quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Educação e a inversão de valores

Foi-se o tempo em que a escola apenas cuidava dos saberes acadêmicos... Foi-se o tempo que a maior preocupação de todo educador era se o seu aluno estava aprendendo... Foi-se o tempo que cada segmento da sociedade dava conta (ou pelo menos tentava) de suas responsabilidades.... Foi-se o tempo...

Hoje, essas responsabilidades foram delegadas unilateralmente à instituição escolar. A princípio, essas competências delegadas estavam alicerçadas na competência histórica da escola que, de um modo ou de outro, sempre dava conta de seu papel dentro da sociedade, por vezes um tanto distorcido pelas políticas temporais e, por vezes, acertado pelas ações de nossos educadores. Mas com o tempo isso passou a ser um processo “osmótico”, algo como “passa a bola para escola que ela resolve”.

Hoje a escola, além de seu papel educacional (gerenciadora da construção do conhecimento do aluno), abraçou o social, o judicial, o psicológico, o terapêutico-familiar, não mais como uma parceira dos vários segmentos da sociedade, mas sim, atuando em seu lugar, muitas vezes.

Todas as mazelas sociais, frutos das políticas hipócritas e desastrosas (em todas as áreas), têm na escola o fármaco ideal. A escola se tornou a porta de entrada de um número incontável de programas sociais (como o bolsa família) e passou a ser a “tutora” de menores que cometeram atos infracionais e que estão cumprindo medidas socioeducativas.

Sob o enfoque das benesses sociais, a escola não pode se tornar prisioneira de uma política assistencialista, que não enxerga a escola como um processo, mas sim e simplesmente, como um meio. O simples fato de associar a matrícula e a frequência escolar como o “start” ao programa social banaliza a importância educacional da escola, pois um grande número de famílias que são beneficiadas pela “bolsa família” só procuram a escola quando ocorre um problema no recebimento do benefício. Não há, em momento algum, um direcionamento pedagógico, um mecanismo de construção da consciência cidadã.

Já na questão de “tutora” de menores infratores, a escola transita entre o utópico e o real. O utópico, pelo fato de se pensar que os órgãos das áreas competentes (área judicial, social e médica) irão dar suporte à escola para gerenciar os efeitos dessa inclusão no cotidiano escolar, pois a realidade tem mostrado que os segmentos da sociedade que deveriam dar suporte à ação educativa da escola, simplesmente lavam as mãos e se esquecem da “parceria”, daquilo que lhes compete. O real, pois a escola está sozinha nessa caminhada. O que se observa é a ingerência desses “órgãos competentes” no cotidiano escolar é de transferir as suas responsabilidades aos gestores escolares.

Se todos os segmentos da sociedade, incluindo-se aqui os Poderes Públicos e Privados, dessem conta de suas responsabilidades sem delegar, muitas vezes sem a querência da instituição escolar, ela (Escola) poderia concentrar todas as suas ações, entre elas as Parcerias, nas questões estritamente pedagógicas e, naturalmente, sem que fosse algo imposto pelas inversões de valores ocasionados pelo fluxo social esmagador. A escola poderia, de fato, ser uma grande parceira nas ações sociais e preventivas.

Quando será que a Educação no Brasil deixará de ser apenas plataforma de campanhas políticas hipócritas?

A Inclusão do Disléxico na Escola

É na escola que a dislexia, de fato, aparece. Há disléxicos que revelam suas dificuldades em outros ambientes e situações, mas nenhum deles se compara à escola, local onde a leitura e a escrita são permanentemente utilizadas e, sobretudo, valorizadas.

Sempre houve disléxicos nas escolas. Entretanto, a escola que conhecemos certamente não foi feita para o disléxico. Objetivos, conteúdos, metodologias, organização, funcionamento e avaliação nada têm a ver com ele. Não é por acaso que muitos portadores de dislexia não sobrevivem à escola e são por ela preteridos. E os que conseguem resistir a ela e diplomar-se fazem-no, astuciosa e corajosamente, por meio de artifícios, que lhes permitem driblar o tempo, os modelos, as exigências burocráticas, as cobranças dos professores, as humilhações sofridas e, principalmente, as notas.

Mudanças na Forma de Avaliar a Criança Disléxica

Propomos as seguintes possibilidades:

1. Provas escritas, de caráter operatório, contendo questões objetivas e/ou dissertativas, realizadas individualmente e/ou em grupo, sem ou com consulta a qualquer fonte.

2. Provas orais, através de discurso ou arguições, realizadas individualmente ou em grupo, sem ou com consulta a qualquer fonte.

3. Atividades práticas, tais como trabalhos variados, produzidos e apresentados através de diferentes expressões e linguagens, envolvendo estudo, pesquisa, criatividade e experiências práticas, realizados individualmente ou em grupo, intra ou extraclasse.

4. Observação de comportamentos, tendo por base os valores e as atitudes identificados nos objetivos da escola (solidariedade, participação, responsabilidade, disciplina e ética).

A experiência tem demonstrado a necessidade de se manter a comunidade educativa permanentemente informada a respeito da dislexia. Informações sobre eventos que tratam do assunto e seus resultados, desempenho dos alunos portadores de dislexia, características da síndrome, maneiras de ajudar o aluno disléxico na escola etc. Ações de informações podem facilmente ser veiculadas em reuniões da escola, com pais e por meio de cartazes, informativos internos, folders sobre o assunto etc.

Não é necessário que alunos disléxicos fiquem em classe especial. Alunos disléxicos têm muito a oferecer para os colegas e muito a receber deles. Essa troca de humores e de saberes, além de afetos, competências e habilidades só faz crescer a amizade, a cooperação e a solidariedade.

O diagnóstico de dislexia traz quase sempre indicação para acompanhamento específico em uma ou mais áreas profissionais (fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia, dentre outros especialistas), de acordo com o tipo e nível de dislexia constatados. Assim sendo, a escola procura assegurar, desde logo, os canais de comunicação com o(s) profissional(is) envolvido(s), tendo em vista a troca de experiências e de informações.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Reprovação nas escolas é o melhor caminho?

Alan Alves foi reprovado na segunda série do ensino fundamental. Desestimulado, ainda prosseguiu até o oitavo ano, quando repetiu novamente e decidiu abandonar os estudos. Atualmente, aos 22 anos, está de volta aos bancos da escola para concluir o supletivo, pressionado pelas exigências do mercado de trabalho. “Sem completar os estudos, fica difícil encontrar emprego”, conta. No Brasil, quase um em cada dez estudantes levou "bomba" em 2008. De acordo com dados do último Censo Escolar realizado pelo Ministério da Educação (MEC), 11,8% dos alunos do ensino fundamental das redes pública e privada passaram pela experiência e tiveram de passar 2009 revisando o que deveriam ter aprendido antes.

Fazer com que o aluno seja obrigado a rever todo o conteúdo de um ano escolar - ou seja, a reprovação - pode não ser a melhor opção para enfrentar o problema de estudantes com desempenho fraco. A conclusão é de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerias (UFMG). O estudo, coordenado por Luciana Soares Luz, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), comparou os níveis de aprendizado de mais de 5.000 estudantes dos dois anos finais do ensino fundamental em seis estados brasileiros – Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Rondônia e Sergipe.

A principal conclusão é que, a longo prazo, os alunos aprovados aprendem mais do que aqueles que foram reprovados. Em outras palavras, refazer um ano escolar não é garantia de aprendizado adequado. “E não estamos falando de um aluno que progrediu porque era melhor e outro que foi reprovado porque tinha nota piores. Mas, sim, de dois alunos cujos desempenhos eram semelhantes”, afirma a pesquisadora.

A especialista tem na ponta da língua uma explicação para o fenômeno. Segundo ela, os alunos aprovados evoluem mais porque, ao ascender na carreira escolar, encontram conteúdos novos, mais desafiadores e adequados à sua idade. Por outro lado, para os reprovados, rever assuntos já conhecidos tem efeito contrário. Patrícia Cursino, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que a autoestima pesa quando o assunto é reprovação. “Quando isso acontece, o estudante sente que não atingiu o objetivo”, afirma.

A maioria das escolas brasileiras ainda opta pela reprovação. Elenice Lobo, do Colégio Santo Américo, em São Paulo, acredita no modelo. “As consequências negativas da retenção não dão conta da realidade. Se o aluno é retido, ele tem defasagem de conteúdo. Apesar do desconforto nos primeiros dias de aula, ao longo do ano ele resgata aquilo que lhe faltava e tem um desempenho acadêmico melhor”, afirma. Para minimizar os efeitos colaterais, a escola investe na integração do reprovado com a nova classe, além de esclarecer dúvidas com pais e pedir esforço redobrado ao professor. “Para exercer efeito positivo, a reprovação precisar ser bem aplicada”, diz Silvana Leporace, do Colégio Dante Alighieri. “Muitas vezes, é um fator que leva o aluno a recomeçar um processo pedagógico muito positivo.”

Pedro Henrique Rodrigues, de 19 anos, concorda. Ele foi reprovado pela primeira vez na sétima série. Mais tarde, experimentou mais duas retenções no primeiro ano do ensino médio. Não desanimou. Hoje, admite que, à época, não tinha condições de seguir em frente nos estudos. “Vejo que não tinha maturidade para avançar na escola. Mas, após as reprovações, encarei a situação como uma segunda chance”, conta.

Progressão continuada – A discussão sobre eventuais efeitos da reprovação na vida dos estudantes é um tópico antigo na área da pedagogia brasileira. O estudo mineiro vem reanimá-lo. Para aqueles que defendem o fim do mecanismo, uma das alternativas é o que ficou conhecido como progressão continuada. A prática trocou a tradicional aprovação/reprovação anual por ciclos de aprendizagem, que avaliam o estudante, mas não o reprovam - concentrando-se em acompanhar o desenvolvimento de cada aluno para sanar suas dificuldades. O modelo foi adotado há 14 anos no estado de São Paulo e desde então se expandiu a outras unidades da federação.

Formulada a partir de políticas e da realidade europeia, a progressão continuada previa uma avaliação dos estudantes ao fim dos ciclos. Em países como a Inglaterra, onde obteve bons resultados, os clicos têm duração de apenas dois anos - e não quatro, como no Brasil. Naquele período, os alunos dividem a sala de aula com no máximo 30 colegas - algo incomum nas escola públicas do Brasil. Com um grupo reduzido, o professor pode dar atenção a cada aluno.

A política tem se mostrado eficaz. Levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2007 mostra que países que baniram a repetência – como Noruega e Suécia – se encontram em situação melhor nos rankings internacionais de educação do que aqueles que a permitem. O relatório, porém, demonstra que outras nações que não adotaram a progressão continuada – caso da Bélgica – também colheram bons desempenhos nas avaliações.

No Brasil, a adoção do modelo ainda é controversa - e seus frutos, discutíveis. No último índice de educação feito pela Unesco, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação e a cultura, o país ocupou apenas a 88ª posição entre 128 nações. Por sua vez, dados do Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) relativos ao período 1995-2005, quando a aprovação automática ganhou força, mostram que a qualidade do ensino piorou. Em 1995, a média de proficiência em língua portuguesa dos alunos da quarta série do ensino fundamental era de 188,3 pontos. Em 2005, caiu para 172,3 pontos. Na terceira série do ensino médio os números são mais alarmantes: 290 pontos, em 1995, ante 257,6 pontos.

Mesmo entre os especialistas que apoiam a aprovação automática, a medida é vista com ressalvas. “Aprovar automaticamente é melhor que reprovar”, acredita Stella Maris Bordoni, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. “A repetência resulta em um grade desperdício de recursos e, o que é pior, alimenta estatísticas alarmantes de evasão”, defende. “Mas essa política precisa ser acompanhada de um cuidado maior com a evolução do trabalho de cada aluno.”

Esse acompanhamento ainda não é visto nas escolas brasileiras que adotam o sistema de aprovação automática, lembra Fernando Becker, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um crítico do método nos moldes em que é aplicado atualmente. "Ouço relatos de professores de quinta série do ensino fundamental que lidam com crianças analfabetas, que não teriam condições de progredir nem para a segunda série", conta. "Esse sistema está dirigido para uma conjuntura político-eleitoreira e não para a lógica da demanda educacional. É interessante para um governo ter um sistema que não alimenta altos índices de reprovação e evasão escolar", acrescenta. "Inventou-se a aprovação automática para escamotear outros problemas".

Neide Bittencourt, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sintetiza: "Muitos educadores afirmam que a reprovação traumatiza o aluno. No entanto, deixar que a criança chegue à quarta série do ensino fundamental sem saber ler e escrever é muito mais traumático. Incluir apenas por incluir é uma forma de exclusão", acredita. "A reprovação não vem no intuito de penalizar, mas, sim, fazer com que o aluno aprenda".

Por que as escolas privadas dominam o Enem

Dados divulgados pelo Ministério da Educação nesta segunda-feira apontam que as escolas que ocupam o topo do ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2009 são privadas. O fato de o ensino nessas instituições ser, em geral, de qualidade superior ao oferecido pelas públicas é amplamente conhecido. Mas há razões adicionais que explicam o predomínio das privadas no Enem, segundo avaliam especialistas em educação ouvidos por VEJA.com.

Ao ser criado, em 1998, o Enem tinha apenas o objetivo de avaliar a qualidade da educação nos anos finais do ensino médio. Desde o ano passado, porém, o resultado da prova passou a compor de alguma forma a nota de candidatos em vestibulares de todo o país. Em 2010, pelo menos 52 das 58 universidades federais - algumas das mais respeitadas do Brasil - vão adotar a nota do Enem em seus processos seletivos.

Ou seja: com a novidade, o Enem ganhou importância. E as escolas passaram a preparar melhor seus alunos. Com mais recursos, as particulares saíram na frente. "Elas investiram muito para obter esse bom desempenho", afirma Neide Noffs, da Faculdade de Educação da PUC-SP. "O primeiro passo foi apostar na qualificação dos professores, para que esses mestres entendessem o novo significado do Enem".

Adilson Gracia, diretor do Colégio Vértice - primeiro colocado no ranking do Enem 2009 -, nega que a escola tenha direcionado seus esforços para a preparação para o Enem. Mas admite que existe no colégio uma dedicação para o vestibular em geral. "E, hoje, sem dúvida, o Enem está na rota das grandes provas", afirma.

Se as instituições privadas absorveram mais rapidamente as mudanças do exame nacional, as públicas ainda mostram dificuldades em preparar seus alunos, acredita Neide Bittencourt, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). "As escolas particulares souberam analisar os resultados dos exames anteriores com eficiência pedagógica e as públicas, ainda não", diz. Para Álvaro Crispino, professor da Fundação Getúlio Vargas e autor do livro Cenários Futuros para Educação, o predomínio das instituições privadas no ranking não surpreende. "Elas trabalham de olho na melhores universidades. Quando o Enem virou porta de entrada para essas instituições, passou a ser um objetivo vital", opina.

Outro motivo que leva as escolas privadas a investir na preparação para o Enem é o próprio mercado. Ou melhor, a concorrência. Afinal, com melhores notas e mais aprovação no exame, as escolas bem colocadas no ranking do MEC se tornam mais atraentes aos pais que tem que decidir onde matricular seus filhos. "O resultado da escola e de seus alunos no Enem se tornou um chamariz", diz Neide Noffs.

Ranking - Entre as dez primeiras colocadas do ranking 2009, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (MG) é a única instituição pública. Se forem consideradas as 50 melhores, mais oito instituições públicas se destacam. Uma é militar, uma é ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), duas são federais e quatro são ligadas a universidades públicas.

A qualidade do ensino nessas escolas, porém, não reflete a realidade das demais instituções públicas no país, lembra Neide Bittencourt. "Os alunos desses centros têm uma situação privilegiada", diz. "Nas demais, de uma forma geral, falta gestão. Não há qualificação dos professores, estabilidade nem infra-estrutura. Tudo isso faz com que o aluno renda menos", constata.

As escolas com os piores desempenhos no Enem 2009 reforçam a tese. Entre as dez últimas colocadas, todas são públicas, sendo nove estaduais e uma municipal. Entre as 50 últimas, nenhuma é privada.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tragédia anunciada...

Não faz muito tempo, cerca de uns três anos atrás, aconteceu em Água Limpa uma tragédia. Viva aqui, em um sítio próximo, muito próximo, um garotinho chamado Alan. Ele já frequentava a escola e, como toda criança, era querido por todos. Certo dia, brincando no quintal do sítio, Alan foi picado por um escorpião. A picada foi fatal. Mesmo utilizando todos os recursos possíveis não foi possível evitar a morte deste garoto. O sítio em que ele viva com os avós era e ainda é infestado de escorpiões. Já naquela época, eu suscitei uma discussão com as pessoas que comigo conversavam. Seria necessário que algo fosse feito, pois tratava-se de uma infestação descontrolada destes "bichos", ou seja, o poder público municipal deveria criar, segundo meu entendimento, uma equipe (permanente) que fosse vasculhar todos os quintais, todos os entulhos, todos os lotes baldios, revirando tudo, na tentativa de pelo menos diminuir a incidência dos ataques dos escorpiões. Pensava e penso eu que desta forme a proliferação deles iria senão terminar, pelo menos diminuir e quem sabe com o tempo acabar de vez. Claro que tenho consciência que nossa moradores devemos estar atentos e manter limpos nossos quintais, nossas casas e fazer de tudo para evitar criar ambientes que possam atrair estes "seres". Contudo, se somente isso bastasse, e desse resultado, não precisaríamos ter campanhas como as da dengue, só para citar um exemplo. Agora, mais uma vez, vivemos este momento trágico. Mais uma criança, chamada Kauan, foi picado por um escorpião e não resistiu. Mais uma morte que choca a comunidade e nos deixa atônitos diante da inércia pública. Ainda nesta Terça (13/07/10) ele estava brincando com minhas sobrinhos e sobrinhos na casa de minha mãe, acompanhando por sua avó, todo alegre e sorridente. Kauan, assim como Alan, eram muito bem cuidados. Eram muito amados por seus familiares. Não foi descuido, não foi desleixo, foi uma fatalidade que pode atingir qualquer um em nossa cidade. Precisamos agir o quanto antes. Precisamos de mais do que palavras, precisamos de ações. Será que ainda vamos esperar mais tragédias. Quem será a próxima vítima?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Autonomia e Criatividade

Vivemos em um universo criativo. Cada uma de nossas células expressa, na estrutura bioquímica de seus DNAs, a convergência de mais de três bilhões de anos de criatividade da vida. Entrarmos em uma mata e percebermos a criatividade ali presente é uma das mais profundas formas de perceber essa característica intrínseca da vida.

Qual é a ordem que ali se expressa? Milhares de sons, cores, formas, cheiros e diferentes tipos de energia fluindo. O mais forte padrão que podemos perceber na natureza é a criatividade ininterrupta. Há pouquíssimos anos, os homens acreditaram que poderiam, à sua forma, organizar e controlar a natureza.

Nesse mesmo sentido, passaram a inibir a criatividade inerente a cada um e também passaram a controlarem-se uns aos outros. A produção de uma ordem humana, imposta por pequenos grupos, fez desenvolver na sociedade o paradigma do controle. Disseminado, esse novo paradigma tem se expressado em todas as formas de organização social.

No universo educacional, para citarmos apenas um dos milhares de exemplos, podemos perceber nitidamente a necessidade que muitos adultos têm de controlar as crianças e os adolescentes, impedindo a plena expressão de sua criatividade visceral. Mas não é possível impedi-la. A criatividade brota entre as crianças e adolescentes como as ervas daninhas que insistem em crescer por entre uma ordenada monocultura de milho.

E da mesma forma que, ao invés de mudarem-se os padrões de diversidade desse tipo de plantação, aproximando-a dos exemplos de diversidade dados pela natureza, os homens optam por apenas matar as ervas com veneno; insiste-se em manter os padrões de ordem e controle escolar, chama-se a criatividade dos alunos, expressa em meio a essa ordem imposta, de indisciplina, e crê-se que se pode exterminá-la com o veneno do autoritarismo.

Vê-se, no entanto, a criatividade brotar de forma recorrente sob a forma da denominada indisciplina, em todos os cantos. Enquanto se continuar tentando controlar os alunos a partir da perspectiva de uma ordem externa, desrespeitando seus processos de auto-organização, estará se perdendo a expressão criativa dos mesmos para resgatar um mundo em diversidade e autonomia.

O papel do educador deveria ser, nada mais do que seduzir os alunos a convergirem o seu potencial na geração de um currículo participativo, diversificado e criativo, que dança ao som de uma bela música e que apresenta o seu prazer na autonomia e imprevisibilidade do próximo passo. O ritmo da dança é a criação de um mundo em plena expressão da diversidade de vida, mais justo, amoroso e sustentável.

A construção de competências para ser professor

Volta e meia me vem à lembrança a imagem e a história da professora, objeto de observação, ao elaborar minha Monografia para Conclusão do Curso de Pós-Graduação em Coordenação Pedagógica.
Ela trazia consigo tal gosto pelo ofício, num misto de arte, alegria e criatividade que me encantava. Pelo caminho da simplicidade, da descontração e autenticidade que lhe era peculiar, fazia de suas aulas um espetáculo a olhos vistos, momentos de sedução demonstrados pelos alunos por meio de suas expressões de prazer e admiração.

Esse fato me levou a buscar nos teóricos, respostas às minhas indagações e a de outros educadores sobre questões que são lançadas acerca de quais saberes alguns professores, diferentemente de outros, utilizam, produzem e mobilizam em suas práticas, contribuindo de forma significativa com o seu fazer e garantindo-lhe trajetória de sucesso.

A estratégia de trabalho “Mapa da Mina” da qual a professora fazia uso e que comentarei mais adiante, me levava e aos estudantes, a vivenciar situações onde a fantasia do mundo do ‘faz de contas’ se cruzava com as possibilidades do mundo real. O prazer e a motivação nasciam do poder da criatividade, da alegria pelo compartilhamento e da arte de seduzir, que a leveza da proposta gerava, transformando o momento da aprendizagem em um clima de interatividade inesquecível.

Identificando características pessoais e profissionais e descrevendo os seus saberes, conhecimentos e competências, nos aproximamos de compreensões mais elaboradas.

Com o devido cuidado da análise das questões sobre o saber do ensino, apontado como “excesso etnográfico" por Tardif e Gauthier, ao se referirem à cientificidade do saber de experiência produzido pelos professores, tal como eles, interrogo: “Certamente o (a)s professor (a)s sabem alguma coisa, mas o que precisamente sabem eles? Qual é esse saber? São eles apenas canais de transmissão de saberes produzidos por outros grupos? Produzem eles, no quadro de sua profissão, um ou mais saberes?...”
Nesta oportunidade, tratarei de um dos aspectos que serviram à minha discussão no trabalho ora desenvolvido e que considero de fundamental relevância.

Os desafios, o prazer de aprender e a paixão por ensinar

Nos relatos apresentados pela professora, percebe-se nitidamente a importância que ela dava aos desafios que lhe eram propostos: o forte desejo, gosto e comprometimento por ensinar e aprender, buscar constantemente o conhecimento e novas informações. Advogada, contadora, porém era na sala de aula que conseguia desenvolver com prazer suas atividades profissionais.

Os saberes das disciplinas não constituíam obstáculos para sua prática. Os saberes sociais dos diversos campos do conhecimento oferecidos por diferentes cursos universitários garantiam um conteúdo bastante valorizado e legitimado pelas instituições escolares.

Em sua prática, não aderiu à tarefa de transmissão, como técnico ou executante. Não fez do seu aluno um depositário de saber. No seu exercício cotidiano, no contexto das interações, reuniu habilidades pessoais que passaram a incorporar sua vivência individual.

Nos relatos abaixo, são valiosas as reflexões e as conclusões tiradas pela professora e que ela resgatou através do seu depoimento:

(...) Sempre fui muito comprometida, assim de preparar a minha aula. Pesquisava em vários livros. Sempre gostei desde o começo de explicar e dar charadinhas, palavras cruzadas, até hoje eu gosto.
(...) sinto ainda uma necessidade diária de desafios! Eu sinto! É isso que faz ter sentido a minha vida...

Foi em Perrenoud, que busquei a clareza para compreender as ações praticadas pela professora. Podemos estabelecer uma relação entre o que a professora afirma e o que Perrenoud (2000, p. 36) discute, quando trata dos dispositivos didáticos que devem ser considerados para envolver os alunos em atividades que lhes sejam prazerosas.

Neste sentido, o autor não nega a importância do tipo de relação que o professor estabelece com o saber, no entanto, considera desejável que o mesmo torne acessível aos alunos, esta sua relação, assumindo junto com eles o papel de aprendiz. O autor quer dizer com isto, que não basta que o professor tenha prazer de aprender e de ensinar, é necessário que isso desperte no estudante esta mesma vontade de saber e uma motivação tal que não o faça desencorajar do objetivo ou cair no tédio, tendo em vista que muitos deles já aprenderam as mazelas do ofício de aluno.

Acompanhando o raciocínio do autor, é fundamental, portanto que o professor lance desafios possíveis de êxito sem fazer uso do “utilitarismo”. Para não fazer intervenção que seja “desastrosa” é essencial que o professor tenha consciência do seu papel, não legitimando as atividades com o argumento de que elas constituem importância vital para a humanidade, suscitando sim uma“paixão desinteressada” pelo saber.

Dessa forma é inquestionável a visão que a professora apresenta sobre a complexidade de seu fazer, tornando-o um projeto de vida, como comprova o relato:

(...) Você tem que gostar do que faz. Você gostando do que faz você cria alternativa. Você não vai dar uma boa aula, se você não gosta!... Cada dia é um dia diferente! Se ele (aluno) me questiona algo, eu não sou obrigada a saber, nem sempre, porque não sabemos tudo, mas temos que ter a humildade de falar: eu não sei, mas vou procurar saber...

Perrenoud (2000, p. 38) destaca que:“A paixão pessoal não basta, se o professor não for capaz de estabelecer uma ‘cumplicidade’ e uma ‘solidariedade’ verossímeis na busca do conhecimento. Ele deve buscar com seus alunos, mesmo que esteja um pouco adiantado, renunciando a defender a imagem do professor ‘que sabe tudo’...”.

Defende Perrenoud que tornar o conhecimento apaixonante... “Não é somente uma questão de competência, mas de identidade e de projeto pessoal do professor. Infelizmente, nem todos os professores apaixonados dão-se o direito de partilhar sua paixão, nem todos os professores curiosos conseguem tornar seu amor pelo conhecimento inteligível e contagioso. A competência aqui visada passa pela arte de comunicar-se, seduzir, encorajar, mobilizar, envolvendo-se como pessoa”.

As situações de aprendizagem articuladas pela professora

Desde o início das atividades docentes, o sujeito desse estudo, vinha se apropriando de inúmeros recursos e estratégias didáticas que favoreciam o diálogo com os alunos.

Para aproximá-los dos conhecimentos científicos, trabalhava a partir das concepções dos estudantes conforme nos coloca quando se refere às aulas simples, na linguagem do aluno e ao Mapa da Mina:

(...) Bom, eu ia trabalhar espaço geográfico... Tentava sempre fazer o mais simples possível para que ele entendesse. Espaço geográfico dá uma impressão assim de espaço, de lua, de planetas. O espaço que eu tinha que construir com meu aluno era o que tinha em volta dele, mais próximo, a casa dele, é o espaço onde ele vive! É o menor espaço. Daí a gente ia ampliando...
(...) Vai ampliando para o bairro... As ruas próximas da sua casa, quarteirões. Passa para a cidade, para o estado, até a maior esfera que é o Planeta. Isso, na 5ª série.
(...) Antes de preparar assim uma aula ... fazia uma Avaliação Diagnóstica ... fazia o “Mapa da Mina” ... Na minha primeira aula minha primeira estratégia, qual seria? Conhecer onde minha pedra preciosa morava. Então o aluno tinha que me levar da Escola até sua casa, fazendo um mapa... Eu sabia exatamente onde cada um morava. Isso me fez aprender a conhecer bem o bairro, os nomes...

Perrenoud explica que essa competência do professor é “essencialmente didática”, e sob minha ótica nada se assemelha “à aula magistral seguida de exercícios” do antigo ofício do professor, que ele cita em seus trabalhos. Essa competência, frisa:“Ajuda-o a fundamentar-se nas representações prévias dos alunos, sem se fechar nelas, a encontrar um pouco de entrada em seu sistema cognitivo, uma maneira de desestabilizá-los apenas o suficiente para levá-los a restabelecerem o equilíbrio, incorporando novos elementos às representações existentes, reorganizando-as se necessário”. (Perrenoud, 2000, p.29)

Continua ela:

(...) Ele precisa primeiro sentir sabor, pra depois ele se preocupar com linguagem. A linguagem em si não é tão importante...
(...) Apesar de toda simplicidade das minhas aulas eu acho que elas são bem significativas, tem bastante valor...

O trabalho a partir das representações dos alunos, não considera o aluno como um aprendiz de mente vazia, pelo contrário, se interessa por“compreender suas raízes”, criando espaço para discussão. Assim não banaliza suas contribuições, mas avalia sua capacidade de abstração e identifica suas dificuldades de conceituar.

A partir de situações amplas e cheias de significado, a professora conseguia seduzir seus alunos, partindo da realidade mais próxima para a mais distante através de propostas inovadoras, como era o caso de realizar desafios através de jogos, sair com eles para conhecer o bairro, desenvolver eventos onde eram ampliados os espaços para criação e reflexão etc.

A capacidade da professora de selecionar as atividades abandonando aquelas consideradas mecânicas e desagradáveis, bem como a de eliminar iniciativas que não constituíam sucesso, vem nos mostrar que ela utilizava espontaneamente o recurso da reflexão-sobre-a-ação, sem ter absolutamente, consciência deste fazer. Contudo, essa capacidade crítica possibilitava que ela recriasse as situações, indicando-nos que as concepções acerca desse processo se baseavam em modelos centrados nos alunos, os quais apresentam disponibilidades diferenciadas para aprender.

Ao organizar situações concretas de aprendizagem a professora dispunha de competências necessárias para criá-las. Os fragmentos a seguir demonstram como ela compreendia e dirigia tais situações:

(...) Poder sair com aluno, pra conhecer o bairro... Fomos conhecer os setores da economia: setor terciário, o comércio, fábrica de vassouras, mostrar como se fazem embalagens... A gente saia com uma quantidade enorme de alunos e via todo o processo... Muito interessante, porque é isso que faz aprender...
(...) A gente sai daquela aula tradicional, só dialogada e cria situações novas, como você perceber que do lado de uma rua só tem números pares e perceber que do outro só tem números ímpares. Perceber as garças, que naquela época tinham no bairro, que ficavam num campo ali e que hoje são áreas que estão se industrializando, no setor secundário; ver ruas pavimentadas e não pavimentadas, saber o que é pavimentação...
(...) Claro que não se trabalhava “conteúdo” vendo a rua, mas a idéia era que depois na sala, se o aluno fizesse o questionamento... A gente vai fazendo essas ligações... Quantas meninas varriam uma casa, mas não sabiam que a piaçava vinha da Amazônia.

Na análise que Perrenoud faz das competências, afirma que todas contribuem para animar as situações de aprendizagem e que algumas são mais específicas. Ele lembra que o conhecimento dos conteúdos é importante quando se quer instruir alguém, mas que a verdadeira competência pedagógica está em relacionar os conteúdos aos objetivos e às situações de aprendizagem. Neste particular, torna-se “indispensável que o professor domine os saberes”, diz ele, sendo capaz de identificar o que é essencial.

Nos exemplos que ela cita percebe-se que o domínio dos conteúdos didáticos concede-lhe talentos que possibilitam fluência suficiente para articular situações facilitadoras das aprendizagens, aproveita as ocasiões, atende aos interesses dos alunos, explora os acontecimentos e desenvolve tarefas complexas relacionadas à transferência dos saberes, sem passar pela exposição metódica, como chama o autor.

Neste contexto, Perrenoud (2000, p.27) considera:“Essa facilidade na administração das situações e dos conteúdos exige um domínio pessoal não apenas dos saberes, mas também daquilo que Develay (1992) chama de ‘matriz disciplinar’, ou seja, os conceitos, as questões e os paradigmas que estruturam os saberes no seio de uma disciplina. Sem esse domínio, a unidade dos saberes está perdida, os detalhes são superestimados e a capacidade de reconstruir um planejamento didático a partir dos alunos e dos acontecimentos encontra-se enfraquecida”.

Outra competência admitida por Perrenoud e que a professora parece-me revelar no seu fazer, desde o início da sua carreira, baseia-se na idéia de que“aprender não é primeiramente memorizar, estocar informações, mas reestruturar seu sistema de compreensão do mundo”.

Algumas atividades utilizadas pela professora traduzem claramente seus objetivos quanto ao trabalho cognitivo que ela disponibiliza para que o aluno domine a realidade de maneira simbólica. Através de situações-problema, era possível que os alunos se apropriassem deste problema, colocando sua mente em movimento, levando-os a construir hipóteses, proceder a explorações e tentativas, transpor obstáculos, fazer transferências e generalizações e construir conhecimentos novos:

(...) Depois do Mapa da Mina, que eu cheguei na casa dele, ele vai me mostrar como que ele mora. Vai virar um arquiteto, construir a casa dele, vai mostrar por dentro, as repartições, cômodos. Vou colocar: este é o menor espaço geográfico que você vive. (...) Gostava como gosto até hoje, de jogo de palavras, caça palavras, cruzadinhas... Eles não precisavam decorar nada, tinham que saber determinadas palavras que eram o fechamento de todo um conteúdo. (...) tentava fazer atividades, principalmente de Avaliação, que não decorasse. (...) Nunca gostei de questionário. Uma coisa “chata toda vida”.

A professora assume inúmeras vezes atitudes próprias de quem domina os conhecimentos “profissionais” e estes aparecem aglutinados a outra categoria de saberes denominados “saberes da experiência” ou “saber da prática”. Esse saber articula-se aos demais no exercício da profissão, na interação com o meio escolar, no trabalho cotidiano. Incorporados à vivência de cada indivíduo ou grupos, são habilidades específicas, formas próprias de saber fazer, de saber ser e de saber conviver bastante presentes nas concepções e práticas do sujeito que atua.

É fundamental lembrar que sua forma de ser advém principalmente das experiências vividas e de aspectos subjetivos e intersubjetivos próprios da sua dimensão pessoal.

Os saberes da “experiência” foram sendo pois, construídos, devido ao fato de se estabelecer uma relação de extrema interioridade com sua prática, fazendo-a sentir não apenas uma técnica, executante e transmissora do saber, mas uma legítima produtora de um outro saber que lhe é válido, que fundamenta sua competência, apesar deste fator se manter no nível da não consciência dessa construção.

No decorrer deste processo, a professora percebe os limites, interage com outras pessoas, improvisa e desenvolve habilidades para enfrentar situações novas. Esse contexto permite ao docente “desenvolver os ‘habitus’”, que podem ser traduzidos como dizem os estudiosos em “estilo de ensinar, em ‘macetes’ da profissão ... Os saberes da experiência fornecem ao(a)s professore(a)s certezas relativas a seu contexto de trabalho na escola...”.(Tardif et alii, 2001, p.p. 228, 229).

Esses saberes e essas competências decorrem de sua construção própria, desenvolvidos no contexto da instituição escola, junto aos alunos, aos outros professores e a partir da proposta pedagógica da escola. Neste caso, podemos reconhecer que a arte, a alegria e a criatividade foram elementos essenciais na construção dos saberes ditos da experiência ou da prática, e que os mesmos parecem ser tão legítimos quanto àqueles produzidos nos meios acadêmicos.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Idade real e idade ilusória

Estou envelhecendo, mas só descubro isso quando me chamam de "Senhor" - o que eu deveria achar natural - ou quando me olho no espelho. Outro dia, em uma reunião ou conferência no auditório do Teatro de Morrinhos, a primeira dama ao proferir suas palavras, me avistou entre os presentes (ela não me conhecia) e se referiu a mim como aquele Senhor, ao mesmo tempo em que me senti "importante", fiquei meio ressabiado, pois me senti "senhor demais", ou seja, talvez pelos meus grisalhos (muitos) ela tenha pensado que eu já passara dos 50, mas ainda tenho dez a menos, completados ainda a pouco. Não sei se acontece com todos, mas vejo os jovens por aí e me sinto um deles, com mais experiência é claro, mas pronto para a vida, para viver a vida e com força e disposição para trabalhar e buscar meus muitos sonhos, que vou realizando aos poucos. Não consigo me "sentir" velho, a não ser quando cismo de jogar bola na recreação lá da escola, aí sim, o peso dos anos - e da barriga - me mostram que devo maneirar, afinal meu coração reclama, são muitos anos, mas muitos mais espero que estejam por vir.

O bar do "Lanzudo"

Certo dia, em minha aula no povoado da Marcelânia,
meus alunos começaram a falar do tal "Bar do
Lanzudo". Fiquei observando e aprendendo com eles.
De repente uma de minhas alunas falou que o avô
havia dito que o Lanzudo ia morrer. Fiquei
preocupado e indaguei a ela o porquê da
anunciada morte do Lanzudo. Ela mais que
depressa, de um jeito bem peculiar, me respondeu
que o Lanzudo bebe muito e que o médico havia
dito que se ele não parasse de beber era morte
certa. Outro aluno completou que o Lanzudo quando
bebe fica doido, pega seu carro e fica dando
"cava-de-pau" perto da pista do asfalto e que
fica perigoso. E as histórias se sucederam,
volta e meia ainda ouça falar do Lanzudo e fico
pensando que deveria ir lá pra conhecer o local,
afinal faz parte ali da vida deles.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SOCIEDADE, POLÍTICA E CULTURA

A “conversão” dos índios pelos Padres Jesuítas, no início da colonização brasileira é um processo que ainda hoje nos parece comum encontrar nas escolas públicas e particulares brasileiras. Como se a criança, ou até mesmo o adulto, não viessem com uma bagagem natural conseguida através da convivência com seus familiares e pessoas mais próximas. Até mesmo através das mídias eletrônicas, hoje cada vez mais presentes na vida das pessoas.

É importante, para não dizer fundamental, que a criança (aluno) tenha respeitada sua essência, sua vida anterior, sua trajetória, por mais curta que seja. A crença na “formação” do aluno ainda perdura nas escolas dentro de um viés tradicionalista que resiste a mais profunda das mudanças.

A bagagem adquirida é o início que o aluno tem para se estabelecer enquanto ser e é sua identidade social. A cultura familiar e social não podem ser ignoradas dentro da escola como algo inútil, são elementos constitutivos da realidade do aluno que devem estar presentes no contexto da aula, é isso que dá valor ao conhecimento, e é isso que faz do aluno um cidadão.

O processo ensino aprendizagem vai se construir a partir das bases pré estabelecidas que cada um carrega. Não se pode passar uma borracha em toda cultura trazida com o aluno e a partir daí construir – ou desconstruir – uma nova identidade, uma nova realidade para a criança.

Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. Assim como a definição da identidade depende da diferença, a definição do normal depende da definição do anormal.

Assim, a cultura anterior do aluno está presente como elemento que faz parte e se transforma á medida em que este vai adquirindo novos conhecimentos e ampliando sua vida social e constituindo como cidadão ativo e agente transformador de sua realidade enquanto ser que vive em sociedade.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quem sou como professor e aprendiz?

SOU UM PROFESSOR QUE BUSCA SEMPRE APOIO PARA DESENVOLVER UM TRABALHO QUE SEJA SIGNIFICATIVO NA VIDA DOS ALUNOS. DESTA FORMA, ACREDITO QUE ESTEJA NO CAMINHO CERTO QUANDO PROCURA PARTICIPAR DE CURSOS COMO ESTE QUE CONTRIBUEM PARA NOSSO DESENVOLVIMENTO E AINDA NOS POSSIBILITA CONHECER NOVAS FORMAS DE INTERAGIR COM NOSSOS ALUNOS. VIVEMOS A ANGUSTIA DE UM MOMENTO DE TRANSIÇÃO, AS VEZES NOS SENTIMOS PERDIDOS FRENTE AS NOSSAS DIFICULDADES. NOSSA INSEGURANÇA ACABA SENDO TRANSMITIDA A NOSSOS ALUNOS E ISTO PROVOCA UMA RUPTURA DENTRO DO PROCESSO ENSINO/APRENDIZAGEM, ACABAMOS POR MAQUINIZAR ALUNOS DIANTE DE NOSSAS DEFICIÊNCIAS.

POR ISSO ENTENDO QUE A INTERAÇÃO E O SABER OUVIR SÃO FUNDAMENTAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UM PROCESSO DE CRESCIMENTO INTELECUTAL QUE SE EFETIVE COMO UMA MOLA PROPULSORA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO.

AS FORMAS DE ENSINAR DEVEM ESTAR CONSTANTEMENTE EM MUTAÇÃO, POIS TRABALHAMOS COM TURMAS HETEROGENEAS, SENDO ASSIM, DEVEMOS TAMBÉM SER HETEROGENEOS NA FORMA DE ENSINAR, NO DIÁLOGO COM NOSSOS ALUNOS E LEVAR ESTA PRÁTICA PARA A NOSSA VIDA.

NOSSA PRÁTICA DEVE COSIDERAR O CONTEXTO EM QUE VIVEMOS, O CONTEXTO EM QUE OS ALUNOS VIVEM PRINCIPALMENTE. DEVEMOS TIRAR O GESSO QUE ACABA POR NOS ENVOLVER E QUE TRANSMITIMOS PARA NOSSOS ALUNOS.

CRESCEMOS E NOS DESENVOLVEMOS DENTRO DE UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA TRADICIONAL, POR ISSO TEMOS EM NOSSAS RAÍZES ESTE TRADICIONALISMO EXCLUDENTE. ACEITANDO ISSO, ESTAREMOS PRONTOS PARA MUDAR, PARA NOS TREANSFORMAR E ASSIM TRANSFORMAR NOSSA PRÁTICA ENQUANTO EDUCADORES.

O MUNDO ESTÁ MUDANDO E COM ELE A SOCIEDADE. ENQUANTO ISSO, AINDA DESCOBRINOS DENTRO DA ESCOLA, QUE DEVERIA SER O CENTRO DAS TRANSFORMAÇÕES, UMA PRÁTICA QUE PROCURA MANTER O OS SISTEMAS DOMINANTES, LONGE DE UMA PRÁTICA TRANSFORMADORA QUE EFETIVAMENTE É O PAPEL DA EDUCAÇÃO.

domingo, 2 de maio de 2010

Seres Humanos Digitalizados

Revista Veja - Participar de um projeto como o MyLifeBits mudou a vida do senhor?
Gordon Bell - Eu me tornei portátil. Estou livre de pilhas e pilhas de papéis. Toda a minha vida está arquivada num disco rígido. Ela ocupa 260 gigabytes. Posso, por exemplo, trabalhar em qualquer lugar do mundo, contanto que esteja com meu computador por perto. Ter tudo digitalizado também me deixa bastante seguro. Em certo sentido, tenho uma sensação de imortalidade. Aliás, no futuro, nossas memórias digitais poderão ser transformadas em avatares. Eles conversarão com nossos descendentes. Uma das consequências da memória total é que deixaremos uma história incrivelmente mais rica para a posteridade. (Depoimento de Gordon Bell, cientista americano, responsável em parceria com Jim Gemmell, pelo projeto MyLifeBits, da Microsoft Research, e co-autor do livro Total Recall - Memória Total)

O entusiasmo de Bell, aos 75 anos, com as possibilidades legadas pelas novas tecnologias é contagiante. A leitura destas linhas e de toda a entrevista feita com ele e com seu parceiro de pesquisa, Jim Gemmell, traça as linhas daquilo que se prenuncia não como um futuro distante, mas como algo que já está acontecendo e que irá ser ampliado para toda a humanidade como possibilidade real de serviços.

Mas olhemos com atenção alguns trechos de seu depoimento contidos na pergunta acima destacada:

Ao afirmar que se tornou "portátil", há uma vinculação direta e aparentemente total entre homem e máquina, como se fôssemos um ser composto e, de certa forma, indissolúvel, a partir de agora, pois na continuação de sua fala, Bell menciona que esta condição (portátil) está vinculada à posse de seu computador, fiel escudeiro, sempre por perto... É claro que isto é um exagero, ainda mais em se tratando de um cientista de ponta, responsável por um projeto bancado pela Microsoft, mas por trás desta colocação, é possível prever (até mesmo com base no que já vemos em nosso cotidiano) como realmente estamos ficando techaddicts (não sei se a expressão existe, mas seria uma espécie de "viciados em computador", traçando um paralelo com drugaddicts, viciados em drogas).

Ao dar números à sua vida, estipulando que ela hoje representa 260 gigabytes, com base em todos os registros feitos por ele dentro da pesquisa MyLifeBits, através da qual sua vida está sendo constantemente filmada e gravada em bits, além de todos os demais registros possíveis (fotos, escritos, falas...), Bell realiza o sonho da ciência, de metrificar, quantificar e, eventualmente, pesar, avaliar e ponderar o próprio ser humano...

Com tantas câmeras e recursos digitais ao nosso redor, ainda que a partir de certo momento de nossas vidas venhamos a esquecer todo este monitoramento, que garantia temos quanto à nossa privacidade e espontaneidade? Quanto a isto, em outro momento da entrevista, Bell afirma que pode ser benéfico, pois nos fará sempre escolher os melhores e mais éticos caminhos quanto ao que fazemos de nossas vidas... Errar deixa então de ser uma possibilidade? Que futuro estamos legando às novas gerações se as atrelamos a sistemas que não lhes permitirão nem sequer cometer falhas?

A questão da aparente "imortalidade" remonta também a sonhos e ideais da ciência desde tempos imemoriais. Indo um pouco além, com tanto registro, dados abundantes, informações a bel prazer, que esforço real nossa mente, o maior de todos os supercomputadores como já tive a oportunidade de registrar neste espaço virtual, terá que fazer? Que estímulos quanto à memória e ao desenvolvimento do raciocínio e da criatividade existirão para os seres humanos a partir de agora?

E outra: todos seremos então imortais a partir do registro de nossas existências, o que me parece bastante belo e democrático... No entanto, vale refletir sobre se queremos isto e, ainda, que valor real existirá para a humanidade o conhecimento de todas estas experiências individuais...

Escrevendo estas linhas, concluo que a ficção está morrendo e sendo substituída pela realidade ou, melhor dizendo, pela virtualidade... Lembrei-me de filmes como Substitutos, 1984, Matrix, Admirável Mundo Novo e Violação de Privacidade (The Final Cut, 2004)... Neste último, com chips implantados em nossos cérebros, o registro de tudo aquilo que ocorre em nossas vidas é armazenado automaticamente em computadores "linkados" a este chip, reproduzindo a ideia do projeto MyLifeBits e do livro Total Recall (cujo título também remonta à ficção científica, pois há um filme estrelado por Arnold Schwarzenneger, baseado em obra de Phillip K. Dick, de mesmo nome).

A Modernidade em questão

O operário aperta as peças que passam a sua frente alucinadamente, mal tem tempo para espantar uma mosca que atrapalha sua concentração, nem consegue ir ao banheiro, está sob constante supervisão, exige-se dele total dedicação e empenho. Há prazos a respeitar e encomendas a entregar. Há modelos e padrões que devem servir de exemplo para todos...

A paródia criada por Charles Chaplin em seus “Tempos Modernos” apresenta de forma criativa e engraçada uma das situações corriqueiras vividas por muitas pessoas depois do surgimento da Indústria e da concepção contemporânea de trabalho. Temos que produzir e consumir, para isso somos instados a todo o momento a uma rígida disciplina que chega a nos oprimir, que nos causa enormes dores de cabeça e nos condena a um stress sem fim...

Vários outros aspectos têm contribuído para um sem número de moléstias da modernidade:- O trânsito, as longas horas longe da família, a falta de tempo para dedicar-se a esportes ou outras atividades de lazer, a impossibilidade de alimentar-se com tranqüilidade e prazer, o distanciamento da religião, a dificuldade para continuar estudando,...

Há ainda acontecimentos de caráter geral, especificamente estruturais, relacionados à doutrinação realizada através da mídia, do estado, da escola, do trabalho, da família, da igreja e de todos os órgãos institucionalizados dentro da ordem capitalista, que impedem o homem de ser quem ele realmente é, de viver do jeito que realmente gostaria de viver, de trabalhar com prazer e satisfação...

São instrumentos implícitos a realidade em que nos encontramos inseridos. Estão consolidados como verdades jurídicas e culturais. Reiteram a todo o momento a necessidade da produtividade, da disciplina, da aceitação dos princípios régios que comandam as sociedades e acabam, de certa forma, homogeneizando os homens, tornando-os cada vez mais iguais, padronizados, repetitivos...

Há pouquíssimo espaço para criar, para respirar fundo e fugir dos estereótipos dominantes. Quem consegue vencer as barreiras impostas e questiona toda essa modernidade vira ícone da rebeldia, de uma valentia mitificada, da eterna utopia que alimenta a alma humana.

Para tratar desse assunto, depois de algumas discussões acerca das vantagens e desvantagens da modernidade, resolvemos em nossas aulas (com uma turma de 2º ano do Ensino Médio) abrir espaço para descobrir as pessoas, idéias e movimentos que tiveram coragem e sabedoria para colocar em xeque as fórmulas desse “admirável mundo novo” criado depois da “era das revoluções” (século XVIII, com as Revoluções Industrial, Americana e Francesa).

De nossas leituras emergiram homens e movimentos contestatórios dessa ordem alienante. Descobrimos que desde o século XVIII já existiam pessoas insatisfeitas em busca de alternativas que permitissem aos homens atingir a felicidade, a liberdade, à integridade e a dignidade que sempre buscaram e que a ordem burguesa havia prometido a eles sem cumprir...

A contestação apareceu nas páginas de Baudelaire, na proposta de revolução socialista de Marx, na psicanálise de Freud, no super-homem de Nietzsche, na Teoria da Relatividade de Einstein ou ainda na Seleção Natural das Espécies de Darwin. Descobrimos que a política podia ser discutida não apenas em parlamentos ou comícios, mas também na pesquisa científica, na literatura ou através de uma profunda análise histórica das sociedades e dos próprios seres humanos.

Percebemos que o Romantismo, o Modernismo, a Escola de Frankfurt ou Woodstock revitalizaram a humanidade presenteando-a com a possibilidade de sonhar, de criar, de burlar modelos e superar todo e qualquer totalitarismo.

E como fizemos essa imensa viagem pelo que se produziu de mais libertário no mundo pós-industrial?

Para começar lemos alguns textos introdutórios, através dos quais ficamos sabendo um pouco mais a respeito de cada um desses acontecimentos e personalidades. Tínhamos que descobrir quem eram, o que representavam, que produções realizaram, como enfrentaram as engrenagens que tantas vezes engoliram dezenas e dezenas de idealistas libertários.

Percebemos como ponto comum à capacidade de olhar criticamente para as coisas que acontecem a nosso redor e questionar essa ordem. Entendemos que para fazer isso são necessárias força e coragem, pois as cobranças e pancadas no sentido contrário são certezas sempre que assumimos posições fortes e desmistificadoras.

Vimos que todos os envolvidos sofreram perseguições e punições por suas opiniões e ações. Soubemos que foram incompreendidos por muitas pessoas (e continuam sendo até hoje). Descobrimos que para atingir seus objetivos essas pessoas se embasaram na cultura e na realidade, atingiram um nível elevado de maturidade em seus projetos e acreditaram sempre naquilo que estavam fazendo.

Lutaram contra a uniformização dos homens através da crescente influência da indústria cultural e da comunicação de massa (ficamos sabendo da existência de Adorno, Marcuse, Horkheimer e Walter Benjamin da Escola de Frankfurt). Questionaram a ordem institucionalizada se recusando a fazer a guerra ou a votar em favor de todo conservadorismo, consumismo e desigualdades da ordem capitalista (Os jovens e sua revolução através da música, do amor, do sexo e das drogas nos anos 1960).

Descobriram que não há verdades absolutas e que tudo é relativo, como nos ensinou o físico Albert Einstein. Perceberam que a arte pode ter várias formas, luzes, cores e representações, como pudemos ver com as obras de Pablo Picasso ou Salvador Dali. Defenderam a multiplicidade tão própria da espécie humana em contrapartida a homogeneização proposta e realizada pelo sistema, como na obra do radical Nietzsche.

Quiseram ver um mundo igual, em que ninguém se diferenciasse a partir de suas posses, de suas propriedades, como nas obras de Marx e Engels. Explicaram nossas origens sem se pautar em conceitos religiosos e sim na ciência, obra do cientista Charles Darwin. Buscaram compreender a humanidade a partir de seu inconsciente, a partir das pesquisas de Sigmund Freud.

E, de repente, todo esse conhecimento era alvo da pesquisa de uma juventude ávida por novos conhecimentos e em busca de respostas para as insatisfações do cotidiano moderno em que estão inseridos. Dessa curiosidade surgiram diagramas deslocados das folhas de sulfite para transparências e, dessas para a parede da sala de aula para que todos pudessem conhecer um pouco mais sobre o assunto.

De súbito nossa aula virou um espaço para a discussão da felicidade sacrificada pela correria, pelo stress, pela ausência, pelo desamor e pela falta de Deus. De que adianta tanta modernidade se cada vez mais nos vemos tão distantes da felicidade? Aonde iremos parar com tudo isso? O que queremos para nossas vidas?

Não podíamos celebrar melhor a memória e as idéias de todas essas pessoas e movimentos...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

As razões do sucesso ou do fracasso na vida pública

Resta considerar agora como um príncipe deve comportar-se com os seus súditos e amigos. Sabendo que muitos já escreveram sobre esta matéria, duvido que não venha a ser tido por presunçoso propondo-me ao seu exame, tanto mais que, ao tratar deste assunto, não me alongarei muito dos princípios já propostos pelos outros.

Entretanto, como é meu desejo escrever coisa útil para os que tiverem interesse, mais conveniente me pareceu buscar a verdade pelo fito das coisas, do que por aquilo que delas se venha a supor. E muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos e nunca tidos como verdadeiros.

Tanta diferença existe entre o modo como se vive e como se deveria viver, que aquele que se preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz, antes aprende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são Perversos. Deste modo, é preciso a um príncipe, para se conservar que aprenda a poder ser mau e que se utilize ou deixe de se utilizar disto conforme a necessidade.

Deixando de lado, portanto, as coisas que se ignoram com relação aos príncipes e falando a propósito das que são reais, digo que todos os homens, sobretudo os príncipes, por ficarem mais alto, fazem-se notáveis pelas qualidades que lhes trazem reprovação ou louvor.

Quer dizer, uns são considerados liberais, outros como miseráveis (usando o termo da Toscana mísero, porque avaro, em nossa língua, ainda significa o que deseja possuir pela rapinagem e miséria, apelidamos aos que se abstêm muito de utilizar suas posses); alguns são considerados pródigos, outros rapaces.

Alguns são cruéis, outros piedosos; perjuros ou leais; efeminados e pusilânimes ou truculentos e animosos de humanidade ou soberbos; lascivos ou castos; estúpidos ou astuciosos; enérgicos ou tíbios; graves ou levianos; religiosos ou ateus, e daí afora.

E eu sei que qualquer um reconhecerá que muito louvável seria que um príncipe possuísse, de todas as qualidades enumeradas, as tidas por boas; mas a condição do homem é tal, que não permite a posse completa delas, nem mesmo sua prática consistente; é preciso que o príncipe seja tão prudente que saiba evitar os defeitos que lhe tirariam o governo e praticar as qualidades próprias para lhe garantir a posse dele, se lhe é possível; não podendo, porém, com menor preocupação, deixe-se que os fatos sigam seu curso natural.

E mesmo não lhe importe incorrer na pecha de ter certos defeitos, sem os quais dificilmente salvaria o governo, porque, se considerar bem tudo, achar-se-ão coisas que parecem virtudes e, se praticadas, lhe provocariam a ruína e outras que parecerão vícios e que, seguidas, trazem bem-estar e tranqüilidade ao governante.

Nicolau Maquiavel, em sua clássica obra de realismo político, O Príncipe.

sábado, 17 de abril de 2010

A educação e suas origens

Nascemos fracos, precisamos da força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos, é nos dado pela educação.

Essa educação nos vem da natureza, ou dos homens ou das coisas. O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e o ganho de nossa experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas.

Cada um de nós é portanto formado por três espécies de mestres. O aluno em quem as diversas lições desses mestres se contrariam é mal educado e nunca estará de acordo consigo mesmo; aquele em quem todas visam os mesmos pontos e tendem para os mesmos fins, vai sozinho a seu objetivo e vive em conseqüência. Somente esse é bem educado.

Ora, dessas três educações diferentes a da natureza não depende de nós; a das coisas só em certos pontos depende. A dos homens é a única de que somos realmente senhores e ainda assim só o somos por suposição, pois quem pode esperar dirigir inteiramente as palavras e as ações de todos os que cercam uma criança?

Jean-Jacques Rousseau, O Emílio ou Da Educação

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Felicidade na Verdade

“Pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou na falsidade. Todos são categóricos em afirmar que a preferem na verdade, como em dizer que desejam ser felizes. A vida feliz é a alegria que provém da verdade.

Tal é a que brota de Vós, ó Deus, que sois a ‘minha luz, a felicidade do meu rosto’ e o meu Deus. Todos desejam essa vida feliz. Oh! Todos querem esta vida, que é a única feliz; sim, todos querem a alegria que provém da verdade.

Encontrei muitos com desejos de enganar outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado. Onde conheceram eles esta vida feliz senão onde alcançaram o conhecimento da verdade?

Amam a verdade, porque não querem ser enganados; e, ao amarem a verdade feliz, que não é mais que a alegria oriunda da verdade, amam, com certeza, também a verdade. Não a poderiam amar, se não tivessem na memória qualquer noção de verdade. Por que não encontram nela a sua alegria? Por que não são felizes?

Não são felizes porque, entregando-se com demasiado afinco a outras ocupações em que, em vez de ditosos, os tornam ainda mais desgraçados, recordam, apenas frouxamente, aquela Verdade que os pode fazer felizes. ‘Por enquanto ainda há uma luz entre os homens’. Caminhem, caminhem depressa, ‘para que as trevas não os surpreendam’”.

Confissões de Santo Agostinho, Livro X – O Encontro com Deus.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Alfabetizar letrando

O professor deve fornecer ferramentas para o aluno construir o seu processo de aprendizagem da leitura e escrita.

Na etapa inicial, isto é, na Educação Infantil, a escola tem obrigação de ajudar o aluno a se apropriar da escrita alfabética e informatizar o seu uso.

Para realizar essa tarefa, o professor não deve deixar o aluno se esforçar sozinho para entender “por que coisas que se fala parecido tendem a ser escritas de modo parecido o professor deve ajudar o aluno a refletir sobre palavras retiradas de textos lidos (além de outras que são significativas para o aluno)”. É essencial praticar a leitura e a escrita no cotidiano escolar “trabalhar com palavras”, propiciar aos alunos refletir sobre elas, montá-las e desmontá-las.

Nessas ocasiões, mesmo ainda sem saber ler convencionalmente, os alunos poderão se apoderar de algumas estratégias de leitura: estratégias de antecipação, de checagem de hipóteses, de comparação, entre outras ( utilizadas por um cidadão letrado. Explorando e também produzindo textos observados pelo professor ou por outro aluno já “alfabetizado”), os alunos estarão desenvolvendo conhecimentos sobre a linguagem que se utiliza nos textos que percorrem a sociedade letrada.

Com base nos estudos e pesquisas de hoje em dia, “Alfabetizar letrando” requer: Democratizar a vivência de práticas de uso da leitura e da escrita e ajudar o aluno a, ativamente, reconstruir essa invenção social que é a escrita alfabética.

Se a escrita alfabética é uma invenção cultural, seguindo as idéias de Vygotsky, os professores, como membros mais experientes da cultura devem auxiliar os alunos a prestar atenção/analisar/refletir sobre os pedaços sonoros e escritos das palavras. Isso, é claro, não seria, de forma alguma, usar métodos fônicos ou treinar a “produção de fonemas” num mundo sem textos e sem práticas de leitura.

A partir de 1983, através de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, o professor começou a repensar a sua prática cotidiana em sala de aula. Nos dias de hoje, sabemos que um indivíduo plenamente alfabetizado é “aquele capaz de atuar com êxito nas mais diversas situações de uso da língua escrita. Dessa forma, não basta apenas ter o domínio do código alfabético, isto é, saber codificar e decodificar um texto: é necessário conhecer a diversidade de textos que percorrem a sociedade, suas funções e as ações necessárias para interpretá-los e produzi-los.” O processo de alfabetização ocorre durante toda a escolaridade e tem início antes mesmo da criança ingressar na escola. Implica em tomar como ponto de partida, o texto, pois este é revestido de função social e não mais as palavras ou sílabas sem sentido. O professor deve buscar um vocabulário que tenha realmente significado para a classe, isto é, que seja retirado das suas experiências. Atualmente, a cartilha não é o recurso mais favorável à aprendizagem da leitura e da escrita, principalmente, porque não tem qualquer significado para o aluno e apresenta textos desconexos, apenas garantindo a “memorização das famílias silábicas.”

Para Teberosky, deve ser considerada no processo de alfabetização, a diferenciação entre a escrita e a linguagem.

Segundo a referida autora, a escrita deve ser entendida como um sistema de notação, que no caso da língua portuguesa é alfabetização (conhecer as letras, sua organização, sinais de pontuação, letra maiúscula, ortografia, etc.). A linguagem escrita é definida como as formas de discurso, as condições e situações de uso nas quais a escrita possa ser utilizada (cartas, bilhetes, notícias, relatos científicos, etc.)

Inicialmente, o professor precisa tomar por base o texto e não mais as palavras-chaves. O texto deve ser o elemento fundamental para inserir a criança no universo letrado’.

Além da escrita espontânea, pode ser considerado também o trabalho com modelos, que possibilitam ‘as crianças comparem suas hipóteses com o convencional. Através de listas de palavras de um mesmo campo da semântica (brinquedos, jogos prediletos, comidas preferidas, personagens de livros e gibis, nomes dos alunos da classe, frutas, etc.) das parlendas e de outros textos, as crianças, hoje, podem ampliar suas concepções e progredir na aquisição da base alfabética, como na compreensão de outros aspectos (a grafia correta das palavras, o uso de sinais gráficos, etc.).

Simultaneamente, os diversos tipos de texto necessitam aparecer como objeto de análise, propiciando aos alunos diferenciá-los, conhecer melhor suas funções e características particulares. Para que isso ocorra, é essencial que saibam interpretá-los e escrevê-los. A expressão pessoal (bilhetes, cartas, diários, receitas culinárias, etc.) deve fazer parte do trabalho do professor, no entanto, esta deve vir acompanhada pela escrita de outros textos, inclusive com o apoio de modelos.

Cabe à escola, desde a Educação Infantil, alimentar a reflexão sobre as palavras, observando, por exemplo, que há palavras maiores que outras, que algumas palavras rimam, que determinadas palavras tem “pedaços” iniciais semelhantes, que aqueles “pedaços” semelhantes se escrevem muitas vezes com as mesmas letras, etc.

Não se trata de apresentar fonemas para que os alunos memorizem isoladamente os grafemas que correspondem a eles na nossa língua. Como o aprendizado do sistema de escrita alfabética é, acima de tudo, conceitual, o que é preciso é que os alunos possam manipular/montar/desmontar palavras: observando suas propriedades; quantidade e ordem de letras, letras que se repetem, pedaços de palavras que se repetem, e que tem som idêntico. O professor deve estimular o desenvolvimento das habilidades dos alunos de reflexão sobre as relações entre partes faladas e partes escritas, no interior das palavras.

O uso das palavras estáveis como os nomes próprios e de certos tipos de letra, como a letra de imprensa ou letra script, tem uma explicação. Quanto às palavras que se tornam “estáveis”, o fato de o aluno ter memorizado sua configuração, possibilita-lhe refletir sobre as relações parte-todo tentando desvendar o mistério daquelas relações; por que a palavra inicia com determinada letra e continua com aquelas outras naquela ordem? Por que falamos tantos (pedaços) sílabas e tem mais letras quando escrevemos? Quanto ao uso das letras de imprensa ou script, o fato de terem um traçado mais simplificado, e de cada letra aparecer mais separada das demais, possibilitando ao aluno saber onde começa e termina cada letra, permite ao aluno investir no trabalho cognitivo, fazer uma reflexão necessária à reconstrução do objeto de conhecimento, isto é, o sistema alfabético.

O professor deve garantir que as práticas escolares ajudem o aluno a refletir enquanto aprende e a descobrir os prazeres e ganhos que se pode experimentar quando a aprendizagem do sistema de escrita é vivenciado como um meio para, independentemente, exercer a leitura e a escrita dos cidadãos letrados.

domingo, 7 de março de 2010

Qual nossa prioridade? Educar ou Punir?

Na minha pouca sabedoria, sempre pensei ser necessário educar para não ter que punir. Sempre pensei que a educação fosse fundamental para que uma sociedade se desenvolvesse de forma justa, sem a utopia de uma sociedade igualitária, isso não existe, sejamos realistas, mas todos devem ter as mesmas oportunidades. E só a educação pode propiciar oportunidades minimamente iguais.

A pouco tempo foi aprovado e já está em vigor o piso nacional para os professores, pensei ser muito justo pois nossas crianças merecem profissionais que recebam salários justos para que possam desenvolver seu trabalho sem se preocupar com o "arroz e o feijão" de cada dia. Um piso nacional de (na época) R$ 900,00 (novecentos reais) poderia - quem sabe - ajudar na melhoria do processo que é a educação.

Contudo, vejo que nossas autoridades não pensam desta forma. Foi uma grande luta para que o piso nacional dos professores fosse aprovado. Alguns governadores entraram na justiça contra o piso e para protelar o seu pagamento. Agora, A Câmara dos Deputados acaba de aprovar a Lei que institui o piso nacional para os salários dos policiais. A bagatela de R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos reais). Eu acho um piso salarial muito justo, afinal eles zelam por nossa segurança.

Somente não concordo com a disparidade de prioridades. A diferença entre o piso aprovado para os professores - comemorado como se fosse uma grande vitória - e o piso dos policiais retrata a quantas anda a educação em nosso país. Retratam o desleixo com que nossos governantes lidam com as políticas educacionais. Este piso salarial é comparado a salário de professor universitário. Queremos sim este piso para os policiais, mas também queremos o mesmo piso para os professores pois sem educação o trabalho dos policiais vai aumentar muito.


A Corrente do Bem - Como iniciar grandes transformações a partir de pequenos passos

Pensar na escola como sendo um lugar que pode gerar uma transformação tão grandiosa que ultrapasse os limites espaciais da vida de um estudante é algo que nos parece longe demais, no entanto, o filme a "Corrente do Bem" parte dessa premissa, parece querer nos dizer que o aquilo que nos parece aparentemente impossível pode estar ao nosso alcance.
A história do filme tem um grande mérito em seu currículo, já foi capaz de promover o surgimento nos Estados Unidos de um movimento assemelhado ao que foi apresentado nas telas, portanto, como dizemos na gíria, "moveu montanhas".

Vamos ao filme, trata-se da história de um garoto de 12 ou 13 anos, portanto um aluno de 7ª Série, com as aulas começando, em seu primeiro dia. Quando o garoto e seus colegas chegam a sala de aula, encontram o professor de geografia os aguardando, sentado em uma cadeira, a meditar sobre os pontos que pretende desenvolver nesse primeiro encontro com seus novos alunos. Quando todos estão sentados e instala-se um necessário silêncio, o professor inicia suas atividades apresentando-se e falando sobre os propósitos de seu curso e das dificuldades de se trabalhar com adolescentes; apesar de ter marcado o mapa na lousa em diversos pontos, o professor despreza o material e propõe uma atividade diferenciada, pergunta aos alunos sobre a possibilidade de desenvolvimento de um projeto, mas não um simples trabalho escolar, algo que vá além, que gere consequências, que provoque transformações.

Apesar de inicialmente termos a idéia de que tal professor (vivido pelo oscarizado Kevin Spacey, premiado pelo seu trabalho no crítico "Beleza Americana") é conservador e que suas aulas devem corresponder a sua postura e atitude diante do grupo, esta proposta inicial nos coloca diante de uma nova perspectiva, mais bela, mais poética, mais revolucionária.
Se ficamos interessados pela proposta, imaginem então, como reagiriam alunos de 12 ou 13 anos. Isso mesmo, a princípio, com grande indiferença, a não ser por um dos garotos, de nome Trevor, personificado pelo impressionante Haley Joel Osment (do surpreendente suspense "O Sexto Sentido" e do instigante "AI - Inteligência Artificial"), que cria a "Corrente do Bem". Essa corrente funciona como as pirâmides através das quais as pessoas tentam ganhar dinheiro ou livros, por exemplo, só que ao invés de utilizar essa artimanha para multiplicar os ganhos materiais, a proposta do garoto encaminha-se no sentido de fazer com que as pessoas pratiquem o bem para os outros, sem esperar qualquer devolução ou retorno.

Cada pessoa teria que fazer o bem para 3 indivíduos e, pedir que os outros continuassem fazendo o mesmo, ou seja, praticando o bem para outras pessoas e pedindo que elas estendessem essa corrente indefinidamente. De 3 benfeitorias ou benefícios prestados passaríamos numa segunda etapa para 9, dos 9 para 27 e, assim sucessivamente.
Perceberam como, uma simples idéia lançada numa sala de aula acabou por se tornar uma verdadeira revolução no pensar e no agir?

Além de nos provocar para que, como professores procuremos fazer com que nossos pequenos esforços se tornem grandes em seus resultados gerais para nossos alunos e nossas comunidades, o filme traz ainda discussões importantes acerca do respeito pelas diferenças, das dificuldades de relacionamente familiar nos tempos em que vivemos e, mais especificamente, da dificuldade que temos em entender os mais jovens (parecemos não querer escutá-los, mesmo quando nos mostramos atentos; parecemos não nos importarmos com o que os jovens pensam, quando deveríamos participar nossas opiniões e saber escutar a deles; apesar de toda rebeldia, muitos deles querem e precisam muito de nosso apoio).

O filme é muito interessante no sentido de despertar diálogos, de nos fazer entender pelos jovens e de nos fazer atentos a suas colocações, de nos fazer promover uma possibilidade de maior entendimento entre pais e filhos (fundamental para a educação!) e de aproximar as escolas daquilo que seja significativo para os estudantes, a comunidade e mesmo para nós, professores!