terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PONTILHAR OU NÃO PONTILHAR: A AUTONOMIA DOCENTE DIANTE DAS DISPUTAS METODOLÓGICAS NA ALFABETIZAÇÃO

Introdução

As discussões sobre métodos de alfabetização frequentemente assumem um caráter normativo, no qual determinadas práticas são legitimadas enquanto outras são descartadas como inadequadas, sem que se considerem os contextos concretos da sala de aula. O uso de atividades pontilhadas insere-se nesse debate, sendo alvo de críticas que, muitas vezes, ignoram a diversidade de ritmos, necessidades e trajetórias dos alunos. Diante desse cenário, este artigo defende que a questão “pontilhar ou não pontilhar” deve ser compreendida como uma decisão pedagógica situada, cuja responsabilidade recai, prioritariamente, sobre o professor, profissional que acompanha cotidianamente o processo de alfabetização e conhece as necessidades reais de seus alunos. 

A alfabetização como prática contextualizada

A alfabetização é um processo complexo, que não pode ser reduzido à aplicação de métodos universais. Cada turma apresenta características próprias, e cada criança constrói sua aprendizagem de maneira singular. Tardif (2014) destaca que os saberes docentes são construídos na articulação entre teoria, experiência e prática cotidiana. Para o autor, o professor “não é um simples aplicador de teorias produzidas por outros, mas um sujeito que produz saberes no exercício de sua profissão” (TARDIF, 2014, p. 36).

Nesse sentido, o uso do pontilhado pode assumir diferentes funções pedagógicas, dependendo do contexto e dos objetivos definidos pelo docente. A tentativa de padronizar práticas ignora a natureza situada do trabalho pedagógico.

Autonomia metodológica do docente: fundamento pedagógico

A autonomia metodológica do professor constitui um princípio fundamental da prática educativa. Não se trata de liberdade irrestrita ou ausência de embasamento teórico, mas da capacidade profissional de escolher, adaptar e avaliar métodos e estratégias de ensino conforme a realidade da turma. Nóvoa (1992) afirma que a docência só se consolida como profissão quando o professor é reconhecido como sujeito de decisão pedagógica. Segundo o autor, “não há ensino de qualidade sem autonomia profissional dos professores” (NÓVOA, 1992, p. 25).

Essa autonomia é indispensável no processo de alfabetização, pois é o professor quem observa as dificuldades motoras, cognitivas e emocionais das crianças. Vygotsky (1998) reforça essa perspectiva ao afirmar que o ensino eficaz é aquele que considera a zona de desenvolvimento proximal do aluno, o que exige intervenções ajustadas às necessidades individuais. Para o autor, “o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental” (VYGOTSKY, 1998, p. 117), o que pressupõe decisões metodológicas conscientes.

Negar ao docente a autonomia para decidir sobre o uso ou não de pontilhados é desconsiderar sua formação, sua experiência e sua capacidade de análise pedagógica.
Teoria dissociada da prática: limites das críticas

Embora a produção acadêmica seja essencial para o avanço das discussões educacionais, é necessário reconhecer seus limites quando dissociada da prática docente. Parte significativa das críticas ao uso de pontilhados é formulada por sujeitos que não vivenciam o processo de alfabetização em sala de aula. Pessoas que nunca alfabetizaram uma criança não possuem, necessariamente, a experiência empírica suficiente para mensurar a necessidade ou a funcionalidade de determinados recursos pedagógicos, como o pontilhado enquanto método auxiliar.

Ferreiro (1999) afirma que a escrita é um sistema de representação e não um simples treino motor. No entanto, a própria autora reconhece que as crianças constroem hipóteses sobre a escrita em ritmos distintos, o que demanda intervenções diferenciadas. Interpretar suas contribuições como uma proibição absoluta de recursos de apoio gráfico revela uma leitura descontextualizada de sua obra.

O pontilhado como recurso auxiliar sob decisão docente

O pontilhado, quando utilizado como recurso auxiliar, pode contribuir para o desenvolvimento da coordenação motora fina e da organização espacial da escrita. Soares (2004) destaca que alfabetizar envolve múltiplas dimensões e que não existe um método único capaz de atender a todas as realidades. Para a autora, “as práticas de alfabetização precisam ser constantemente avaliadas e ajustadas às condições concretas de ensino” (SOARES, 2004, p. 68).

Dessa forma, cabe exclusivamente ao professor decidir se, quando e como utilizar o pontilhado, sempre articulando esse recurso a práticas significativas de leitura, escrita e produção de sentido. O problema não reside no recurso em si, mas em sua utilização acrítica e descontextualizada.

Considerações finais

O debate sobre o uso de pontilhados na alfabetização não pode ser conduzido por imposições teóricas ou discursos distantes da realidade escolar. Colocar o professor no centro dessa discussão é reconhecer que a alfabetização é um processo vivo, que exige observação, sensibilidade e decisões pedagógicas fundamentadas. Pontilhar ou não pontilhar deve ser, portanto, uma escolha metodológica do docente, respaldada por sua autonomia profissional, por sua experiência e pelo conhecimento profundo de sua turma.

Respeitar a autonomia metodológica do professor não fragiliza a alfabetização; ao contrário, fortalece-a, ao reconhecer que ensinar a ler e escrever não se faz por receitas prontas, mas por escolhas responsáveis e contextualizadas.

Referências

FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1999.

NÓVOA, António. Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização. São Paulo: Contexto, 2004.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

PONTILHAR OU NÃO PONTILHAR, EIS A QUESTÃO


Introdução

O processo de alfabetização envolve múltiplas metodologias, estratégias e recursos didáticos, todos atravessados por concepções de infância, aprendizagem e linguagem. Entre esses recursos, o uso de atividades com letras, palavras ou traçados pontilhados ocupa lugar de destaque — e também de controvérsia — nas práticas pedagógicas da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Enquanto alguns educadores defendem o pontilhado como instrumento importante para o desenvolvimento motor e para a familiarização com a escrita, outros o criticam por considerá-lo limitador da autonomia e da construção do pensamento escrito. Diante desse debate, surge a questão que orienta este artigo: pontilhar ou não pontilhar?


O uso de pontilhados no processo de alfabetização

As atividades pontilhadas são tradicionalmente utilizadas com o objetivo de auxiliar a criança no reconhecimento das letras, no controle do traçado e no desenvolvimento da coordenação motora fina. Para muitos professores, especialmente na Educação Infantil, o pontilhado funciona como um apoio inicial, oferecendo segurança à criança que ainda não domina o gesto gráfico.

Segundo Vygotsky (1998), o aprendizado ocorre por meio da mediação, ou seja, a criança aprende com o auxílio de instrumentos e da intervenção do outro. Nessa perspectiva, o pontilhado pode ser compreendido como um instrumento mediador, que orienta a ação da criança até que ela seja capaz de realizar a escrita de forma autônoma. O autor afirma que “aquilo que a criança consegue fazer hoje com ajuda, será capaz de fazer sozinha amanhã” (VYGOTSKY, 1998, p. 97).

Além disso, o uso de pontilhados pode contribuir para o fortalecimento da coordenação visomotora, habilidade essencial para a escrita. Conforme destaca Kishimoto (2011), atividades que envolvem traçados, desenhos e movimentos controlados são importantes para o desenvolvimento motor infantil, desde que façam sentido para a criança e estejam integradas a práticas significativas.


As vantagens do uso de pontilhados

Entre as principais vantagens apontadas pelos defensores do pontilhado, destaca-se o fato de que esse recurso pode reduzir a ansiedade da criança diante do desafio de escrever. Ao seguir um traçado previamente delimitado, o aluno sente-se mais confiante e motivado, especialmente nos estágios iniciais da alfabetização.

Outra vantagem refere-se à organização espacial da escrita. O pontilhado auxilia a criança a compreender o sentido da escrita, a direção do traçado e a proporção das letras. De acordo com Soares (2004), a alfabetização envolve tanto a apropriação do sistema de escrita quanto o domínio de habilidades motoras e perceptivas necessárias para sua execução.

Além disso, quando utilizado com intencionalidade pedagógica, o pontilhado pode funcionar como uma etapa transitória, não como um fim em si mesmo. Nesse sentido, ele deixa de ser uma atividade mecânica e passa a integrar um processo mais amplo de construção da linguagem escrita.


As críticas ao uso de pontilhados

Apesar das vantagens apontadas, o uso excessivo ou indiscriminado de pontilhados é alvo de críticas por parte de pesquisadores e educadores. Uma das principais objeções é que esse tipo de atividade pode estimular apenas a cópia mecânica, sem promover a reflexão sobre a escrita.

Emília Ferreiro (1999), referência nos estudos sobre alfabetização, critica práticas que reduzem a escrita a um simples treino motor. Para a autora, a criança não aprende a escrever apenas repetindo traçados, pois a escrita é, antes de tudo, um sistema de representação. Como afirma Ferreiro, “a escrita não é um desenho nem uma simples reprodução de formas, mas um sistema simbólico que a criança precisa compreender” (FERREIRO, 1999, p. 33).

Outro ponto levantado pelos críticos é que o pontilhado pode limitar a criatividade e a autoria da criança, uma vez que ela apenas segue um modelo pronto, sem a oportunidade de experimentar, errar e criar suas próprias hipóteses sobre a escrita. Nessa perspectiva, o risco está em transformar a alfabetização em uma atividade repetitiva e pouco significativa.


Pontilhar ou não pontilhar: uma questão de equilíbrio

Diante das posições favoráveis e contrárias, torna-se evidente que a discussão não deve se limitar a uma resposta simples. O problema não está necessariamente no uso do pontilhado, mas na forma como ele é utilizado. Quando empregado como único recurso, de maneira mecânica e descontextualizada, ele pode empobrecer o processo de alfabetização. No entanto, quando integrado a práticas significativas de leitura, escrita, brincadeira e produção textual, pode cumprir um papel auxiliar importante.

Como destaca Soares (2004), alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar letras, mas inserir a criança em práticas sociais de leitura e escrita. Assim, o pontilhado deve ser apenas uma entre muitas estratégias, e não o centro do processo.


Considerações finais

O debate sobre o uso de pontilhados na alfabetização revela a complexidade do ensinar e do aprender a escrever. Não se trata de defender ou condenar essa prática de forma absoluta, mas de refletir sobre seus objetivos, limites e possibilidades. Pontilhar ou não pontilhar, portanto, não é apenas uma escolha metodológica, mas uma decisão pedagógica que deve considerar o desenvolvimento integral da criança, suas necessidades, seu contexto e o sentido atribuído às atividades propostas.

Em uma alfabetização comprometida com a formação de sujeitos críticos, criativos e autônomos, o pontilhado pode existir — desde que não substitua a experiência viva, significativa e reflexiva da escrita.


Referências

FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1999.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2011.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização. São Paulo: Contexto, 2004.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Dez Dicas Importantes para Alunos no Início das Aulas - para alunos

 Ei, alunos! O ano letivo começou e é hora de brilhar na escola. Essas dez dicas vão te ajudar a se divertir aprendendo, fazer amigos e ter sucesso nas aulas. Vamos lá?

Chegue cedo e com tudo organizado.
Prepare a mochila na noite anterior: cadernos, lápis e lanche. Chegar adiantado dá tempo para bater papo com os amigos e se acalmar.

Ouça as regras e siga com empolgação.
Preste atenção no que a professora explica sobre as regras da sala. Elas ajudam todo mundo a conviver bem, como em um time de futebol!

Apresente-se aos colegas novos.
Diga "oi, eu sou [seu nome] e gosto de [seu hobby]". Fazer amigos logo torna a escola mais legal e divertida.

Levante a mão para falar ou perguntar.
Se tiver dúvida, não fique quieto! Perguntar mostra que você quer aprender, como um detetive resolvendo mistérios.

Faça anotações coloridas e bonitas.
Use canetinhas para destacar o importante no caderno. Isso ajuda a lembrar das lições, como um mapa do tesouro.

Participe das brincadeiras e dinâmicas.
Na roda de conversa ou jogos, dê ideias! Movimentar o corpo e rir faz o cérebro aprender melhor.

Cuide do material e do espaço comum.
Guarde lápis e livros no lugar certo e limpe a mesa. Ser responsável deixa a sala bonita para todos.

Peça ajuda se precisar e ajude os amigos.
Fale com a professora ou um colega se algo estiver difícil. Ajudar os outros faz você se sentir um herói.

Conte para os pais o que aprendeu no dia.
À noite, fale sobre a aula legal ou o que descobriu. Eles vão adorar e te ajudar em casa.

Durma bem e coma direito para ter energia.
Vá cedo para a cama e coma frutas no lanche. Um corpo forte deixa sua cabeça esperta para estudar e jogar!

Dez Dicas Importantes para o Início das Aulas - para professores

O começo do ano letivo é um momento crucial para estabelecer rotinas e criar um ambiente acolhedor na sala de aula. Para professores do ensino fundamental, essas dez dicas práticas podem fazer toda a diferença no sucesso do semestre, promovendo o aprendizado e o desenvolvimento integral dos alunos.

Prepare o ambiente físico com antecedência.
Organize a sala de aula de forma funcional: mesas em semicírculo para facilitar interações, murais com regras claras e cantinhos temáticos para leitura ou materiais. Um espaço atrativo desperta curiosidade desde o primeiro dia.

Conheça seus alunos individualmente.
No primeiro encontro, faça uma roda de conversa ou um "eu sou" rápido. Pergunte sobre interesses, hobbies e expectativas. Isso constrói confiança e permite personalizar o ensino logo de cara.

Estabeleça regras e rotinas claras.
Crie um cartaz coletivo com 4-5 regras simples, como "respeitamos o espaço do outro" e "levantamos a mão para falar". Revise-as diariamente na primeira semana para fixar hábitos positivos.

Planeje a acolhida emocional.
Inicie com dinâmicas leves, como desenhar "o que espero das aulas" ou compartilhar músicas sertanejas nostálgicas para quebrar o gelo. Alunos se sentem valorizados quando suas emoções são priorizadas.

Defina objetivos de aprendizagem visíveis.
Escreva no quadro ou em um mural os objetivos da semana, alinhados à BNCC. Explique como eles se conectam à vida real, como "aprender frações para dividir uma pizza com amigos".

Integre tecnologia de forma simples.
Use ferramentas acessíveis como YouTube Educativo ou apps gratuitos para vídeos curtos sobre o tema da aula. Em Goiás, plataformas como SESI Educação são ótimas para complementar.

Incorpore movimento e pausas ativas.
Inclua alongamentos ou jogos rápidos entre atividades para manter a atenção de crianças pequenas. Uma dica: "simão diz" adaptado ao conteúdo da aula.

Avalie o conhecimento prévio.
Aplique diagnósticos lúdicos, como quizzes com desenhos ou votações no celular. Isso revela lacunas e permite ajustes no planejamento sem pressão.

Comunique-se com as famílias.
Envie um WhatsApp ou bilhete no primeiro dia com horários, regras e como ajudar em casa. Parcerias família-escola fortalecem o desenvolvimento do aluno.

Cuide de si mesmo como professor.
Reserve tempo para refletir no fim do dia e planeje pausas. Um professor motivado inspira mais – ouça sua playlist sertaneja favorita para recarregar energias!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O PISO NACIONAL DO MAGISTÉRIO É, DE FATO, UM INSTRUMENTO DE VALORIZAÇÃO?

 Desde a sua criação, o Piso Salarial Nacional para os Profissionais do Magistério Público da Educação Básica tem sido apontado como um dos pilares da valorização docente no Brasil. Instituído pela Lei nº 11.738/2008, durante o Governo Lula (Lula 1), o piso surgiu com o propósito de estabelecer um valor mínimo a ser pago aos professores em todo o país, combatendo distorções salariais históricas entre as redes estaduais e municipais. Junto com o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), o piso representou um avanço normativo importantíssimo para a educação brasileira.

Antes dessas conquistas, os salários dos professores eram, em muitos estados e municípios, extremamente inferiores a qualquer parâmetro de dignidade profissional. A ausência de um piso nacional e de mecanismos de financiamento estruturados deixava a docência vulnerável à desvalorização sistemática: professores recebiam valores baixíssimos, sem garantia de reajuste automático, e muitas vezes com disparidades enormes entre regiões. O Fundeb, ao vincular recursos específicos para a educação, e o piso, ao obrigar um salário mínimo profissional, representaram marcos de justiça social e reconhecimento profissional.

No entanto, a simples existência de um piso nacional nem sempre se traduz em valorização efetiva. Em teoria, o piso deveria garantir que todos os professores recebessem, no mínimo, um salário que respeitasse sua formação, responsabilidade e importância social. Na prática, há vários desafios que limitam sua eficácia real:

1. Descumprimento por estados e municípios

Apesar de ser uma lei federal, o cumprimento do piso depende da disciplina financeira e da vontade política dos entes federativos (estados e municípios). Em um país com enormes desigualdades fiscais, muitas unidades da federação ainda enfrentam dificuldades em honrar o valor do piso, alegando falta de recursos, queda de arrecadação ou prioridades conflitantes. A própria lei prevê penalidades, mas a sua aplicação efetiva ainda é tímida e pouco eficaz.

Para que o piso seja cumprido de forma mais rigorosa, é necessário:

  • maior rigor dos órgãos de controle (Tribunais de Contas, Ministério Público, Justiça),

  • transparência nos dados de folha de pagamento,

  • prestação de contas periódica específica sobre o cumprimento do piso,

  • responsabilização de gestores que deixem de aplicar os recursos da educação de forma adequada.

2. Valor real do piso em comparação com outras carreiras

Outro ponto de crítica frequente é que, mesmo com o piso, o salário dos professores ainda fica bem aquém do que profissionais com a mesma formação recebem em outras áreas. Comparar o vencimento inicial do magistério com o de carreiras de áreas afins – como profissionais de outras áreas do serviço público, engenheiros ou especialistas em tecnologia – evidencia um abismo salarial que não se justifica pela formação acadêmica exigida.

Se o piso teve valor simbólico e normativo, o valor monetário estabelecido e os reajustes concedidos ao longo dos anos deixaram de acompanhar adequadamente a inflação, o custo de vida e a complexidade crescente do trabalho docente. Em muitos municípios, o piso do magistério ainda supera por pouco o salário mínimo ou se aproxima de categorias profissionais com menor exigência de formação.

3. Valorização vai além do salário

É fundamental reconhecer que a valorização do professor não se limita ao aspecto salarial. Reconhecimento profissional, formação continuada, melhores condições de trabalho, suporte pedagógico, infraestrutura adequada e respeito social são igualmente essenciais. O piso é um elemento importante, mas não é suficiente por si só para reverter décadas de desvalorização.

4. Caminhos para fortalecer o piso

Para que o piso seja, de fato, um instrumento de valorização concreta, algumas medidas devem ser consideradas:

  • atualização mais frequente e relevante do valor do piso, de forma que acompanhe não apenas a inflação, mas também o crescimento econômico e os indicadores de qualidade de vida;

  • vinculação mais rígida dos recursos do Fundeb ao pagamento do piso e à melhoria das condições de trabalho;

  • mecanismos de supervisão e penalização claros para entes que não cumprem o piso sem justificativa legítima;

  • políticas de formação continuada que elevem a carreira docente a padrões comparáveis a outras profissões com nível superior.

Conclusão

O piso nacional do magistério foi, sem dúvida, um avanço importante para o reconhecimento da importância dos professores no Brasil. Instituído em um momento histórico em que a educação passou a ser tratada com maior seriedade, ele representa um marco normativo que protege a carreira docente de salários predatórios e desigualdades extremas. No entanto, enquanto instrumento de valorização, ele ainda enfrenta lacunas significativas:

  • muitos estados e municípios não o cumprem plenamente;

  • o valor real ainda é baixo diante de outras profissões com formação equivalente;

  • a valorização docente exige políticas mais amplas do que apenas um piso salarial.

Para que o piso seja, de fato, um instrumento de valorização, é fundamental que ele caminhe lado a lado com políticas públicas consistentes, fiscalização rigorosa e um compromisso social renovado com o professor — que não é apenas quem ensina, mas quem forma gerações e sustenta o futuro do país.