O contexto legal já mudou o jogo. Desde 2025
vigora a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celular em toda a educação
básica brasileira — pública e privada, incluindo o recreio, com exceção de uso
pedagógico autorizado pelo professor. Não é mais uma escolha individual do
professor "brigar ou não brigar" com o celular: há uma base legal e
institucional para isso agora. Segundo dados citados na regulamentação, 80% dos
estudantes dizem que o celular atrapalha a própria concentração (PISA Brasil),
e 86% dos brasileiros apoiam algum tipo de restrição.
O problema é que não é simplesmente um "aluno viciado em celular por
falta de disciplina" — é um aluno que, depois de um dia (tarde, noite) de
trabalho, tem no celular a única janela de lazer, socialização e descompressão
que resta antes de dormir. A lei nº 15.100/2025 restringe o uso de celular
dentro da escola, mas ela não alcança — e nem poderia — o que acontece em casa
às 23h de um estudante que trabalhou o dia inteiro. O problema, para esse
perfil de aluno, não nasce na sala de aula: chega nela já pronto, na forma de
sono atrasado e atenção esgotada.
Isso é relevante porque o próprio dado que puxamos
antes, da PNAD 2025, mostra que a necessidade de trabalhar já é uma das
principais causas de não conclusão do Ensino Médio no Brasil — e a falta de
interesse aparece ao lado dela, não como causa isolada. Um aluno que trabalha e
ainda assim vai à escola já está fazendo um esforço adicional; tratar seu
cansaço em sala como "distração por celular" perde o ponto.
O que muda na prática, para esse aluno:
- O problema em sala
geralmente não é o celular — é o sono. Antes de qualquer estratégia de
engajamento, vale reconhecer que um aluno que dormiu pouco processa e
retém menos, independentemente de motivação. Cobrar atenção plena de quem
chega exausto é pedir algo fisiologicamente difícil.
- Aulas expositivas
longas pesam mais sobre esse perfil. Atividades mais curtas, com
pontos de checagem e participação ativa, sustentam atenção melhor do que
50 minutos de exposição contínua — especialmente para quem já está com o
tanque baixo.
- Horário e ritmo da
aula importam mais do que parecem. Se o aluno trabalha à tarde/noite e
estuda de manhã, ou vice-versa, os primeiros e últimos horários do turno
tendem a ser os mais afetados pelo cansaço. Conteúdos mais exigentes
cognitivamente rendem mais fora desses extremos, quando isso é possível de
ajustar.
- O celular à noite
não vai ser resolvido pela escola — mas pode ser nomeado. Ainda assim,
orientar sobre higiene do sono e o efeito da luz de tela antes de dormir
tem valor, desde que vindo sem tom moralista: não é "você não devia
usar celular à noite", é "seu cérebro absorve menos aula depois
de dormir pouco, e isso tem uma causa identificável".
- Reconhecer o
esforço, não só cobrar resultado. Para esse aluno, motivação
extrínseca pura (nota, prova) compete com uma exaustão real. Um vínculo de
reconhecimento com o professor — que ele percebe estar sendo visto como
alguém que concilia trabalho e estudo, não como alguém
"desligado" — tende a pesar mais do que em um aluno sem essa
rotina.
- Uso pedagógico do
próprio celular (TABLET, CHROMEBOOK) pode ser aliado, não inimigo. Para
quem já vive conectado, uma atividade que usa o celular de forma
estruturada (dentro da exceção prevista na lei) costuma gerar menos
resistência do que pedir para "desligar tudo" — porque não é o
aparelho em si que compete com a aula, é o hábito de dispersão que ele
carrega de casa.
Em resumo: para esse perfil de aluno, a intervenção mais eficaz não é sobre o celular em si, é sobre reconhecer a fadiga real por trás dele e ajustar exigência, ritmo e vínculo — a "guerra ao celular" tende a ser um esforço mal direcionado quando a causa de fundo é cansaço, não falta de interesse.


