la. Protegendo o corpo físico a Alma é protegida.
Quando somos dominados pelo Ego não vivemos no tempo presente, ficamos presos ao passado e julgamento ou ao futuro. Neste estado somos mais egoístas e vivemos na realidade material, diferentemente da Alma que vive na realidade energética.
O Ego tem necessidades. A experiência maior do Ego é o Medo. Medo da morte, da limitação do corpo e de não conseguir satisfazer suas necessidades. Quando vivemos pela experiência do Ego ficamos como medo da falta de dinheiro, de não termos conforto, de não sermos estimados, de não sermos lembrados, amados, de não termos poder. A alma não tem medo, tem desejos.
Porém quando vivemos em um Estado de Graça, vivemos pelo Propósito da Alma, vivemos em paz, estamos presentes, experienciando o AGORA, e consequentemente alcançamos uma riqueza energética, estamos mais próximos do divino, da Iluminação, pensamos no coletivo, na Unidade, e geramos uma Abundância e Prosperidade duradouras que se propagam a todos aqueles ao nosso redor e não somente nós mesmos.
Quando vivemos pelos desígnios da Alma buscamos a evolução e a conexão. Nossos dons e talentos únicos são usados para atingir nosso propósito maior de servir com amor toda a Humanidade, realizamos os desejos mais verdadeiros e profundos do nosso Ser.
Como podemos nos livrar da dor, dos sentimentos negativos e viver pela experiência da Alma? Como podemos verdadeiramente libertar nossa Alma? O primeiro passo é buscar o Autoconhecimento Intenso e daquilo que te trava, que te impede de seguir em frente, visando e alcançando seus objetivos com mais facilidade.
Tenha em mente que a solução das suas dificuldades não está no mundo exterior. As perturbações são criadas e vivem dentro de nós, assim procurar as respostas a questões tão essências no externo nunca trará resultados completamente satisfatórios. Você não se sentirá absolutamente livre visando o que está fora de você, pois sempre surgirão novos questionamentos.
A solução definitiva é conhecer-se e não se perder dentro de suas dificuldades. E assim, pelo Autoconhecimento, você toma as rédeas de sua vida para realizar seu propósito com mais clareza, de maneira mais leve e em paz, desse modo se alcança a verdadeira Liberdade Interna.
Te convido a refletir mais uma vez: quais são as suas sombras? A partir de qual Estado da Consciência (Ego ou Unidade) e de qual Estado Interno (Sofrimento ou Graça) você vive? Há alguém que você tenha que perdoar? Você já perdoou a si mesmo pelos erros e insucessos do passado? O que te faz perder a paciência? Você já descobriu seu propósito maior? Esse e tantos outros questionamentos são essências para descobrir o que te aprisiona e como você pode libertar a sua Alma.
Só você tem as respostas para as perguntas que farão a diferença em sua vida. Lembre-se sempre de se lembrar de nunca mais esquecer: na Caverna mais profunda está o Tesouro mais Precioso e no Veneno sempre estará o Antídoto.
Assim você encontrará as respostas para as questões mais difíceis da sua vida em si mesmo, libertando-se do passado, ressignificando suas dores, enxergando a realidade através da perspectiva positiva, perdoando quem lhe causou mal e perdoando a si mesmo.
Somente aí você será “VERDADEIRAMENTE LIVRE e poderá cumprir seu verdadeiro propósito, o Propósito da Alma de SER FELIZ !
Não sou simpático à lei da Escola sem Partido. Sou professor há 22 anos. Ela pode virar um belo sistema randômico de censura. Pais de alunos são imprevisíveis.
Um dia posso estar falando de darwinismo e um pai evangélico considerar que estou pregando ateísmo. Um dia posso estar dizendo que a espécie humana reproduziu e sobreviveu porque a maioria dela é heterossexual e algum aluno filho de um casal gay pode me acusar de homofobia.
Você duvida? Se sim é porque anda alienado da realidade ridícula que o mundo está vivendo. As mídias sociais tornaram o ressentimento uma categoria política de ação. Os ressentidos perderam a vergonha na cara.
Ricardo Cammarota/Folhapress
Não gosto de leis, não confio em juízes, promotores ou procuradores.
O Ministério Público com frequência nos considera cidadãos hipossuficientes e decide processar você por descrever a relação entre peso e massa na lei da gravidade numa aula —e essa lei não respeitaria as sensibilidades de pessoas vulneráveis psicologicamente devido ao maior peso delas.
Minha oposição à lei da Escola sem Partido não é porque eu não saiba que grande parte dos professores prega marxismo e similares em sala de aula. Prega sim. E a universidade não é um espaço de debate livre de ideias. Isso é um fetiche, para não dizer diretamente que é uma mentira deslavada.
A universidade é um espaço de truculência na gestão, na sala de aula, nos colegiados, no movimento estudantil.
Lobbies ideológicos ou não dilaceram as universidades quase as levando à inércia produtiva —principalmente nas “humanas”.
Quem discordar da cartilha de esquerda é “fascista”. Minha oposição à Escola sem Partido é porque ela é uma lei.
Sei. Ficou confuso? Vou repetir: minha oposição à Escola sem Partido é porque ela é uma lei. Com ela, aumentaríamos o mercado para advogados e a justificativa pra mais gasto com o Poder Judiciário.
Quem a defende parece não entender que lei em matéria de costumes é como um elefante em loja de cristais. Outra área em que lei é como um elefante em loja de cristais é no campo dos afetos.
Meu argumento, ao contrário do que podem pensar inteligentinhos de direita e de esquerda, é profundamente conservador, no sentido que o conceito tem na filosofia britânica a partir do século 19 —o conceito sem a palavra surge no final do 18 com Edmund Burke (1729-1797), a palavra surge na França nos primeiros anos do século 19, segundo o historiador das ideias Russel Kirk (1918-1994).
No sentido filosófico, e não no debate empobrecidos das militâncias, ser conservador é ser cético em matéria de invenções políticas, econômicas, sociais ou jurídicas.
Um temperamento conservador, como diria Michael Oakeshott (1901-1990), filósofo conservador britânico fundamental para o assunto, desconfia da fúria “racionalista” de se inventar, por exemplo, leis que interfiram sobre hábitos e costumes (estes, sim, pérolas para um cético em política).
Aliás, pouco se sabe entre nós sobre o que é, no sentido erudito e conceitual, ser conservador. Qual a razão de não sabermos? Pergunte aos professores e coordenadores de escolas e universidades. A bibliografia escolhida por eles é, na imensa maioria das vezes, uma pregação em si.
Alunos de escola, de graduação e pós-graduação, constantemente, são boicotados em sua intenção de conhecer outros títulos que não seja a cartilha com Marx e seus avatares.
A lei da Escola sem Partido é uma solução ruim para um problema real. A crítica a ela, sem reconhecer que sua motivação é justificada, presta um enorme desserviço ao debate.
Com isso não quero dizer que professores marxistas de história mentindo pura e simplesmente ou restringindo o acesso a múltiplas “narrativas” (como é chique falar agora) sejam a principal questão no Brasil de hoje em dia.
Existem muitas outras, como economia, corrupção, violência urbana, e outras mais. Mas, a formação educacional ideologicamente enviesada, por exemplo, faz muita gente “educada” abraçar movimentos como o Lula Livre, achando lindo.
A educação piorou muito depois que os professores resolveram pregar em sala de aula em vez de ensinar rios e capitais dos estados e países. Simples assim. Mas aumentar o mercado jurídico no país é um engano grave. Já somos presas demais do crescente lobby jurídico para não ver isso.
Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.
Somos lançados em um meio cuja educação é precária em relação ao conhecimento que Spinoza nos propõe. Conhecemos o mundo a partir de valores de figuras de autoridade, pouco nos ensinaram a experimentar e reconhecer as causas daquilo que nos acontece, muito nos ensinaram a julgar e acusar. A cultura e a educação dominantes são altamente castradoras, o homem predominante no ocidente é profundamente interiorizado, crente em livre-arbítrio e, atualmente, tolamente espiritualizado com as caricaturas de uma liberdade neoliberal que o cega diante da própria servidão. Resta que aquilo que chamamos de Eu ou Ego também se constituiu, dominantemente, como um repositório de fantasmas e superstições, repleto, na maioria das vezes, de castração e táticas de má-fé para (re)agir diante das angústias e infelicidades. E é desse lugar interiorizado que o homem trava terríveis batalhas contra si mesmo, às vezes por uma vida inteira.
"(…) a educação sempre foi, no seu modo dominante de ser, uma máquina de adestramento reativo e não uma máquina de adestramento que poria a vida em condições de criar as próprias condições de experimentação da existência. FUGANTI, L. Educação para potência."
Spinoza cita Adão como exemplo de um homem que desconhece as causas – o ignorante (aqui sem a conotação pejorativa). Este teria interpretado o Não comerás do fruto… como um interdito moral. O encontro do seu corpo com o corpo da maçã seria um mau encontro devido a indigestão, envenenamento, intoxicação, decomposição, etc., mas por ignorar as causas Adão interpreta o interdito sob a categoria do Mal. Por ignorância muitos maus encontros são acusados nas categorias do negativo – ao invés de compreender, acusamos e nos encurralamos cada vez mais como sujeitos interiorizados, pois toda acusação pressupõe uma vida marcada por um sentimento de vingança. Acusar a vida e o outro pelos nossos maus encontros pressupõe afetos do ressentimento, “E nenhuma chama nos devora tão rapidamente quanto os afetos do ressentimento.” NIETZSCHE, F. Ecce Homo. Eis aí o homem como o maior inimigo de si mesmo.
Nós não temos sido muito diferentes de Adão. Muitas das nossas ações e comportamentos que nos diminuem, por assim dizer, nossos fracassos, temores, constrangimentos de viver, etc., são externalizados no “Mal” do outro e do mundo a partir de um sujeito interiorizado ignorante das causas. Mas quando o outro não pode ser usado como causa o homem se empenha em atribuir causas internas como justificativas para a sua própria infelicidade. Em ambos os casos ele permanece na ignorância das causas. Importante ressaltar que nos nossos tempos os diagnósticos de doença mental podem ocupar esse lugar de legitimação de uma causa externa para construir narrativas da própria infelicidade, mas essa dimensão não exclui a internalização do fracasso e da infelicidade diante de uma sociedade de dever à felicidade e ao sucesso, apesar de tais narrativas encontrarem ressonâncias a partir de um social psiquiatrizado, a culpabilização de si também aumenta
Assim como acusamos o outro e a vida pelas nossas infelicidades, também nos rotulamos facilmente de ansiosos, impulsivos, tímidos, depressivos, irascíveis, amargurados, apáticos, etc. Quando não estamos à altura daquilo que nos acontece e damos causas internas – em geral sentimentos negativos – como justificativas, além de nos fecharmos à compreensão, ficamos à mercê de uma série de censuras e julgamentos, empenhamo-nos em verdadeiros ataques ao “eu” – o Euzinho interno… ele próprio que costuma ser um golpeador do corpo, separando-nos daquilo que nos acontece – o estado internalizado em nós.
Enfim, produzindo modos de existir e perceber as coisas, daí o servilismo se confunde com liberdade e livre-arbítrio, assim como o conhecimento, também internalizado, reduzido como capacidade de julgar através de categorias de valores binários e, sobretudo, em função da economia, não passa de uma ignorância – Spinoza não nos deixa se enganar a respeito desse tipo de conhecimento.
"Uma criancinha acredita apetecer, livremente, o leite; um menino furioso, a vingança; e o intimidado, a fuga. Um homem embriagado também acredita que é pela livre decisão de sua mente que fala aquilo sobre o qual, mais tarde, já sóbrio, preferiria ter calado. Igualmente (…) muitos outros (…) acreditam que assim se expressam por uma livre decisão da mente, quando, na verdade, não são capazes de conter o impulso que os leva a falar. Assim, a própria experiência ensina, não menos claramente que a razão, que os homens se julgam livres apenas porque são conscientes de suas ações, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados. SPINOZA, B. Ética, parte III, prop 2 esc."
Conhecer a causa daquilo que nos acontece nos potencializa para buscar compreendes mais efetivas junto às interações com o mundo. Romper com esse sujeito interiorizado que foi produzido, costumeiramente, como sendo causa daquilo que nos acontece e, sobretudo, perceber o devido lugar que grandes estruturas – e não meramente os indivíduos – como o estado, o capital, a religião, a linguagem, e tantas outras, ocupam, com a nossa cumplicidade (ver O ego é cúmplice), nos processos de subjetivação e produção de vida, é fundamental para nos afastar de tanta ignorância e servidão. Para tanto, prezamos por uma compreensão que vai em busca de cartografar os nossos trajetos, perceber as modificações, as nuances de alegria e tristeza, os aumentos e as diminuições da nossa potência de agir e de pensar. Nietzsche fazia muito bem isso, em seus trajetos procurava avaliar os efeitos do ambiente, do clima, da alimentação, de uma música, da temperatura etc., sobre a sua potência de agir e pensar.
Há folgados conscientes e inconscientes. Existe uma
folga “normal” do indivíduo que nem pensa mais no seu gesto, apenas não vê o
outro. Sua tranquilidade em se considerar o único ser humano do planeta é quase
natural. O segundo tipo é plenamente convencido de que ser folgado é boa
estratégia e quem se aproveita mais fica mais feliz. O primeiro tipo passa à
frente da fila sem olhar para ninguém, o segundo olha nos olhos e ignora a
ordem de chegada.
Quando estou generoso com a humanidade à qual
pertenço com alguma relutância, suponho que exista um déficit de atenção do
espaço alheio, um defeito de fábrica, uma miopia específica qualquer. O folgado
do primeiro tipo poderia ser uma espécie de deficiente: ele realmente não vê
nada. Nos dias não tomados pela compaixão, enfatizo o ódio sobre o segundo
tipo: invasor, agressivo, inimigo da civilização e que deve sofrer os rigores
do desprezo e da punição com tenazes ardentes.
Os folgados falam aos borbotões em celulares,
conversam em cinemas, jogam papéis no chão, pedem favores exorbitantes,
eructam, bufam, empurram, perfumam-se em excesso, transformam o som do carro em
trio elétrico, estacionam na calçada ou na vaga de idoso desde os dezenove anos
e, acima de tudo, entendem a população em geral como pessoas a seu serviço e
nascidas para seu prazer.
A percepção do todo, de que existem mais pessoas
além de mim, é fundamental. Acima de tudo, a necessidade de vigorar o princípio
diplomático: o reino da minha liberdade absoluta chega soberano apenas até a
fronteira do país alheio. Entre as duas monarquias absolutas, entre mim e o
outro, existe uma área republicana, neutra, regida pelo bom senso e pela regra
de ouro da etiqueta: respeito.
A percepção do outro como um ser com direitos é uma
educação. Começa com o costume que os pais sempre fizeram: cobram da criança o
obrigado ao receber o presente. A primeira etapa é treino mesmo: tornar
automático o emprego das quatro frases-amuleto contra a folga futura: por
favor, com licença, desculpe-me e muito obrigado. Após o processo educativo,
tende a existir uma consciência mais sutil de vida em grupo. Começa em coisas
pequenas: enumerando pessoas e se incluindo na lista apenas ao fim.
Zombavam de Diógenes. Além de morar num barril, volta e meia era visto pedindo esmolas às estátuas. Cegas por serem estátuas, eram duplamente cegas porque não tinham olhos —uma das características da estatuária grega. Pela forma é que se penetrava na alma das estátuas, não pelos olhos.
Perguntaram a Diógenes porque pedia esmola às estátuas inanimadas, de olhos vazios. Ele respondia que estava se habituando à recusa. Pedindo a quem não o via nem o sentia, ele nem ficava aborrecido pelo fato de não ser atendido.
É mais ou menos uma imagem que pode ser usada para definir as relações entre a sociedade e o poder. Tal como as estátuas gregas, o poder tem os olhos vazados, só olha para dentro de si mesmo, de seus interesses de continuidade e de mais poder.
A sociedade, em linhas gerais, não chega a morar num barril. Uma pequena minoria mora em coisa mais substancial. A maioria mora em espaços um pouco maiores do que um barril. E há gente que nem consegue um barril para morar, fica mesmo embaixo da ponte ou por cima das calçadas.
Morando em coisa melhor, igual ou pior do que um barril, a sociedade tem necessidade de pedir não exatamente esmolas ao poder, mas medidas de segurança, emprego, saúde e educação. Dispõe de vários canais para isso, mas, na etapa final, todos se resumem numa estátua fria, de olhos que nem estão fechados: estão vazios.
Pupilas vazadas que nada olham. Ou que olham errado —como no caso de Maria Antonieta, que sugeriu ao povo comer brioches à falta de pão.
Não sei por que lembrei o cinismo sábio de Diógenes e o cinismo burro de Maria Antonieta. Acho que têm a ver com um tipo de cinismo que nem é sábio nem burro. É apenas um cinismo que só não é inútil porque é cruel.
No Vietnã, um professor é perguntado nos primeiros dias de trabalho sobre as metas que deseja alcançar na carreira. Quer trabalhar na linha de frente com as crianças e adolescentes? Almeja um cargo de gestão? Ou gosta mesmo de pesquisar e desenvolver técnicas e metodologias de ensino? A partir disso, professor e diretor da escola atuam em conjunto para estruturar a carreira de acordo essas preferências.
No Japão, bônus salariais, a possibilidade de acelerar promoções e a ideia de desafio tornam atrativo dar aulas nas escolas mais pobres do país. Na Estônia, a forte evolução salarial nos últimos anos e a autonomia para aplicar métodos criativos de ensino fazem da carreira de professor uma das mais cobiçadas.
Na Coreia do Sul, o alto status social dos professores combina estabilidade, bons salários e rigorosos requisitos de admissibilidade na carreira. Já na Finlândia, o salário não é dos mais altos quando comparado à média das demais profissões; mas o prestígio, sim.
O que esses cinco países têm em comum?
A contratação de professores é seletiva, a profissão é valorizada e, mais importante, a carreira é estimulante, o que atrai bons profissionais para as salas de aula. E esse foco na qualidade dos professores se reverteu em bons resultados no influente ranking Pisa, organizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que avalia o desempenho de jovens de 15 anos em ciências, matemática e leitura em 75 países.
"A qualidade da educação de um país nunca será maior que a qualidade dos seus professores", definiu em entrevista à BBC News Brasil Andreas Schleicher, o idealizador do Pisa e diretor da área de educação da OCDE. E, para ter bons professores, é preciso atrair as pessoas mais talentosas para a profissão, oferecendo uma carreira desafiadora, além de boas condições de trabalho, diz Schleicher.
Nesses quesitos, o Brasil está longe de ser exemplo. Numa pesquisa da OCDE com 100 mil professores do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio (alunos de 11 a 16 anos), o Brasil aparece no topo de um ranking de violência em escolas.
Soma-se a isso o fato de a profissão de professor não ter prestígio social, salários abaixo da média da OCDE, ausência de uma carreira bem estruturada e de um período mínimo de experiência prática em salas de aulas como parte da formação. Todos esses fatores puxam para baixo a qualidade da educação no Brasil, que ficou entre os 10 países com piores resultados no Pisa de 2015.
Mas o que o nosso País pode aprender com a experiências das nações que melhor tratam os seus professores?
A OCDE examinou as políticas para professores de 19 países que, além de irem bem no Pisa, revelam resultados equânimes, ou seja, não apresentam grande disparidade na qualidade do ensino para alunos ricos e pobres. Entre essas nações estão Japão, Cingapura, Estônia, Finlândia, China e Alemanha.
Embora cada uma adote modelos diferentes, alguns fatores em comum foram identificados e podem servir de inspiração:
Testes de admissão rigorosos e 'recrutamento' dos melhores alunos
Direito de imagemMONKEYBUSINESSIMAGES/GETTY IMAGESImage captionCláudia Costin, da FGV, diz que aumentar os critérios de seleção para professores é passo essencial para reforçar o prestígio da carreira
Todos os países com melhor desempenho no Pisa adotam critérios rigorosos na formação e contratação de professores, segundo o estudo Políticas Efetivas para Professores, da OCDE.
Na Coreia do Sul e na China, interessados em dar aulas no ensino básico precisam passar por dois testes altamente competitivos - um para ingressar no curso de formação de professor e outro depois de formado, para ser autorizado a integrar o sistema de ensino.
Na Alemanha, a preparação para se tornar professor de ensino básico dura entre seis e sete anos- compreende um mestrado e, pelo menos, um ano de experiência prática em sala de aula. Além disso, os candidatos precisam passar por um processo de certificação nacional que ateste que cumprem os requisitos.
Já em Cingapura, os melhores alunos do ensino médio são "recrutados" para se tornarem professores, por meio de condições atrativas de estudo e trabalho, como a oferta de uma generosa bolsa mensal durante o período de treinamento.
A seletividade é essencial na construção de prestígio em torno da profissão de professor, diz a professora Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
"Na Finlândia, é dificílimo ser professor e é muito concorrido, mesmo pagando menos que profissões de mesma escolaridade, embora claro que num patamar salarial bem acima do Brasil", exemplificou Costin, que é ex-diretora do departamento de educação do Banco Mundial.
"No Brasil, deveria ser fixada uma nota mínima no Enem para entrar para os cursos de licenciatura e pedagogia, e ter um processo nacional de certificação de professores, que pode ser uma prova de avaliação docente", defendeu.
Experiência prática como parte da formação
O diretor de educação da OCDE, Andreas Schleicher, destaca que os países bem sucedidos no Pisa adotam um sistemas de formação de professores que exigem um período mínimo de experiência prática em sala de aula, sob supervisão e com constante feedback.
"É importante garantir que uma parte considerável do treinamento se dê nas salas de aula das escolas, não apenas nas universidades. As salas de aula são os locais onde os professores adquirem boa parte da técnica e da qualificação. A maioria dos países com boas políticas públicas para o magistério têm um equilíbrio entre formação teórica e prática", afirmou ele à BBC News Brasil.
Direito de imagemSKYNESHER/GETTY IMAGESImage captionNa Alemanha, período de treinamento prático em sala de aula chega a durar dois anos
O período de treinamento prático varia entre os países com as maiores notas no Pisa - vai de 20 dias no Japão a alguns meses no Reino Unido, Austrália e Noruega, para um ou dois anos inteiros na Alemanha.
Costin destaca que, no Brasil, experiência prática não costuma integrar o currículo obrigatório dos cursos de licenciatura e pedagogia.
"A formação que eles recebem na universidade não prepara para uma carreira como professor. Os cursos de licenciatura e a faculdade de educação são excessivamente centrados na teoria. São divorciados da prática na sala de aula", avalia.
Especialização na área de ensino
Outro fator comum entre a maioria dos países que vai bem no Pisa é o alto número de professores com especializações nas áreas que lecionam ou a oferta, após a contratação, de cursos e workshops para garantir o aprendizado continuado dos profissionais.
No Brasil, só 29% dos professores de ciências no Brasil têm especialização na área, segundo a OCDE.
Em países como Finlândia, Austrália, Coreia do Sul e Alemanha, que estão entre os que apresentaram os melhores resultados do Pisa na área de ciências, a proporção de professores especializados nessa disciplina nas escolas públicas ultrapassa 80%.
"A primeira coisa que você, como aluno, percebe é se o seu professor realmente domina a matéria que ele está ensinando, então, claramente é uma vantagem ter um profissional com especialização na área que ele leciona", diz Schleicher.
Direito de imagemSOLSTOCK/GETTY IMAGESImage captionNo Brasil, só 29% dos professores de ciência têm formação na área. Em países como Finlândia e Alemanha, o percentual ultrapassa 80%
Segundo Cláudia Costin, a falta de qualificação dos professores dificulta que os alunos desenvolvam uma capacidade de "reflexão científica". Ou seja, que aprendam a lógica por trás das lições e possam aplicar o conhecimento de forma crítica, em vez de apenas replicar conteúdo memorizado.
"Para poder ensinar num nível mais profundo, ensinar a pensar cientificamente, o professor precisa ter conhecimento da didática da disciplina. Ele não consegue ensinar a pensar cientificamente só seguindo o livro didático, mesmo que seja um material estruturado que dê a receita do bolo", diz.
Plano de carreira e bons salários
A OCDE diz que, em geral, os países com melhor desempenho no Pisa pagam aos professores salário maior que a renda per capita, sendo que alguns oferecem remunerações extremamente competitivas, como Coreia do Sul, Alemanha e Hong Kong (China).
No Brasil, o piso salarial dos professores é, atualmente, R$ 2.455. "Salário é uma questão essencial. A remuneração vem aumentando no Brasil, mas muito menos que a de profissões de igual escolaridade. Isso explica em parte a baixa atratividade da carreira para o futuro professor", diz Costin.
Mas Schleicher ressalta que alguns países que vão mal no Pisa também oferecem bons salários e que nações como a Finlândia, onde professores ganham menos que a média de outras profissões de mesma escolaridade, vão excepcionalmente bem em qualidade de ensino.
Isso significa, segundo ele, que um fator ainda mais importante que salário é tornar a profissão de professor uma carreira estimulante, com possibilidade de progressão baseada em resultados.
Direito de imagemPICASA/AGÊNCIA BRASILImage captionNo Brasil, professores são contratados para cumprir poucas horas semanais e não encontram planos de carreira estimulantes. Esse é um dos fatores que tornam a profissão pouco atrativa
"Por um lado, podemos dizer que o Brasil tornou dar aulas um pouco mais atrativo financeiramente nos últimos anos, já que os salários aumentaram um pouco. Mas o Brasil não fez o suficiente para tornar a carreira de professor intelectualmente atrativa", disse.
"Você quer que as pessoas mais talentosas e competentes da sociedade se tornem professores. É o que aprendemos da Finlândia. Lá, os salários de professores não são fantásticos, mas todos querem se tornar professores, porque é considerado uma carreira incrível."
Costin concorda que não existe uma carreira estuturada para os professores de escolas públicas no Brasil. Ela destaca que os profissionais que lecionam no ensino básico costumam ser contratados em concursos públicos para cumprirem carga horária de 16 ou 20 horas. Portanto, ganham pouco e a acabam tendo que acumular empregos ou funções em escolas diferentes.
"Os professores não são contratados para uma carga horária semanal de 40 horas. Com isso, ele não cria uma identidade com um grupo de professores e com as crianças, não tem tempo de conviver com os estudantes e ter uma relação significativa com eles."
Desafios e educação continuada
Outro fator em comum entre os países com melhor desempenho no Pisa é a ampla oferta, aos professores, de cursos que garantam um aprendizado contínuo, além de autonomia para desenvolver e testar novos métodos de ensino.
De acordo com a OCDE, na Austrália, Reino Unido, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Cingapura, é comum o acesso frequente a workshops para grupos de professores e oferta de coaching, para que os profissionais tenham contato com novas metodologias e saibam identificar as próprias preferências na carreira.
Além disso, na maioria dos países com notas altas no Pisa, a progressão na profissão está diretamente associada ao tamanho do desafio que o profissional aceita assumir e aos resultados que ele obtém.
Direito de imagemSOLSTOCK/GETTY IMAGESImage captionOutro fator comum entre os países com melhor desempenho no Pisa é a ampla oferta, aos professores, de cursos que garantam um aprendizado contínuo
No Japão, por exemplo, é exigido que os professores troquem de escola periodicamente, para garantir um equilíbrio entre novatos e profissionais experientes nas escolas localizadas em áreas mais pobres do país.
E há incentivos aos professores para que assumam turmas com alunos em "desvantagem social e econômica", como antecipação de promoções para cargos de gestão e a possibilidade de escolher a próxima escola onde quer trabalhar.
No Brasil, prevalece a progressão salarial por tempo de serviço e, em geral, faltam incentivos para que professores assumam projetos complexos e desafios.
E qual a orientação da OCDE para o Brasil?
Andreas Schleicher avalia que a melhor forma de dar um salto de qualidade na educação é melhorar as condições de trabalho dos professores, para garantir profissionais dedicados e mais bem qualificados.
Se o dinheiro que o Brasil tiver para investir for "pouco", é preciso fazer escolhas estratégicas - entre ter salas com menos alunos e pagar mais por um bom professor, Schleicher recomenda investir no profissional mais qualificado.
As pesquisas da OCDE revelam que os resultados dos alunos são mais afetados pela qualificação e tempo de experiência do professor do que pelo tamanho das salas de aula.
Direito de imagemFGVImage captionCláudia Costin recomenda ampliar carga horária em contratos de professores, aumentar seletividade, por meio de certificação nacional, e melhorar salários
"Se o Brasil não tiver, no momento, muito dinheiro para investir em educação, é preciso refletir mais sobre como investir da maneira mais produtiva. E isso significa, por exemplo, priorizar a qualidade do professor em detrimento de reduzir o número de alunos por profissional", avalia.