sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

MEC anuncia reajuste de 7,97% do piso salarial de professores

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou nesta quinta-feira (10) reajuste de 7,97268% do piso salarial de professores do ensino básico da rede pública brasileira, que abrange educação infantil e nível médio. Com o aumento, o piso salarial para os professores passa de R$ 1.451 para R$ 1.567. O aumento é concedido com base no percentual de aumento, de 2011 a 2012, do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Veja a evolução do piso salarial dos professores nos últimos anos 2010 R$ 1.024,67 2011 R$ 1.187,08 2012 R$ 1.451,00 2013 R$ 1.567,00 No ano passado, o reajuste do piso salarial dos professores de educação básica e que cumprem 40 horas semanais foi de 22,22%. Portanto, o reajuste deste ano representa quase um terço do aumento ocorrido em 2012. “Dessa vez, [a correção] não tem o mesmo impacto que a correção do ano passado, mas é um reajuste acima da inflação. O problema é que nós partimos de um patamar muito baixo de salário. R$ 1.567 é pouco mais que dois salários mínimos”, afirmou. O ministro disse que os estados e municípios precisam respeitar reajuste do piso salarial, ainda que tenham perdido receitas devido à desaceleração da economia brasileira. A correção deve ser aplicada já nos pagamentos salariais relativos a janeiro. “Houve uma desaceleração da economia, uma queda de receitas, mas a lei é essa, e a lei está embasada num caminho de recuperação do piso para permitir que a educação brasileira dê um salto de qualidade”, disse. Para o ministro, o aumento de R$ 14,2 bilhões, em 2013, dos repasses da União aos estados e municípios através do Fundeb pode ajudar a pagar o reajuste salarial de 7,97%. Em 2012, o Fundeb foi de R$ 102,6 bilhões. Em 2013, os repasses somarão R$ 116,8 bilhões, de acordo com Mercadante. Impacto O ministro afirmou que, segundo associações de estados e municípios, o impacto do piso de R$ 1.567 será de R$ R$ 2,1 bilhões aos cofres dos governos estaduais e prefeituras. Segundo o ministro a expectativa é de que em 2014 o reajuste do piso seja superior ao deste ano. “O reajuste está vinculado ao desempenho econômico. Sempre é assim. À medida que a economia cresce, o reajuste cresce mais. O MEC continua empenhado em solução pactuada [com estados e municípios] porque no ano que vem o reajuste deve ser ainda maior”, afirmou. Em 2012, estados e municípios criticaram o reajuste de 22,22%. De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios, o aumento custou cerca de R$ 7 bilhões, entre gastos com o salário de docentes, com a contratação de novos professores e com o reajuste na pensão dos professores aposentados. Entenda como é feito o cálculo Desde 2009, por lei, o reajuste do piso salarial é feito anualmente em janeiro seguindo como indicador o Fundeb. O fundo reúne recursos provenientes de tributos e da complementação da União, que são repassados aos governos municipais e estaduais. Durante o ano vigente, o valor mínimo anual investido pelo fundo por aluno da educação básica é calculado com base em estimativas de arrecadação. A variação desse valor impacta na variação do salário dos professores. Para o ano de 2012, a estimativa do custo por aluno era de R$ 2.096,68, o que representaria um aumento de 21,2% em relação ao valor final de 2011 (R$ 1.729,28). Assim, o reajuste estimado do piso salarial era maior do que o que de fato aconteceu. Porém, em 28 de dezembro de 2012, o governo revisou o valor para baixo (R$ 1.867,15) porque as estimativas de receita não se concretizaram. A variação do valor por aluno entre 2011 e 2012, então, foi de 7,97%.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O papel da escola no novo mercado de trabalho

Grande parte dos adolescentes ingressam no mercado de trabalho despreparados, isso é constatado no cotidiano, assim como é indicado por pesquisas de âmbito nacional. A Revista Veja, no ano de 2009, publicou matérias neste sentido, indicando quão importante é o investimento da família e escola, juntas, na preparação destes adolescentes. Estudiosos indicam que, daqui a uma década, o mercado de trabalho estará drasticamente modificado. Luiz Carlos Cabrera, consultor e professor da FVG-SP, em uma de suas entrevistas, aponta que o mercado será tomado por novas profissões e cargos, com exigência de autonomia e empreendedorismo elevados. Atualmente, estudos indicam que 1/3 dos universitários acabam por fazer reopção de curso após gastarem tempo, esforços e dinheiro. Outros jovens, após a graduação, acabam por atuar em ramo não escolhido, por encontrarem o mercado saturado na profissão para a qual se prepararam. Tendo como foco esta realidade, faz-se imprescindível o planejamento da carreira, ou seja, antes de os jovens fazerem a escolha profissional, importante que eles conheçam: a dimensão dos problemas no mercado de trabalho, quais as solicitações e carências do mesmo, os conhecimentos, habilidades e atitudes demandadas pelas empresas e quais os comportamentos desejados e indesejados pelos contratantes. Importante que o jovem tenha ciência sobre leis trabalhistas, lei que regulamenta o estágio e programas como o Jovem Aprendiz, seus direitos e deveres. A Orientação Profissional ocupa-se de propiciar o autoconhecimento necessário ao estudante, o conhecimento sobre as profissões, e ajuda-o a escolher a profissão e/ou curso de graduação. Mas a nova configuração do mercado pede que este trabalho da Orientação Profissional seja expandido, assim, além das atividades previamente citadas, o estudante precisa conhecer o mercado de trabalho. Prepará-lo implica em instrumentalizá-lo de forma adequada para ser capaz de superar as dificuldades com as quais poderá deparar-se neste novo sistema. E conhecer esta configuração do mercado de trabalho antes mesmo de adentrá-lo, pode ser um grande trunfo. Uma possível nova estratégia de atuação da Orientação Profissional tem o nome de "Potenciação" ou "Empowerment". Esta, trabalha questões de participação democrática na vida social, escolar e profissional. É um grande auxilio, pois parte dos adolescentes não tem conhecimento adequado dos recursos de sua cidade, das dificuldades e realizações dos profissionais próximos, assim como também não têm um vasto autoconhecimento e da possível potenciação de suas habilidades. Ao buscar por estes serviços (Orientação Profissional), a escola intensifica seu papel como espaço de crescimento intelectual, pessoal e, mais do que nunca, espaço de amadurecimento e preparação profissional. As novas estratégias, além de possibilitarem uma melhor escolha e boa colocação dos jovens no mercado de trabalho, também podem auxiliar no cotidiano escolar, com atitudes e comportamentos mais assertivos e amadurecidos por parte dos estudantes.

Governo promete investir R$ 2,7 bilhões para alfabetizar crianças até os 8 anos

O governo federal vai investir R$ 2,7 bilhões nos próximos dois anos para que as crianças brasileiras sejam plenamente alfabetizadas em língua portuguesa e matemática até os 8 anos de idade, ao final do terceiro ano do ensino fundamental. O investimento faz parte do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa lançado nesta quinta-feira 8 pela presidenta Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. De acordo com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a média nacional de crianças não alfabetizadas aos oito anos chega a 15,2%. Essa taxa alcança índices ainda maiores e, em alguns casos chega a dobrar, em estados como Maranhão (34%) e Alagoas (35%). A menor taxa é registrada na Região Sul, com o índice de 4,9% de crianças não alfabetizadas. “Considero esse programa a prioridade das prioridades do MEC. É o maior desafio histórico e que esse país deveria colocar no topo de agenda de todos os gestores do Brasil”, assegurou Mercadante. O ministro destacou que 8 milhões de crianças estão inseridas nesse primeiro ciclo de alfabetização. Ainda segundo ele, o prejuízo de uma criança que não é alfabetizada no período certo pode se estender a outras etapas do ensino. Entre os objetivos da pasta está o de garantir a alfabetização e assim evitar a futura reprovação de alunos. Segundo o ministro, o impacto da reprovação de alunos, em toda a educação básica, vai de R$ 7 bilhões a R$ 9 bilhões. Ao todo, 5.270 municípios e todas as 27 unidades federativas já aderiram ao pacto, que envolve a capacitação de 360 mil professores alfabetizadores. Trinta e seis universidades públicas vão preparar cursos de 200 horas para uniformizar procedimentos educacionais em todo país. Os recursos investidos no pacto também vão garantir uma bolsa de R$ 750 mensais aos orientadores, que vão capacitar os professores alfabetizadores. Com o pacto, o Ministério da Educação vai distribuir 26,5 milhões de livros didáticos nas escolas de ensino regular e do campo, além de 4,6 milhões de dicionários, 10,7 milhões de obras de literatura e 17,3 milhões de livros paradidáticos. Leia também: O financiamento do novo Plano Nacional de Educação Mercadante defende tema da redação do Enem Carta na Escola vence prêmio de Melhor Capa do Ano Para mensurar os resultados do pacto entre as crianças brasileiras, o MEC vai implementar duas avaliações. Ao final do 2º ano, será aplicada a nova versão da Provinha Brasil, realizada pelos próprios professores dentro de sala de aula para avaliar os conhecimentos sobre o sistema alfabético da escrita e quais habilidades de leitura as crianças dominam. No final do 3º ano, será aplicada uma nova prova, ainda sem nome, regras ou datas definidas. Essa avaliação ficará a cargo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Além das medidas anunciadas, a pasta vai investir R$ 500 milhões em premiação para as melhores experiências de alfabetização. Para Mercadante, as ações do pacto estimulam os professores a voltarem a atuar na profissão.

sábado, 10 de março de 2012

O NOVO PAPEL DA EDUCAÇÃO

Acreditamos que a Terceira Onda introduza uma posição inédita na cultura humana: por um lado, o professor é um elemento altamente estratégico e, por outro, pode ser facilmente dispensável. No primeiro caso, ele pode auxiliar os alunos a aprender a selecionar melhor as suas alternativas e recursos de acesso à informação. Em segundo lugar, o professor precisará estar constantemente atualizado para não se tornar um elemento descartável.
Uma outra variável que não pode ser esquecida : tal como o professor o aluno precisará de reciclagens constantes. A diferença é que ele necessitará de um professor com um alto nível técnico de formação e informação.
Isto introduz uma alteração significativa no quadro de professores. A atualização de conhecimentos torna-se um processo estratégico. Alguns serão facilmente dispensáveis; aqueles não se atualizam. Para os demais, haverá sempre um novo campo de trabalho a ser tecido e estruturado, a partir da própria demanda dos alunos.
Em decorrência, pode-se dizer que a própria escola muda. Enquanto na Segunda Onda as informações básicas vinham através dela, na Terceira Onda os computadores parecem deter este lugar estratégico. A base de informações maiores não virá dos professores, mas dos próprios computadores que poderão ser acionados nos lares, nas bibliotecas ou na própria escola. O professor se tornará então um orientador de formas de estudo mais adaptadas às necessidades dos alunos. Assim, por exemplo, em vez de uma aula de história tradicional, um cd-room elaborado com os mais recentes recursos de multimídia propiciará ao aluno um contato mais aprofundado com a matéria. Ele poderá receber, além de um relato sobre os fatos mais importantes do evento histórico, outras informações complementares. Saber como se constituia a terra naquela época, como era o clima, o céu, a saúde dos sujeitos, etc. Ou seja, estamos saindo de uma história monocromática para uma hipercromática e de recursos de multimídia.
Cabe aos professores, se quiserem participar deste processo de transformação social, uma constante reciclagem. Para que eles não se tornem - como já ouvimos de muitos professores - o "lixo" descartável desta nova era. Um professor atualizado é aquele que tem olhos no futuro e a ação no presente, para não perder as possibilidades que o momento atual continuamente lhe apresenta. Porém, isto não é alguma coisa que o sistema educacional possa obrigar os professores a fazerem. A Informática é ainda uma opção, uma decisão do professor frente aos seus novos rumos de trabalho.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Risco das ilusões

Por Cristovam Buarque

Mais do que o usual, os economistas se dividem diante das alternativas a serem seguidas pela Grécia: uns defendem austeridade reduzindo gastos do setor público para reencontrar o equilíbrio fiscal e retomar o crescimento; outros defendem exatamente o contrário, mais gastos públicos como forma de incentivar o crescimento na economia, para depois elevar a receita e equilibrar as finanças.

Mas faltou unanimidade na percepção de que a crise poderia ter sido evitada se a economia não tivesse criado ilusões. A ilusão do Euro, que dava ao consumidor um poder de compra muito acima da real possibilidade da economia; a ilusão do dinheiro fácil, que vinha dos bancos para financiar gastos como se eles não fossem ser exigidos de volta com juros; e a ilusão criada pelo governo que se endividava para pagar gastos correntes, sem retorno produtivo. Durante alguns anos essas ilusões de riqueza funcionaram, escondendo a realidade de uma economia pobre, sem competitividade, nem investimentos.

Quem não lembra dos argentinos comprando o litoral catarinense, depois os espanhóis e portugueses comprando as praias do Nordeste. Todos esses países depois entraram em crises parecidas.

A discussão, portanto, não deve se resumir a se é preciso austeridade ou elevação de gastos públicos, mas se a austeridade que está vindo é tardia ou não, se não teria havido um caminho capaz de combinar austeridade nos gastos correntes com a elevação nos gastos em investimentos produtivos e sociais. Um keynesianismo produtivo e social, como vem sendo defendido há alguns anos.

Quando se descobre que uma economia está funcionando na base de ilusões, ela desmorona, como as famosas pirâmides financeiras, hoje chamadas de bolhas, que encantam ingênuos e até enriquecem os que às criaram, apropriando-se do dinheiro dos que vêm depois. Mas, a simples austeridade – demitindo servidores, parando obras, desarticulando escolas e hospitais – não vai dar o resultado que se espera. O custo social que ela cria é insustentável moral e politicamente, e provavelmente não resistirá além das próximas eleições de abril, na Grécia. Entre políticos responsáveis e insensíveis à miséria, e os demagogos que prometem ilusões, os eleitores votarão pela ilusão. E a crise política agravará ainda mais a situação, até o dia em que a própria democracia desmorone e um regime autoritário, embora dentro de certo marco legal, imporá as saídas necessárias.

Para evitar este dilema maldito, entre a ilusão insustentável e o custo social inaceitável, as saídas deverão combinar austeridade – suspendendo gastos supérfluos, taxando rendas elevadas, reduzindo consumo desnecessário -, ao mesmo tempo mantendo empregos, ainda que reduzindo salários elevados e jornada de trabalho, mantendo os serviços públicos, reorientando gastos públicos para investimento, inclusive na educação, ciência e tecnologia para criar competitividade. Ao lado disso, seria necessária uma "moratória consentida" de pelo menos parte da dívida pelos credores e a redução interna de preços como uma forma de desvalorização sem sair do Euro.

Esta visão de Austeridade-com-Investimentos pode ser uma lição para o Brasil. Todos os países hoje em crise passaram por períodos com a mesma euforia ilusória. Se eles tivessem, no momento certo, eliminado as ilusões e feito as devidas correções de rumo, não estariam na crise da qual a Grécia é apenas o símbolo pelo tamanho de sua tragédia. Estamos passando por ilusões assemelhadas: moeda supervalorizada, Estado perdulário, financiamentos alavancados superficialmente, rendas elevadas para uma minoria, consumo aquecido, baixa poupança e investimentos, substanciais compras de bens e serviços importados que desindustrializam o país.

Os países em crise não aprenderam com as crises anteriores, como a Argentina há dez anos, e apresentam quadro ilusório parecido: euforia da moeda vinculada ao Dólar, como a Grécia fez ao entrar no Euro; gastos elevados com Copa do Mundo em Buenos Aires e as Olimpíadas em Atenas. Não podemos deixar de enxergar que uma parte de nossa economia está sob efeito de ilusões, na linha do que diz o texto “A economia está bem, mas não vai bem", que pode ser acessada no endereço eletrônico http://bit.ly/wVUR0j. Precisamos fazer hoje os ajustes que a Grécia e a Argentina não fizeram no momento certo, quando preferiram o risco das ilusões.

*Cristovam Buarque é professor da UnB e senador do PDT-DF

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mundo melhor para quem?

Por Cláudia Werneck

Quem sabe no II Fórum Social Mundial pessoas com deficiências diversas tenham desaparecido da face terrestre. Como esta é uma proposta absurda, sugiro à comissão organizadora do Encontro trabalhar desde já para que indivíduos cegos, surdos, com deficiências física, motora e mental possam participar e se beneficiar dele. Só assim o II Fórum Social Mundial será um local de congraçamento universal de gerações humanas.
Estive no I Fórum Social, em Porto Alegre, participando de uma oficina. Por dois dias circulei pelo Centro de Eventos da PUC do Rio Grande do Sul, passeei pelos stands, conversei com integrantes do Fórum e organizadores constatando, mais uma vez, o quanto ainda estamos distantes de ultrapassar a fase de "respeitar os deficientes", passando finalmente a tomar decisões e adotar práticas para incluí-los no nosso dia a dia.
Neste I Fórum, pessoas surdas ficaram impossibilitadas de acompanhar conferências e se expressar nas oficinas. Não foram contratados intérpretes da língua brasileira de sinais, nem da língua espanhola de sinais, nem da língua inglesa de sinais, por exemplo. Quanto aos cadeirantes, havia vasos sanitários adaptados, sim, mas após usá-los os usuários não tinham como lavar as mãos sem ajuda, porque as pias dos banheiros (pelo menos dos que entrei) eram apoiadas em armários que impediam a aproximação das cadeiras. Notei ainda a ausência da programação em braile para que jovens e adultos cegos pudessem escolher e acompanhar os eixos temáticos.
Enfrentar o desafio da acessibilidade deve ser uma preocupação da comissão organizadora do próximo Fórum por, no mínimo, cinco razões: a) Vi o interesse público pela proposta do Fórum; b) É necessário que cada vez mais pessoas dispostas a se doar por um mundo melhor estejam reunidas em 2002; b) É básico garantir a todas as condições humanas - e não apenas a algumas - o acesso às reflexões propostas pelo Fórum; c) É coerente que num encontro onde se brada por inclusão social, fiquemos atentos às necessidades do próximo, de qualquer próximo, não necessariamente dos próximos sob risco social (só assim ficaremos à vontade para argumentar com os opositores do Fórum); d) É hora de cumprirmos as Leis que penalizam instituições ou indivíduos que impeçam o acesso e a permanência de cidadãos com deficiência nos ambientes públicos. A Lei Federal 7.853, de 24 de outubro de 1989, explicita a responsabilidade do poder público em relação à pessoa com deficiência e dispõe sobre a criminalização do preconceito, com pena de 1 a 4 anos de reclusão.
Não se muda mentalidade por força da lei. Mas, se punidos, os organizadores do Fórum não estariam sozinhos. Inexistem no mundo celas suficientes para conter tanta gente, tamanha é a freqüência com que violamos, diariamente, os direitos de humanos com deficiências e doenças crônicas. Eu mesma, que desde 1992 milito e escrevo artigos e livros sobre sociedade inclusiva e inclusão de grupos vulneráveis na sociedade, participando de movimentos nacionais e internacionais defensores do tema, talvez fosse a primeira a ser encarcerada.
Há uns 15 dias surpreendi-me com o tamanho da minha incoerência. Pego meus cartões de visita e o que leio? Nome, endereço, telefone, profissão, e-mail, tudo escrito apenas em português! Informações ininteligíveis para quem é cego ou tem visão subnormal. Bem, já providenciei cartões de visita em braile que também terão meus dados em letras maiores, para quem não chega a ser cego mas não enxerga bem. Desnecessário? Deixemos a idade avançar e talvez entendamos melhor o que significa acordar e dormir em um mundo inadequado às nossas necessidades básicas.
É absurdo propor inclusão social sem exercitar a inclusão humana. Insistindo em pular esta etapa, que nos remete a reflexões da ética do indivíduo para com sua própria espécie, reflexões estas consideradas menores por grande parte dos sociólogos, filósofos, jornalistas, educadores, governantes - brasileiros e não-brasileiros - etc, jamais construiremos um mundo melhor. Ir ao banheiro com conforto e ter sua intimidade preservada neste momento pode ser tão revolucionário quanto ter voz nas plenárias.
Faço aqui uma chamada para que entidades do Terceiro Setor, como o Instituto Pró-Sociedade Inclusiva, do qual faço parte, e que se coloca à disposição do Fórum Social Mundial, neste momento, mobilizem-se para colaborar com a organização do próximo Fórum no que diz respeito a acessibilidade de participantes com comprometimentos humanos diversos.


Claudia Werneck é reconhecida como "Jornalista Amiga da Criança" pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância e autora do livro "Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS?"

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A globalização e seus efeitos

A globalização trouxe principalmente os progressos (desejáveis) nos meios de comunicação, a melhor circulação de pessoas, de mercadorias, de capitais e opções para todos.Todos se beneficiam com a globalização, entretanto o beneficio não é igual para todos. Quanto maior a estruturação da sociedade maior o benefício, quanto menor for a estruturação maior “prejuízo”. Como conseqüência encontramos as desigualdades sociais cada vez mais visíveis.
Para minimizar precisamos de uma estruturação social, política, econômica e financeira, o que encontramos como variável interveniente é a velocidade da globalização frente ao desenvolvimento dos setores citados em cada estrutura social.
A globalização não é uma opção de sociedade, é inevitável, é imposta pela própria evolução de mundo, precisamos ter uma visão um pouco mais ampliada para poder entendê-la.
Poucos conseguem perceber as influências da globalização em todos os níveis de nossas vidas: pessoal, familiar, na cidade/estado ou país. Neste novo contexto sócio-econômico-cultural, a informação passa a ter um papel central, constituindo-se atualmente no maior poder de inter-relação existente, tendo inclusive, suplantado o poder econômico e tecnológico.
O poder da informação se faz através de livros, revistas, jornais especializados, TV a cabo em escala mundial e internet - a qual se quadruplicou em um ano e continua crescendo. A informação duplicando-se, em progressão geométrica, a cada 3 a 5 anos, logo se constituirá em um universo esmagador.
A capacidade de saber onde, como, com quem e a forma mais rápida de adquirir informações, analisá-las e aplicá-las adequadamente será o grande diferencial competitivo.
A globalização não vem trazer soluções para os problemas do mundo, contudo podemos ter a esperança de que alguns problemas sejam resolvidos que é muito diferente de esperar por algo mágico, onipotente e onisciente.
A globalização não se propõe a nada, é apenas uma “fatalidade” que deve ser pensada e compreendida para não sermos pegos de surpresa pelas forças de desestruturação. A própria desestruturação pode ser um fator de progresso, para repensarmos a realidade, mas também de violência e sofrimento humano.
Precisamos estar atentos para não achar que a melhor maneira de enfrentar a globalização seja a unificação, a perda de culturas regionais próprias de cada lugar, como a dissolução das características individuais e particulares, ficaríamos sem nossa história, cultura e identidade! Isto é muito sério. Desta forma a humanidade, em sua história já passou por diversas revoluções e sempre se beneficiou dos seus progressos, o que sabemos é que alguns grupos humanos se beneficiaram mais do que outros.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O que deveria ser a Pedagogia hoje

É preciso refletir sobre o que pode e deve ser a Pedagogia hoje : deve ser, por certo, a ciência que organiza ações, reflexões e pesquisas na direção das principais demandas educacionais brasileiras contemporâneas, com vistas à:

- qualificação da formação de docentes como um projeto político-emancipatório;
- organização do campo de conhecimento sobre a educação, na ótica do pedagógico;
- articulação científica da teoria educacional com prática educativa;
- transformação dos espaços potenciais educacionais em espaços educativos/formadores;
- qualificação do exercício da prática educativa na intencionalidade de diminuir práticas alienantes, injustas e excludentes encaminhando a sociedade para processos humanizatórios , formativos e emancipatórios.

Quando me refiro à formação do cientista educacional, estou me referindo à formação de um profissional :

- com capacidade de mediar um projeto político-educacional em consonância com os pressupostos da sociedade e as demandas presentes na práxis educativa;
- capacitado a ampliar a esfera do educativo dentro das possibilidades educacionais : que organize espaços e ações para pedagogizar o educacional latente na sociedade;
- capaz de organizar, supervisionar e avaliar processos institucionais de forma a transformar a prática educativa mecânica, alienada e técnica, em práxis educativa, comprometida social e politicamente;
- capaz de responsabilizar-se na organização e direção de projetos de formação inicial e contínua dos educadores da sociedade, docentes e não docentes;
- que transforme saberes da prática educativa em saberes pedagógicos, cientificizando o artesanal/intuitivo do fazer da prática em saberes pedagógicos;
- que organize processos de pesquisa de cunho formativo-emancipatório de forma a estruturar as inovações educativas pressentidas como necessárias, a partir das demandas emanadas da práxis;
- que atue como gestor/pesquisador/coordenador de diversos projetos educativos, dentro e fora da escola: pressupondo sua atuação em atividades de lazer comunitário; em espaços pedagógicos nos hospitais e presídios; na formação de pessoas dentro das empresas; que saiba organizar processos de formação de educadores de ONGs; que possa assessorar atividades pedagógicas nos diversos meios de comunicação como TV, rádio, internet, quadrinhos, revistas, editoras, tornando mais pedagógicas campanhas sociais educativas sobre violência, drogas, aids, dengue; que esteja habilitado à criação e elaboração de brinquedos, materiais de auto estudo, programas de educação à distância; que organize, avalie e desenvolva pesquisas educacionais em diversos contextos sociais; que planeje projetos culturais e afins;
- que na escola, seja o mediador de processos administrativos e pedagógicos, quer na gestão, supervisão, orientação, acompanhamento e avaliação de projeto político pedagógico da unidade escolar, bem como estabelecendo e articulando as vinculações da escola com a comunidade e sociedade.
- que seja o organizador privilegiado do campo de conhecimento da Pedagogia e interlocutor preferencial nas articulações e construções coletivas com ciências afins;
- profissional empenhado na busca de respostas à construção de práticas educativas inovadoras que cumpram seu papel social na humanização dos cidadãos;
- integrador dos demais espaços educativos com o espaço escolar na busca de uma nova lógica educacional capaz de reconduzir a representação de ensino como transmissão de informação para concepções que priorizem a articulação dialética entre ser, saber e construir novas configurações de existência;
- profissional enfim, envolvido com a construção da profissionalidade docente, na busca de condições políticas e institucionais favorecedoras de novas e significativas relações sociais desejadas pelo coletivo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Como virar a página?

Se não colocar a educação de cabeça para baixo, o Brasil não passará para a primeira divisão da economia mundial
Nely Caixetaí
Revista Brasil em Exame Setembro de 1997
Se é tão fundamental para a competitividade das empresas brasileiras e do país, como nação, contar com uma força de trabalho mais educada, por que não começar a virar o jogo desde já? Para passar à primeira divisão da econômica mundial, algumas lições precisam ser colocadas em prática. Uma delas é garantir uma moeda estável. Mas a estabilidade econômica que hoje experimentamos não irá nos levar muito longe se não for acompanhada de um esforço de toda a sociedade para enfrentar o quadro desastroso em que se encontra hoje a educação no país. Dados do último censo escolar mostram que 2,7 milhões de crianças brasileiras, entre 7 e 14 anos, estão fora da escola. Que tipo de função, se é que há alguma, essas crianças estarão aptas a desempenhar quando atingir a vida adulta?
A abertura econômica, que jogou o país na competição globalizada, serviu para escancarar nossas deficiências diante dos concorrentes estrangeiros. De uma hora para outra, os brasileiros passaram a consumir uma gama variada de produtos melhores e mais baratos, produzidos lá fora por trabalhadores com um grau de instrução bem mais elevado. As estatísticas a esse respeito são cruéis para o nosso lado. A escolaridade média dos 71 milhões de brasileiros que compõem a população economicamente ativa é de 3,8 anos, um dos níveis mais baixos do mundo, comparável aos do Haiti e de Honduras. Na Argentina, a média é de 8,7 anos, no Paraguai, 9 anos, e na Coréia do Sul, I I anos. Sempre que cita esses dados, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, diz que deveriam envergonhar e humilhar as elites do país. Deveriam mesmo.
O que nunca faltou no Brasil foi discurso, alguns com pensamentos de ponta, sobre a melhor maneira de enfrentar o problema da educação brasileira. A educadora Rose Neubauer, secretária da Educação do estado de São Paulo, é uma crítica impiedosa dos modismos que sempre cercaram a questão. "Nunca houve no país um projeto sério em favor da educação", afirma Rose. Enquanto isso, lá fora, a consciência de que era preciso investir pesadamente no ensino básico disseminou-se, desde o século passado, por muitos países, como os Estados Unidos, o Japão e algumas naçõe européias. "Os países que investiram volume considerável de recursos para educar suas populações são aqueles que obtiveram maior desenvolvimento econômico", diz o americano Gary Becker, prêmio Nobel de Economia de 1992. A tarefa à nossa frente é colossal. Não basta conseguir taxas de alfabetização semelhantes às dos países industrializados. É preciso garantir também um ensino de boa qualidade. A partir de um ensino básico bem-feito é que as nossas crianças irão adquirir as ferramentas necessárias para enfrentar o mundo do trabalho, cada vez mais exigente e competitivo. É nesse período escolar que elas recebem as noções básicas e fundamentais que irão carregar para o resto da vida, em termos de conhecimento da língua pátria, uma ou outra estrangeira, literatura, história, matemática, geografia e ciências. Assentam-se aí as bases para o pensamento racional e lógico. Sem isso, elas ficarão à margem dessa nova sociedade da informação e da tecnologia, que exige cidadãos preparados para acompanhar a rápida evolução do conhecimento. "Essa nova etapa do capitalismo entrega ao sistema educacional uma imensa responsabilidade", diz o ministro da Educação, Paulo Renato Souza.
Não é por outra razão que a questão do ensino virou tema candente em todo o mundo. A boa notícia no Brasil é que começa a tomar corpo na sociedade a consciência de que a educação é uma ferramenta estratégica para o crescimento sustentado que o país deseja alcançar. O fato é que muitos empresários passaram a sentir na própria carne o que é ter mão-de-obra despreparada, destituída dos conhecimentos mais elementares da educação básica. Para muitos deles, a questão passou a ser de sobrevivência.
Eles descobriram que muitos de seus funcionários eram analfabetos funcionais, incapazes de manejar a nova tecnologia disponível na empresa. O chão de fábrica passa por uma revolução. Um ferramenteiro hoje tem de ter conhecimento de desenho mecânico e noções de engenharia para projetar no computador os moldes das peças a ser produzidas em série. Para o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, da Universidade de São Paulo, o analfabeto do futuro não será aquele que não sabe ler nem escrever, mas sim alguém incapaz de interagir com máquinas inteligentes e participar de um processo no qual é preciso tomar iniciativas. "Quem não tiver essas habilidades vai ficar excluído", diz Gianetti.
Também o trabalhador rural tem de se adaptar aos novos tempos. Antigamente, o pai ameaçava o filho que não queria ir para a escola, dizendo que se ele não estudasse iria para a roça. Hoje, nem essa alternativa lhe resta. Para aumentar a produtividade, começa a ser introduzida no país a chamada agricultura de precisão. O grupo Algar, de Uberlândia, em Minas Gerais, passou a usar instrumentos de última geração em suas fazendas cultivadas com soja e milho. Sensores instalados nas plantações e o sistema de monitoramento por satélite ajudam os agrônomos a mapear a produtividade em cada metro quadrado da área plantada. A deficiência de fertilizantes ou a ocorrência de praga são detectadas, e as providências tomadas rapidamente.
Para lidar com esse tipo de agricultura, o trabalhador rural precisa saber bem mais do que ler e escrever. Em Paracatu. município do cerrado mineiro, as crianças da zona rural passaram a receber um tratamento muito diferente da costumeira negligência com que vêm sendo relegadas séculos a fio. Há apenas cinco anos, de 2 600 crianças em idade escolar, apenas 300 freqüentavam escolas. Hoje, o número subiu para 2 300 alunos (quase 90% do total), graças a uma série de iniciativas tomadas pela prefeitura para incentivar a educação no campo. O programa, batizado de Educar Plantando, compreende oito escolas-pólos, com cursos da 5ª à 8ª série, e 44 escolas multisseriadas, do pré-primário à 4ª série. Todas as manhãs, 13 Kombis e 12 ônibus contratados pela prefeitura recolhem os alunos na porta de casa para levá-los à aula.
No início, foi preciso convencer os pais a mandar seus filhos para a escola. Eles não queriam perder a ajuda dada pelas crianças no trabalho familiar. A solução encontrada pela prefeitura de Paracatu foi integrá-los ao projeto. São os pais dos alunos que fornecem a carne, ovos, leite, frutas e legumes usados na merenda escolar. Desde o lançamento do programa os índices de evasão caíram para mais da metade. Está em cerca de 5,6%, contra 8,8% na área urbana. A Fundação Banco do Brasil, que passou a apoiar o programa. está estendendo a iniciativa para mais de 60 municípios em todo o país.
Está claro que, num mundo moderno, a produtividade está associada diretamente à qualificação do trabalhador. Não é possível atingir prosperidade sem investimento em capital humano. Em seu livro Human Capital, Becker cita o inglês Alfred Marshall, para quem a essência do desenvolvimento residia no emprego das potencialidades das pessoas. Muitos dos problemas que Marshall viu na Inglaterra do fim do século - mau aproveitamento dos recursos humanos e desperdício na escola gerado por um alto grau de repetência e evasão ainda são os nossos problemas.
Por causa da repetência, os brasileiros levam em média cerca de 11,2 anos para concluir as oito séries do ensino obrigatório. No Nordeste, 80% dos alunos matriculados na escola fundamental têm idade superior à faixa etária correspondente à série em que estudam. O resultado é um alto nível de evasão escolar - cerca de 4% no ensino fundamental. Desestimuladas pelos maus resultados e pressionadas pelos pais a ajudar no sustento da casa, muitas crianças abandonam definitivamente os estudos. Sempre se jogou sobre as costas dos alunos a culpa pelo fracasso escolar. Quando tantas crianças abandonam os estudos, é claro que os verdadeiros responsáveis estão em outro lugar. Os dados do último censo escolar revelaram, porém, uma tendência alentadora. Apesar de alto, o número de alunos que deixam a escola está em queda. Isso pode ser atestado pelo crescimento das matrículas no ensino médio (o antigo segundo grau), que aumentaram 52,2% entre 1991 e 1996.
O governo, empresários e estudiosos do problema estão convencidos de que as oito séries do nível fundamental constituem a melhor base para qualquer aspirante a uma vaga no mercado de trabalho. O que afinal aconteceu para que houvesse essa guinada tão radical? O fato é que num mundo de fronteiras abertas, onde o acesso ao capital e aos fatores de produção foram internacionalizados, o que faz a diferença atualmente é a qualidade da mão-de-obra nacional. Na dúvida entre investir neste ou naquele país, ganhará o que for capaz de oferecer uma força de trabalho mais bem preparada. É isso o que os especialistas chamam de worker effect, o que, em última instância, garantirá a competitividade internacional dos produtos a ser produzidos.
Os índices de produtividade do trabalhador brasileiro tiveram um salto espetacular desde o início do Plano Real, mas ainda estão muito longe daqueles que vêm sendo obtidos pelos seus pares na Coréia, onde a escola fundamental foi universalizada e a educação é cultuada como um bem valioso. Por isso, nada soa mais ultrapassado hoje do que aquela qualificação excludente do passado, em que os filhos das classes menos favorecidas substituíam a formação acadêmica pelos cursos profissionalizantes oferecidos no local de trabalho. Tal modelo ajudou a perpetuar uma casta de brasileiros de segunda categoria, mantendo, geração após geração, as desigualdades sociais de seus grupos. Enquanto isso, o ensino acadêmico era garantido aos filhos das classes médias e mais abastadas, que acabavam ficando com as vagas nas universidades e, mais tarde, com os cargos de comando nas empresas e fora delas.
Não se pode menosprezar o fato de que, além de contribuir ara formar continentes de mão-de-obra capazes de atrair para o parque industrial brasileiro as chamadas indústrias de ponta, a educação também terá seu papel na consolidação do mercado brasileiro. Como afirma o economista carioca Sérgio Werlang, cada ano adicional de estudo acrescenta ao trabalhador brasileiro um aumento anual de renda em tomo de 16%. Mais renda, mais consumo.
Quanto maior a base acadêmica, maior a chance de um trabalhador integrar-se às novas exigências do trabalho e expandir suas habilidades, mediante cursos de reciclagem constantes. É assim que irá garantir sua empregabilidade, uma dessas palavras feias que os consultores e técnicos inventam de vez em quando, mas que significa apenas a capacidade do trabalhador de tornar seus préstimos úteis para alguma empresa. "A principal política de emprego é a política educacional", diz o ministro do Trabalho, Paulo Paiva.
Dados do Ministério do Trabalho indicam que o contingente de pessoas analfabetas ou subescolarizadas empregadas hoje nos diversos setores da economia é superior a 10 milhões. Uma série de iniciativas está em curso para enfrentar o problema. A Confederação Nacional da Indústria, CNI, através do Sesi, anunciou recentemente uma meta ambiciosa: alfabetizar e elevar a escolaridade de 3,6 milhões de trabalhadores acima de 14 anos, empregados na indústria, no setor de comunicações e na pesca. O programa pretende fazer com que 2,6 milhões de trabalhadores concluam a 8ª série do ensino fundamental num período de seis anos.
Empresas como a Black & Decker, Volkswagen, Honda e Natura estão investindo na educação básica de seus funcionários. Muitas empresas, como a Natura, só admitem funcionários que tenham o segundo grau completo. A política começou a ser implantada há cerca de três anos, quando muitos deles, com baixa escolaridade, começaram a ter dificuldades para absorver os novos conceitos de qualidade total que estavam sendo introduzidos na empresa. O recurso foi firmar um convênio com uma escola pública da vizinhança para que voltassem a estudar. Hoje, 78% dos funcionários da Natura já atendem àquela exigência. "Precisamos de pessoas que saibam tirar conteúdo de um texto e entendam nossos treinamentos operacionais", afirma o diretor de recursos humanos e qualidade total da Natura, Femando Porchat.
Para fazer essa revolução do giz, - caderno e compasso (sem falar da calculadora eletrônica e do computador) é preciso que a sociedade se mobilize. Há muito se sabe que um dos nós da educação brasileira é a prioridade dada pelo governo ao ensino universitário em detrimento do ensino básico. A questão sobre se a universidade pública deve ou não ser paga é um vespeiro no qual o governo não pretende meter a mão, ao menos por enquanto. "Esse não é um tema central neste momento", diz o ministro Paulo Renato. Para ele, as atenções devem ser centradas na reforma universitária que se encontra em discussão no Congresso. Sua esperança é que por meio dessa reforma, que pretende dar maior autonomia administrativa e financeira às universidades federais, elas possam melhorar seu desempenho, inclusive baixando os custos - hoje tão altos - por aluno matriculado.
O outro nó é a altíssima taxa de repetência, que atinge cerca de 30% dos alunos matriculados no ensino fundamental. O resultado é uma massa de estudantes com auto-estima baixa e desmotivados, que acabam abandonando para sempre os bancos escolares. Os números da evasão escolar são espantosos. De cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, apenas 35 concluem a 8ª série. O que o governo está fazendo para solucionar o problema da repetência? "Estamos centrando nossos esforços na melhoria da qualidade do ensino", diz o ministro Paulo Renato.
Uma série de ações está em curso. A principal delas foi a promulgação, no ano passado, da Emenda Constitucional n.º 14, que estabelece o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério. A partir de 1998, 60% dos recursos que estados e municípios têm de reservar, obrigatoriamente, para a educação, vão ser canalizados para o ensino fundamental. Esses recursos serão redistribuídos aos municípios e estados de acordo com o número de alunos matriculados nas respectivas redes. Isso significa que, para ter acesso às verbas, prefeitos e governadores precisarão investir nas escolas da 111 à 8a série. O investimento em cada aluno será de 300 dólares por ano, o mesmo valor do salário mínimo que passará a ser pago aos professores de todo o país por 20 horas de aula semanais. Começa-se a corrigir, assim, a vexatória situação que faz muitos professores, em algumas partes do país, receberem salários de 30 reais por mês.
Para melhorar a qualificação dos mestres, o governo lançou no ano passado o programa TV Escola. Cerca de 45 000 escolas do país já contam com equipamento para recepção e gravação dos cursos de aperfeiçoamento oferecidos aos professores. A intenção do governo é que, em cinco anos, todos eles tenham pelo menos o segundo grau completo. Hoje, apenas 47% deles estão nessa situação. Também no ano passado foi criado o programa de Aceleração de Aprendizagem, voltado para alunos com mais de dois anos de repetência. Lançado inicialmente nos estados de Minas Gerais, do Maranhão e de São Paulo, a iniciativa tem colhido bons resultados. O Ceará é outro estado que tem priorizado o combate à repetência e à evasão escolares. Ali, agentes comunitários visitam as áreas mais pobres do estado para convencer os pais a mandarem seus filhos novamente para a escola Essa e outras iniciativas fizeram com que a matrícula nas escolas cearenses do ensino fundamental tivesse um aumento de 25% do ano passado para cá.
Há várias outras iniciativas adotadas pelo governo federal para melhorar o nível de ensino. O MEC implantou, por exemplo, um sistema de avaliação do livro didático, para orientar a escolha dos professores. Este ano foram distribuídos, no início e não no meio do ano letivo, como acontecia tradicionalmente, um total de 110 milhões de livros didáticos, o que significa um aumento de 83% sobre 1996.
Outra novidade diz respeito aos novos parâmetros curriculares que estão sendo estabelecidos para o ensino fundamental. Já a partir do próximo ano, as disciplinas clássicas, como português, ciências sociais e matemática, vão ser permeadas, nas escolas da 14 à 4& série, por temas como saúde, pluralidade cultural, ética da cidadania e meio ambiente. No próximo mês, o presidente Femando Henrique Cardoso vai divulgar as bases do programa Nenhuma Criança fora da Escola, que tem por fim apoiar os estados e os municípios a expandirem o número de suas matrículas e eliminar o déficit no atendimento já a partir do ano letivo de 1998.
Em meio a todos os dados desalentadores da educação brasileira, uma boa notícia. De 1991 a 1995, o número de alunos que concluíram o ensino fundamental cresceu 61,9%. No mesmo período, o número daqueles que terminaram o ensino médio foi 45,9% maior.
Tudo isso mostra que alguma coisa está sendo feita para desatar o nó do ensino no Brasil. Não se trata evidentemente, de uma tarefa que se possa executar da noite para o dia, mas é preciso correr. Outros países, com sistemas educacionais mais funcionais do que o nosso, estão discutindo os seus erros e procurando corrigi-los, sob pena de serem punidos mais adiante. É possível, sim, resolver o problema da educação no Brasil. Talvez seja uma tarefa para apenas uma geração. Convém desmitificar as dificuldades à frente. Houve um tempo em que quase chegamos a perder a confiança em nossa capacidade de ter uma moeda estável. Hoje, a inflação está aí com índices de apenas um dígito - uma miragem não faz tanto tempo assim. Se toda a sociedade quiser, não vai ser diferente com a educação. Só com uma profunda reforma do ensino, que resgate a cidadania de sua enorme parcela de excluídos, é que o Brasil vai poder, finalmente, deixar a segunda divisão dos países e marcar, quem sabe, um gol de placa no século XXI.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A importância dos valores internos

Esse estudo visa uma compreensão mais aprofundada a respeito da estrutura de valores que possui o ser humano em seu projeto de vida. Primeiramente, faz-se necessária uma reflexão acerca dos valores internos, buscando a suas origens na formação do psiquismo humano. Ao investigar o desenvolvimento da personalidade infantil encontram-se aspectos ligados a temperamento. É como descreve Fadiman (1986), estudos realizados por Carl Gustav Jung trouxeram os conceitos de pessoas introvertidas e extrovertidas, cada qual com as suas peculiaridades de pensamento, sensação, percepção e intuição.
Ainda em Fadiman (1986), há a conceituação deixada por Skinner, psicólogo americano, na qual sinaliza as influências que o meio ambiente exerce sobre as pessoas, levando-as a terem um comportamento ou outro. Seus estudos incluíram o campo da educação, valorizando as recompensas para a aquisição de bons comportamentos e a punição para a correção dos inadequados.
Na esfera da moral, em Piaget (1977), existe a idéia de noção de justiça na criança, ao referir-se a uma oposição existente entre dois tipos de respeito, e conseqüentemente, entre duas morais: a de obrigação e a de cooperação. Uma trata do dever, a outra do respeito mútuo. Quando a criança desenvolve uma formação baseada na justiça de cooperação é possível que ela possua um senso de justiça igualitário ao longo de sua vida.
As bases sobre justiça podem ser encontradas no filósofo clássico Aristóteles (1986), através de suas reflexões éticas, ao afirmar que aquele que pratica atos justos não necessariamente é um ”homem justo”; pode ser um “bom cidadão”, contudo, jamais será um “homem justo” ou um “homem bom” de per si. O “homem bom” é, por si mesmo, independentemente da sociedade, completo em sua interioridade; a justiça lhe é uma virtude vivida, por meio da ação voluntária. A moral obedece às regras, a ética possui seus próprios valores.
La Taille (2002), descreve o cenário da educação infantil apontando as duas grandes fontes educacionais da criança: família e escola, como agentes que devem tornar claros os seus valores e definições sobre uma vida plena. A sociedade e a mídia acabam ocupando um espaço considerável na formação desses conceitos fundamentais. Com o passar do tempo os valores aprendidos na família e na escola foram perdendo terreno, e quem encontrou espaço para implantar diferentes valores foi a forte idéia comercial. Tudo parece estar voltado para o mercado, o consumismo e a superficialidade. Muito tem se perdido com esta maneira de formar valores.
Tendo em vista os vários fatores que compõem a personalidade do ser humano, torna-se importante o exercício de compreender que formas de valor podem estar presentes nas pessoas. Dependendo das características existentes desde o nascimento, somadas as aprendizagens e experiências vividas, resultará em diferentes valores encontrados em cada um.
A criança recebe determinada cultura de seus cuidadores, bem como influências do meio em que vive. Caso ela não obtenha valores de uma vida mais plena, dificilmente formará um conceito interno a respeito. A preocupação nesta altura das reflexões alcança os valores que o ser humano formou e os vive a partir de uma condição intrínseca. Ao contrário de alguém que percebe a necessidade de ter de se adequar às regras e normas circunstanciais de um dado momento, para uma demanda específica. Temos, então, valores adaptados e considerados extrínsecos. Seu efeito pode durar tanto quanto os seus objetivos permaneçam disponíveis.
Aquele que possui valores intrínsecos tem maior chance de resistir às atribulações que a vida reserva. Sofre, contudo, encontra sustentação diante das dificuldades existentes. Vê o campo de batalha no qual se situa, porém, tem ânimo e força para continuar lutando e planejando as perspectivas. É como se encontrasse uma companhia vital para continuar a jornada. Os valores religiosos são forte exemplo desse tipo de sustentação. Vemos claramente em (2 Co 5.1.): “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.”
Por outro lado, quem convive com valores extrínsecos, é presa fácil dos problemas. Sucumbe, quase sempre, ao primeiro vento que sopra contrariamente. Não há uma estrutura formada que ofereça apoio e perseverança. Encontra, na maioria das vezes, o desespero como aliado. Sente-se só.
Como tratar da questão em pauta? Valores positivos internos, se eles pouco representam para as pessoas que não o obtiveram. Observe que o número de crianças com pouco contato nesta esfera do desenvolvimento vêm aumentando, haja vista o distanciamento que ocorre entre pais e filhos. A educação perde terreno nesta relação já enfraquecida, onde a responsabilidade primária (dos pais) está sendo passada, ou há uma constante tentativa, para a secundária (escola). As razões deste fenômeno vão desde o conceito errôneo que muitos pais têm a respeito do eixo liberdade-limites, até o comprometimento com as suas atividades profissionais em virtude do dinheiro e do próprio desenvolvimento. Não é uma situação fácil (Siqueira, 2003).
Os educadores têm um papel relevante junto a seus alunos, bem como aos pais deles. É papel de liderança que deve estar presente todo dia na vida das crianças e adolescentes. Declarar valores pessoais e estimular o seu desenvolvimento pode auxiliar nesta tentativa. Em qualquer oportunidade de tempo, desde que seja feito.
Imaginemos, então, se ampliarmos esta dificuldade para a vida social em grupo. Muitas pessoas, de diferentes valores, ainda que alguns estejam relativamente próximos, calcule como é o alinhamento entre aquele que possui valores internos de boa conduta, mediante valores globais negativos de um sistema organizado? O contrário também.
Outro empecilho ocorre na hora de compreender ou formar os planos futuros de vida. Que sonhos ter? O que vislumbrar como algo que possua grandeza e nos inspire a caminhar em sua direção? Que horizonte observar e nele estarem depositadas importantes convicções pessoais?
Ainda mais, como conceber as metas desses planos? Se a perspectiva não inclui uma visão estimuladora? Que objetivos tangíveis devemos alcançar para manter a chama acesa?
Se não há valores profundos e positivos, não há, em essência, o que visionar e tornar, em decorrência, objeto de qualquer missão. Tal infortúnio, num convívio grupal, desmotiva aquele que é desprovido de valores fundamentais. Quer apenas resultados imediatos e se frustra facilmente quando não os obtêm. Seus objetivos incluem somente o fazer e a resposta que ocorra de acordo com as suas aspirações, excluindo os seus propósitos educativos, tais como o errar, parte inseparável do ser humano. Não há paciência, muito menos sabedoria em entender as muitas possibilidades que podem estar presentes em cada idéia e ato que emitimos.
Quando a pessoa carrega valores internos, é capaz de empreender atividades que busquem se aproximar de seus sonhos. Avaliar as novas situações, respeitando as mudanças e resultados que surjam, diferentemente do que antevia. Compreender o valor do tempo e saber esperar quando assim se faz necessário. É crente de suas convicções e sabe articulá-las com as diferenças que encontra no grupo. Busca adaptar-se, até certo limite, aos valores da comunidade que faz parte. Alinha seus valores, sonhos e metas. Encontra na própria estrutura desses conceitos um objetivo a ser alcançado em cada lugar e em cada tempo.

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora da UNB, l985.
FADIMAN, James. Teorias da Personalidade. São Paulo: Editora Harbra, 1986.
PIAGET, J. O julgamento moral da criança. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.
SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Educação sem limites. Internet, disponível em: www.psicopedagogia.com.br. Acesso em 03/11/03.
TAILLE, Yves de La. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: editora Ática, 2002.

Educação Especial e Novas Tecnologias: O Aluno Construindo Sua Autonomia

Educação Especial e Novas Tecnologias: O Aluno Construindo Sua Autonomia
Teófilo Alves Galvão Filho
teo@ufba.br
http://infoesp.vila.bol.com.br

I – Introdução
Com muita freqüência a criança portadora de alguma deficiência, física ou mental, por suas próprias limitações motoras e/ou sociais, agravadas por um tratamento paternalista não valorizador de suas potencialidades, cresce com uma restrita interação com o meio e a realidade que a cerca. Muitas vezes, se não for adequadamente estimulada, assume posições de passividade diante da realidade e na solução de seus próprios problemas diários. É condicionada a que outros resolvam os seus problemas e até pensem por ela.
Conforme Valente,

"As crianças com deficiência (física, auditiva, visual ou mental) têm dificuldades que limitam sua capacidade de interagir com o mundo. Estas dificuldades podem impedir que estas crianças desenvolvam habilidades que formam a base do seu processo de aprendizagem." (Valente, 1991,p.1).

Se, conforme Piaget, as crianças são construtoras do próprio conhecimento, quando portadoras de deficiência essa construção, portanto, pode ser limitada pela restrita interação das mesmas com o seu ambiente. E é nesta interação que, segundo Papert, através da ação física ou mental do indivíduo, se dão as condições para a construção do conhecimento. Sobre a importância, para o aprendizado, das interações no mundo, enfatiza Papert:

"O Construcionismo, minha reconstrução pessoal do Construtivismo,... atribui especial importância ao papel das construções no mundo como apoio para o que ocorreu na cabeça, tornando-se, deste modo, menos uma doutrina puramente mentalista." (Papert, 1994, p. 128)

E quando estas crianças com necessidades educacionais especiais ingressam em um sistema educativo tradicional, em uma escola tradicional, seja especial ou regular, frequentemente vivenciam interações que reforçam uma postura de passividade diante de sua realidade, de seu meio. Frequentemente são submetidas a um paradigma educacional no qual elas continuam a ser o objeto, e não o sujeito, de seus próprios processos. Paradigma esse que, ao contrário de educar para a independência, para a autonomia, para a liberdade no pensar e no agir, reforça esquemas de dependência e submissão. São vistas e tratadas como receptoras de informações e não como construtoras de seus próprios conhecimentos.
Exatamente pelas dificuldades e atrasos que estes alunos com necessidades especiais frequentemente apresentam em seu desenvolvimento global, é vital, com mais ênfase nestes casos, oferecer-lhes um ambiente de aprendizagem que os ajude a abandonar essa postura passiva de receptores de conhecimento. Um ambiente onde sejam valorizadas e estimuladas a sua criatividade e iniciativa, possibilitando uma maior interação com as pessoas e com o meio em que vivem, partindo não de suas limitações e dificuldades, mas da ênfase no potencial de desenvolvimento que cada um trás em si, confiando e apostando nas suas capacidades, aspirações mais profundas e desejos de crescimento e integração na comunidade.
Por outro lado, é sabido que o computador vem se tornando cada vez mais um instrumento importante de nossa cultura, e o ambiente computacional e telemático, um meio de inserção e interação com o mundo, se adequadamente utilizado.
Por tudo isso, no Programa Informática na Educação Especial, desenvolvido desde 1993 nas Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador-Bahia, optamos por um paradigma educacional valorizador da ação e iniciativa do aprendiz, cujas características, filosofia e metodologia resumimos a seguir.

II – Um paradigma valorizador da iniciativa do aprendiz

Referência primeira: O Ambiente Logo de Aprendizagem
Os princípios filosóficos e metodológicos do Ambiente Logo de Aprendizagem apontam justamente para este modelo de educação com as novas tecnologias através do qual o aluno tem a iniciativa e é o sujeito de seus próprios processos.
O que seria, então, o Ambiente Logo?
Logo é uma Linguagem de Programação desenvolvida por volta de 1968, no Massachusetts Intitute of Tecnology (MIT), em Boston, nos E.U.A., por uma equipe de pesquisadores liderados por Seymour Papert.
Papert, que estudou durante os anos 60 no Centro de Epistemologia Genética, com Jean Piaget, de quem incorporou muitas de suas idéias, teve sempre como preocupação o estudo dos processos de aprendizagem.
A partir desta preocupação, surgiu a Linguagem Logo como uma linguagem com possibilidade de processar listas e de criar novos procedimentos, sendo adequada à aplicação em educação.
Mas o Ambiente Logo de Aprendizagem não se resume somente à Linguagem Logo de Programação. O Ambiente Logo possui duas raízes: uma computacional e outra filosófica. Ambas com características que as tornam próprias para sua utilização em educação.
Uma de suas principais características do ponto de vista computacional, ou seja, da Linguagem Logo propriamente dita, é a facilidade de assimilação por sua simplicidade de manuseio. Com comandos de terminologia fácil, o Logo permite uma rápida assimilação tanto pelos professores como pelos alunos. A parte gráfica é considerada sua porta de entrada. Consiste numa tartaruga no centro da tela, que pode ser movimentada a partir de comandos, cujo vocabulário se assemelha à linguagem utilizada cotidianamente para o deslocamento de uma pessoa no espaço. Os comando mais básicos do "vocabulário da tartaruga" são: PF (para frente) e PT (para trás), usados para deslocar a tartaruga; PE (para esquerda) e PD (para direita), para fazê-la girar. Estes comandos devem vir acompanhados de um número que determina quantos "passos" a tartaruga irá deslocar-se ou quantos graus deve girar. Os deslocamentos podem ou não deixar traços na tela, através dos comandos UL (use lápis) ou UN (use nada), possibilitando que o aluno venha a desenhar através da movimentação da tartaruga.
Esta atividade envolve conceitos espaciais que foram desenvolvidos a nível intuitivo pela criança desde a primeira infância, por exemplo, quando se deslocava de sua casa ao colégio. Mas aqui, estes conceitos devem ser explicitados em termos de passos e giros da tartaruga, exercitando e depurando diferentes conteúdos, tais como conceitos geométricos, numéricos, noções de distância, lateralidade, exercício de descentração, etc., introduzindo, através da atividade concreta de desenhar com a tartaruga, conceitos abstratos de diferentes domínios, como matemática, física, resolução de problemas, planejamento e outros. O aluno "começa a desenvolver as noções de formalismo e a necessidade de ser preciso e não ambíguo nas descrições das soluções dos problemas" (Valente, 1991, p. 40). A idéia é trabalhar e desenvolver diversos conteúdos através de atividades criativas e concretas que sejam do interesse do aluno, sem passar pelas formalizações do tipo escolar, que quase sempre são desvinculadas da experiência concreta do aluno e impostas de fora.
Outra característica do Logo do ponto de vista computacional, é a possibilidade de definir novos procedimentos, ou seja, a possibilidade do aluno criar um vocabulário próprio de comunicação com o computador, a partir da definição de novos comandos. Aqui é usada a metáfora do aluno "ensinar" a tartaruga. Através do comando AP (aprenda), um determinado conjunto de comandos pode ser definido por um novo nome. Por exemplo, "Tri" para o conjunto de comandos que constróem um triângulo. Esse novo nome que o aluno ensinou à tartaruga, passa a ser um novo comando que pode ser usado como parte (sub-procedimento) de um novo projeto. Assim, o aluno pode construir um conjunto de novos comandos, a partir de um vocabulário definido por ele mesmo, que são "ensinados" à tartaruga e que possibilitam que seus projetos cresçam em complexidade, facilitando abarcar um universo maior de conteúdos a serem trabalhados.
A raiz filosófica do Logo incorpora muitos aspectos das idéias de Piaget, com quem Papert estudou, e teve origem no interesse particular de Papert pelos mecanismos de aprendizagem do ser humano. Sua idéia era criar um ambiente de aprendizagem onde o conhecimento não é passado para a pessoa, mas onde o aluno, interagindo com os objetos desse ambiente, pudesse manipular e desenvolver outros conceitos (Valente, 1991, p. 40).
Piaget demonstrou que a criança já possui, desde os primeiros anos, mecanismos de aprendizagem que ela desenvolve mesmo sem ter ido a escola, mas a partir da interação com os objetos do ambiente onde vive (Valente, 1991, p. 39). Baseado nisso, Papert propõe o Construcionismo, que estuda e explica a construção do conhecimento em função da ação física ou mental do aprendiz, na construção de objetos de seu interesse, em interação com os objetos de seu meio através do computador. Para o Construcionismo é importante também o tipo de ambiente onde o aprendiz está inserido. Por isso, com o Logo se busca criar um ambiente de aprendizagem rico e aberto, onde o controle do processo de construção do conhecimento está nas mãos do aluno e não do professor. A atividade é proposta pelo aprendiz, e seus projetos são algo que ele deseja realizar. O professor deixa de ser o "controlador" e passa a ser o "facilitador" do processo de aprendizagem (Valente, 1991, p. 41), o que exige normalmente uma mudança de mentalidade do professor.
O fato de que o controle do processo esteja nas mãos do aprendiz, já favorece este envolvimento, cabendo ao facilitador propor novos desafios que o estimulem e estejam ao seu alcance, propor alterações nas atividades, perguntar, ajudando a explicitar os conceitos que estão sendo trabalhados a cada passo dos projetos. É fundamental para isto, o conceito de "zona de desenvolvimento proximal", definida por Vygotsky como:

"... a distância entre o nível de desenvolvimento real que se costuma determinar através da solução independente de problemas e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes." (Vygotsky in Menezes, 1993, p. 166)

Segundo Menezes, "esta concepção vem permitindo mudanças no ambiente de aprendizagem, principalmente quanto à adoção de metodologias voltadas para o reconhecimento da identidade cultural do aluno" (Menezes, 1993, p. 166). Portanto, é imprescindível, para o facilitador, o conhecimento sobre o aluno, sua história, seu meio, sua forma e estilo de interagir e construir o conhecimento. A partir disso, é possível atuar na sua "zona de desenvolvimento proximal", levando-o a dar passos de seu "nível de desenvolvimento real", para o "nível de desenvolvimento potencial".
Sobre a valorização da identidade cultural do aluno e a importância de seu contexto social, a Filosofia Logo é enriquecida também por toda a contribuição da reflexão de Paulo Freire relativa a este tema.
No Ambiente Logo a ênfase não é colocada no produto que a pessoa realiza, mas no processo pelo qual ela atinge seus objetivos. Por isso, o erro deixa de ser algo passível de punição, e passa a ser um momento de reavaliação, de depuração pelo aluno de suas próprias hipóteses. Esta reavaliação e depuração é um momento privilegiado para o aprendizado, pois no momento em que revê suas hipóteses, que foram testadas por ele mesmo em seu projeto, fica desafiado, a partir da identificação e análise do seu erro, a elaborar novas hipóteses e novas estratégias para a solução dos problemas. Ele tem o interesse em encontrar a solução para as dificuldades que encontra, pois os objetivos a que deve chegar são definidos por ele mesmo e não impostos por outros. O aluno começa a pensar sobre sua forma de pensar. O programa que desenvolveu em seu projeto, torna-se um espelho dos passos de seu raciocínio, do seu estilo de pensamento na resolução de problemas, o que é positivo tanto para o aprendiz, para um auto-conhecimento, quanto para o facilitador, que deve estar interessado em conhecer o estilo, as estratégias e o nível de desenvolvimento do aluno, a cada passo, para melhor intervir.

Aprendizagem baseada em projetos

Foi citado anteriormente o quanto é fundamental, no Ambiente Logo, a motivação, o interesse e o envolvimento do aluno nas atividades. Porque somente assim esse aluno liberará toda a sua criatividade e iniciativa, que lhe permitirão as interações necessárias para a construção do seu conhecimento. Mas, para estar trabalhando dentro da filosofia Logo de ensino-aprendizagem, dentro do Ambiente Logo, não é imprescindível que se esteja utilizando sempre e exclusivamente a Linguagem Logo de Programação. Se estivermos manipulando outros softwares e sistemas abertos, ou seja, aqueles que permitam ao aluno o desenvolvimento de projetos em diferentes áreas do conhecimento, utilizando para isso sua criatividade e mecanismos internos de construção desse conhecimento e resolução de problemas, também poderemos estar trabalhando, de forma interdisciplinar, segundo a Filosofia Logo, segundo o Construcionismo. Neste caso, é importante que se busque, durante o processo de trabalho, percorrer as etapas normalmente presentes no trabalho com o Logo: descrever a solução do problema, executar no computador, refletir sobre o resultado obtido e depurar se for necessário, para novamente continuar a descrição (Valente, 1993, p. 34).
Para exemplificar, se pensarmos em atividades que objetivem o desenvolvimento da lecto-escrita, os alunos poderiam trabalhar com projetos de criação, redação e leitura de histórias utilizando, entre várias opções:
editores de texto e softwares específicos de edição de histórias;
programação livre com a Linguagem Logo, combinando projetos gráficos com frases e textos, descritivos ou narrativos;
o intercâmbio, através de correio eletrônico, de suas produções, projetos e idéias, entre os próprios alunos participantes das atividades ou também com outros alunos de diferentes localidades;
pesquisa de histórias na Web.
E, da mesma forma, diferentes conteúdos podem ser desenvolvidos através de outros projetos, definidos juntos por alunos e professor, mas a partir das necessidades e interesses dos alunos, utilizando os mais variados recursos computacionais abertos, facilmente encontrados e manipulados hoje, quando se construiu e se está inserido em uma cultura de informática.
Na construção de projetos, professor e alunos se engajam, com uma perspectiva interdisciplinar, numa relação cooperativa de interações e intercâmbios, participando o aluno com todas as suas vivências e conhecimentos anteriores sobre os temas tratados, e o professor ajudando a explicitar os conceitos que vão sendo intuitiva ou intencionalmente manipulados no desenvolvimento dos trabalhos e das nas novas descobertas. E se pensarmos em termos de rede, de Internet, essa parceria na construção de projetos extrapola a relação restrita entre aluno e professor, para ampliar-se sem fronteiras em direção a inúmeras outras interações, fontes, parcerias, convergindo para o que Pierre Lévy chama de aprendizagem cooperativa. Nessa perspectiva, ressalta Lévy que:

"Os professores aprendem ao mesmo tempo que os estudantes e atualizam continuamente tanto os seus saberes ‘disciplinares’ como suas competências pedagógicas."... "A partir daí, a principal função do professor não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento."
(Lévy, 1999, p. 171)

Trabalhando desta maneira, o aluno estará utilizando diferentes recursos computacionais e telemáticos, mas dentro de um mesmo paradigma valorizador de suas capacidades e iniciativa. E o computador e a telemática serão utilizados como recursos, ou como um ambiente (em se tratando de Internet), através dos quais esse aluno irá construindo o seu conhecimento. É superada, portanto, a concepção do computador como uma "máquina de ensinar", na qual eram introduzidas informação, para que depois fossem repassadas, "ensinadas", ao aprendiz. Com essa metodologia o aluno aprende "ensinando" o computador, ou seja, criando, desenvolvendo novos projetos, e não é o computador que ensina o aluno.

III – Conclusão

Nosso trabalho, como um programa específico de utilização da informática na Educação Especial, identifica e justifica sua maior relevância principalmente através de diferentes fatores detectados na nossa realidade e comunidade, dos quais destacamos:
o real e acentuado atraso no desenvolvimento global da quase totalidade das pessoas com alguma deficiência que nos procura;
o fato de que não sejam encontrados, nas estruturas educacionais oficiais de nossa comunidade, nem a infra-estrutura de novas tecnologias a serviço da Educação Especial, e, pior ainda, na maioria dos casos, nem mesmo modelos pedagógicos que realmente confiem e apostem nas capacidades e iniciativa do aluno com necessidades educacionais especiais, na construção de seus próprios conhecimentos e de sua autonomia;
os resultados alcançados com o trabalho nesses 7 anos, onde podemos detectar transformações e saltos na qualidade da postura de muitos alunos em relação a sua própria vida, a sua auto-estima, a vivência e valorização de seu processo de aprendizagem e interação com o mundo.
Quanto a resultados, encontramos agora, por exemplo, adolescentes com paralisia cerebral que frequentavam escolas especializadas há vários anos, sem que nunca tivessem conseguido aprender a ler e escrever, e que puderam desenvolver estas habilidades de leitura e escrita a partir do trabalho no Laboratório de Informática. Alguns deles já prestam, inclusive, pequenos serviços de informática para a instituição onde residem e também editam no computador o pequeno jornal do local. Além do desenvolvimento de outras habilidades e conceitos, por diversos outros alunos, como a capacidade de ver as horas, o desenvolvimento do conceito de número, comunicação através da Internet, etc., construidos em função do potencial de cada um.
Em relação a utilização da Internet, percebemos também que esta atividade tem colaborado no aprimoramento da comunicação escrita de alguns alunos, através dos e-mails que são trocados, além de motivá-los a realizarem pesquisas sobre diversos assuntos na rede. Enfim, desenvolveram habilidades que proporcionaram ou facilitaram uma melhor interação com a realidade e o seu meio, e uma maior autonomia na resolução dos próprios problemas.
Para que tudo isso possa ocorrer no trabalho com alunos com necessidades educacionais especiais, frequentemente é necessário recorrer a diferentes adaptações que facilitem ou mesmo possibilitem o trabalho no computador, principalmente quando se tratam de alunos com alguma deficiência motora ou sensorial. Essas adaptações podem ser órteses, adaptações de hardware ou softwares especiais de acessibilidade. Com a finalidade de possibilitar o acesso ao computador a alunos com um comprometimento motor mais severo, por exemplo, fazemos uso de diversas adaptações e programas especiais de acessibilidade, que tornam o trabalho possível a estas pessoas. É o caso de um aluno nosso, adulto, que nunca havia sido muito estimulado antes, tetraplégico, e que só consegue utilizar o computador através de um programa especial que lhe possibilita transmitir seus comandos somente através de sopros em um microfone. Isto lhe tem permitido agora, pela primeira vez na vida, escrever, desenhar, jogar e realizar diversas atividades que antes lhe eram impossíveis. Da mesma forma, outros alunos fazem uso de outras adaptações, em função das necessidades particulares de cada um.
Todo este caminho aponta para a necessidade de dar prosseguimento e aprofundamento cada vez maior ao trabalho, que, por sua própria metodologia e filosofia, preenche, em nossa comunidade, uma lacuna entre as atividades essenciais para o desenvolvimento e autonomia da pessoa portadora de necessidades educacionais especiais, num mundo que cada vez mais exige do cidadão uma participação ativa e criadora. Mais ainda se todo o trabalho de Informática na Educação Especial, com estes paradigmas propostos, for sendo integrado, com o tempo, em um contexto mais abrangente de Escola Inclusiva.


REFERÊNCIAS

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, Ed. 34, 1999.

MENEZES, Sulamita Ponzo de. Logo e a formação de professores: o uso interdisciplinar do computador na educação. São Paulo, ECA/USP, 1993.

PAPERT, Seymour. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.

VALENTE, José Armando. (Org.), Liberando a mente: computadores na educação especial. Campinas, UNICAMP, 1991.

________. Computadores e conhecimento: repensando a educação. Campinas, UNICAMP, 1993.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Educar para quê?

Num mundo mais complexo e onde há tantas possibilidades em todos os campos, pessoais e profissionais, precisamos fazer cada vez mais escolhas. A educação pode ser um caminho fundamental para ter condições de fazer escolhas mais significativas no campo intelectual, emocional, profissional e social na construção de uma vida mais plena de sentido e realização.

A finalidade principal de aprender não é acumular informação, mas transformá-la em conhecimento que permita fazer opções interessantes entre idéias, valores, visões de mundo, com freqüência conflitantes. Esse papel mais amplo não pode ser atribuído somente à escola, mas também à família, à cada instituição, à cidade como um todo (cidade educadora). Mas a escola tem focado mais a formação intelectual do que a vivência das práticas aprendidas; isto é, se preocupa em mostrar caminhos, sem acompanhar os resultados concretos (a realização pessoal, profissional, emocional). De que adianta saber muito, se somos infelizes, se temos dificuldades em assumir desafios, em sair de situações de opressão em alguns campos?

A educação - na sua dimensão pessoal - pode contribuir para que façamos escolhas significativas na construção de uma vida com sentido, que nos realize, que tenha valor aos nossos olhos e aos de outras pessoas. É fundamental construir um percurso de vida que valha a pena, que nos traga cada vez mais realização e que seja motivo de orgulho: realizamos algumas coisas interessantes: "contribuí para melhorar a vida de centenas de alunos", ou "criei uns filhos que estão aprendendo a seguir seu caminho".... Uma das maiores frustrações das pessoas é constatar que não construíram algo de que se orgulhem e que os realize, que deixaram passar o tempo e se acomodaram na mediocridade.

Podemos analisar o impacto da educação, a longo prazo, pela facilidade maior ou menor em enfrentar dificuldades, em fazer escolhas mais interessantes para nossa vida, na capacidade de modificar o que nos prende, o que nos complica na vida profissional, familiar, social; na constatação de que construímos uma vida que faz sentido e nos realiza.

Um dos campos mais importantes da educação pessoal é conseguir discernir o que vale a pena manter das visões de mundo que nos foram transmitidas pelos nossos pais e educadores na infância. Recebemos muitos valores prontos, formas de enxergar o mundo muito específicas. É importante ter condições de rever o que faz sentido depois que vamos crescendo e libertar-nos de muitos medos, preconceitos, deturpações, simplismos, que nos foram passados, muitas vezes com a melhor das intenções. Educar é ajudar a desconstruir o que não nos serve mais e reconstruir de forma mais ampla valores, emoções, visões de mundo mais condizentes com o nosso grau de percepção atual.

Muitos ficam tolhidos pelo medo, pela inércia, pelo comodismo de não pensar criticamente. Num mundo cada vez mais complexo, de brutais mudanças, mas onde há muitos valores que nos complicam (como o consumismo, o mostrar-se diferente do que se é) a educação humanista, integral, profunda é decisiva para ajudar a crescer na nossa realização pessoal, familiar, profissional e social.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Como melhorar o ensino

Roberto Mangabeira Unger

Educação no Brasil não presta. Nosso problema de ensino não é apenas de quantidade -- de mais vagas, escolas e professores. É de qualidade: em todos os níveis, tanto na na grande maioria das escolas particulares quanto nas escolas públicas, o ensino é pior do que medíocre; é péssimo. Sua ruindade se torna mais patente à medida que as atenções do país se voltam para a difusão do ensino médio.
Péssima sob dois aspectos. Em primeiro lugar, porque falta a grande parte do professorado o domínio das matérias que ensina. Em segundo lugar, porque o ensino, mesmo nas escolas privadas frequentadas pelas classes abastadas, continua preocupado com a trasmissão de informações. É enciclopédico em vez de ser seletivo. É factual em vez de ser analítico. É simultaneamente massificado, individualista e autoritário em vez de ser cooperativo. Sempre há o milagre dos talentos que se afirmam contra o meio. Mais importante é a tragédia das vocações, que, aos milhões, nunca se revelam, sufocadas no berço por falta de instrumentos e de inspiração.
A solução começa na convergência entre três séries de iniciativas. Todas se aplicam, com ajustes, às outras áreas da política social, inclusive a saúde e a segurança.
A primeira iniciativa é a organização de um núcleo de reformadores que dirija a reorientação do nosso ensino. E que nos dê escolas que, prefirindo o aprofundamento instigante à abrangência superficial, usem a informação para desenvolver a capacidade de análise.
A segunda iniciativa é a formação do professorado. Ganhos de salário e melhores oportunidades devem estar condicionadas a todo um itinerário de qualifacações progressivamente mais exigentes. Os Estados e os Municípios têm de participar. Só o governo federal, porém, pode bancar.
A terceira iniciativa é a associação do governo federal, dos Estados e dos Municípios em órgãos transfederais que vigiem e assegurem o preenchimento de mínimos de investimento por aluno e de desempenho por escola. É um sistema que exige para funcionar mecanismos de redistribuição de recursos dos Estados e Municípios mais ricos para os mais pobres. E que requer procedimentos para intervir, corretivamente, quando esses mínimos deixem de ser preenchidos. Ao cidadão deve caber recurso rápido ao Judiciário, à custa do Tesouro, sempre que os órgaos tansfederais malograrem em sua tarefa.
Dessas iniciativas pode resultar uma escola pública capaz de atrair a classe média. As melhores escolas devem ser as públicas, como ocorre em muitos países europeus. Beneficiária do ensino público, a classe média se tornará fiadora de sua qualidade, em proveito de toda a população.
A medida mais importante para alcançar os pobres é um programa federal maciço de bolsas de custeio que identifique em cada etapa do ensino as crianças mais dotadas ou aplicadas e que responda com ajuda pública generosa a cada demonstração de talento e de esforço. O resultado será revelar entre nossas crianças, sobretudo nas pobres e de cor, a genialidade oculta da nação.
Diz-se que reforma de educação só surte efeito a longo prazo. Não é verdade. Um programa como esse produz efeitos imediatos e dramáticos. Desperta ambições e emulações em cada família brasileira. Respeita as crianças como gente grande. Fala às cabeças. Mas levanta o país pelos corações.

Roberto Mangabeira Unger escreve às terças-feiras nessa coluna. www.idj.org.br

sábado, 23 de julho de 2011

Qual é o melhor método de ensino?

A questão da metodologia na educação tem sido muito discutida. Devemos ter uma escola tradicional ou construtivista? Engraçado como gostamos de dividir o mundo em dois, quando na verdade há incontáveis possibilidades.

Se digo para as pessoas que não ensino o método científico, elas estranham. Estranho, para mim, é dizer "método científico", assim, no singular. Não dá para achar que um químico segue o mesmo método que um astrólogo ou um historiador. O que há em comum, se é que há, são alguns princípios que norteiam a produção do conhecimento científico. A partir deste princípios, os pesquisadores criam ou copiam métodos consagrados. Isto é ciência. Não há um único método científico.

E na educação? Faz sentido a pergunta do título? Eu não creio. Qualquer professor minimamente experiente já aprendeu que o melhor método é variar os métodos. Discutir é bom? Claro, mas discutir toda a aula pode deixar as conclusões pouco consistentes. Aula expositiva é bom? Claro, principalmente se você tem algo importante e complexo para dizer. Passar vídeo ajuda? Sem dúvida, mas imagine se os alunos ficarem a manhã inteira vendo vídeos. Os que não dormissem seriam adestrados pela TV, ao invés de serem educados.

Ou seja: conheça muitos métodos. Saiba as possibilidades e limitações de cada um. Escolha um ou outro em virtude de seus objetivos pedagógicos, da dinâmica da classe, do tempo, logística, etc. Nao se limite a uma única forma de ensinar, pois não é assim que se aprende. O corpo "foi feito para" aprender num mundo cheio de coisas diferentes.

A própria questão da indisciplina escolar, por exemplo, está ligada a esta repetição de métodos (ou de objetivos, ou de conteúdos). Pelo menos é isso que aprendi em minha experiência como professor.

Para terminar, algumas palavras do mestre Deleuze, criador do conceito filosófico de "rizoma" (grifo meu):

"Aprender é o nome que convém aos atos subjetivos operados em face da objetividade do problema (idéia), ao passo que saber designa apenas a generalidade do conceito ou a calma posse de uma regra das soluções. (...)

Nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender - que amores tornam alguém bom em latim, por meio de que encontros se é filósofo, em que dicionários se aprende a pensar. (...)

Não há método para encontrar tesouros nem para aprender, mas um violento adestramento, uma cultura ou paideia que percorre inteiramente todo o indivíduo (um albino em que nasce o ato de sentir na sensibilidade, um afásico em que nasce a fala na linguagem, um acéfalo em que nasce pensar no pensamento)"

DELEUZE, GILLES. (1968) Diferença e repetição. Ed Graal, pgs. 236-37

Apologia do giz

Se criticar é fácil, criticar uma escola é mais fácil ainda. A escola é um ninho de contradições. Muitos dizem, por exemplo "Ih, essa escola ainda está no século 19, ainda usam giz e lousa."

Bem, em primeiro lugar, precisamos ter mais respeito com o século XIX. Mas a questão aqui é outra. É a modernização do ensino, a melhora, o upgrade, o "plus", o novo, o "mais evoluído". É a briga do datashow contra o giz. De hollywood contra o contador de estória.

Vou admitir aqui, publicamente, sem vergonha alguma: sou um usuário de giz. Completamente viciado. Não consigo entrar em uma aula sem aquela caixinha de bastões coloridos com um pedaço de carpete na tampa. Nada contra os computadores, muito pelo contrário, eles são ótimos. Fazem de tudo, se você ensinar direito.

E é essa justamente a vantagem do giz. Ele não precisa que você ensine nada. Está lá, livre em sua simplicidade, pronto para responder a qualquer idéia maluca que venha do professor ou dos alunos. Ou uma dúvida mais complexa, um comentário interessante. O giz é a prova de que estamos realmente vivendo uma vida, interagindo com as pessoas, e não fazendo download em massa de conteúdos para um vestibular platônico.

Algumas lousas, é verdade, atrapalham o poder esclarecedor do giz, quando são ruins de escrever ou apagar. Algumas mãos também podem atrapalhá-lo. Mas isto não por incapacidade, mas por falta de respeito. Não se pode tratar o giz como uma caneta ou pedaço de carvão. Precisamos usá-lo como um pintor faz com o pincel, com precisão, sabedoria, intuição, criando uma pequena realidade para que alguns olhos a vejam. Com este simples bastão de gesso, a cultura pode ser criada ao vivo, na frente dos alunos, interagindo de fato com eles.

Um giz não pode ser confundido com uma máquina de xeróx, fazendo cópia de coisas que já estavam no papel. Isto é um completo desrespeito à sua natureza. O giz é a antítese da máquina de xeróx. Ele é o aqui e o agora, o efêmero, o registro escrito do tempo de uma aula. O xeróx é a cópia, o igual. Se diz que o professor de escola pública usa muito o giz como se fosse xeróx. Não sei se é realmente o caso, mas de qualquer forma precisamos antes nos perguntar. O professor de escola pública pode tirar xeróx? Como isso acontece na prática?

Bem, se o giz não é xeróx nem hollywood, todo seu poder criativo vem da mão que o segura. E esta é sua grande qualidade. Por trás de um giz que é usado como giz, há um ser humano que continua se esforçando para ser humano.

Tipos de professor que todos conhecem

  • Todo curso tem que ter um professor chato. Ninguém gosta dele. Normalmente é o cara que no final todo mundo tem que admitir que aprendeu muito com ele.
  • Tem professor que o cara é simplesmente um artista. Dá aula como se estivesse representando uma peça de Shakespeare;
  • Tem aqueles professores atualizados, que sabem de tudo e passam a aula inteira falando do que viu, conclusão, informação sim e matéria não.
  • Tem aquele antigo o famoso dinossauro. Saudosista, fica toda hora citando casos da época que vc nem havia nascido e achando que vc está interessado
  • Tem aquele maluco, toda escola tem pelo menos um. O cara é doidão,mas é muito inteligente. Quase sempre é o professor + popular entre os alunos.
  • Tem uns que vivem fazendo piada sem graça durante a aula. Até p/ te reprovar ele tem uma piada na manga: “Eu falei p/ estudar e ñ estudou…se ferrou!"
  • E o professor aluno: Olha pessoal, eu não estou aqui p/ ensinar. Estou aqui p/aprender com vocês!?
    Aí você pensa: Então vou querer uma parte do seu salário!

sábado, 9 de julho de 2011

Diretor e coordenador: aliança pela qualidade

Em todas as regiões do Brasil, diretores e coordenadores pedagógicos dizem cultivar uma relação harmoniosa e propícia ao bom desenvolvimento das atividades escolares. Essa é uma das conclusões da pesquisa O Coordenador Pedagógico e a Formação de Professores: Intenções, Tensões e Contradições, encomendada pela Fundação Victor Civita (FVC) à Fundação Carlos Chagas (FCC). Contudo, uma das ações mais importantes para que a escola cumpra seu papel de ensinar a todos com qualidade - a formação continuada de professores - ainda necessita de mais atenção por parte da dupla gestora. "Apesar de cada um pensar a gestão sob diferentes perspectivas, ambos têm de compreender que são responsáveis por um mesmo objetivo, que é a aprendizagem", afirma Maura Barbosa, consultora de GESTÃO ESCOLAR.

Para afinar os ponteiros e avançar rumo a esse horizonte comum, é preciso que a direção garanta as condições básicas para a formação continuada (confira no check-list se a escola oferece boa infraestrutura para o coordenador realizar o seu trabalho). Uma delas é a reunião periódica que deve acontecer entre os gestores. O ideal é que os encontros sejam semanais e que aconteçam em um ambiente tranquilo. "Conversar com pressa, em pé, na porta da diretoria, não resolve nada. O ritual dos encontros deve ser encarado com profissionalismo, do começo ao fim. Afinal, trata-se de um momento de tomada de decisões", alerta Maura.

O primeiro passo é estabelecer o cronograma de trabalho e depois pensar nas pautas das reuniões. Não podem ficar de fora temas como: aprendizagem, as demandas dos professores para que possam ensinar melhor, a movimentação dos alunos, os assuntos que devem ser levados ao conselho escolar, o planejamento e o acompanhamento dos projetos institucionais, a condução das reuniões de pais, os formatos escolhidos para divulgar interna e externamente o trabalho da escola e prestar contas à comunidade e as semanas de planejamento e avaliação.

É natural que os aspectos abordados estejam mais ou menos relacionados à atuação de cada um. Torna-se fundamental, portanto, que ambos levem para a discussão todos os elementos que estiverem sob sua alçada. O diretor, por exemplo, pode tabular os números da movimentação escolar (matrículas, frequência, evasão, repetência e distorção idade-série) e compartilhá-los com o coordenador. Já quem trabalha na coordenação costuma estar mais por dentro das questões didáticas e é interessante compartilhar resultados, problemas e dúvidas com a direção.

Coordenador pedagógico: um profissional em busca de identidade

Em algumas redes de ensino, ele é chamado de orientador, supervisor ou, simplesmente, pedagogo. Em outras, de coordenador pedagógico, que é como GESTÃO ESCOLAR sempre se refere ao profissional responsável pela formação da equipe docente nas escolas. Nas unidades que contam com sua presença, ele faz parte da equipe gestora e é o braço direito do diretor. Num passado não muito remoto, essa figura nem sequer existia. Começou a aparecer nos quadros das Secretarias de Educação quando os responsáveis pelas políticas públicas perceberam que a aprendizagem dos alunos depende diretamente da maneira como o professor ensina.

Diante desse cenário, a Fundação Victor Civita (FVC) decidiu descobrir quem é e o que pensa esse personagem relativamente novo no cenário educacional brasileiro, escolhendo-o como tema de uma pesquisa intitulada O Coordenador Pedagógico e a Formação Continuada de Professores: Intenções, Tensões e Contradições. Realizado pela Fundação Carlos Chagas (FCC), sob a supervisão de Cláudia Davis, o estudo teve a coordenação de Vera Maria Nigro de Souza Placco e de Laurinda Ramalho de Almeida, ambas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e de Vera Lúcia Trevisan de Souza, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Graças a ela, fizemos esta edição especial, com reportagens e seções tratando de temas relativos à coordenação pedagógica.

Uma das principais conclusões da pesquisa é que, apesar de ser um educador com experiência, inclusive na função(saiba mais sobre o perfil desse profissional no quadro abaixo), ainda lhe faltam identidade e segurança para realizar um bom trabalho. Ele se sente muito importante no processo educacional, mas não sabe ao certo como agir na escola frente às demandas e mostra isso por meio de algumas contradições: ao mesmo tempo em que afirma que sua atuação pode contribuir para o aprendizado dos alunos e para a melhoria do trabalho dos professores, não percebe quanto isso faz diferença nos resultados finais da aprendizagem (veja mais no quadro da próxima página). "A identidade profissional se constrói nas relações de trabalho. Ela se constitui na soma da imagem que o profissional tem de si mesmo, das tarefas que toma para si no dia a dia e das expectativas que as outras pessoas com as quais se relaciona têm acerca de seu desempenho", afirma Vera Placco.

O que é Síndrome de Down?

A Síndrome de Down é definida por uma alteração genética caracterizada pela presença de um terceiro cromossomo de número 21, o que também é chamado de trissomia do 21. Trata-se de uma deficiência caracterizada pelo funcionamento intelectual inferior à média, que se manifesta antes dos 18 anos. Além do déficit cognitivo e da dificuldade de comunicação, a pessoa com Síndrome de Down apresenta redução do tônus muscular, cientificamente chamada de hipotonia. Também são comuns problemas na coluna, na tireoide, nos olhos e no aparelho digestivo. Muitas vezes, a criança com essa deficiência nasce com anomalias cardíacas, solucionáveis com cirurgias.

A origem da Síndrome de Down é de difícil identificação e engloba fatores genéticos e ambientais. As causas são inúmeras e complexas, envolvendo fatores pré, peri e pós-natais.

A Síndrome de Down na sala de aula

A primeira regra para a inclusão de crianças com Down é a repetição das orientações em sala de aula para que o estudante possa compreendê-las. "Ele demora um pouco mais para entender", afirma Mônica Leone Garcia, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O desempenho melhora quando as instruções são visuais. Por isso, é importante reforçar comandos e solicitações com modelos que ele possa ver, de preferência com ilustrações grandes e chamativas, com cores e símbolos de fácil compreensão.

A linguagem verbal, por sua vez, deve ser simples. Uma dificuldade de quem tem a síndrome, em geral, é cumprir regras. "Muitas famílias não repreendem o filho quando ele faz algo errado, como morder e pegar objetos que não lhe pertencem", diz Mônica. Não faça isso. O ideal é adotar o mesmo tratamento dispensado aos demais. "Eles têm de cumprir regras e fazer o que os outros fazem. Se não conseguem ficar o tempo todo em sala, estabeleça combinados, mas não seja permissivo."

Mantenha as atividades no nível das capacidades da criança, com desafios gradativos. Isso aumenta o sucesso na realização dos trabalhos. Planeje pausas entre as atividades. O esforço para desenvolver atividades que envolvam funções cognitivas é muito grande. Às vezes, o cansaço da criança faz com que as atividades pareçam missões impossíveis. Valorize sempre o empenho e a produção. Quando se sente isolada do grupo e com pouca importância no trabalho e na rotina escolares, a criança adota atitudes reativas, como desinteresse, descumprimento de regras e provocações.

Dia Internacional da Síndrome de Down

Em 2006, a associação Down Syndrome International instituiu o dia 21 de março como o Dia Internacional da Síndrome de Down. A data foi escolhida por ser grafada como 21/3, que faz alusão à trissomia do cromossomo 21.