quinta-feira, 3 de junho de 2010
Idade real e idade ilusória
O bar do "Lanzudo"
sexta-feira, 28 de maio de 2010
SOCIEDADE, POLÍTICA E CULTURA
A “conversão” dos índios pelos Padres Jesuítas, no início da colonização brasileira é um processo que ainda hoje nos parece comum encontrar nas escolas públicas e particulares brasileiras. Como se a criança, ou até mesmo o adulto, não viessem com uma bagagem natural conseguida através da convivência com seus familiares e pessoas mais próximas. Até mesmo através das mídias eletrônicas, hoje cada vez mais presentes na vida das pessoas.
É importante, para não dizer fundamental, que a criança (aluno) tenha respeitada sua essência, sua vida anterior, sua trajetória, por mais curta que seja. A crença na “formação” do aluno ainda perdura nas escolas dentro de um viés tradicionalista que resiste a mais profunda das mudanças.
A bagagem adquirida é o início que o aluno tem para se estabelecer enquanto ser e é sua identidade social. A cultura familiar e social não podem ser ignoradas dentro da escola como algo inútil, são elementos constitutivos da realidade do aluno que devem estar presentes no contexto da aula, é isso que dá valor ao conhecimento, e é isso que faz do aluno um cidadão.
O processo ensino aprendizagem vai se construir a partir das bases pré estabelecidas que cada um carrega. Não se pode passar uma borracha em toda cultura trazida com o aluno e a partir daí construir – ou desconstruir – uma nova identidade, uma nova realidade para a criança.
Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. Assim como a definição da identidade depende da diferença, a definição do normal depende da definição do anormal.
Assim, a cultura anterior do aluno está presente como elemento que faz parte e se transforma á medida em que este vai adquirindo novos conhecimentos e ampliando sua vida social e constituindo como cidadão ativo e agente transformador de sua realidade enquanto ser que vive em sociedade.segunda-feira, 3 de maio de 2010
Quem sou como professor e aprendiz?
SOU UM PROFESSOR QUE BUSCA SEMPRE APOIO PARA DESENVOLVER UM TRABALHO QUE SEJA SIGNIFICATIVO NA VIDA DOS ALUNOS. DESTA FORMA, ACREDITO QUE ESTEJA NO CAMINHO CERTO QUANDO PROCURA PARTICIPAR DE CURSOS COMO ESTE QUE CONTRIBUEM PARA NOSSO DESENVOLVIMENTO E AINDA NOS POSSIBILITA CONHECER NOVAS FORMAS DE INTERAGIR COM NOSSOS ALUNOS. VIVEMOS A ANGUSTIA DE UM MOMENTO DE TRANSIÇÃO, AS VEZES NOS SENTIMOS PERDIDOS FRENTE AS NOSSAS DIFICULDADES. NOSSA INSEGURANÇA ACABA SENDO TRANSMITIDA A NOSSOS ALUNOS E ISTO PROVOCA UMA RUPTURA DENTRO DO PROCESSO ENSINO/APRENDIZAGEM, ACABAMOS POR MAQUINIZAR ALUNOS DIANTE DE NOSSAS DEFICIÊNCIAS.
POR ISSO ENTENDO QUE A INTERAÇÃO E O SABER OUVIR SÃO FUNDAMENTAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UM PROCESSO DE CRESCIMENTO INTELECUTAL QUE SE EFETIVE COMO UMA MOLA PROPULSORA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO.
AS FORMAS DE ENSINAR DEVEM ESTAR CONSTANTEMENTE EM MUTAÇÃO, POIS TRABALHAMOS COM TURMAS HETEROGENEAS, SENDO ASSIM, DEVEMOS TAMBÉM SER HETEROGENEOS NA FORMA DE ENSINAR, NO DIÁLOGO COM NOSSOS ALUNOS E LEVAR ESTA PRÁTICA PARA A NOSSA VIDA.
NOSSA PRÁTICA DEVE COSIDERAR O CONTEXTO EM QUE VIVEMOS, O CONTEXTO EM QUE OS ALUNOS VIVEM PRINCIPALMENTE. DEVEMOS TIRAR O GESSO QUE ACABA POR NOS ENVOLVER E QUE TRANSMITIMOS PARA NOSSOS ALUNOS.
CRESCEMOS E NOS DESENVOLVEMOS DENTRO DE UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA TRADICIONAL, POR ISSO TEMOS EM NOSSAS RAÍZES ESTE TRADICIONALISMO EXCLUDENTE. ACEITANDO ISSO, ESTAREMOS PRONTOS PARA MUDAR, PARA NOS TREANSFORMAR E ASSIM TRANSFORMAR NOSSA PRÁTICA ENQUANTO EDUCADORES.
O MUNDO ESTÁ MUDANDO E COM ELE A SOCIEDADE. ENQUANTO ISSO, AINDA DESCOBRINOS DENTRO DA ESCOLA, QUE DEVERIA SER O CENTRO DAS TRANSFORMAÇÕES, UMA PRÁTICA QUE PROCURA MANTER O OS SISTEMAS DOMINANTES, LONGE DE UMA PRÁTICA TRANSFORMADORA QUE EFETIVAMENTE É O PAPEL DA EDUCAÇÃO.
domingo, 2 de maio de 2010
Seres Humanos Digitalizados
Revista Veja - Participar de um projeto como o MyLifeBits mudou a vida do senhor?
Gordon Bell - Eu me tornei portátil. Estou livre de pilhas e pilhas de papéis. Toda a minha vida está arquivada num disco rígido. Ela ocupa 260 gigabytes. Posso, por exemplo, trabalhar em qualquer lugar do mundo, contanto que esteja com meu computador por perto. Ter tudo digitalizado também me deixa bastante seguro. Em certo sentido, tenho uma sensação de imortalidade. Aliás, no futuro, nossas memórias digitais poderão ser transformadas em avatares. Eles conversarão com nossos descendentes. Uma das consequências da memória total é que deixaremos uma história incrivelmente mais rica para a posteridade. (Depoimento de Gordon Bell, cientista americano, responsável em parceria com Jim Gemmell, pelo projeto MyLifeBits, da Microsoft Research, e co-autor do livro Total Recall - Memória Total)
O entusiasmo de Bell, aos 75 anos, com as possibilidades legadas pelas novas tecnologias é contagiante. A leitura destas linhas e de toda a entrevista feita com ele e com seu parceiro de pesquisa, Jim Gemmell, traça as linhas daquilo que se prenuncia não como um futuro distante, mas como algo que já está acontecendo e que irá ser ampliado para toda a humanidade como possibilidade real de serviços.
Mas olhemos com atenção alguns trechos de seu depoimento contidos na pergunta acima destacada:
Ao afirmar que se tornou "portátil", há uma vinculação direta e aparentemente total entre homem e máquina, como se fôssemos um ser composto e, de certa forma, indissolúvel, a partir de agora, pois na continuação de sua fala, Bell menciona que esta condição (portátil) está vinculada à posse de seu computador, fiel escudeiro, sempre por perto... É claro que isto é um exagero, ainda mais em se tratando de um cientista de ponta, responsável por um projeto bancado pela Microsoft, mas por trás desta colocação, é possível prever (até mesmo com base no que já vemos em nosso cotidiano) como realmente estamos ficando techaddicts (não sei se a expressão existe, mas seria uma espécie de "viciados em computador", traçando um paralelo com drugaddicts, viciados em drogas).
Ao dar números à sua vida, estipulando que ela hoje representa 260 gigabytes, com base em todos os registros feitos por ele dentro da pesquisa MyLifeBits, através da qual sua vida está sendo constantemente filmada e gravada em bits, além de todos os demais registros possíveis (fotos, escritos, falas...), Bell realiza o sonho da ciência, de metrificar, quantificar e, eventualmente, pesar, avaliar e ponderar o próprio ser humano...
Com tantas câmeras e recursos digitais ao nosso redor, ainda que a partir de certo momento de nossas vidas venhamos a esquecer todo este monitoramento, que garantia temos quanto à nossa privacidade e espontaneidade? Quanto a isto, em outro momento da entrevista, Bell afirma que pode ser benéfico, pois nos fará sempre escolher os melhores e mais éticos caminhos quanto ao que fazemos de nossas vidas... Errar deixa então de ser uma possibilidade? Que futuro estamos legando às novas gerações se as atrelamos a sistemas que não lhes permitirão nem sequer cometer falhas?
A questão da aparente "imortalidade" remonta também a sonhos e ideais da ciência desde tempos imemoriais. Indo um pouco além, com tanto registro, dados abundantes, informações a bel prazer, que esforço real nossa mente, o maior de todos os supercomputadores como já tive a oportunidade de registrar neste espaço virtual, terá que fazer? Que estímulos quanto à memória e ao desenvolvimento do raciocínio e da criatividade existirão para os seres humanos a partir de agora?
E outra: todos seremos então imortais a partir do registro de nossas existências, o que me parece bastante belo e democrático... No entanto, vale refletir sobre se queremos isto e, ainda, que valor real existirá para a humanidade o conhecimento de todas estas experiências individuais...
Escrevendo estas linhas, concluo que a ficção está morrendo e sendo substituída pela realidade ou, melhor dizendo, pela virtualidade... Lembrei-me de filmes como Substitutos, 1984, Matrix, Admirável Mundo Novo e Violação de Privacidade (The Final Cut, 2004)... Neste último, com chips implantados em nossos cérebros, o registro de tudo aquilo que ocorre em nossas vidas é armazenado automaticamente em computadores "linkados" a este chip, reproduzindo a ideia do projeto MyLifeBits e do livro Total Recall (cujo título também remonta à ficção científica, pois há um filme estrelado por Arnold Schwarzenneger, baseado em obra de Phillip K. Dick, de mesmo nome).
A Modernidade em questão
O operário aperta as peças que passam a sua frente alucinadamente, mal tem tempo para espantar uma mosca que atrapalha sua concentração, nem consegue ir ao banheiro, está sob constante supervisão, exige-se dele total dedicação e empenho. Há prazos a respeitar e encomendas a entregar. Há modelos e padrões que devem servir de exemplo para todos...
A paródia criada por Charles Chaplin em seus “Tempos Modernos” apresenta de forma criativa e engraçada uma das situações corriqueiras vividas por muitas pessoas depois do surgimento da Indústria e da concepção contemporânea de trabalho. Temos que produzir e consumir, para isso somos instados a todo o momento a uma rígida disciplina que chega a nos oprimir, que nos causa enormes dores de cabeça e nos condena a um stress sem fim...
Vários outros aspectos têm contribuído para um sem número de moléstias da modernidade:- O trânsito, as longas horas longe da família, a falta de tempo para dedicar-se a esportes ou outras atividades de lazer, a impossibilidade de alimentar-se com tranqüilidade e prazer, o distanciamento da religião, a dificuldade para continuar estudando,...
Há ainda acontecimentos de caráter geral, especificamente estruturais, relacionados à doutrinação realizada através da mídia, do estado, da escola, do trabalho, da família, da igreja e de todos os órgãos institucionalizados dentro da ordem capitalista, que impedem o homem de ser quem ele realmente é, de viver do jeito que realmente gostaria de viver, de trabalhar com prazer e satisfação...
São instrumentos implícitos a realidade em que nos encontramos inseridos. Estão consolidados como verdades jurídicas e culturais. Reiteram a todo o momento a necessidade da produtividade, da disciplina, da aceitação dos princípios régios que comandam as sociedades e acabam, de certa forma, homogeneizando os homens, tornando-os cada vez mais iguais, padronizados, repetitivos...
Há pouquíssimo espaço para criar, para respirar fundo e fugir dos estereótipos dominantes. Quem consegue vencer as barreiras impostas e questiona toda essa modernidade vira ícone da rebeldia, de uma valentia mitificada, da eterna utopia que alimenta a alma humana.
Para tratar desse assunto, depois de algumas discussões acerca das vantagens e desvantagens da modernidade, resolvemos em nossas aulas (com uma turma de 2º ano do Ensino Médio) abrir espaço para descobrir as pessoas, idéias e movimentos que tiveram coragem e sabedoria para colocar em xeque as fórmulas desse “admirável mundo novo” criado depois da “era das revoluções” (século XVIII, com as Revoluções Industrial, Americana e Francesa).
De nossas leituras emergiram homens e movimentos contestatórios dessa ordem alienante. Descobrimos que desde o século XVIII já existiam pessoas insatisfeitas em busca de alternativas que permitissem aos homens atingir a felicidade, a liberdade, à integridade e a dignidade que sempre buscaram e que a ordem burguesa havia prometido a eles sem cumprir...
A contestação apareceu nas páginas de Baudelaire, na proposta de revolução socialista de Marx, na psicanálise de Freud, no super-homem de Nietzsche, na Teoria da Relatividade de Einstein ou ainda na Seleção Natural das Espécies de Darwin. Descobrimos que a política podia ser discutida não apenas em parlamentos ou comícios, mas também na pesquisa científica, na literatura ou através de uma profunda análise histórica das sociedades e dos próprios seres humanos.
Percebemos que o Romantismo, o Modernismo, a Escola de Frankfurt ou Woodstock revitalizaram a humanidade presenteando-a com a possibilidade de sonhar, de criar, de burlar modelos e superar todo e qualquer totalitarismo.
E como fizemos essa imensa viagem pelo que se produziu de mais libertário no mundo pós-industrial?
Para começar lemos alguns textos introdutórios, através dos quais ficamos sabendo um pouco mais a respeito de cada um desses acontecimentos e personalidades. Tínhamos que descobrir quem eram, o que representavam, que produções realizaram, como enfrentaram as engrenagens que tantas vezes engoliram dezenas e dezenas de idealistas libertários.
Percebemos como ponto comum à capacidade de olhar criticamente para as coisas que acontecem a nosso redor e questionar essa ordem. Entendemos que para fazer isso são necessárias força e coragem, pois as cobranças e pancadas no sentido contrário são certezas sempre que assumimos posições fortes e desmistificadoras.
Vimos que todos os envolvidos sofreram perseguições e punições por suas opiniões e ações. Soubemos que foram incompreendidos por muitas pessoas (e continuam sendo até hoje). Descobrimos que para atingir seus objetivos essas pessoas se embasaram na cultura e na realidade, atingiram um nível elevado de maturidade em seus projetos e acreditaram sempre naquilo que estavam fazendo.
Lutaram contra a uniformização dos homens através da crescente influência da indústria cultural e da comunicação de massa (ficamos sabendo da existência de Adorno, Marcuse, Horkheimer e Walter Benjamin da Escola de Frankfurt). Questionaram a ordem institucionalizada se recusando a fazer a guerra ou a votar em favor de todo conservadorismo, consumismo e desigualdades da ordem capitalista (Os jovens e sua revolução através da música, do amor, do sexo e das drogas nos anos 1960).
Descobriram que não há verdades absolutas e que tudo é relativo, como nos ensinou o físico Albert Einstein. Perceberam que a arte pode ter várias formas, luzes, cores e representações, como pudemos ver com as obras de Pablo Picasso ou Salvador Dali. Defenderam a multiplicidade tão própria da espécie humana em contrapartida a homogeneização proposta e realizada pelo sistema, como na obra do radical Nietzsche.
Quiseram ver um mundo igual, em que ninguém se diferenciasse a partir de suas posses, de suas propriedades, como nas obras de Marx e Engels. Explicaram nossas origens sem se pautar em conceitos religiosos e sim na ciência, obra do cientista Charles Darwin. Buscaram compreender a humanidade a partir de seu inconsciente, a partir das pesquisas de Sigmund Freud.
E, de repente, todo esse conhecimento era alvo da pesquisa de uma juventude ávida por novos conhecimentos e em busca de respostas para as insatisfações do cotidiano moderno em que estão inseridos. Dessa curiosidade surgiram diagramas deslocados das folhas de sulfite para transparências e, dessas para a parede da sala de aula para que todos pudessem conhecer um pouco mais sobre o assunto.
De súbito nossa aula virou um espaço para a discussão da felicidade sacrificada pela correria, pelo stress, pela ausência, pelo desamor e pela falta de Deus. De que adianta tanta modernidade se cada vez mais nos vemos tão distantes da felicidade? Aonde iremos parar com tudo isso? O que queremos para nossas vidas?
Não podíamos celebrar melhor a memória e as idéias de todas essas pessoas e movimentos...
segunda-feira, 19 de abril de 2010
As razões do sucesso ou do fracasso na vida pública
Resta considerar agora como um príncipe deve comportar-se com os seus súditos e amigos. Sabendo que muitos já escreveram sobre esta matéria, duvido que não venha a ser tido por presunçoso propondo-me ao seu exame, tanto mais que, ao tratar deste assunto, não me alongarei muito dos princípios já propostos pelos outros.
Entretanto, como é meu desejo escrever coisa útil para os que tiverem interesse, mais conveniente me pareceu buscar a verdade pelo fito das coisas, do que por aquilo que delas se venha a supor. E muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos e nunca tidos como verdadeiros.
Tanta diferença existe entre o modo como se vive e como se deveria viver, que aquele que se preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz, antes aprende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são Perversos. Deste modo, é preciso a um príncipe, para se conservar que aprenda a poder ser mau e que se utilize ou deixe de se utilizar disto conforme a necessidade.
Deixando de lado, portanto, as coisas que se ignoram com relação aos príncipes e falando a propósito das que são reais, digo que todos os homens, sobretudo os príncipes, por ficarem mais alto, fazem-se notáveis pelas qualidades que lhes trazem reprovação ou louvor.
Quer dizer, uns são considerados liberais, outros como miseráveis (usando o termo da Toscana mísero, porque avaro, em nossa língua, ainda significa o que deseja possuir pela rapinagem e miséria, apelidamos aos que se abstêm muito de utilizar suas posses); alguns são considerados pródigos, outros rapaces.
Alguns são cruéis, outros piedosos; perjuros ou leais; efeminados e pusilânimes ou truculentos e animosos de humanidade ou soberbos; lascivos ou castos; estúpidos ou astuciosos; enérgicos ou tíbios; graves ou levianos; religiosos ou ateus, e daí afora.
E eu sei que qualquer um reconhecerá que muito louvável seria que um príncipe possuísse, de todas as qualidades enumeradas, as tidas por boas; mas a condição do homem é tal, que não permite a posse completa delas, nem mesmo sua prática consistente; é preciso que o príncipe seja tão prudente que saiba evitar os defeitos que lhe tirariam o governo e praticar as qualidades próprias para lhe garantir a posse dele, se lhe é possível; não podendo, porém, com menor preocupação, deixe-se que os fatos sigam seu curso natural.
E mesmo não lhe importe incorrer na pecha de ter certos defeitos, sem os quais dificilmente salvaria o governo, porque, se considerar bem tudo, achar-se-ão coisas que parecem virtudes e, se praticadas, lhe provocariam a ruína e outras que parecerão vícios e que, seguidas, trazem bem-estar e tranqüilidade ao governante.
Nicolau Maquiavel, em sua clássica obra de realismo político, O Príncipe.
sábado, 17 de abril de 2010
A educação e suas origens
Nascemos fracos, precisamos da força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos, é nos dado pela educação.
Essa educação nos vem da natureza, ou dos homens ou das coisas. O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e o ganho de nossa experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas.
Cada um de nós é portanto formado por três espécies de mestres. O aluno em quem as diversas lições desses mestres se contrariam é mal educado e nunca estará de acordo consigo mesmo; aquele em quem todas visam os mesmos pontos e tendem para os mesmos fins, vai sozinho a seu objetivo e vive em conseqüência. Somente esse é bem educado.
Ora, dessas três educações diferentes a da natureza não depende de nós; a das coisas só em certos pontos depende. A dos homens é a única de que somos realmente senhores e ainda assim só o somos por suposição, pois quem pode esperar dirigir inteiramente as palavras e as ações de todos os que cercam uma criança?
Jean-Jacques Rousseau, O Emílio ou Da Educação
quarta-feira, 14 de abril de 2010
A Felicidade na Verdade
“Pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou na falsidade. Todos são categóricos em afirmar que a preferem na verdade, como em dizer que desejam ser felizes. A vida feliz é a alegria que provém da verdade.
Tal é a que brota de Vós, ó Deus, que sois a ‘minha luz, a felicidade do meu rosto’ e o meu Deus. Todos desejam essa vida feliz. Oh! Todos querem esta vida, que é a única feliz; sim, todos querem a alegria que provém da verdade.
Encontrei muitos com desejos de enganar outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado. Onde conheceram eles esta vida feliz senão onde alcançaram o conhecimento da verdade?
Amam a verdade, porque não querem ser enganados; e, ao amarem a verdade feliz, que não é mais que a alegria oriunda da verdade, amam, com certeza, também a verdade. Não a poderiam amar, se não tivessem na memória qualquer noção de verdade. Por que não encontram nela a sua alegria? Por que não são felizes?
Não são felizes porque, entregando-se com demasiado afinco a outras ocupações em que, em vez de ditosos, os tornam ainda mais desgraçados, recordam, apenas frouxamente, aquela Verdade que os pode fazer felizes. ‘Por enquanto ainda há uma luz entre os homens’. Caminhem, caminhem depressa, ‘para que as trevas não os surpreendam’”.
Confissões de Santo Agostinho, Livro X – O Encontro com Deus.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Alfabetizar letrando
O professor deve fornecer ferramentas para o aluno construir o seu processo de aprendizagem da leitura e escrita.
Na etapa inicial, isto é, na Educação Infantil, a escola tem obrigação de ajudar o aluno a se apropriar da escrita alfabética e informatizar o seu uso.
Para realizar essa tarefa, o professor não deve deixar o aluno se esforçar sozinho para entender “por que coisas que se fala parecido tendem a ser escritas de modo parecido o professor deve ajudar o aluno a refletir sobre palavras retiradas de textos lidos (além de outras que são significativas para o aluno)”. É essencial praticar a leitura e a escrita no cotidiano escolar “trabalhar com palavras”, propiciar aos alunos refletir sobre elas, montá-las e desmontá-las.
Nessas ocasiões, mesmo ainda sem saber ler convencionalmente, os alunos poderão se apoderar de algumas estratégias de leitura: estratégias de antecipação, de checagem de hipóteses, de comparação, entre outras ( utilizadas por um cidadão letrado. Explorando e também produzindo textos observados pelo professor ou por outro aluno já “alfabetizado”), os alunos estarão desenvolvendo conhecimentos sobre a linguagem que se utiliza nos textos que percorrem a sociedade letrada.
Com base nos estudos e pesquisas de hoje em dia, “Alfabetizar letrando” requer: Democratizar a vivência de práticas de uso da leitura e da escrita e ajudar o aluno a, ativamente, reconstruir essa invenção social que é a escrita alfabética.
Se a escrita alfabética é uma invenção cultural, seguindo as idéias de Vygotsky, os professores, como membros mais experientes da cultura devem auxiliar os alunos a prestar atenção/analisar/refletir sobre os pedaços sonoros e escritos das palavras. Isso, é claro, não seria, de forma alguma, usar métodos fônicos ou treinar a “produção de fonemas” num mundo sem textos e sem práticas de leitura.
A partir de 1983, através de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, o professor começou a repensar a sua prática cotidiana em sala de aula. Nos dias de hoje, sabemos que um indivíduo plenamente alfabetizado é “aquele capaz de atuar com êxito nas mais diversas situações de uso da língua escrita. Dessa forma, não basta apenas ter o domínio do código alfabético, isto é, saber codificar e decodificar um texto: é necessário conhecer a diversidade de textos que percorrem a sociedade, suas funções e as ações necessárias para interpretá-los e produzi-los.” O processo de alfabetização ocorre durante toda a escolaridade e tem início antes mesmo da criança ingressar na escola. Implica em tomar como ponto de partida, o texto, pois este é revestido de função social e não mais as palavras ou sílabas sem sentido. O professor deve buscar um vocabulário que tenha realmente significado para a classe, isto é, que seja retirado das suas experiências. Atualmente, a cartilha não é o recurso mais favorável à aprendizagem da leitura e da escrita, principalmente, porque não tem qualquer significado para o aluno e apresenta textos desconexos, apenas garantindo a “memorização das famílias silábicas.”
Para Teberosky, deve ser considerada no processo de alfabetização, a diferenciação entre a escrita e a linguagem.
Segundo a referida autora, a escrita deve ser entendida como um sistema de notação, que no caso da língua portuguesa é alfabetização (conhecer as letras, sua organização, sinais de pontuação, letra maiúscula, ortografia, etc.). A linguagem escrita é definida como as formas de discurso, as condições e situações de uso nas quais a escrita possa ser utilizada (cartas, bilhetes, notícias, relatos científicos, etc.)
Inicialmente, o professor precisa tomar por base o texto e não mais as palavras-chaves. O texto deve ser o elemento fundamental para inserir a criança no universo letrado’.
Além da escrita espontânea, pode ser considerado também o trabalho com modelos, que possibilitam ‘as crianças comparem suas hipóteses com o convencional. Através de listas de palavras de um mesmo campo da semântica (brinquedos, jogos prediletos, comidas preferidas, personagens de livros e gibis, nomes dos alunos da classe, frutas, etc.) das parlendas e de outros textos, as crianças, hoje, podem ampliar suas concepções e progredir na aquisição da base alfabética, como na compreensão de outros aspectos (a grafia correta das palavras, o uso de sinais gráficos, etc.).
Simultaneamente, os diversos tipos de texto necessitam aparecer como objeto de análise, propiciando aos alunos diferenciá-los, conhecer melhor suas funções e características particulares. Para que isso ocorra, é essencial que saibam interpretá-los e escrevê-los. A expressão pessoal (bilhetes, cartas, diários, receitas culinárias, etc.) deve fazer parte do trabalho do professor, no entanto, esta deve vir acompanhada pela escrita de outros textos, inclusive com o apoio de modelos.
Cabe à escola, desde a Educação Infantil, alimentar a reflexão sobre as palavras, observando, por exemplo, que há palavras maiores que outras, que algumas palavras rimam, que determinadas palavras tem “pedaços” iniciais semelhantes, que aqueles “pedaços” semelhantes se escrevem muitas vezes com as mesmas letras, etc.
Não se trata de apresentar fonemas para que os alunos memorizem isoladamente os grafemas que correspondem a eles na nossa língua. Como o aprendizado do sistema de escrita alfabética é, acima de tudo, conceitual, o que é preciso é que os alunos possam manipular/montar/desmontar palavras: observando suas propriedades; quantidade e ordem de letras, letras que se repetem, pedaços de palavras que se repetem, e que tem som idêntico. O professor deve estimular o desenvolvimento das habilidades dos alunos de reflexão sobre as relações entre partes faladas e partes escritas, no interior das palavras.
O uso das palavras estáveis como os nomes próprios e de certos tipos de letra, como a letra de imprensa ou letra script, tem uma explicação. Quanto às palavras que se tornam “estáveis”, o fato de o aluno ter memorizado sua configuração, possibilita-lhe refletir sobre as relações parte-todo tentando desvendar o mistério daquelas relações; por que a palavra inicia com determinada letra e continua com aquelas outras naquela ordem? Por que falamos tantos (pedaços) sílabas e tem mais letras quando escrevemos? Quanto ao uso das letras de imprensa ou script, o fato de terem um traçado mais simplificado, e de cada letra aparecer mais separada das demais, possibilitando ao aluno saber onde começa e termina cada letra, permite ao aluno investir no trabalho cognitivo, fazer uma reflexão necessária à reconstrução do objeto de conhecimento, isto é, o sistema alfabético.
O professor deve garantir que as práticas escolares ajudem o aluno a refletir enquanto aprende e a descobrir os prazeres e ganhos que se pode experimentar quando a aprendizagem do sistema de escrita é vivenciado como um meio para, independentemente, exercer a leitura e a escrita dos cidadãos letrados.
domingo, 7 de março de 2010
Qual nossa prioridade? Educar ou Punir?
A Corrente do Bem - Como iniciar grandes transformações a partir de pequenos passos
Pensar na escola como sendo um lugar que pode gerar uma transformação tão grandiosa que ultrapasse os limites espaciais da vida de um estudante é algo que nos parece longe demais, no entanto, o filme a "Corrente do Bem" parte dessa premissa, parece querer nos dizer que o aquilo que nos parece aparentemente impossível pode estar ao nosso alcance.
A história do filme tem um grande mérito em seu currículo, já foi capaz de promover o surgimento nos Estados Unidos de um movimento assemelhado ao que foi apresentado nas telas, portanto, como dizemos na gíria, "moveu montanhas".
Vamos ao filme, trata-se da história de um garoto de 12 ou 13 anos, portanto um aluno de 7ª Série, com as aulas começando, em seu primeiro dia. Quando o garoto e seus colegas chegam a sala de aula, encontram o professor de geografia os aguardando, sentado em uma cadeira, a meditar sobre os pontos que pretende desenvolver nesse primeiro encontro com seus novos alunos. Quando todos estão sentados e instala-se um necessário silêncio, o professor inicia suas atividades apresentando-se e falando sobre os propósitos de seu curso e das dificuldades de se trabalhar com adolescentes; apesar de ter marcado o mapa na lousa em diversos pontos, o professor despreza o material e propõe uma atividade diferenciada, pergunta aos alunos sobre a possibilidade de desenvolvimento de um projeto, mas não um simples trabalho escolar, algo que vá além, que gere consequências, que provoque transformações.
Apesar de inicialmente termos a idéia de que tal professor (vivido pelo oscarizado Kevin Spacey, premiado pelo seu trabalho no crítico "Beleza Americana") é conservador e que suas aulas devem corresponder a sua postura e atitude diante do grupo, esta proposta inicial nos coloca diante de uma nova perspectiva, mais bela, mais poética, mais revolucionária.
Se ficamos interessados pela proposta, imaginem então, como reagiriam alunos de 12 ou 13 anos. Isso mesmo, a princípio, com grande indiferença, a não ser por um dos garotos, de nome Trevor, personificado pelo impressionante Haley Joel Osment (do surpreendente suspense "O Sexto Sentido" e do instigante "AI - Inteligência Artificial"), que cria a "Corrente do Bem". Essa corrente funciona como as pirâmides através das quais as pessoas tentam ganhar dinheiro ou livros, por exemplo, só que ao invés de utilizar essa artimanha para multiplicar os ganhos materiais, a proposta do garoto encaminha-se no sentido de fazer com que as pessoas pratiquem o bem para os outros, sem esperar qualquer devolução ou retorno.
Cada pessoa teria que fazer o bem para 3 indivíduos e, pedir que os outros continuassem fazendo o mesmo, ou seja, praticando o bem para outras pessoas e pedindo que elas estendessem essa corrente indefinidamente. De 3 benfeitorias ou benefícios prestados passaríamos numa segunda etapa para 9, dos 9 para 27 e, assim sucessivamente.
Perceberam como, uma simples idéia lançada numa sala de aula acabou por se tornar uma verdadeira revolução no pensar e no agir?
Além de nos provocar para que, como professores procuremos fazer com que nossos pequenos esforços se tornem grandes em seus resultados gerais para nossos alunos e nossas comunidades, o filme traz ainda discussões importantes acerca do respeito pelas diferenças, das dificuldades de relacionamente familiar nos tempos em que vivemos e, mais especificamente, da dificuldade que temos em entender os mais jovens (parecemos não querer escutá-los, mesmo quando nos mostramos atentos; parecemos não nos importarmos com o que os jovens pensam, quando deveríamos participar nossas opiniões e saber escutar a deles; apesar de toda rebeldia, muitos deles querem e precisam muito de nosso apoio).
O filme é muito interessante no sentido de despertar diálogos, de nos fazer entender pelos jovens e de nos fazer atentos a suas colocações, de nos fazer promover uma possibilidade de maior entendimento entre pais e filhos (fundamental para a educação!) e de aproximar as escolas daquilo que seja significativo para os estudantes, a comunidade e mesmo para nós, professores!
quarta-feira, 3 de março de 2010
Breve Manifesto em Favor do Politicamente Incorreto Ou ainda, Em Defesa da Diversidade de Pensamento
Vivemos tempos em que prevalece o politicamente correto. Temos que pensar toda e qualquer palavra que proferimos ou escrevemos para que não corramos o risco de sermos censurados. Groucho Marx, comediante americano da primeira metade do século XX, certamente sofreria muito com tal situação. Mestre do incorreto, do humor ácido e cínico, que colocava seus interlocutores em situação delicada, Groucho não media seus dizeres e, ao menos nos filmes, não parecia se importar com a opinião alheia.
Certamente não é o que ocorre hoje em dia. Todos os nossos passos, versos, falsetes, atos e percursos sendo percebidos, analisados, julgados como estão, paralisam a espontaneidade e privam o mundo da graça e da loucura que por vezes parecem tão necessárias.
Talvez por isto em “O Cavaleiro das Trevas” o Coringa tenha feito muito mais sucesso que o Batman. O bandido pôde se atrever a falar aquilo que o mocinho encapuzado tinha que conter entre suas línguas, para não parecer fora de contexto...
Mas como já pude destacar em outro texto, temos tanto o Coringa quanto o Batman correndo em nosso sangue. Calar um dos lados não é exercício que devamos fazer, a censura a nós mesmos é uma violência tão grande e extrema quanto a própria coerção realizada contra terceiros.
É certo que cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém e que, portanto, em alguns momentos medir as palavras antes de proferi-las pode ser ato de autopreservação. Nestes momentos compete a cada um de nós, utilizando o melhor de nossos neurônios, ordenar os pensamentos e abrir a boca (se preciso for) apenas quando se fizer necessário e sempre no sentido de evitar embaraços ou constrangimentos.
Mas estas situações devem constituir exceções e não a regra. Viramos a mesa de cabeça para baixo a tal ponto que hoje, quando alguém fala abertamente o que pensa e suas palavras contrariam o pensamento vigente, logo vem pedrada. Críticas chovem como se o diferente pensar fosse pecado. E a maior ironia nisto tudo é que é justamente na diversidade e na liberdade de expressão que reinam, sobretudo, os maiores avanços já vividos pela humanidade.
É certo, direto e mais do que premente resgatar, neste sentido, os dizeres de Voltaire, quando afirmava que “posso até não concordar com aquilo que você diz e pensa, mas lutarei até o fim de minha vida pelo seu direito de expressão de tais pensamentos”.
Outra grande contradição vem à tona quando vemos, por exemplo, as pressões imensas que foram feitas sobre o Papa e a Igreja Católica para que expiassem suas culpas quanto a condenação de Galileu Galilei, ainda na Idade Moderna, tão longínquo no tempo, admitindo que o cientista italiano tinha razão quanto a sua teoria heliocêntrica que contrapunha o teocentrismo cristão.
Não que pessoalmente eu considerasse tal ato inapropriado, ainda que tardio. Penso que a Igreja devia isto a Galileu. A contradição não reside na ação do clero católico, mas sim da turba que exigia esta retratação e que, por sua vez, erige tantas dificuldades para que fluam entre nós os pensamentos dissonantes, aqueles que não constituem a voz da maioria (por vezes tão burra, surda e cega, mas sempre tão impositiva quanto aos seus ditames).
Nelson Rodrigues já dizia que as unanimidades são burras. Apesar de reconhecer os méritos de sua obra, mas não ser simpatizante de seus escritos, Nelson Rodrigues tinha como um de seus maiores méritos a honestidade, a franqueza, a sinceridade e a língua solta que tanto nos faz falta nos dias de hoje.
Todo mundo é tão certinho, tão correto e, finalmente, tão político em suas ações e considerações que o mundo está ficando chato em demasia. É preciso incendiar um pouco o debate, trazer a tona àquilo que poucos ou ninguém se atreve, desafiar a lógica dominante e enfrentar a massa.
O jogo de cena que temos em andamento nos dias de hoje é tão entediante que, quando alguém surge em cena e diz aquilo que ninguém tem coragem de dizer, vira manchete de jornais, estrela da internet e ganha os noticiários das redes de rádio e televisão. Que o digam, por exemplo, muito recentemente, o bispo que defendeu a excomunhão dos médicos que praticaram o aborto em uma menina de nove anos de idade ou mesmo o político que, em tribuna, escancarou que pouco se lixava para a opinião pública.
Apesar de não concordar com seus posicionamentos, não posso deixar de destacar que eles foram, no mínimo, bastante valentes ao exporem publicamente aquilo que realmente pensavam. Apesar de não assinar embaixo daquilo que disseram, defendo (como Voltaire) o direito de livre expressão de ideias não só deles, mas de todo mundo que quiser falar o que pensa.
Ressalto apenas que, politicamente corretos ou incorretos, a diversidade dos pensamentos apresentados aqui, acolá e alhures é imprescindível para que todos possam crescer. Ainda que em determinados momentos tenhamos que ter “papas nas línguas” para a “batata quente” não arder em nossas mãos, e nisto entra, como já destaquei, a nossa capacidade de entender o contexto, as variáveis, as consequências e também a nossa representatividade, está faltando a pimenta que faz a vida ter a necessária ardência, brilho, evidência e sabor.
Por isso mesmo pensei neste texto como um breve manifesto em favor do politicamente incorreto e em prol da diversidade de pensamento e, desde já, deixo aberta a brecha para que mais opiniões (a favor ou contra) se juntem a esta reflexão...
segunda-feira, 1 de março de 2010
SEMPRE SOBRA ESPAÇO PARA UMA CERVEJINHA !!!
Um professor de filosofia, parou na frente da classe e sem dizer uma
palavra, pegou um vidro de maionese vazio e o encheu com pedras de uns 2 cm de diâmetro.Olhou para os alunos, e perguntou se o vidro estava cheio.
Todos disseram que sim.
Ele então, pegou uma caixa com pedregulhos bem pequenos e jogou-os dentro do vidro agitando-o levemente. Os pedregulhos rolaram para os espaços entre as pedras.
Tornou a perguntar se o vidro estava cheio.
Os alunos concordaram: agora sim, estava cheio!
Dessa vez, pegou uma caixa com areia e despejou dentro do vidro preenchendo o restante.
Olhando calmamente para os alunos, o professor disse:
- Quero que entendam que isto simboliza a vida de cada um de vocês. As pedras, são as coisas importantes: sua família, seus amigos, sua saúde, seus filhos, coisas que preenchem a vida.
Os pedregulhos, são as outras coisas que importam: como o emprego, a casa, um carro...
A areia, representa o resto: as coisas pequenas...
Experimentem colocar, a areia primeiro no vidro, e verão que não caberão as pedras e os pedregulhos...
O mesmo vale para suas vidas.
Priorizem cuidar das pedras, o que realmente importa.
Estabeleçam suas prioridades.
O resto é só areia!
Após ouvir a mensagem tão profunda, um aluno perguntou ao professor se poderia pegar o vidro, que todos acreditavam estar cheio, e fez novamente a pergunta:
- Vocês concordam que o vidro está realmente cheio?
Onde responderam, inclusive o professor:
- Sim está!
Então, ele derramou uma lata de CERVEJA dentro do vidro.
A areia ficou ensopada, pois a cerveja foi preenchendo todos os espaços restantes, fazendo com que ele, desta vez, ficasse realmente cheio.
Todos ficaram surpresos e pensativos com a atitude do aluno, incluindo o professor.
Então ele explicou:
NÃO IMPORTA O QUANTO SUA VIDA ESTEJA CHEIA DE COISAS E PROBLEMAS, SEMPRE SOBRA ESPAÇO PARA UMA CERVEJINHA !!!
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Comunicação: Aprendendo a gerar saber
O comunicador Gilson Schwartz nos faz lembrar Paulo Freire quando diz que "a alfabetização, ou seja, apropriação de novas ferramentas e habilidades é um processo de aprendizado pelo reconhecimento".
Vejo que ele busca com essa frase nos dizer que alfabetizar-se é mais do que aprender as letras, somá-las e formar palavras. Alfabetizar-se é aprender a reconhecer o que já está posto, o que já faz parte do convívio do sujeito, mas até então não foi apropriado por ele. Nesse sentido, alfabetizar é emancipar, favorecer ao sujeito que se situe autonomamente em seu contexto; é facilitar para que ele reconheça o que o envolve e, assim, criar suas próprias estratégias de interação com o meio.
A estratégia de alfabetização que privilegia o reconhecimento das coisas em nosso redor opera no campo do desenvolvimento humano, pois nos faz crescer e nos fortalecer quando aprendemos a lidar com novos sistemas que, outrora, desconhecíamos. Fazendo uma comparação, quando chega um computador numa comunidade da Zona Costeira é uma coisa, mas quando passamos a saber usá-lo para atender necessidades, é outra — e bem diferente.
Certa vez ouvi o mesmo Gilson Schwartz falar de "alfabetização digital". Fiquei curioso pelo termo e fui estudar um pouco. Vi que não é bem um "conceito" novo da ciência da Educação, mas uma "imagem" que nos ajuda a entender qual deve ser nosso grau de aproveitamento das políticas de inclusão social que lançam por aí.
Li num texto desse comunicador que "quando se busca evitar o desperdício de recursos públicos, seria prudente também abandonar de vez a expressão inclusão digital. Já não se trata apenas de expandir o alcance da infra-estrutura ou de financiar com subsídios a aquisição de equipamentos, mas, sim, com urgência, de promover a alfabetização digital, processo intensivo de capacitação pela formação de redes", pelo reconhecimento da rede em que, naturalmente, estamos inseridos.
Vejam, ele fala da capacitação "pela" formação de redes e não "para" a formação de redes. Entendo o que ele nos quer fazer entender. A rede já está aí, posta pra nós...
É evidente que estamos aprimorando nossa articulação entre seus pontos, tecendo nosso pano de trocas. A comunicação em rede pode nos capacitar no meio digital, porque a rede demanda isso de nós; precisamos nos fazer eficientes para melhorar o diálogo com nossos interlocutores, nossos pares. O aprender fazendo – fazer aprendendo é o caminho para experienciarmos essa nova linguagem. Mais do que lidarmos com o meio digital (principalmente a Internet), estamos lidando com a comunicação em rede e nosso desafio é entrar nessa com propriedade.
A REALCE - Rede de Educação Ambiental do Litoral Cearense já se lança nesse sentido, fortalecendo as ações em diversos de seus núcleos ao longo da Zona Costeira Cearense (ZCC). Além da elaboração de ações articuladas por diferentes comunidades — o que requer interatividade e intercâmbios —, destacam-se a produção de material informativo, a aquisição de equipamentos (máquinas fotográficas, computadores, data-show) e a apropriação de veículos de comunicação já existentes nas regiões, como rádios comunitárias e jornais locais. Soma-se a esse potencial uma estratégia de fortalecimento da comunicação ao longo do litoral cearense, que vem sendo elaborada por três assessores do INSTITUTO TERRAMAR, a ser apresentada à coordenação da REALCE ainda esse ano. Essa proposta organiza-se em quatro frentes de ação:
1. Formação e consolidação de doze Núcleos de Comunicação, mobilizados por jovens e educadores ligados a REALCE;
2. Assessoria de imprensa dos movimentos da Zona Costeira e de comunicação institucional às entidades envolvidas no Fórum em Defesa da ZCC;
3. Produção de Novas Mídias e Novas Linguagens,
4. Realização de campanhas anuais de sensibilização e mobilização na ZCC.
Em suma, é possível dizer que a partir do reconhecimento dos potenciais de comunicação existentes na ZCC, vai-se fortalecendo o diálogo entre as pessoas, a troca de experiências e, conseqüentemente, a geração de conhecimento.
Alfabetizar-nos digitalmente significa compreender que o meio digital pode favorecer a aproximação entre as regiões, integrar os saberes e informar sobre os acontecimentos. Entretanto nossa rede é maior do que a digital... É escrita, é oral, é artesanal: nossa rede é natural. É a Natureza toda, que se abre pra que reconheçamos cada parte de cada um de nós e cada parte de nosso coletivo.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
A Indisciplina na sala de aula
Primeiro dia de aula. Professor novo. Turma pouco afeita ao estudo. No caminho para seus novos afazeres os corredores da escola não parecem nada animadores para o recém-chegado professor. Na sala de aula todos os alunos estão de pé, circulando despreocupadamente, sem qualquer tipo de compromisso com o trabalho que está apenas começando.
Querem falar de outros assuntos, mais próprios e interessantes em sua opinião para pessoas que, como eles, estão em idade para freqüentar o Ensino Médio. Matemática não lhes parece parte integrante dos conhecimentos que necessitam para sobreviver na selva que percebem em seus cotidianos. Jaime, seu novo professor, mal consegue se apresentar, pois é interrompido com menos de 10 minutos em sala de aula pelo acionamento do sinal que faz com que todos os alunos saiam rapidamente da classe.
É apenas mais uma entre várias “brincadeiras” promovidas pelos alunos para interromper o trabalho que está sendo desenvolvido. Numa outra aula, quando as primeiras páginas do livro estavam sendo abertas no capítulo sobre frações e porcentagens, surgem dois novos alunos, atrasados, que trazem consigo justificativas que lhes permitem permanecer na aula.
Nenhum dos dois tem os materiais apropriados e ainda desrespeitam o professor com gestos obscenos. Ao ser interpelado pelo professor no final da aula um dos estudantes diz que não tem qualquer interesse pelo que está sendo ensinado e, além disso, ameaça o professor.
Para desestabilizar ainda mais as aulas de matemática, os jovens amotinados passam a assistir a aula tendo a seu lado outras pessoas que, como eles, não estão dispostos a estudar e que, da mesma forma como os primeiros, querem ameaçar e boicotar os esforços de Jaime. Para piorar ainda mais a situação, entre os outros membros do corpo docente a descrença na capacidade dos estudantes também se faz notar.
Nas reuniões pedagógicas ou mesmo nos intervalos (na sala dos professores), fica claro para o novo professor de matemática que entre seus colegas de trabalho não há nenhuma perspectiva positiva quanto ao futuro de seus novos alunos. Nem mesmo entre os pais a educação é vista como uma possibilidade de crescimento, de amadurecimento e de melhores chances no futuro...
A seqüência de acontecimentos acima descrita poderia retratar fatos ocorridos em qualquer escola do Brasil. Apresenta o que para muitos que trabalham com educação seriam situações corriqueiras, do cotidiano de seu trabalho.
Trata-se, entretanto de um recorte feito a partir do filme “O Preço do Desafio” (Stand and Deliver), do diretor Ramon Menendez, produzido pela Warner Bros em 1988 a partir da história real de Jaime Escalante, um professor de matemática.
Quando nos referimos a Instituição Escolar, não podemos deixar de enfocar essa questão que suscita muitas dúvidas a educadores, diretores, pais e até mesmo a alunos: a indisciplina.
- O que é uma classe indisciplinada?
- O que o professor pode fazer para ter controle perante situações de indisciplina?
No ambiente escolar em que trabalho, as principais queixas dos professores relativamente à indisciplina são: falta de limite dos alunos, bagunça, tumulto, mau comportamento, desinteresse e desrespeito às figuras de autoridade da escola e também ao patrimônio; alguns professores apontam que os alunos não aprendem porque são indisciplinados em decorrência da não imposição de limites por seus familiares; o fracasso escolar seria então o resultado de problemas que estão fora da escola e que se manifestam dentro dela pela indisciplina; de acordo com esses professores, nada pode ser feito enquanto a sociedade não se modificar. Condutas como essas são também observadas em outras instituições particulares e em escolas públicas. Podemos afirmar que no mundo atual a maioria das escolas enfrenta estas questões, que perduram há anos, sofrendo obviamente alterações históricas de acordo com as contingências sócio-culturais.
Atualmente a indisciplina tornou-se um “obstáculo” ao trabalho pedagógico e os professores ficam desgastados, tentam várias alternativas, e já não sabendo o que fazer, chegam mesmo em algumas oportunidades a pedir ao aluno indisciplinado que se retire da sala já que ele atrapalha o rendimento do restante do grupo. Nesses casos, os alunos são encaminhados ao Serviço de Orientação Educacional. Muitas vezes há pressões por parte dos professores para que sejam aplicadas punições severas a esses estudantes.
- Como agir nessa situação? De que forma ajudar?
O que é uma Classe Indisciplinada?
Para iniciarmos uma reflexão sobre essas questões, vamos destacar o que significa a palavra indisciplina a partir de algumas definições quanto ao termo.
Indisciplina – procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência, desordem, rebelião. (Dicionário Aurélio).
De acordo com o sociólogo francês François Dubet (1997), “a disciplina é conquistada todos os dias, é preciso sempre lembrar as regras do jogo, cada vez é preciso reinteressá-los, cada vez é preciso ameaçar, cada vez é preciso recompensar”. Isso nos coloca diante de um antônimo de indisciplina, nos lembrando que o respeito às regras dentro de uma instituição é de fundamental importância para o seu funcionamento pleno e que, conseqüentemente, a indisciplina representa a ameaça pela desobediência às regras estabelecidas. Por isso Dubet ressalta a necessidade dos professores relembrarem as regras e estimularem o seu cumprimento no decorrer do ano letivo.
Segundo o professor Júlio Groppa Aquino: ”O conceito de indisciplina, como toda criação cultural, não é estático, uniforme, nem tampouco universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade.”
Groppa ressalta que a manutenção da disciplina era uma preocupação de muitas épocas como vemos em textos de Platão e nas confissões de Santo Agostinho, de como a sua vida de professor era amargurada pela indisciplina dos jovens que perturbavam “a ordem instituída para seu próprio bem”.
Diante dessa idéia de Júlio Groppa, não podemos deixar de lembrar da forma como as escolas até os anos 1960, conseguiam fazer com que seus alunos se comportassem. A disciplina era imposta de forma autoritária, com ameaças e castigos.
Os educandos temiam as punições e esse medo levava a obediência e a subordinação. Além de submetidos a uma rigorosa fiscalização, não podiam se posicionar utilizando-se de questionamentos e reflexões. Os professores eram considerados modelos e, em virtude do conhecimento que possuíam, agiam como donos do saber.
“A educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante” (Freire, 1998) por isso passa a ser chamada de “educação bancária”. Segundo a educadora Rosana Ap. Argento Ribeiro, “a educação bancária é classificada também como domesticadora, porque leva o aluno a memorização dos conteúdos transmitidos, impedindo o desenvolvimento da criatividade e sua participação ativa no processo educativo, tornando-o submisso perante as ações opressoras de uma sociedade excludente. O papel da disciplina na educação bancária é fundamental para o sucesso da aprendizagem do aluno. Nela, a obediência e o silêncio dos alunos são aspectos importantes para garantir que os conteúdos sejam transmitidos pelos professores”.
Atualmente, nos primeiros anos do século XXI, estamos vivendo num outro contexto. Influenciados por mudanças políticas, sociais, econômicas e culturais, professores e alunos, e mesmo a própria instituição escolar, assumem um papel diferente na sociedade. Nessa nova realidade a educação bancária já não deveria ser aplicada dentro das escolas.
Acredita-se hoje que os professores devem estar mais preocupados com seu aperfeiçoamento, permitindo que seus alunos questionem, tirem suas dúvidas, se posicionem. Enquanto os alunos, por sua vez, têm mais acesso à informação, se consideram livres para questionar, criar e participar. Outro aspecto importante quanto à educação no 3° milênio refere-se ao fato de que a instituição escolar deveria estar mais aberta para a participação dos pais e da comunidade em suas atividades e mesmo, nas propostas curriculares.
François Dubet reforça a idéia de que “os professores mais eficientes são, em geral, aqueles que acreditam que os alunos podem progredir, aqueles que têm confiança nos alunos. Os mais eficientes são também os professores que vêem os alunos como eles são e não como eles deveriam ser”.
Quanto às afirmações anteriores percebo em minha realidade que alguns professores se mostram preocupados quanto a sua formação e prática profissional enquanto uma quantidade expressiva ainda demonstra grande resistência à reflexão e ao aperfeiçoamento do seu trabalho por se considerarem experientes e prontos para o exercício do magistério.
No que se refere aos estudantes é possível verificar que há um grande incentivo da família quanto aos estudos e ao mesmo tempo há um maior acesso a recursos que facilitam e promovem o processo de ensino-aprendizagem, como livros, computadores, internet, revistas, jornais, filmes... Essa circunstância realmente os torna mais críticos, questionadores e participativos. Porém, nem todos conseguem utilizar essas ferramentas de forma consciente e produtiva.
Os pais, por sua vez, comparecem a escola para presenciar a apresentação de trabalhos realizados por seus filhos apenas como observadores, sem posicionamentos mais efetivos e críticos. Há, porém baixo índice de comparecimento nas reuniões solicitadas pela escola, especialmente entre os pais cujos filhos freqüentam turmas da sexta série do ensino fundamental ao ensino médio.
O que o professor pode fazer para ter controle perante situações de indisciplina?
Sabemos que para obter disciplina em qualquer ambiente em que vivemos não podemos deixar de falar de respeito. Segundo Tardeli (2003), o tema respeito está centralizado na moralidade. Isso quer dizer que cada pessoa tem, junto com sua vida intelectual, afetiva, religiosa ou fantasiosa, uma vida moral. E o primeiro a atribuir um significado a moralização e inserir no conceito de ética foi o filósofo Demócrito.
Sabemos que atualmente o papel do professor dentro da escola é muito mais abrangente, pois ele precisa estar atento às capacidades cognitivas, físicas, afetivas, éticas e para preparação do educando para o exercício de uma cidadania ativa e pensante.
Será que sabemos ouvir nossos alunos? O diálogo envolve o respeito em saber ouvir e entender nossos alunos, mostrando a eles nossa preocupação com suas opiniões e com suas atitudes e o nosso interesse em poder dar a assistência necessária ao aperfeiçoamento do seu processo de aprendizagem.
É também compromisso do educador se preocupar com a disciplina e a responsabilidade de seus alunos. Para Piaget (1996), “o respeito constitui o sentimento fundamental que possibilita a aquisição das noções morais” .Conseguimos atingir a responsabilidade, desenvolvendo a cooperação, a solidariedade, o comprometimento com o grupo, criando contratos e regras claras e que precisarão ser cumpridas com justiça.
O professor passa a se preocupar com a motivação de seus alunos, tendo maior compromisso com seu projeto pedagógico e as questões afetivas, obtendo dessa forma uma relação verdadeira com seus educandos. Sob uma visão Piagetiana, o professor que na sala de aula dialoga com seu aluno, busca decisões conjuntas por meio da cooperação, para que haja um aprendizado através de contratos, que honra com sua palavra e promove relações de reciprocidade, sendo respeitoso com seus alunos, obtendo dessa forma um melhor aproveitamento escolar.
Segundo Tardeli (2003), “Só se estabelece um encontro significativo quando o mestre incorpora o real sentido de sua função, que é orientar e ensinar o caminho para o conhecimento, amparado pela relação de cooperação e respeito mútuos”.
Como agir nessa situação? De que forma ajudar?
Não podemos deixar de ter como foco em nosso trabalho o SER HUMANO. Precisamos valorizar as pessoas. Uma frase de Walt Disney ilustra bem essa idéia: “Você pode sonhar, criar, desenhar e construir o lugar mais maravilhoso do mundo... Mas é necessário TER PESSOAS para transformar seu sonho em realidade”. Estamos envolvidos com pessoas em nosso dia a dia: alunos, professores, pais, coordenadores, orientadores e diretores e, por isso, precisamos aprender a trabalhar em equipe para obter uma instituição forte, competente e coesa. A qualidade é obtida através do esforço de todos os seus integrantes, onde cada profissional é importante e cada aluno também. A escola é uma organização humana em que as pessoas somam esforços para um propósito educativo comum.
Escrito por: Sheila Cristina de Almeida e Silva Machado
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
A Educação, entre o balcão e o ensino
As reiteradas e desencontradas notícias sobre o ensino e a educação no Brasil nem sempre tocam no essencial. De um lado, espetaculares estatísticas sobre matrículas nos vários níveis de ensino sugerem que crescente e alta proporção de brasileiros tem acesso à escola e por ela se interessa.
De outro lado, porém, notícias de rendimentos escolares muito aquém do mínimo numa sociedade com as aspirações e as necessidades da nossa sugerem que o êxito numérico nas estatísticas seja contrabalançado por fracassos melancólicos no aprendizado.
Portanto, muita gente estudando e pouca gente aprendendo. Nossa educação não está preparando as novas gerações para que o Brasil idílico tire as patas do Terceiro Mundo e ponha os pés no mundo moderno e desenvolvido.
Porque, se continuarmos nessa relutância educacional e nesses resultados desalentadores, nosso destino será, inevitavelmente, o passado, de quando os brasileiros que trabalhavam eram politicamente classificados como semoventes.
Essas preocupantes adversidades não devem se sobrepor ao fato de que há no país generalizado apreço pela educação e disseminada vontade de aprender. Fazendo pesquisas em remotas regiões do Brasil, conheci esforços comoventes de pais muito pobres para assegurar aos filhos a escolarização sem a qual, sabem, estarão eles condenados à vida sem perspectiva que ameaça os faltos de escolaridade.
Em lugares de absoluta ausência do poder público, pais pagando professores leigos com gêneros colhidos na roça para que em troca ensinassem a seus filhos o fundamental para transitar neste complicado mundo de letras e escritos.
Ou crianças caminhando pelo vazio dos ermos para, na casa de pau-a-pique de um mestre-escola, sentadas em tamboretes de couro cru, usando os joelhos como carteira, aprenderem a desenhar as letras enigmáticas do grande e misterioso mundo que as relegou à orfandade cultural.
Armei minha rede em muitos casebres, por aí, cujos donos se orgulhavam de ter em casa até "livros", como os almanaques de farmácia e suas preciosas informações sobre as fases da lua e as épocas de plantio de plantas que conheciam só de nome, ou modos de fazer sabão com o óleo de sementes para não dependerem só do sebo.
Sem contar as folhinhas de Santo Antônio ou do Sagrado Coração, com as mesmas fases da lua, o número do dia bem grande, e, no verso, o conselho do dia. Coisas de quem quer ler e saber.
Outro indício dessa valorização da escola é, sem dúvida, o êxito da escolarização promovida pelo MST, apesar dos conteúdos pedagógicos discutíveis e dos simplismos ideológicos que empobrecem as metas educativas e, nesse particular, suprem carências de saber com outras ignorâncias. Em particular na mutilação da utopia da universalidade do ser e do direito.
Mas nem por isso deve-se deplorar o justo colocar ao alcance de gente no geral muito pobre e desprovida o acesso à leitura e ao livro, ao aprendizado, a saberes alternativos, a formas defensivas de cultura e de compreensão.
Sobretudo porque a ideologia educacional do MST tem a coerência que falta à ideologia sindicalista dos professores da rede pública e privada de ensino: a escola dos sem-terra liga-se ao projeto utópico de um modo de vida que é viável e representa uma resistência legítima às diferentes forças que, em nome da grande economia multinacionalizada e voraz, nulificam valores, crenças, maneiras de viver e capitais sociais acumulados ao longo dos séculos.
Mesmo na dureza de acampamentos instáveis, não falta a escola do professor voluntário que em nome de uma esperança e no meio do desespero ensina aos imaturos que na educação reside uma das poucas saídas da sociedade contemporânea.
Avaliação recente da qualidade das escolas mostrou que os melhores resultados estão em municípios que não se destacam pela exuberância econômica.
São aquelas localidades em que ainda há lugar para um estilo comunitário de vida, norteado por valores tradicionais, em que os pais se sentem parte da instituição, em que a escola é considerada uma extensão da casa e das missões da família, em que o professor é tratado com admiração e respeito. Tudo muito longe da racionalidade econométrica e quantitativa, em que o aprendizado é mero subproduto do diploma.
O que surpreende em tudo isso é que o déficit da educação brasileira só não é maior por conta dessas iniciativas enraizadas em objetivos conservadores e esperanças restritas, até estranhas em relação às grandes funções da educação moderna, iniciativas à margem das responsabilidades e possibilidades do Estado e do governo.
Iniciativas em contraste com a modernidade que pode dar à educação sua verdadeira missão civilizadora, sobretudo no estabelecimento de metas mais amplas e consistentes, relativas aos grandes desafios de conhecimento que se erguem diante do homem contemporâneo, para o qual a mera capacidade de ler está muito aquém do que se faz urgente e necessário.
Em manifestação estes dias, o próprio ministro da Educação, que é um educador, do corpo docente da melhor e mais bela expressão dessa esperança entre nós, de uma revolução social pela via da universidade pública e gratuita, que é a Universidade de São Paulo, reconheceu a gravidade da crise educacional.
Assinalou quanto o ensino médio é o momento problemático da redução na qualidade do ensino e quanto o Estado perdeu o controle do processo educacional ao recorrer à privatização do ensino e à lógica do mercado como meios de ampliar a oferta de vagas.
O mesmo ministro anunciou uma segunda onda de cancelamento de milhares de vagas no ensino superior, nos cursos de direito, para ajustar a oferta de vagas à qualidade do que se ensina nessas escolas. Tudo de difícil remendo no curto prazo, sem contar os egressos desses cursos que não foram alcançados pela tentativa tardia, mas necessária, de colocar um filtro de qualidade no acesso às escolas de terceiro ciclo e de frear a sobreposição do lucro ao ensino.
Já no regime militar o governo alargara a opção pela expansão do ensino pela via da coadjuvância de empresas que vendessem serviços educacionais, em detrimento de maciça opção pela escola pública e gratuita. Aquela opção perdura até hoje, como se viu com o PROUNI, um programa de subsídio às escolas privadas de terceiro grau em vez de amplo investimento nas universidades públicas.
Em vez de expansão significativa da rede de escolas superiores gratuitas, de corpo docente recrutado segundo os rigores próprios das grandes universidades, de acordo, aliás, com a lei, escolas equilibradamente devotadas à docência e à pesquisa, sem cuja combinação a escola de terceiro ciclo não é mais do que mera escola técnica superior.
Em entrevista recente à Folha de São Paulo, o Ministro tocou num ponto delicado dessa inversão de valores que em boa parte responde pela crise da educação brasileira, quando disse que antes o Estado avaliava e o mercado regulava, mas que sua compreensão é a de que "o Estado deve avaliar e regular".
Cauteloso, não tocou no fato de que o Conselho Federal de Educação e os conselhos estaduais se regem hoje pelos valores de uma concepção de educação que anula a função prioritária do Estado na definição de conteúdos educacionais, modos de ensinar e metas nacionais de educação de conformidade com o prioritário interesse público.
Enquanto a educação pública tiver que concorrer com a educação privada, como se fosse empresa de serviços educativos bancados pelo Estado e concorrente das empresas privadas, não haverá saída para o impasse.
Um dos grandes empecilhos às mudanças rápidas e necessárias é, além do mais, o descompromisso dos docentes da escola pública e da escola particular com as funções propriamente sociais da educação, muito além da mera formação profissional. Desde a ditadura perdidos na teia sindical e das lutas sindicais, sucumbiram às demandas da sobrevivência em face da degradação de suas condições de trabalho, e reduziram suas demandas aos interesses pessoais e corporativos.
Deixaram de lado um aspecto do que já foi chamado de sacerdócio do professor, abrindo mão da missão própria do educador que é a de assegurar a realização das metas propriamente educativas do ensino, sem nenhuma concessão a mediações partidárias e econômicas que atravessem e subjuguem o essencial e prioritário.
O econometrismo educacional bloqueia e distorce a educação brasileira, equiparando-a a uma mercadoria de carregação, equivalente das que podem ser adquiridas dos marreteiros que nas feiras de todo o País anunciam os sucedâneos de tudo que se deseja e não se pode, o xarope de catuaba que dá a ilusão da vitalidade a quem dela carece, a educação que custa menos e distribui mais diplomas, dando a impressão de sabido a quem sabido não é.
Tudo fazemos para nos enganar. Quando se estabeleceu que os professores do ensino elementar deveriam ter formação superior, o próprio governo aceitou todo tipo de improvisação, com cursinhos de fim de semana.
Contentou-se com a cartorial solução, bem brasileira, de que o papel substitui a competência. Milhares de docentes formados pacientemente nas universidades, no entanto, estão aí ao deus-dará dos empregos precários ou do desemprego em vez de serem recrutados como agentes de uma nova e mais ambiciosa educação brasileira.
O ensino em tempo integral, previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que deveria ter sido implantado até 2002 não o foi até hoje. Isso implicaria definir gabaritos justos e rigorosos seja para a qualificação dos docentes seja para seu salário, o que colide com o econometrismo que devasta a educação brasileira.
A lógica da produção, do vale quanto pesa, do preço por quilo, que vai bem numa fábrica de salsichas, mas vai muito mal numa escola, sobrepôs-se à lógica da formação e, propriamente, da educação. Sem a precedência do educador na educação, nossa escola continuará dominada pela lógica do balconista.
Ou escapamos dessa ou nos perderemos de nós mesmos. Em educação só devem ter lucro o aluno e o País.