segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Brincar, aprender e preparar: a intencionalidade na Educação Infantil


A Educação Infantil ocupa um lugar decisivo na trajetória escolar de uma criança. É nela que se constroem as primeiras relações com a linguagem, com os números, com o espaço, com o outro e com o próprio conhecimento. Por isso, discutir a qualidade dessa etapa significa discutir também a qualidade da alfabetização que virá nos anos seguintes.

Nesse contexto, a intencionalidade pedagógica precisa estar no centro do trabalho da Educação Infantil. Não basta oferecer atividades, brinquedos, músicas, histórias e momentos de interação. É necessário que cada experiência tenha um propósito educativo claro e que o professor saiba exatamente o que pretende desenvolver, quais habilidades deseja estimular e como acompanhar a aprendizagem das crianças.

A BNCC trouxe uma contribuição fundamental ao reconhecer as especificidades da infância e ao estabelecer as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes da Educação Infantil. Entretanto, uma interpretação equivocada desses princípios pode levar algumas redes de ensino a transformar o direito de brincar em uma espécie de oposição ao direito de aprender. E esse é um equívoco que precisa ser enfrentado.

Brincar é uma forma de aprender. Mas brincar, por si só, não substitui a intencionalidade pedagógica.

Uma criança pode brincar com letras, números, histórias, rimas, sons, objetos e jogos sem necessariamente desenvolver todas as competências que esperamos. Cabe ao professor transformar essas experiências em situações de aprendizagem. Quando uma criança brinca de mercado, por exemplo, pode desenvolver linguagem, contagem, comparação de quantidades e noções de valor. Quando participa de uma história, pode ampliar vocabulário, desenvolver compreensão oral, perceber personagens e acontecimentos e começar a estabelecer relações entre fala e escrita.

A diferença está na intencionalidade do adulto.

Por isso, é necessário superar a ideia de que trabalhar conteúdos na Educação Infantil significa antecipar inadequadamente o Ensino Fundamental. Preparar a criança para a alfabetização não significa transformar o Jardim I ou o Jardim II em uma sala de primeiro ano. Significa oferecer experiências sistemáticas e adequadas à idade que construam as bases necessárias para que a alfabetização aconteça com maior qualidade.

Consciência fonológica, ampliação do vocabulário, contato frequente com livros, reconhecimento do próprio nome, identificação de letras, percepção dos sons da fala, compreensão da função social da escrita, coordenação motora, desenvolvimento da oralidade, classificação, comparação, contagem e construção das primeiras noções matemáticas não são elementos estranhos à infância. Pelo contrário, são fundamentos importantes para a aprendizagem posterior.

A criança não precisa ser submetida a uma rotina excessivamente escolarizada, com longas atividades de cópia e fichas repetitivas. Mas também não pode passar anos apenas brincando, sem que exista um planejamento pedagógico capaz de garantir avanços concretos.

O problema, portanto, não está em brincar. O problema está em brincar sem intenção educativa.

Da mesma forma, não devemos defender uma Educação Infantil baseada exclusivamente em atividades tradicionais de alfabetização. O caminho mais adequado está no equilíbrio: uma criança que brinca, interage, explora, imagina, cria e, ao mesmo tempo, aprende.

Essa discussão ganha ainda mais importância quando observamos os resultados da educação brasileira. O Ideb 2025 mostrou avanços nos anos iniciais do Ensino Fundamental, mas também revelou que ainda existem grandes desafios relacionados à aprendizagem. Se queremos melhorar a alfabetização, precisamos olhar para aquilo que acontece antes do primeiro ano.

A alfabetização não começa magicamente no dia em que a criança entra no 1º ano. Ela começa muito antes, quando a criança desenvolve a linguagem, percebe os sons, compreende que a escrita representa a fala, conhece livros, amplia seu vocabulário, reconhece letras, estabelece relações, desenvolve a atenção e constrói hipóteses sobre a leitura e a escrita.

É justamente por isso que a Educação Infantil precisa ser compreendida como uma etapa com identidade própria, mas também como uma etapa que prepara as bases para as aprendizagens futuras.

O Jardim II, especialmente, possui uma responsabilidade enorme nesse processo. É possível trabalhar letras, sílabas, formação de palavras, leitura compartilhada, histórias, rimas, números, quantidades, adição e subtração em situações adequadas à faixa etária, utilizando jogos, músicas, materiais concretos, histórias e brincadeiras. O que muda não é necessariamente o que se ensina, mas como se ensina.

A pergunta que cada rede de ensino deveria fazer é simples: ao final da Educação Infantil, o que esperamos que nossas crianças saibam e sejam capazes de fazer?

Se a resposta for apenas “brincar, socializar e desenvolver-se”, estaremos deixando de considerar uma parte essencial da função educativa da escola. Se a resposta for uma lista exagerada de conteúdos formais, estaremos antecipando inadequadamente o Ensino Fundamental.

Precisamos de uma terceira possibilidade: uma Educação Infantil que respeite a infância sem abrir mão da aprendizagem.

A criança precisa brincar. Precisa correr, cantar, imaginar, criar, conversar, explorar e experimentar. Mas precisa também ser desafiada intelectualmente. Precisa ouvir histórias todos os dias, conversar sobre elas, brincar com os sons das palavras, reconhecer letras, contar objetos, comparar quantidades, resolver pequenos problemas, organizar sequências, fazer perguntas e construir respostas.

O foco não deve ser escolher entre brincar ou aprender. O foco deve ser fazer do brincar um caminho intencional para aprender.

Uma Educação Infantil de qualidade não é aquela que deixa a criança ocupada durante todo o dia. É aquela em que cada experiência contribui para o seu desenvolvimento.

Por isso, interpretar corretamente a BNCC é fundamental. Valorizar as interações e as brincadeiras não significa abandonar o ensino. Significa compreender que, na infância, o ensino precisa acontecer de maneira significativa, lúdica, planejada e intencional.

O verdadeiro desafio das redes de ensino não é tornar a Educação Infantil mais “escolarizada”. É torná-la mais pedagógica, mais intencional e mais comprometida com a aprendizagem, sem perder a beleza, a espontaneidade e a singularidade da infância.

Porque criança tem direito de brincar.

Mas também tem direito de aprender.

E uma educação verdadeiramente comprometida com o futuro não pode colocar esses dois direitos em lados opostos.

O que o Ideb 2025 revela sobre a educação brasileira

 Os resultados do Ideb 2025 trazem uma mensagem importante para a educação brasileira: o país avançou, mas ainda está longe de superar seus principais desafios. Pela primeira vez, desde o início da série histórica, em 2005, o Brasil apresentou crescimento nas três etapas avaliadas — anos iniciais, anos finais do ensino fundamental e ensino médio.

Nos anos iniciais do ensino fundamental, o Ideb nacional passou de 6,0 para 6,3 entre 2023 e 2025. Nos anos finais, avançou de 5,0 para 5,3. Já no ensino médio, passou de 4,3 para 4,5. Considerando somente as redes públicas, os resultados também cresceram: de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais; de 4,7 para 5,0 nos anos finais; e de 4,1 para 4,3 no ensino médio.

Esse crescimento é significativo porque demonstra que as redes de ensino conseguiram melhorar tanto os indicadores de aprendizagem quanto o fluxo escolar. O Ideb combina justamente essas duas dimensões: o desempenho dos estudantes nas avaliações do Saeb e as taxas de aprovação.

Onde o Brasil melhorou?

O avanço mais expressivo aparece nos anos iniciais do ensino fundamental, especialmente em Língua Portuguesa e Matemática. Na rede pública, a média de Língua Portuguesa do 5º ano passou de 207,6 para 215,1 pontos, enquanto Matemática subiu de 218,3 para 227,4 pontos. Isso indica uma evolução importante das aprendizagens básicas.

Também houve crescimento nos anos finais e no ensino médio. No 9º ano, Língua Portuguesa passou de 252,9 para 256,6 pontos, e Matemática de 249,9 para 255,3. No 3º ano do ensino médio, Língua Portuguesa avançou de 269,1 para 272,3, enquanto Matemática passou de 263,9 para 268,0 pontos.

Outro dado positivo é que todas as unidades da Federação melhoraram seus resultados nos anos iniciais. Nos anos finais, 24 estados avançaram, dois permaneceram estáveis e apenas um apresentou queda. No ensino médio, 23 estados cresceram, três ficaram estáveis e apenas um apresentou redução.

Onde ainda precisamos melhorar?

O principal alerta continua sendo o ensino médio. Apesar do crescimento, o Ideb de 4,5 mostra que essa etapa permanece como um dos maiores desafios da educação brasileira. O resultado revela que os estudantes ainda chegam ao final da educação básica com dificuldades importantes, especialmente em Matemática e na consolidação das competências de leitura e interpretação.

Outro desafio é a desigualdade educacional. A média nacional melhorou, mas isso não significa que todos os municípios, escolas e estudantes tenham avançado da mesma maneira. O próprio MEC identificou 442 municípios com Ideb inferior a 4,9 nos anos iniciais, embora esse número tenha caído significativamente em relação aos 1.097 municípios nessa situação em 2023.

Isso mostra que o próximo passo não pode ser apenas aumentar a média nacional. É preciso garantir que os estudantes das redes e regiões com maiores dificuldades também avancem. A grande questão passa a ser, portanto, qualidade com equidade.

O que o Ideb 2025 deveria nos ensinar?

Os resultados sugerem que o Brasil precisa fortalecer principalmente a alfabetização e as aprendizagens fundamentais desde a Educação Infantil e os primeiros anos do Ensino Fundamental. Quanto mais sólida for essa base, maiores serão as possibilidades de o estudante chegar aos anos finais e ao ensino médio com condições de aprender conteúdos mais complexos.

Também é necessário investir na recomposição das aprendizagens, no acompanhamento individual dos estudantes, na formação continuada dos professores e em políticas capazes de identificar rapidamente aqueles que estão ficando para trás.

O resultado de 2025 também mostra que não basta aprovar o aluno. O próprio desenho do Ideb demonstra a importância de combinar fluxo escolar com aprendizagem. Uma educação de qualidade precisa garantir que o estudante permaneça na escola, avance de etapa e, principalmente, aprenda aquilo que precisa aprender em cada fase.

Uma conclusão necessária

O Ideb 2025 deve ser recebido com comemoração, mas também com responsabilidade. Comemorar porque o Brasil alcançou os melhores resultados da série histórica nas três etapas avaliadas. Responsabilidade porque uma média nacional de 4,5 no ensino médio e 5,3 nos anos finais ainda está distante do que podemos considerar uma educação plenamente satisfatória.

Mais do que perguntar “qual foi a nota?”, precisamos perguntar: “o que nossos estudantes estão aprendendo, em que idade estão aprendendo e quem ainda não está aprendendo?”

O grande desafio para os próximos anos é transformar o avanço do Ideb em aprendizagem real, permanente e distribuída de forma mais justa. O Brasil já demonstrou que consegue melhorar seus indicadores. Agora precisa demonstrar que consegue fazer com que cada criança e cada jovem, independentemente do município ou da escola em que estuda, tenha o direito de aprender com qualidade.

Em síntese, o Ideb 2025 não representa o fim de um problema. Representa uma oportunidade: avançamos, sabemos onde avançamos e os dados também mostram onde precisamos concentrar nossos esforços.