quarta-feira, 11 de maio de 2011

O bullying e a omissão

No dicionário Webster, a definição é clara: bullying é tratar abusivamente, por meio de força ou coerção. É necessário, portanto, que o agressor seja alguém ou um grupo de pessoas com superioridade física ou mental que maltrate sua vítima de maneira intencional e repetitiva. É preciso diferenciar bullying de assédio, no qual não é necessária superioridade física e a coerção tem um objetivo claro, comumente a vantagem sexual. Outra situação diferente é o bullying cibernético, no qual não há contato físico. Em geral, a vítima não identifica seu agressor, o abuso não ocorre em tempo real e a vítima entra no espaço virtual por vontade própria. No ciberbullying, há outras abordagens.

Os exageros no uso do termo bullying como causa do comportamento antissocial são prejudiciais porque podem acobertar outras psicopatias graves ou que merecem tratamento totalmente distinto. Hoje, o bullying parece ser a desculpa preferida dos que têm personalidade psicopata e dos que têm um comportamento que está no limbo, entre o normal e o patológico. No início de abril, em uma conferência sobre o tema ocorrida na Casa Branca e patrocinada pelos Obama, o próprio presidente dos EUA declarou ter sido vítima de bullying. Dá para imaginar o efeito disso se realmente o bullying tiver um crucial papel na criação de assassinos? Nem todo assassinato ocorre porque o criminoso apanhava do pai ou sofria nas mãos dos colegas.

O problema do bullying é mais embaixo. Mais comum entre as crianças, existe na maior parte do caso uma superioridade física do agressor e uma baixa autoestima da vítima. Parece um tema atual, mas o termo já era usado no século XVII. E quem não se lembra de um João Grandão que batia sem motivo em todo mundo da classe? De acordo com o doutor Guilhermo Bigliani, especialista na área, 63% das trabalhadoras brasileiras são vítimas de bullying, principalmente as negras. O bullying é grave, pois demonstra uma falta de intervenção de alguém mais poderoso que o agressor para proteger a vítima.

Na Inglaterra pós-crise, 54% dos jovens estão envolvidos em bullying, e um terço das crianças é vítima ou agride os seus irmãos. No Brasil, mais de 40% da população escolar, segundo a Sociedade Brasileira de Combate ao Bullying, já sofreu abusos do gênero. Nas culturas capitalistas, o bullying é mais tolerado e praticado quanto maior for a pobreza.

Nas civilizações primitivas, o bullying era prontamente coibido pelo interventor que estava sempre próximo das crianças e não tolerava transgressões. Apesar de não escrita, a lei estava incrustada no comportamento automático das pessoas. Hoje, tudo está no papel, mas ninguém lê.

Agora, uma criancinha de 4 anos que conversa com a coleguinha na sala de aula vai para a cadeira do isolamento, enquanto um jovem de 16 anos pode arrebentar a cara do colega na sala de aula e o professor, com medo de ser agredido, finge não ver. Este é o problema verdadeiro: a punição do comportamento que é adequado e a tolerância do interventor ao comportamento antissocial que promove o bullying.

O bullying não ocorre apenas em crianças. Uma discussão extremamente didática sobre o tema entre três especialistas na área, entre eles o dr. Bigliami, e que se transformou em livro a ser editado ainda neste ano, com o título Humilhação e Vergonha, Diálogo Sistêmico Psicanalítico, deverá ter espaço na cabeceira de professores. A obra expõe como a nossa sociedade, moderna e caótica, permite a ascensão do bullyboy ou bullygirl no Estado ou nos altos cargos de direção de empresas, provocando depressão, ansiedade e até suicídio entre as vítimas. A doutora Young Shin Kim, da Universidade de Yale (EUA), analisou 37 estudos de 13 países diferentes e notou que as vítimas de bullying têm até nove vezes mais pensamentos suicidas que indivíduos que não sofreram tal abuso. Para ela, quem sofre bullying pode não estar tão sujeito ao risco de se tornar assassino, mas com certeza é um suicida em potencial.

sábado, 16 de abril de 2011

“Bullying” contra o português

Na semana passada, minha mulher comprou um pote de geleia de mirtilo, com o seguinte selo: “Geleia de blueberry”. Num acesso de hipercorreção, risquei a palavra “blueberry” e escrevi por cima “mirtilo”, não sem antes passar um “branquinho” sobre o rótulo. “Você está louco?”, me disse Miriam ao descobrir o trote. “É assim que nascem os serial killers!”, exagerou. Respondi no meu espírito habitual: “Brincadeira sem graça. E por que não ‘assassinos seriais’?” Ela atacou: “Porque você diria que é anglicismo”. Neutralizado pela jogada dela, fiquei tentando encontrar um correspondente em português para “serial killer”, mas não consegui. Tive de me resignar à expressão americana. “Tudo bem, assassino serial, tudo em nome da língua portuguesa. Não aguento mais escreverem tudo errado!” Ela riu: “Se constasse ‘mirtilo’ em vez de ‘blueberry’ no rótulo, o produto não venderia! Sabe por quê? Porque ninguém sabe o que é mirtilo.” Pois é, ninguém leva a questão da pureza da língua a sério. Sobrei eu. Ou nem eu...

Mas, como diriam os sambistas, ainda posso ser considerado um dos “últimos baluartes da língua portuguesa”. Pode parecer um título pretensioso, até porque não recebi de ninguém outorga ou procuração para a função. Ou ridículo, por lembrar o personagem do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, de Lima Barreto: Policarpo é aquele coronel aposentado que infla o peito quando fala de Brasil e se orgulha de tudo o que é nativo, a ponto de propor que o tupi-guarani seja elevado a idioma oficial da república. Claro ele que dá com os burros n’água e é ridicularizado por todos, inclusive pelo narrador. Não sou xenófobo nem avesso a influências estrangeiras em qualquer que seja a cultura, a brasileira inclusive. Defendo o acesso universal à cultura e aos idiomas em um planeta cada vez menor. Costumo dizer que é sempre melhor um plus a mais do que um less de menos. Há situações, porém, que me causam tamanha irritação, que tem gente me chamando de Novo Policarpo Quaresma. Já peguei a fama na minha própria causa por causa do mirtilo, mais conhecido por aqui como blueberry.

Nessas, quem se estrepa sou eu. O que me exaspera é a preguiça e a assumida ignorância dos usuários do português no Brasil. Chamam urubu de meu louro, e blueberry de mirtilo. As pessoas estão falando e escrevendo em um português cada vez mais estropiado. E a causa principal se encontra na tenaz e persistente contaminação do inglês. Pior, acham o máximo cometer erros simultaneamente nas duas línguas, inglês e português. Assim, tenho sido forçado a lutar pela língua, como se envolvido em uma guerra. Não fui convocado ao serviço militar do léxico, mas eis-me no campo de batalha. E aí, como diz o ditado, agora dou uma boiada para não sair mais da briga. Como se mal diz hoje, eu me voluntariei (leia-se em bom português: “ofereci-me”). Chamem-me do que quiserem. Ao ataque!

Hoje em dia, a turma que entende das coisas adora falar que os estudantes “sofrem bullying”. Ô, palavrinha mais antipática... O tal do “bullying” está na boca do Brasil inteiro, e com pronúncia errada (as pessoas gostam de dizer “bãling”, o que as torna ainda mais ridículas). A palavra “bully” tem uma origem chã: provém de “bull”, touro, do inglês do século XVII e significava originalmente “fanfarrão”, “mata-mouros”. Só mais modernamente passou a designar perseguição e agressão, em português. O correto seria dizer: “Os estudantes sofrem perseguição nas escolas”. Não ouso afirmar que a língua portuguesa está sendo agredida. Para convencer meu interlocutor, tenho de “refrasear” (em vez de “refazer”) a afirmação para: “O português está sofrendo bullying”. Aí todos entendem, batem palmas e pedem bis – ou, como se diz em inglês, “encore”. Isso porque agora o correto já virou incerto. Eu não posso falar que temos um prazo final no fechamento desta edição. Para parecer mais sofisticado, tenho de alertar que não há prazo final, e sim um “deadline”. Sinto-me mais bacana por dizer “deadline” e “approach”, entre outras baboseiras do atual jargão do jornalismo.

Tenho a impressão de que todo mundo, inclusive eu, esqueceu-se das palavras precisas para designar determinadas situações e objetos. O bombardeio dos termos em inglês provoca amnésia linguística e tornou legítimos barbarismos como “provocativo” em vez de “provocador” e “basicamente” em vez de “fundamentalmente”. Ainda mais risível é quando usam “eventualmente” no sentido de “finalmente” – “eventually” em inglês. Realizou?

Nesse campo da prática de abusos, os críticos de música e cinema são tradicionalmente os piores: eles enxameiam seus textos de termos em inglês e expressões esdrúxulas. Só que agora andam a abusar do direito que se autoatribuíram (daqui a pouco vão dizer “se self atributiram” ou qualquer coisa do tipo). Ninguém mais estraga prazeres ao contar o desfecho de um filme; agora o que vale é o popular “spoiler alert”. Quando você vai contar a trama de um filme, terá de dizer assim: “Cuidado que tem spoiler!” Quando um crítico me diz isso me dá vontade de pular, pois a palavra soa como uma espécie de escaravelho ou baratagigante.

No dia a dia, o pessoal vive se metendo em “brainstorming”, vocábulo inglês que pode ser facilmente traduzido para confabulação. Que tal confabular em vez de “fazer um brainstorm”? Acho uma troca vantajosa, até porque é menos barulhenta, “brainstorm” evoca tempestades com raios e trovões. Nada melhor que confabular, trocar ideias e histórias. Além de tudo, soa melhor.

O português surgiu por volta do século XII (embora haja documentos de duzendos anos antes) a partir da evolução do latim vulgar na Península Ibérica, com contaminações de termos celtas, visigóticos e árabes. No começo, era chamado de “galego-português” porque a fala e a escrita apareceram no norte de Portugal, na fronteira com a Galícia. As poesias palaciana, de amigo e de escárnio e maldizer foram criadas e publicadas antes mesmo da consolidação de idiomas como espanhol, italiano, alemão e... inglês. Língua venerável, o português. Um idioma imperial do século XVI. Por isso, bonita como uma caravela engalanada, clara e solar como as igrejas góticas de Lisboa.

Amo os meios-tons que suas vogais contêm, aparentadas francês. É um grande prazer remexer no léxico riquíssimo do idioma, brincar com a possibilidade que ele oferece de alongar as frases quase ao infinito, pois o português flui como uma plácida corrente de rio. Adoro certas palavras que não constam de línguas irmãs, como a (quase) intraduzível “saudade”, ou aquelas que existem em outras, que ganham um sabor delicado no vernáculo, como “brisa”, “maçã” e “paixão”. Os ecos artísticos são grandes. Eu sei que blueberry consta de um belo filme de Wong Kar-Wai. Trata-se deMy blueberry nights, traduzido em português pelo título pedestre Beijo roubado em vez de “Minhas noites de mirtilo”. Blueberry é uma palavra que a gente amassa com dois dedos. Mirtilo, não. O vocábulo está em Camões e Petrarca, que, por sua vez, beberam na fonte de Horácio e Virgílio. Mirtilo evoca pastores do Parnaso e da Serra da Estrela. É antigo e lírico, como o português.

Por isso, podem vir com seu temível bullying contra a língua portuguesa, que estarei a postos para toureá-lo, apagá-lo e substituí-lo pelo castiço verbo agredir. Que mais “geleias de blueberry” arremetam contra mim, que as receberei com meu poderoso corretor. Não sou besta. Sei que as línguas são dinâmicas e abertas a influências externas. São organismos vivos. Mas daí a se render totalmente à ignorância dos próprios recursos, de seu thesaurus, vai um abismo. Os tão festejados e pouco praticados “laços lusófonos” só têm ajudado a apagar a delicada língua de Camões das areias da cultura. Parece que quase ninguém está disposto a preservar o que quer que seja, quanto mais suas referências espirituais. Restam alguns poucos Quaresmas neste país. Mas se eu for o último homem em pé para proteger o idioma, pelo menos terei orgulho do que deixei de realizar, mas ao menos tentei.

Luís Antônio Giron Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA

domingo, 3 de abril de 2011

Escola integrada desafia limitações da rede pública

Por Ocimara Balmant

São Paulo - Pablo Henrique de Sousa, de 7 anos, ganhou um acessório novo neste ano. Sobre o uniforme da escola municipal de Sorocaba, ele ostenta um colete verde limão. É o que mostra que ele é um aluno de tempo integral: fica das 8h30 às 17h30 no colégio. Por enquanto, ele é exceção. Atualmente, só 6% dos alunos têm ao menos sete horas diárias de jornada escolar. Mas, uma das metas do Plano Nacional de Educação, em trâmite no Congresso, é que até 2020 metade das escolas públicas ofereça educação básica em tempo integral.

Para isso, o governo aumentou o repasse de verbas para as escolas públicas com jornada ampliada. O acréscimo do Fundo da Educação Básica (Fundeb) é de 25% para o fundamental e 30% para o médio. Porém, a implementação ainda esbarra em problemas de infraestrutura e de formatação de conteúdo.

"Precisamos agir porque o Brasil está a reboque. Os países desenvolvidos oferecem isso há séculos e nações vizinhas, como o Chile, universalizaram a educação básica integral", diz Silvia Colello, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "Mas precisa ser bem feito, com projeto pedagógico adequado."

Como o Ministério da Educação não prevê um currículo único, as experiências são variadas. "Cada cidade se planeja de acordo com suas peculiaridades", explica Isabel Santana, gerente da Fundação Itaú Social. Em seminário sobre o tema nesta terça e quarta-feira, o órgão vai lançar o documento "Perspectivas de Educação Integral", em que mapeia tendências espalhadas pelo País. Foram consideradas 16 iniciativas que mostram que a educação integral deve considerar tempo, espaço e conteúdo.

Não há um número de horas estipulado, mas é preciso que o tempo seja suficiente para execução das atividades. Em Apucarana (PR), por exemplo, os alunos chegam às 7h30 e ficam até as 16h. "Como nossa cidade é pequena e eles moram perto, ainda sobra tempo para brincarem na rua", explica Cláudio Silva, diretor da autarquia municipal de Educação.

A cidade foi uma das pioneiras na prática. Implantou o formato em 2001 e hoje todos os alunos do ensino fundamental passam o dia na escola. Em 2009, a nota de Apucarana no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), foi de 6,0, meta do governo federal para 2020.

Crescer na avaliação não depende só do número de horas, mas também do que é feito nesse tempo extra. "Fazer a articulação dos dois currículos é uma coisa bastante difícil. O aluno não pode ficar a manhã toda achando muito chato assistir às aulas de matemática e compensar a canseira se divertindo à tarde", diz Maria Estela Bergamin, do Centro de Estudos e Pesquisa de Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). "A ideia integral não pode ser formar artistas ou esportistas. Se vai ter oficina de dança moderna, ele estuda hip hop na aula de português."

Outro desafio na questão do conteúdo curricular é evitar que a jornada ampliada se transforme em reforço escolar. Estudo do MEC que ouviu 500 escolas em 2009 mostrou que 61,7% delas usavam o tempo para isso. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo

domingo, 27 de março de 2011

Dinheiro, enfim, na academia

Fazer ciência em um país- desorganizado como o Brasil nunca esteve entre as tarefas mais fáceis para pesquisadores. Em 1984, o então estudante Miguel Nicolelis, da Faculdade de Medicina da USP, viveu o famoso dilema do jogador de futebol que bate escanteio e corre para cabecear a bola para o gol. À epoca, pesquisava a resistência de bactérias em infecções hospitalares e, embora já manuseasse microcomputadores, ele tinha, entre outras tarefas simplórias, de buscar pessoalmente os cachorros que serviriam de cobaias para suas experiências.

Hoje, 27 anos depois, Miguel Nicolelis é um dos mais renomados cientistas do mundo, graças à carreira que construiu na Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA), para onde emigrou em 1989. Será que o então estudante hoje precisaria mudar de país para se tornar um cientista de ponta? A resposta pende cada vez mais para o “não”, embora a evolução ainda tenha um longo caminho pela frente. Os aumentos de investimentos na ciência nacional nos últimos anos fazem do Brasil um dos principais polos de atração científica internacional, apontou reportagem da revista britânica The Economist em janeiro. Segundo a publicação, as universidades brasileiras buscam atrair cientistas mais velhos de outros países para que possam administrar alguns de seus laboratórios e se estabelecerem em definitivo no País.

A matéria da The Economist, uma das mais influentes publicações do planeta, se insere no novo contexto da produção científica do Brasil: no ano passado, pesquisa organizada pela Thompson Reuters indicava que o Brasil em poucos anos seria o segundo país em produção científica entre os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). A pesquisa levou em conta o número de artigos publicados entre as mais relevantes revistas de ciência do mundo. Nelas, o País acabou de ultrapassar a Rússia, 30.021, ante 27.605 em 2008. Em 2009, uma avaliação da Natural Science Indicators (NSI), também da Thompson Reuters, colocou o Brasil na 13ª posição da classificação global de produção científica, duas posições acima do ranking anterior, de 2007, à frente da Holanda, que tem tradição na área.

Mas a que se refere esse crescimento? A equação que determina o crescimento científico de um país seja bastante simples: mais dinheiro designado significa maior produção – e quanto maior a produção, maior será a quantidade de estudos e patentes desenvolvidos.

“O aumento expressivo da produção científica nas últimas décadas é resultado de um aumento no fomento à pesquisa tanto em nível federal quanto estadual”, afirma Isaac Roitman, professor da Universidade de Brasília (UnB) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “O sistema da pós-graduação (cursos de mestrado e doutorado) tornou-se robusto, e ele se constitui como o principal cenário onde as pesquisas científicas são realizadas.”

As principais agências de fomento ao desenvolvimento acadêmico receberam uma substancial injeção financeira. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agrocopecuária (Embrapa), que muitos já consideram a mais importante instituição do setor no mundo, teve um crescimento de verba de 50% desde 2002. Pedro Arraes, presidente da instituição, comemora a evolução. “Agora temos um orçamento de 1,8 bilhão de reais anual, que é o mesmo da sua par americana, a ARS (Serviço de Pesquisa em Agricultura, em portugês)”, relata. A Embrapa ainda possui o chamado “PAC Embrapa” – PAC é o Programa de Aceleração do Crescimento, criado no governo Lula –, que prevê a construção de unidades da empresa em locais com menos investimento. “Possuímos 46 centros de pesquisa hoje. Ganhamos cinco centros sendo criados em vazios tecnológicos, como Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, mais um centro de estudos estratégicos em Brasília. Houve revitalização impressionante nos laboratórios”, afirma.

A Embrapa hoje possui parcerias tecnológicas com universidades nos Estados Unidos e na Europa, além de braços na América Latina e África. O governo federal muitas vezes utiliza a extensão da empresa para aprimorar braços diplomáticos por meio de parcerias em agropecuária – pesquisas da Embrapa no Mali, em Moçambique, no Senegal e no Panamá são exemplos.

Além da Embrapa, o Brasil desponta com força em setores tão diferentes como a aviação civil (Embraer), automação bancária, papel e celulose, biocombustíveis e medicina tropical, entre outras áreas. O desenvolvimento de praticamente todas é diretamente relacionado ao aumento das bolsas em iniciação científica em graduação e pós-graduação, que são organizadas -pela -Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que manteve a sigla anterior de Conselho Nacional para Pesquisa), que também tiveram considerável avanço financeiro. “Ampliamos o orçamento oito vezes entre 2002 e 2011”, afirma o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães.

O despontamento do Brasil no cenário da economia internacional e as possibilidades de crescimento fazem do País um polo científico de atração de estrangeiros pela primeira vez em sua história. E como há demanda de forte crescimento nessa área, mas ainda não formamos cientistas em número suficiente, as entidades que fomentam a produção científica buscam atrair estrangeiros na forma de intercâmbio ou mesmo de trabalho fixo. É a estratégia na qual se foca a Capes, que recentemente publicou, em parceria com a Fiocruz, anúncio em revistas de renome internacional da área procurando recrutar cientistas no exterior. “A procura foi enorme”, afirma o presidente Jorge Guimarães. “Estamos longe de ter a massa crítica de cientistas que o Brasil precisa, comparando-se o número de profissionais tanto com o tamanho da população total quanto da população economicamente ativa. Há também uma relação direta entre a ciência e o Produto Interno Bruno (PIB): nos próximos anos, estaremos entre os dez maiores PIB da Terra. E a ciência brasileira vai ter de também estar a caminho.”

Educação e produção científica
Mas nem tudo são flores nessa evolução. O Brasil ainda precisa melhorar gargalos que tornam a ciência no País menos factível do que realmente é. “O que falta são normas claras para que o cientista não se transforme num burocrata”, afirma Miguel Nicolelis. “Tudo vem de cima para baixo. Esses problemas estavam presentes quando fui embora, nos anos 1980, e quando comecei a voltar, em 2002. A vida do cientista no Brasil é imprevisível. A mente do cientista é imprevisível, mas a vida dele tem de ser bem planejada. Por isso sou a favor de que descentralizem alguns procedimentos para que haja aproximação com a realidade do País”, completa.

A opinião de Nicolelis é endossada pela maioria dos personagens que avaliam a produção brasileira. “É importante que o cientista tenha como meta a produção do saber, mas também é importante que a sociedade se beneficie a curto prazo dos avanços científicos produzidos no Brasil”, afirma Isaac Roitman, da ABC. O presidente da Embrapa, Pedro Arraes, também concorda que a defasagem entre o mundo acadêmico e as necessidades sociais ainda seja forte. “A Embrapa implementou, há 12 anos, um sistema de avaliação de produção de pesquisadores. É uma característica diferente da academia: aqui não interessa que o pesquisador publique um trabalho científico que se encerre por si. Ele tem de apresentar trabalhos que apontem soluções para a cadeia produtiva com a qual a empresa- trabalha. Então é uma administração por resultados e por patentes lançadas, entre outros fatores de avaliação.”

Desburocratizar o que acontece na academia parece ser fácil em comparação com o outro gargalo da ciência nacional: a má qualidade do Ensino Básico. O Brasil é um país onde 24% dos habitantes entre 16 e 24 anos são analfabetos funcionais, de acordo com pesquisa do Instituto Paulo Montenegro, ligado ao Ibope, realizada em 2010. O sucateamento da educação culmina na baixa quantidade de estudantes com capacidade para desenvolver pesquisa científica.
Melhorar a qualidade da educação básica é um dos fatores necessários para maximizar a qualidade e a quantidade científica do País e um dos pilares do novo Plano Nacional de Educação elaborado pelo mistro Fernando Haddad para o período 2011-2020. O ministro optou por aumentar as atribuições da Capes para que a entidade também trabalhe a melhora nas primeiras camadas educacionais do País. “A Capes agora é focada na formação de cientistas e também na de professores, para a qual se criaram duas diretorias só para atacar esse problema. O objetivo é recuperar o estímulo dos docentes para a educação básica através de projetos nas universidades, junto aos futuros professores”, explica Jorge Guimarães, presidente da entidade.

Se a educação básica for desenvolvida, vai ser mais fácil focar em estudantes promissores que possam fazer iniciação científica ainda na escola. Esse era um dos sonhos de Miguel Nicolelis. Em 2002, ele começou a trabalhar para implementar o seu Instituto de Neurociência de Natal. Localizado na periferia da capital do Rio Grande do Norte, o instituto já é referência internacional no tema e atrai jovens das escolas públicas do entorno para trabalhar em iniciação científica. Recentemente, o instituto ganhou uma considerável doação de Lily Safra, viúva do banqueiro Edmond Safra. Tudo indica que, se algum novo Miguel Nicolelis sair dali, no futuro não vai precisar mais emigrar para alavancar a carreira.

A aula pode ser atraente

Apesar dos profundos avanços sociais, científicos e tecnológicos ocorridos nos últimos cem anos, os currículos das disciplinas científicas e a forma como são seguidos pouco mudaram. É um grande desafio para os professores de Física, Química ou Biologia tornar as aulas e o conteúdo mais atraentes para alunos que, muito frequentemente, se perguntam por que precisam aprender tudo aquilo.

A importância da contextualização e interdisciplinaridade para a aprendizagem tem sido enfatizada como uma das formas de promover o envolvimento dos estudantes. Materiais baseados na História e Filosofia da Ciência podem funcionar como elementos de contexto possíveis ao revelar que a ciência está intrinsecamente ligada aos contextos social, filosófico e econômico, entre outros. Por exemplo, ao falar de eletrodinâmica, é possível associar o conteúdo explorando-se a história do desenvolvimento da eletrificação, das suas consequências para a industrialização, mudanças no estilo de vida da sociedade e os problemas contemporâneos derivados da dependência de fontes de energia.

Outro aspecto favorável é também mostrar como o conhecimento científico é construído, validado e aceito, ou seja, ensinar sobre a natureza da ciência. Esta abordagem foi fortemente influenciada pelo movimento Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente a partir da década de 1990, afetando a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e das diretrizes curriculares de vários estados.

A História e a Filosofia da Ciência podem facilitar o aprendizado do conteúdo científico e permite acrescentar os métodos utilizados pelos cientistas para desenvolver novas teorias, e também como novas ideias são aceitas pela comunidade científica. A construção do conhecimento da Ciên-cia é um processo complexo baseado na refutação e transformação de ideias aceitas previamente somadas ao desenvolvimento de novas. Sendo assim, a História da Ciência esclarece que este processo é influenciado por fatores de natureza social, cultural, filosófica, econômica, tecnológica etc., contribuindo para evidenciar seus significados para as futuras gerações e para apresentar o processo científico em toda a sua riqueza, mostrando que a ciência tem uma longa tradição de construção coletiva e que não está isenta de influências externas.

Uma abordagem histórica também favorece a compreensão de conceitos científicos tidos como difíceis ou muito abstratos, já que os estudantes poderão entender suas dificuldades e como elas foram enfrentadas por cientistas do passado. Além disso, uma boa parte do interesse da comunidade de educadores pela história das ciências é resultado das pesquisas sobre as concepções prévias de crianças desenvolvidas por Jean Piaget e outros. Esses trabalhos mostraram que os estudantes possuem concepções a respeito da natureza que, muitas vezes, diferem do conhecimento científico atual. Em alguns casos, as concepções dos estudantes estão muito próximas de explicações que já foram aceitas no passado. Deste ponto de vista, a História da Ciência, aliada às inúmeras pesquisas já realizadas para mapear as concepções alternativas, é um instrumento importante para a promoção da tomada de consciência dessas concepções por parte dos estudantes.

A interação com o conteúdo de outras disciplinas também pode ser desenvolvida através de atividades envolvendo História e filosofia das ciências. Além disso, a História da Ciência introduz um componente emocionante nas aulas, colocando o aluno em contato com os debates envolvidos na construção dos conceitos e com os equívocos e contradições dos cientistas.

A História da Ciência também é importante para promover habilidades investigativas por trazer exemplos de investigação científica. Através de estudos de casos escolhidos e desenvolvidos, professores podem agir como mediadores da aprendizagem por investigação ao buscarem interpretações levando em conta aspectos lógicos, culturais, experimentais etc.

Cuidados com o enfoque
Apesar de seus potenciais benefícios, no Brasil, bem como em outros países do mundo, a aproximação entre História da Ciência e ensino geralmente ocorre de forma superficial e equivocada, enfatizando os aspectos caricaturais dos cientistas, reforçando a ideia da existência de “gênios”, reduzindo a história a nomes e datas e, consequentemente, transmitindo uma visão errada sobre o método científico.

Não existe uma única forma de contar estes feitos. Há quem a narre de forma linear, valorizando os conceitos atualmente aceitos, ou seja, uma história contada do ponto de vista dos “vencedores”. Isso dá a impressão de que o desenvolvimento científico não poderia conduzir a outro lugar que não a nosso conhecimento atual. Toda complexidade da história é ignorada, assim como os inúmeros erros e desvios de percurso que a investigação científica apresenta. Os livros didáticos contam uma história das ciências que privilegia a memorização de nomes, datas de alguns poucos feitos científicos, e os acertos de certos personagens retratados como heróis. Raramente temos oportunidade de aprender sobre os erros cometidos por pessoas como Galileo, Darwin e outros famosos.

Há uma tendência a se concentrar em “histórias anedóticas”, presentes em livros didáticos e no imaginário popular que não encontram o menor embasamento histórico, como por exemplo, Arquimedes e a banheira, Newton e a maça, entre outras. Longe de discutir os aspectos históricos que deveriam ser explorados tais como os relacionados com os conceitos e com o contexto, essas anedotas, em um primeiro momento, podem atrair os alunos, mas que transmitem implicitamente uma visão completamente equivocada sobre como se dá o desenvolvimento da ciência.

Esses são os gêneros mais comuns de história das ciências que têm predominado no ensino de Ciências, seja nos livros didáticos, seja na História das Ciências ensinada nos cursos de formação de professores. Mas, há outras maneiras de fazê-lo ao buscar reconhecer o valor de cada ideia ou conceito produzido, mesmo os que não são atualmente aceitos, considerando o contexto em que esses conceitos (e os cientistas que os produziram) estavam inseridos. Elas valorizam erros e acertos e reconhecem as influências externas sofridas pelos cientistas, tais como de fatores religiosos, políticos, econômicos etc.

É esse tipo de história das ciências que pode ser um instrumento extremamente útil para a compreensão, por parte de alunos e professores, da natureza da ciência. A ciência é produto do contexto histórico e social em que está inserida. Ela é um empreendimento humano, e assim deve ser vista. Ao contrário disso, nossos alunos tendem a percebê-la como um empreendimento exclusivo de mentes geniais e pessoas- muito diferentes e distantes deles.

sábado, 12 de março de 2011

Pessoal ou profissional

Defendo com unha e carne uma boa remuneração para os profissionais da educação, defendo com unha e carne aqueles que são educadores de fato e trabalham pelo futuro de todas as crianças deste país. Não se pode falar em melhoria da qualidade na educação sem considerar que precisamos antes valorizar o educador, e não valorizar com "medalhinhas", com certificados, etc., mas valorizar com uma boa remuneração, digna e que permita que o ser humano professor tenha uma vida tranquila e possa se dedicar exclusivamente ao ato de educar. Hoje temos muitos profissionais que estão fazendo um "bico" na escola, se estão fazendo um bico, então estão fazendo um trabalho "mais ou menos", por isso, talvez, entre outras razões, também temos uma educação mais ou menos. Claro que temos maus profissionais na educação, assim como temos maus profissionais em todas as áreas. Contudo, defendo aqui que devemos profissionalizar a educação, mas digo profissionalizar de fato, de verdade, e não somente nos bla, bla, blás, de gabinetes e de discursos pra lá de furados. Desta forma, vamos atrair os melhores para as salas de aula e impedir que tenhamos fazedores de bicos nas escolas, senão, teremos sempre uma escola mais ou menos.

domingo, 6 de março de 2011

Pouco mais de metade dos brasileiros não reconhece melhorias na educação pública, mostra pesquisa Ipea

A despeito de avanços registrados nos últimos anos, pouco mais de metade da população brasileira não reconhece melhorias na educação pública nacional. Esse é a principal revelação de pesquisa divulgada nesta segunda-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que ouviu 2.773 pessoas em todo o país entre os dias 3 e 19 de novembro de 2010. De acordo com os dados apresentados, 24,2% dos entrevistados acreditam que o sistema público de ensino piorou, enquanto outros 27,2% acham que continua igual – o que equivale dizer que não houve aprimoramentos. Para 48,7%, houve melhorias.

A percepção majoritária de que não houve avanços contrasta com medições apresentada por vários indicadores importantes divulgados recentemente. Em uma escala de 0 a 10, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), do Ministério da Educação (MEC), por exemplo, mostra que, entre 2007 e 2009, o desempenho dos alunos do período inicial do ensino fundamental passou de 4,2 para 4,6; nos anos finais do fundamental, subiu de 3,8 para 4 e, no ensino médio, 3,5 para 3,6. Já no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a avaliação da educação no país entre 2000 e 2009 saltou de 368 para 401 pontos. A ascensão só foi superior no Chile e Luxemburgo. Ainda assim, o país segue mal colocado, na 53ª posição da lista, atrás de nações como Colômbia e Trinidad e Tobago. É importante frisar que o Pisa considera o resultados de escolas públicas e privadas – cujo desempenho, em geral, é superior no Brasil.

Para o especialista em educação e colunista de VEJA Claudio de Moura e Castro, a maior parte da população não reconhece a melhoria do sistema porque ela ainda é insuficiente. "As melhorias ainda são pequenas, apesar de importantes para o país. Leva tempo para que os índices se traduzam em uma melhor avaliação por parte da população. Estamos falando na qualidade da aula, no nível do conhecimento transmitido. Isso está aquém da percepção", diz Moura e Castro. "É como um estado febril, que vai cedendo lentamente. O paciente demora a perceber a melhora", compara.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Infarto por amor

Cientistas avançam em métodos para diagnóstico da síndrome do coração partido, uma disfunção cardíaca provocada pelo estresse posterior ao fim de um romance.

No imaginário popular, o coração sempre foi usado como metáfora para o amor. De modo análogo, separações e perdas do ente querido são representadas pelo coração partido – como se o estímulo emocional fosse capaz de gerar uma alteração física no órgão. A imagem pode parecer exagerada, mas a ciência já comprovou que esse tipo de trauma pode sim interferir no funcionamento cardíaco. Algumas pessoas, quando submetidas a situações de grande estresse emocional, como o fim de um romance, sofrem um estreitamento abrupto da principal via de entrada de sangue para o órgão: a artéria coronária. Quando essa suspensão dura mais de 20 minutos, a irrigação do coração fica comprometida. O músculo não recebe sangue, para de se mover e a pessoa sofre um ataque cardíaco (sem apresentar nenhum dos fatores de risco usuais, como obesidade, fumo e hipertensão arterial).

Esse infarto diferente – não provocado pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias cardíacas, como habitualmente – foi relatado pela primeira vez em 1991. Nessas duas décadas, segue intrigando pesquisadores de todo o mundo. Em especial porque ainda não se tem claro como antever sua ocorrência. Por observação dos pacientes afetados, já se notou a maior prevalência entre as mulheres, após a menopausa e em períodos de intenso estresse emocional.

Porém, uma nova descoberta feita por uma equipe da Clínica Maio, respeitada instituição americana, promete tornar possível o diagnóstico antes que aconteça a falência do coração. No estudo observaram-se 28 mulheres, 12 delas portadoras da disfunção. “Nessas pacientes, em vez de os vasos sanguíneos do coração se dilatarem em resposta ao estresse, eles se estreitavam”, disse à ISTOÉ Amir Lerman, coordenador da pesquisa. “Essa alteração pode ser detectada preventivamente, antes de a pessoa sofrer um ataque cardíaco.” Transformar essa descoberta em um meio de diagnóstico, esclarece o médico, é apenas uma questão de tempo.

Hoje ainda não há maneiras de saber se uma pessoa tem ou não a síndrome – só se fica sabendo disso depois que ela tem o infarto. Mas é possível tomar pelo menos um cuidado: ficar atento aos sintomas. “Se o indivíduo está passando por um período de estresse, tristeza ou depressão e sente dores no peito, que podem se espalhar para outros membros, fraqueza e suores frios, deve ser encaminhado ao hospital”, diz o cardiologista Marcelo Ferraz Sampaio, do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Lição em casa

“Educação não é responsabilidade apenas da escola.” Inquestionável, essa ideia encontra uma boa oportunidade para ser colocada em prática no momento da compra do material escolar. Se a ideia é formar futuros adultos preocupados com a sobrevida do planeta, cada lápis, caderno ou livro pode virar um aliado poderoso para passar aos filhos as primeiras noções sobre sustentabilidade.

Muitos pais acreditam que atingem esse objetivo simplesmente ao recorrer aos cadernos de papel reciclado e às tintas atóxicas. É pouco. De acordo com o diretor-presidente do Instituto Akatu, Hélio Mattar, o que está realmente em jogo é a escolha entre o durável e o descartável. Ou seja, o problema não é apenas se determinado produto é tóxico, reciclado ou feito de plástico. “A grande questão é que estamos com os aterros sanitários lotados. Precisamos parar de jogar tanta coisa fora e investir em produtos que durem mais”, diz.

E se o ambiente não for levado em consideração, crianças e adolescentes em fase escolar geram uma quantidade monumental de lixo. Se a cada nova série todo o material do ano anterior for descartado, os pais terão de comprar nada menos que 160 livros, 80 cadernos, 15 mochilas e oito caixas de lápis de cor durante a passagem de um filho do maternal ao terceiro ano do ensino médio.

Para evitar essa montanha de material descartado, uma tática é fazer um levantamento dos itens que se tem em casa antes de sair às compras, uma vez que muitos materiais podem ser reaproveitados. Essa prática já é comum na casa da vendedora Lilian Strassacappa Rodrigues e dos filhos Rafael e Sabrina, de 2 e 8 anos. “Presto atenção na lista de materiais do começo do ano e reaproveito muitos materiais que quase não foram gastos no ano anterior, como estojo, tintas, pincéis e outros”, conta Lilian.

Concluída a lista do que pode ser reaproveitado, não tem jeito: é preciso comprar material novo. Na hora de adquirir cadernos e maços de papel, a preferência deve ser por produtos com o selo FSC (atestado pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal), uma certificação de que a madeira usada veio de áreas de replantio. Essa opção é melhor que o papel reciclado, que pode conter apenas uma porcentagem de material reaproveitado e, ainda por cima, ser mais caro. “O mercado está mais exigente em relação ao impacto ambiental e muita gente está disposta a pagar mais por isso”, constata André de Marco, gerente de produtos da Suzano Papel e Celulose. Outras dicas de material sustentável vão do apontador de metal à calculadora movida a energia solar (leia quadro nesta página).

Mas há uma situação em que mesmo os pais mais ecologicamente engajados penam. É a hora em que a criança exige a mochila com aquele personagem de desenho animado. Afinal, todo mundo vai estar com uma pendurada nas costas. “Essa é uma das questões mais difíceis de lidar com os filhos, pois o consumo também é usado como forma de se sentir parte de um grupo. Pode-se até comprar, mas os pais devem explicar que é uma exceção e não acontecerá sempre”, afirma Hélio Mattar, do Instituto Akatu.

Na casa da artista plástica Adriana Portella, o diálogo foi a estratégia escolhida para decidir o que será comprado a cada ano para o filho Tiago, de 8 anos. “Desde pequeno, explicamos para ele os problemas do planeta. Agora, aos 8 anos, ele já entende que é melhor usar a mochila do ano passado em vez de comprar uma nova”, conta. Esse é o tipo de lição que se torna muito mais eficiente quando recebida em casa.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Sairemos do atraso?

Como levar a educação a todas as camadas sociais e ao mesmo tempo aumentar a qualidade do ensino? Trocar alguns pneus com o carro em movimento é o desafio do novo Plano Nacional de Educação (PNE) para o perío­do 2011-2020, enviado ao Congresso, em dezembro de 2010, e cujos principais focos são a evolução da educação infantil, o aumento gradual do investimento no setor e a qualificação e valorização da carreira de professor.
Criado nos anos 90, o Plano Nacional de Educação é um conjunto de metas para o sistema educacional que define prioridades e estratégias no período de dez anos. O primeiro PNE foi elaborado para o decênio 2001-2010, mas veio a público natimorto: o calhamaço de metas só seria minimamente executável se o governo seguisse a determinação de destinar 7% do Produto Interno Bruto (PIB) à educação. O então presidente Fernando Henrique Cardoso, por causa das dificuldades econômicas vividas em seu segundo mandato, vetou-o.

O PNE 2011-2020 representa uma evolução perante o anterior. Primeiro, tem apenas 20 metas, contra as 295 que tornaram o antecessor confuso. “Isso facilita o entendimento e as responsabilidades de cada um dentro do processo”, avalia Mozart Neves Ramos, integrante da Conae e presidente da organização civil Todos Pela Educação. “Fica mais fácil a mobilização da sociedade e do governo quanto à fiscalização.”

Até 2020, indica o documento, o País­ compromete-se a manter 50% das crianças de 0 a 3 anos de idade em creches. Outras metas relevantes: melhorar a média do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), termômetro criado para avaliar os primeiros anos educacionais no Brasil, de 4.6, de 2009, para 6, em um total de 10. Aumentar os investimentos na área até 7% do PIB. “A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tinha esta meta fixada em 5% do PIB, o que foi alcançado nos últimos anos”, diz o ministro Fernando Haddad.

Ao menos seis metas do atual PNE são voltadas para a melhoria na carreira e no salário do profissional da educação, entre as quais se destacam: elevar o número de mestres e doutores nas instituições de ensino superior para um mínimo de 75%, formar 50% de professores da educação básica com pós-graduação e assegurar planos de carreira para profissionais de magistério. Quando estiver validado pelo Congresso, o plano exigirá que todos os sistemas tenham dois anos para organizar planos de carreira com salários compatíveis com o nível de escolaridade correspondente.
O PNE 2011-2020 é, no geral, bem avaliado pelos críticos. Vladimir Safatle, filósofo e professor da Faculdade­ de Educação da USP, entende que o ponto principal está no foco da melhora da carreira de docente. “Baixo salário e condições ruins tornaram a profissão no ensino público pouco atraente. É associada ao fracasso. Se a carreira não for estruturada e atraente, você nunca terá bons profissionais.”
“O plano é um avanço em relação ao que tivemos até agora, mas há alguns pontos que poderiam ser melhorados”, diz Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional Todos Pela Educação, organização que teve participação na criação do Fundeb. Ainda acredita ser necessária uma avaliação de meio-termo no decênio. “O plano anterior contemplava metas para cinco ou seis anos, o que seria uma resposta preventiva à sociedade sobre as metas definitivas para 2020.” Também acredita que a gestão da verba nas escolas precise ficar mais próxima da mesma. “O gestor da educação deve ser gestor também do recurso da educação. Normalmente é sempre um indicado político de uma instância superior que muitas vezes não tem noção de como usá-lo.”

Ramos aponta uma falha do PNE 2001-2010 que inspira cuidados para o próximo. “A primeira etapa do ensino fundamental melhorou bastante nos últimos anos, mas o mesmo não pode ser dito nas etapas seguintes e também no ensino médio. Had­dad concorda. “A presidenta Dilma pediu atenção ao ensino médio. A evolução não foi boa nos índices de avaliação.”
“Senti falta de uma política mais ousada na questão das escolas integrais”, diz Safatle. “Não há muita saída sem elas. Até hoje, a experiência educacional mais bem-sucedida no Brasil foi nos anos 80, com os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), criados pelo sociólogo Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro.” Had­dad concorda com a necessidade e cita outro programa do MEC. “Temos o Mais Educação, justamente focado nisso. Em 2010, completamos 10 mil escolas incluídas, que foram selecionadas para­ ter ­período integral, por causa das baixas notas no Ideb”, diz o ministro.

O ponto fundamental para o sucesso do novo PNE é fazer com que União, estados e municípios atuem em conjunto e sem falhas na gestão das metas, problema tão crônico quanto antigo no Brasil – é comum diretrizes do MEC serem ignoradas. Para evitar a situação, Had­dad e Lula enviaram, também em dezembro e paralelamente ao PNE, o Projeto de Lei de Responsabilidade Educacional, que deve tramitar em plenário. Ele é feito sob o mesmo molde da Lei de Responsabilidade Fiscal: pune o governante que não o cumprir.

Para o sociólogo Cesar Callegari, da Câmara de Educação Básica do Conae, a amarração feita por esse plano é fundamental para que o PNE vingue. “Sem a atribuição clara do papel de cada um, é comum uma instância deixar para a outra, e assim ninguém resolve os problemas. O governador ou prefeito que não cumprir deve ficar à mercê do Tribunal de Contas e do Ministério Público. É a única maneira de se evitar furos no plano.”
Caso o Congresso Nacional vete a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Plano Nacional de Educação sofrerá danos consideráveis. Haddad acha improvável, porém, a lei não passar. “Havia projetos de lei na casa sobre isso. Estamos dando um impulso a um debate que não prosperou”, diz.

As expectativas mais otimistas de prazo para a aprovação do PNE em plenário sugerem que as metas possam ser validadas somente no início do segundo semestre. A troca de governo e a reformulação na Câmara e Senado devem atrasar a discussão. “Os deputados voltam a trabalhar em fevereiro, quando os líderes partidários começam a compor as comissões, entre as quais, a de Educação e Cultura (CEC), que vai discutir o PNE, que é prioridade. A votação pode ocorrer no segundo semestre”, avalia o deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), ex-presidente da CEC. Vanhoni também minimiza o fato de o projeto valer já para este ano, embora não esteja aprovado. “As metas são todas a longo prazo e foram criadas pelo governo Lula, em perfeita sintonia com o governo Dilma. Não vejo como essa demora possa impactar no alcance das metas.”

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Frases

A situação fará o homem, assim como o sujeito fará a circunstância. Ninguém é definido em absoluto.


Dos escombros de nosso desespero construímos nosso caráter


O caráter pode se manifestar nos grandes momentos, mas ele é formado nos pequenos


Sem o caráter, nada vale o espírito


Caráter é a virtude que você adquire ao deixar de se preocupar com o que pensam de ti, o resto, será por ti entendido, apenas como conjecturas a teu respeito


Você quer conhecer o caráter de alguém veja seus atos e seu coração!


A principal função do homem é lapidar o próprio caráter, o resto seria….resto


Aquele que conhece verdadeiramente os animais é por isso mesmo capaz de compreender plenamente o caráter único do homem.


Os verdadeiros caráteres da ignorância são a vaidade, o orgulho e a arrogância


No caráter, na conduta, no estilo, em todas as coisas, a simplicidade é a suprema virtude.


O caráter de um homem é formado pelas pessoas que escolheu para conviver.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A voz do Natal!! Perguntas para você...

OI!
Gostaria de falar com você...
Será que você realmente merece ter um bom Natal...?
O que você fez do seu ano?
Será que o seu Natal mais uma vez vai se resumir a beber e comer muito?
Reunião em família e o Espírito do Natal se resumem a baladas com amigos?
Faça uma verdadeira reflexão sobre o Natal:

Estamos a poucos dias de comemorarmos
a data que deveria ser o maior acontecimento dos tempos:
o nascimento de Jesus.
Há, porém, uma tristeza indelével pairando no ar.
Pessoas que vão e vêm pelas ruas,
preocupadas apenas com os presentes que irão oferecer
aos filhos, pais, parentes ou amigos.
Outros, porém existem,
que sofrem nesse dia a perda irreparável de entes queridos
que não irão estar presentes às comemorações,
esquecendo-se de que a vida é eterna
e que só morremos realmente,
quando deixamos de acreditar em nossos sonhos.
Alguns sofrem por estarem longe
de seus filhos, pais ou irmãos que estão distantes.
Há aqueles que sofrem por não terem condições financeiras
de oferecer aos filhos o tão esperado
presente de “Papai Noel”
e talvez nem mesmo dinheiro possuam
para comprar um alimento
para ser servido à mesa no dia de Natal.
E o verdadeiro sentido desta data, onde entra?
Jesus não veio ao mundo para que
seu nascimento fosse comemorado
com bens materiais.
Jesus veio ao mundo para que nossa visão de vida
ganhasse um novo sentido de esperança.
Veio nos ensinar a deixar de lado nosso egoísmo;
veio nos ensinar o amor ao próximo,
mas não aquele amor que só ama
aos que realmente estão próximos a nós;
isso é fácil!
Jesus veio nos ensinar que devemos
estender nossa visão para além daquilo
que conseguimos enxergar.
E existe muito, muito mesmo o que se ver.
Pessoas se preocupam demais
com coisas que vistas pelo lado espiritual,
perdem sua importância.
Jesus veio pregar o amor, a compreensão,
o desapego, a caridade e a solidariedade.
Amor que deve se estender a todos os seres vivos.
Desapego aos bens materiais,
porque ao nascer não trazemos nada nas mãos,
a não ser o desejo de aprender e crescer espiritualmente
e ao partir levamos apenas as nossas experiências de vida.
Solidariedade e caridade para com o irmão
necessitado do pão para seu corpo sim,
mas muito mais do pão para sua alma.
E essa solidariedade e caridade,
não devem ser praticadas apenas no decorrer
das festividades de Natal e Ano Novo.
Devem ser postas em prática a vida inteira,
assim como Jesus nos ensinou.
Pessoas existem
que se confraternizam nesta época do ano,
se perdoam mutuamente as ofensas trocadas,
apertam as mãos, se abraçam, cantam,
bebem e riem juntos,
mas no dia seguinte, quando a vida volta ao normal,
todas as promessas são esquecidas
e cada qual retoma sua vida
e seus propósitos se dissolvem no ar feito fumaça.
O mesmo egoísmo volta a dominar suas vidas.
O Natal é uma data bonita que deve ser comemorada
com a alma, com alegria, com amor.
Jesus nasceu com o objetivo claro e único
de dar a vida por nós, para nos salvar.
Vamos procurar mostrar a Ele
que seu sacrifício não foi em vão.
Pense nisto:
vamos procurar fazer deste Natal
não apenas mais uma data em que trocaremos presentes,
abriremos champanhe e brindaremos
junto aos nossos mas, sim,
uma data de renovação de nossos propósitos de vida
e de renascimento interior.
FELIZ NATAL!