Introdução
O processo de alfabetização envolve múltiplas metodologias, estratégias e recursos didáticos, todos atravessados por concepções de infância, aprendizagem e linguagem. Entre esses recursos, o uso de atividades com letras, palavras ou traçados pontilhados ocupa lugar de destaque — e também de controvérsia — nas práticas pedagógicas da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Enquanto alguns educadores defendem o pontilhado como instrumento importante para o desenvolvimento motor e para a familiarização com a escrita, outros o criticam por considerá-lo limitador da autonomia e da construção do pensamento escrito. Diante desse debate, surge a questão que orienta este artigo: pontilhar ou não pontilhar?
O uso de pontilhados no processo de alfabetização
As atividades pontilhadas são tradicionalmente utilizadas com o objetivo de auxiliar a criança no reconhecimento das letras, no controle do traçado e no desenvolvimento da coordenação motora fina. Para muitos professores, especialmente na Educação Infantil, o pontilhado funciona como um apoio inicial, oferecendo segurança à criança que ainda não domina o gesto gráfico.
Segundo Vygotsky (1998), o aprendizado ocorre por meio da mediação, ou seja, a criança aprende com o auxílio de instrumentos e da intervenção do outro. Nessa perspectiva, o pontilhado pode ser compreendido como um instrumento mediador, que orienta a ação da criança até que ela seja capaz de realizar a escrita de forma autônoma. O autor afirma que “aquilo que a criança consegue fazer hoje com ajuda, será capaz de fazer sozinha amanhã” (VYGOTSKY, 1998, p. 97).
Além disso, o uso de pontilhados pode contribuir para o fortalecimento da coordenação visomotora, habilidade essencial para a escrita. Conforme destaca Kishimoto (2011), atividades que envolvem traçados, desenhos e movimentos controlados são importantes para o desenvolvimento motor infantil, desde que façam sentido para a criança e estejam integradas a práticas significativas.
As vantagens do uso de pontilhados
Entre as principais vantagens apontadas pelos defensores do pontilhado, destaca-se o fato de que esse recurso pode reduzir a ansiedade da criança diante do desafio de escrever. Ao seguir um traçado previamente delimitado, o aluno sente-se mais confiante e motivado, especialmente nos estágios iniciais da alfabetização.
Outra vantagem refere-se à organização espacial da escrita. O pontilhado auxilia a criança a compreender o sentido da escrita, a direção do traçado e a proporção das letras. De acordo com Soares (2004), a alfabetização envolve tanto a apropriação do sistema de escrita quanto o domínio de habilidades motoras e perceptivas necessárias para sua execução.
Além disso, quando utilizado com intencionalidade pedagógica, o pontilhado pode funcionar como uma etapa transitória, não como um fim em si mesmo. Nesse sentido, ele deixa de ser uma atividade mecânica e passa a integrar um processo mais amplo de construção da linguagem escrita.
As críticas ao uso de pontilhados
Apesar das vantagens apontadas, o uso excessivo ou indiscriminado de pontilhados é alvo de críticas por parte de pesquisadores e educadores. Uma das principais objeções é que esse tipo de atividade pode estimular apenas a cópia mecânica, sem promover a reflexão sobre a escrita.
Emília Ferreiro (1999), referência nos estudos sobre alfabetização, critica práticas que reduzem a escrita a um simples treino motor. Para a autora, a criança não aprende a escrever apenas repetindo traçados, pois a escrita é, antes de tudo, um sistema de representação. Como afirma Ferreiro, “a escrita não é um desenho nem uma simples reprodução de formas, mas um sistema simbólico que a criança precisa compreender” (FERREIRO, 1999, p. 33).
Outro ponto levantado pelos críticos é que o pontilhado pode limitar a criatividade e a autoria da criança, uma vez que ela apenas segue um modelo pronto, sem a oportunidade de experimentar, errar e criar suas próprias hipóteses sobre a escrita. Nessa perspectiva, o risco está em transformar a alfabetização em uma atividade repetitiva e pouco significativa.
Pontilhar ou não pontilhar: uma questão de equilíbrio
Diante das posições favoráveis e contrárias, torna-se evidente que a discussão não deve se limitar a uma resposta simples. O problema não está necessariamente no uso do pontilhado, mas na forma como ele é utilizado. Quando empregado como único recurso, de maneira mecânica e descontextualizada, ele pode empobrecer o processo de alfabetização. No entanto, quando integrado a práticas significativas de leitura, escrita, brincadeira e produção textual, pode cumprir um papel auxiliar importante.
Como destaca Soares (2004), alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar letras, mas inserir a criança em práticas sociais de leitura e escrita. Assim, o pontilhado deve ser apenas uma entre muitas estratégias, e não o centro do processo.
Considerações finais
O debate sobre o uso de pontilhados na alfabetização revela a complexidade do ensinar e do aprender a escrever. Não se trata de defender ou condenar essa prática de forma absoluta, mas de refletir sobre seus objetivos, limites e possibilidades. Pontilhar ou não pontilhar, portanto, não é apenas uma escolha metodológica, mas uma decisão pedagógica que deve considerar o desenvolvimento integral da criança, suas necessidades, seu contexto e o sentido atribuído às atividades propostas.
Em uma alfabetização comprometida com a formação de sujeitos críticos, criativos e autônomos, o pontilhado pode existir — desde que não substitua a experiência viva, significativa e reflexiva da escrita.
Referências
FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1999.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2011.
SOARES, Magda. Letramento e alfabetização. São Paulo: Contexto, 2004.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
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