quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Discussão de amor e ódio com a urna

Prezada urna eletrônica, saudações, bom dia, sei que não és culpada, mas te reencontro neste domingo ainda ressabiado, com uma ressaca nada democrática, espero que compreendas o meu esperneio, sabes bem do que estou falando. Poxa, foi chato ver o meu voto virar pó naquela fatídica emboscada parlamentar iniciada pelo Eduardo Cunha e seus renegados bandoleiros, os mais rápidos do velho centro-oeste.
Sei, isso passa, é tanto que estou aqui de volta na cabine de papelão, boto fé na reconquista do nosso relacionamento, espero que o apitinho do “confirma” não fique na minha cabeça como a marcação sonora de um filme de terror. Óbvio que ainda não engoli as manobras do impeachment mandrake — golpe em qualquer dicionário de republiqueta —, mas, juro, vou relaxar um pouco, farei tudo para reatar o nosso namoro. Só precisamos de uma longa D.R., daquelas discussões lentas e arrastadas como um filme iraniano. Amor e democracia dão trabalho — quer moleza, vai para oTinder, malandragem.Sei que não tens culpa no cartório das conspirações e tampouco és calmante para os meus ressentimentos morais e cívicos. Ao te rever, porém, inevitável lembrar que a confiança em ti anda meio suspeitosa.
E olhe que não estou tratando, estimada urna, do simples desgosto de ver a minha vontade eleitoral frustrada contigo. É do jogo. Gozo para todos. Foi exatamente a não aceitação democrática da derrota que levou o Aécio Neves a desmerecer 54 milhões de votos e tocar fogo no circo. O resto da história a gente viu como foi, não gastarei tua santa paciência na véspera atarefada de mais um pleito.
Que seja feita a tua vontade. Te mando este recado porque não posso mais escrever umas malcriações nas velhas cédulas. Lembras? Os eleitores revoltados elegiam até os bichos em vez dos homens. Neste zoo anarquista, destacamos o Bode Cheiroso de Jaboatão dos Guararapes (PE), o rinoceronte Cacareco em São Paulo e o Macaco Tião no Rio de Janeiro.
Prezada e moderna urna, nos vemos neste domingo em Santa Cecília, na Pauliceia que um dia já foi desvairada. Vai ser lindo, apesar do meu ressentimento democrático. Depois de te tocar, com o carinho da primeira vez, continuarei essa D.R. imaginária no boteco do Fuad, ali na esquina da nossa zona eleitoral preferida. Quantas vezes cantei vitórias ou chorei derrotas de véspera desobedecendo a lei seca. Quantas vezes roguei praga em quem votava diferente.
Agora lamento apenas pelo desrespeito com o meu voto do ano 2014. Um voto aberto e declarado que me custou caro, eu diria um voto mais explícito do que o Marlon Brando e a Maria Schneider em “O último tango em Paris” (1972). Deixa quieto, passa a manteiga da legalidade e confirma. O bom é que vamos nos ver de novo neste domingo. Chega de ressentimento patriótico, sei que nada poderias fazer para manter aqueles milhões de votos válidos. A tramoia parlamentar era inegociável, uma pena.
Juro, urninha modernete, encerrarei por aqui a ladainha, que seja feita a tua vontade, embora no Pastoril do Velho Faceta eu sempre brinque com a turma do Cordão Encarnado.
Vai ser lindo te rever, apertarei com gosto, sem perder a delicadeza jamais. Como aquele sexo caliente depois da briga no relacionamento.
Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Big Jato (editora Companhia das Letras), entre outros livros. Comentarista do programa “Papo de Segunda” (GNT).

sábado, 24 de setembro de 2016

Os diferentes caminhos para uma educação de qualidade

(...) Se de um lado os resultados do Ensino Médio no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) são preocupantes, de outro a existência de políticas consistentes e com continuidade aponta para avanços importantes em alguns estados e municípios. Em comum, estas políticas têm dois fatores essenciais: elas são embasadas por evidências e adaptadas para contextos locais. 
Fatores como currículo, formação de professores (inicial e contínua) e gestão escolar com foco no aluno e na aprendizagem têm sido apontados como pontos fundamentais para o sucesso escolar. No entanto, é na combinação desses fatores e na forma de implementação das políticas ligadas a eles que reside a chave para o sucesso.
Países com alto desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) apresentam diferenças na combinação destes fatores e, especialmente, na concepção e visão ligadas às suas políticas. Para alguns países, a equidade, a confiança e a cooperação são bases para as múltiplas dimensões da educação pública. Já para outros países, a competição e a responsabilização de educadores e gestores escolares constituem os eixos dos desenhos das políticas.
Na semana passada, o Instituto Unibanco e a Folha de S. Paulo organizaram um seminário sobre o Ensino Médio, chamado Caminhos para a qualidade da educação pública: Impactos e evidências. Nele, foram debatidas diferentes experiências nacionais e internacionais. Todas elas apontam para essas diferenças na implementação e para a priorização dos componentes das políticas públicas. É importante destacar ainda que, para além dessas diferenças, é preciso levar em conta também a forma como cada escola se apropria e desenvolve essas políticas, como vimos nos resultados de uma pesquisa realizada pelo Cenpec em 4 estados brasileiros (leia mais sobre ela aqui).
Mais importante do que as próprias experiências apresentadas no evento é a mensagem de que políticas públicas precisam ser embasadas por estudos e pesquisas. Além de ter como base dados sobre a situação da educação (como o número de matrículas, evasão escolar, desempenho dos alunos, desigualdades, etc) e suas possíveis implicações, o sucesso de um programa também depende da sua adaptação para o contexto local. É consenso na gestão pública que uma política que obtém êxito em determinada localidade não necessariamente terá os mesmos resultados em outro contexto. Nesse sentido, o seminário também chamou atenção sobre a importância de medir o peso de cada componente de uma política pública específica para um determinado território, e considerar suas condições de desenvolvimento.
Tais questões são fundamentais no momento atual do debate brasileiro, em que temos propostas para a Desvinculação dos Recursos da Educação (DRU) e uma medida provisória anunciada para enfrentar os baixos resultados do Ideb no Ensino Médio. É prioritário que se leve em conta tanto evidências de políticas que deram certo como os diferentes contextos do país ao se pensar em decisões políticas com impacto na educação. Isso é especialmente importante no Brasil, onde a diversidade cultural é muito grande e as desigualdades regionais, raciais e educacionais ainda formam um abismo que impede o avanço da qualidade da educação.

MARIA ALICE SETUBAL

Maria Alice Setubal, a Neca Setubal, é socióloga e educadora. Doutora em psicologia da educação, preside os conselhos do Cenpec e da Fundação Tide Setubal e pesquisa educação, desigualdades e territórios vulneráveis.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Os reais motivos pelos quais fazemos sexo

Pássaros, abelhas, chimpanzés, humanos - todos nós fazemos, mas poucos percebem que a reprodução sexual no começo evoluiu em criaturas bem diferentes de nós.
Então quais eram essas criaturas e como tudo começou?
A alvorada da reprodução sexual sempre foi um quebra-cabeça para cientistas. Hoje, 99% das criaturas multicelulares - os grandes organismos que conseguimos ver - se reproduzem sexualmente. Todos possuem seus mecanismos específicos, mas por que esse processo evoluiu é um tema cheio de mistério.
Até para Charles Darwin, o pai da evolução, o sexo era algo confuso. Ele escreveu em 1862: "Não sabemos nem de longe a causa final da sexualidade; por que novos seres devem ser produzidos pela união de dois elementos sexuais. Todo o assunto está cercado de escuridão."
Muitas espécies são totalmente envolvidas no sexo e fazem de tudo para conseguir um parceiro. O bowerbird macho, ou pássaro-pavilhão, constroi ninhos incríveis para impressionar as fêmeas.
A fêmea de um verme ilumina a cauda para impressionar o macho. Até o perfume produzido por uma flor é simplesmente um truque para atrair insetos que irão coletar pólen e fertilizar plantas vizinhas.
Mesmo com toda essa diversidade, todos os organismos que se reproduzem sexualmente seguem a mesma rotina - dois membros da mesma espécie combinam seu DNA para produzir um novo genoma.
É um mecanismo simples de corta-e-divide, algo que todas as bactérias, a maioria das plantas e até alguns animais fazem.Antes de o sexo evoluir ao que é hoje, a reprodução era feita de forma assexuada, o que, basicamente, é a divisão celular - um organismo se parte no meio e forma dois.
O mecanismo de reprodução assexuada é muito mais eficiente e menos bagunçado do que a reprodução sexual. Uma espécie assexuada não precisa perder tempo e energia procurando e impressionando um parceiro: seus indivíduos apenas crescem e se dividem em dois. Compare com o complicado e às vezes perigoso processo de atrair um parceiro para reprodução sexual.
pássaro-pavilhãoImage copyrightALAMY STOCK PHOTO
Image captionO pássaro-pavilhão constroi ninhos incríveis para impressionar as fêmeas
E há outros custos óbvios do sexo. Juntar pedaços de genomas separados requer um processo diferente - um ovo precisa ser fertilizado. Significa que cada genitor transmite apenas metade de seus genes à cria.
Pais assexuados, em contraste, produzem crias que basicamente são suas cópias - o que parece uma abordagem boa para um mundo em que nos dizem que nossos genes egoístas querem garantir sua sobrevivência.
Considerando isso tudo, por que tantas espécies encaram esse longo e tortuoso caminho da reprodução sexual, quando há uma rota mais simples? O sexo precisa oferecer alguma vantagem evolutiva que supere as desvantagens.

Compartilhar recursos

Em 1886, o biólogo evolucionista August Weismann sugeriu a existência de uma vantagem. Argumentou que a reprodução sexual reembaralha os genes para criar "diferenças individuais" sobre as quais a seleção natural atua.
Em linhas gerais, o sexo seria uma oportunidade para dois organismos da mesma espécie compartilharem recursos.
Algumas de suas crias carregarão uma mistura benéfica de genes dos dois pais, o que significa que irão responder melhor a perturbações ambientais que deixariam espécies assexuadas em apuros.
organismosImage copyrightALAMY STOCK PHOTO
Image captionAlguns organismos se dividem ao meio para formar outros dois
O sexo pode até acelerar o ritmo da evolução - uma vantagem óbvia quando as condições ambientais também mudam rapidamente.
Prova definitiva desses benefícios veio de estudos que modificam espécies de reprodução assexuada para se reproduzir sexualmente. Organismos unicelulares primitivos passam bem apenas com reprodução assexuada, mas se o estresse das condições ambientais for alto, podem se tornar espécies sexuais.
Perturbações ambientais podem ser qualquer coisa, de uma pequena mudança no clima a um impacto de meteoro.

Procurando o começo

A origem da reprodução sexual é um mistério há muito tempo porque observamos o mundo como é agora, onde muitos organismos assexuados se desenvolvem bem, e alguns organismos que podem se reproduzir das duas maneiras ainda parecem se inclinar pela reprodução sem sexo.
Alguns destes organismos incluem levedura, caramujo, estrela-do-mar e pulgão.
Mas o método de reprodução que as espécies escolhem depende das circunstâncias do ambiente que as cerca - a maioria se reproduz sexualmente apenas em tempos de estresse e seguem assexuadamente no restante do tempo.
O mundo primitivo, no entanto, era um lugar mais inóspito, com mudanças ambientais muito rápidas. Sob essas circunstâncias, altas taxas de mutação poderiam ter, sob condições determinadas, forçado um organismo assexuado a se tornar sexuado.
Fósseis podem nos dizer mais sobre a origem da reprodução sexual, mas são escassos e difíceis de achar, então é complicado afirmar exatamente o que ocorreu. Chris Adami, da Universidade de Michigan (EUA) olha para esse processo teoricamente.
Adami explica que pode analisar a evolução em termos de informação - as coisas que você precisa saber para sobreviver. Evolução é sobre "preservação e aquisição de informação - quanto mais sabe melhor você é", afirma.
zebrasImage copyrightVIVIEN MARY CUMMING
Image captionZebras dando tempo necessário à reprodução

Aprendizado genético

Ou seja, é um processo de "aprendizado": um organismo "aprende" nova informação e transmite essas lições (pelo DNA) para a nova geração para ajudá-la a sobreviver.
O sexo permite que isso ocorra de modo mais eficiente, oferecendo um jeito mais fácil para espécies "lembrarem" de informações úteis - está codificado em seus genes.
Isso ocorre porque o processo envolve a escolha de um parceiro sexual que já atingiu a maturidade sexual fazendo boas escolhas. Sexo significa escolher um bom parceiro e um bom futuro para suas crias.
"Aquisição e manutenção de informação são necessárias para a evolução funcionar - lembrando o velho e imaginando o futuro."
Esse elemento de escolha ajuda a explicar outro quebra-cabeça: por que precisamos de machos? Se apenas metade de suas crias - as filhas - vão de fato procriar, porque a evolução se preocupou com filhos?
A solução de Darwin para o "mistério do macho" foi sugerir que a seleção natural não seja a única pressão evolutiva em ação no sexo. Haveria algo que Darwin chamou de seleção sexual: a preferência de um sexo por certas características em indivíduos do outro sexo.
Estudo publicado em 2015 descobriu que competir para reproduzir é vital para machos, e escolher entre esses machos em competição é vital para fêmeas. Seleção sexual pela existência de dois sexos mantém a população saudável e a protege contra extinção.
céuImage copyrightVIVIEN MARY CUMMING
Image captionMudanças nos padrões climáticos afetam a evolução das espécies
Também ajuda a manter variação genética positiva numa população. Quando compete com rivais e atrai parceiros na luta pela reprodução, um indivíduo precisa ser bom na maioria das coisas, então a seleção sexual fornece um filtro importante e efetivo para manter e aprimorar a saúde genética da população.
Os achados contribuem para explicar o motivo pelo qual o sexo continua a ser um mecanismo dominante para procriação e dita quem consegue reproduzir seus genes nas gerações seguintes.

Pioneiros no sexo

O sexo é uma força evolutiva poderosa e disseminada, mas quando essa prática evoluiu e quais criaturas foram as primeiras a adotá-la?
A maioria das pessoas racionais aceita a teoria da evolução, segundo a qual humanos se desenvolveram de um ancestral comum que dividimos com macacos, que evoluíram de organismos ainda mais primitivos. Esses pensamentos remontam a 1871, quando Darwin publicou A Origem do Homem e a Seleção Sexual.
solImage copyrightVIVIEN MARY CUMMING
Image captionA Terra pimitiva era um ambiente muito mais hostil do que hoje
A evolução do sexo como o conhecemos pode remeter a um passado mais distante do que nossos ancestrais primatas. Vai até um peixe primitivo denominado Microbrachius dicki.
"Microbrachius" significa "pequenos braços", mas cientistas descobriram a utilidade dessas estruturas apenas recentemente. Eles possuem pequenas ventosas, e análises dos fosseis mostraram que as fêmeas tinham pequenas estruturas que se associavam a esses braços, como velcro. Os braços, portanto, estavam envolvidos em alguma forma de reprodução sexual.
Não qualquer forma. Esses peixes foram os vertebrados mais antigos que se reproduziam por fertilização interna, como os humanos. Também foram as primeiras espécies a mostrar o que biólogos chamam de dimorfismo sexual: machos e fêmeas são diferentes nesse sentido.
A maioria dos peixes hoje se reproduz lançando ovos e esperma fora do corpo. Pesquisadores não sabem ao certo por que o M. dicki desenvolveu um sistema interno de fertilização, mas o fato é que isso pavimentou o caminho para a forma mais comum de reprodução sexual.
Para entender a origem real da reprodução sexual, no entanto, é preciso voltar ainda mais no tempo.
Sabemos que todos os organismos que se reproduzem sexualmente derivaram de um ancestral comum, então é uma questão de analisar as pistas reunidas em um fóssil para saber quando e onde esse ancestral viveu.
abelhasImage copyrightVIVIEN CUMMING
Image captionQual é a história real de pássaros e abelhas?
Em rochas na região ártica do Canadá estão as pistas que cientistas buscam. Essas rochas foram depositadas há 1,2 bilhão de anos e contêm fósseis que nos contam da primeira reprodução sexual.
Um fóssil chamado Bangiomorpha pubescens é um organismo multicelular que se reproduzia sexualmente, a ocorrência mais antiga encontrada em um fóssil. B. pubescens não era um peixe nem um animal. Era um tipo de alga vermelha, marinha - uma alga marinha foi, portanto, o primeiro organismo a fazer sexo.
Evidências de que esses fósseis se reproduziam sexualmente estão na descoberta de que os esporos ou células reprodutivas que os geraram vinham em duas formas - macho e fêmea. Hoje sabemos que algas vermelhas não possuem esperma que nadam. Apostam em correntes para transportar suas células reprodutivas, e vêm fazendo isso nos últimos milhões de anos.
Algas vermelhas são um dos maiores e mais antigos grupos de algas, com cerca de 5 mil a 6 mil espécies de algas marinhas multicelulares, entre elas algumas conhecidas.
São um grupo muito diverso, que permaneceu parecido durante 1,2 bilhão de anos. Essa longevidade significa que podem ser descritos como "fósseis vivos" - são uma lembrança do passado e de nossas origens.
O ambiente hostil e em constante mudança em que o B. pubescens viveu pode ter motivado o sexo a evoluir.
Galen Halverson, da Universidade McGill, no Canadá, explica: "Em relação ao clima, parece que fósseis de Bangiomorpha pubescens apareceram na mesma época em que um equilíbrio de milhões de anos no ambiente chegava ao fim. Houve grandes perturbações nos ciclos de carbono e oxigênio naquele momento, sugerindo mudanças ambientais significativas."
Naquele momento, o sexo foi fundamental para o sucesso e a evolução subsequente de organismos multicelulares.
Esses fósseis, portanto, marcam avanços significativos na evolução da vida.
"As conexões entre reprodução sexual, multicelularidade, oxigenação e o ciclo global do carbono permanecem nebulosas, mas é difícil não supor que esses eventos estejam intimamente ligados", afirma Halverson.
Estudar essas rochas para entender o tipo de ambiente que permitiu a evolução do sexo e, por consequência, a origem da multicelularidade em nosso planeta ajuda a entender nosso passado e de onde viemos, mas também o potencial de evolução da vida em outros planetas.
É estranho imaginar que algas tenham sido o "motor" dessa "revolução" sexual, mas tais desenvolvimentos evolutivos, há 1,2 bilhão de anos, pavimentaram de fato o caminho para a vida na Terra como a conhecemos.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/vert-earth-37173711?ocid=socialflow_twitter

domingo, 14 de agosto de 2016

A era de ouro da liberdade está em risco

Nunca como atualmente, foi tão fácil e tão barato para tantas pessoas manifestar suas opiniões a grandes comunidades; mas, ao mesmo tempo, em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, por métodos antigos e modernos, contrariar o gosto ou o interesse de poderosos talvez nunca tenha sido tão perigoso
o século 21 tem sido um período de grandes ameaças à liberdade de expressão e de imprensa, embora ele também seja a época em que mais oportunidades foram abertas para que qualquer indivíduo, mesmo sem recursos materiais, possa manifestar suas opiniões publicamente.
Até 25 anos atrás, quem quisesse transmitir seus pontos de vista para grandes grupos de pessoas precisava de capital, ou político ou econômico, para ter acesso à imprensa, ao radio e à TV.
Com a internet, multiplicaram-se sites, blogs e mídias sociais em que não é necessário dinheiro nem prestígio para disseminar, às vezes para multidões, os pensamentos que se deseje.
Mas também aumentam as formas de censurar, reprimir, intimidar os que transmitem conteúdo que desagrade a poderosos.
As fórmulas vão desde as mais antigas, como o exercício do poder do Estado contra os que se opõem aos seus detentores, como se tem observado na Rússia, China, Turquia ou, perto de nós, na Venezuela e em Cuba.
Nada de novo nesses casos, exceto a maior sofisticação tecnológica para o exercício da censura, como se nota, por exemplo, na China, onde o governo consegue impedir o uso até mesmo de corriqueiros instrumentos de busca na internet.
Uma variante do poder do Estado contra a imprensa aparece quando o chefe de um deles aciona outro para castigar alguém que o aborreça, como fez o turco Recep Tayyip Ordegan, que obteve da democrática Alemanha sanções contra um humorista que o irritou com suas críticas em palcos alemães.
O extremismo religioso tem exercido sua intolerância da maneira mais radical e covarde contra aqueles de quem seus praticantes divergem ou consideram blasfemos, como no atentado contra oCharlie Hebdo na França, na execução de correspondentes pelo ISIS (ou Estado Islâmico) no Iraque e nos assassinatos de jornalistas por grupos terroristas islâmicos na Síria e na Líbia.
O narcotráfico e o crime organizado continuam a ameaçar, ferir e matar jornalistas em vários países, como o México, frequentemente com a conivência da omissão ou dos aparatos de segurança do Estado.
Nos Estados Unidos avolumam-se episódios preocupantes. O blog Gawker foi à falência depois de perder ação judicial movida por uma celebridade da TV que alegou ter tido sua privacidade violada e que foi financiada com milhões por um empresário do Vale do Silício interessado em vingar-se do veículo, que anos antes revelara sua homossexualidade.
O Facebook está tendo de se defender de políticos conservadores que o acusam de ser tendencioso na seleção de suas “principais histórias”, embora elas sejam escolhidas por ferramentas estatísticas.
E o pior ainda pode estar por vir nos Estados Unidos se Donald Trump se eleger presidente: como candidato, ele já vem restringindo o acesso de veículos de que não gosta a seus eventos e constrangendo sistematicamente com ofensas jornalistas de quem discorda.
No Brasil, más notícias também proliferam. Delegados da Polícia Federal que participam da Operação Lava Jato processam o jornalista Marcelo Auler porque não gostaram do teor de alguns comentários em seu blog, os quais querem retirar do ar, e mais: tentam proibi-lo de veicular textos “com conteúdo capaz de ser interpretado como ofensivo”.
Juízes e promotores do Paraná movem ações em diversas cidades contra repórteres do jornalGazeta do Povo que revelaram fatos verdadeiros sobre seus salários. Os processos simultâneos obrigam os jornalistas e a empresa que edita o diário a deslocamentos custosos e desgastantes, em claro ato intimidatório.
Esses fatos demonstram como é frágil o atual estado da liberdade de expressão e de imprensa no mundo, o que traz preocupações graves sobre o futuro da democracia.

Texto reproduzido da edição abril/maio/junho da Revista de Jornalismo ESPM

domingo, 24 de julho de 2016

O FUTURO NO PASSADO

Poucas previsões para o futuro feitas no passado se realizaram. O mundo se mudava do campo para as cidades, e era natural que o futuro idealizado então fosse o da cidade perfeita. Mas o helicóptero não substituiu o automóvel particular e só recentemente começou-se a experimentar carros que andam sobre faixas magnéticas nas ruas, liberando seus ocupantes para a leitura, o sono ou o amor no banco de trás.
As cidades não se transformaram em laboratórios de convívio civilizado, como previam, e sim na maior prova da impossibilidade da coexistência de desiguais.
A ciência trouxe avanços espetaculares nas lides de guerra, como os bombardeios com precisão cirúrgica que não poupam civis, mas não trouxe a democratização da prosperidade antevista.
Mágicas novas como o cinema prometiam ultrapassar os limites da imaginação. Ultrapassaram, mas para o território da banalidade espetaculosa.
A TV foi prevista, e a energia nuclear intuída, mas a revolução da informática não foi nem sonhada.
As revoluções na medicina foram notáveis, certo, mas a prevenção do câncer ainda não foi descoberta. Pensando bem, nem a do resfriado.
A comida em pílulas não veio — se bem que a nouvelle cuisine chegou perto.
Até a colonização do espaço, como previam os roteiristas do “Flash Gordon”, está atrasada. Mal chegamos a Marte, só para descobrir que é um imenso terreno baldio.
E os profetas da felicidade universal não contavam com uma coisa: o lixo produzido pela sua visão. Nenhuma previsão incluía a poluição e o aquecimento global.
Mas assim como os videntes otimistas falharam, talvez o pessimismo de hoje divirta nossos bisnetos. Eles certamente falarão da Aids, por exemplo, como nós hoje falamos da gripe espanhola. A ciência e a técnica ainda nos surpreenderão. Estamos na pré-história da energia magnética e por fusão nuclear fria.
É verdade que cada salto da ciência corresponderá a um passo atrás, rumo ao irracional. Quanto mais perto a ciência chegar das últimas revelações do Universo, mais as pessoas procurarão respostas no misticismo e refúgio no tribal. E quanto mais a ciência avança por caminhos nunca antes sonhados, mais leigo fica o leigo. A volta ao irracional é a birra do leigo.


Por Luis Fernando Veríssimo

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Em nome da economia brasileira, proponho revogar a Lei Áurea

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson de Andrade, disse que o governo federal deve promover “medidas muito duras'' na Previdência Social e na legislação trabalhista para equilibrar as contas públicas. E citou como exemplo as reformas ocorridas na França, afirmando que, por lá, é permitido trabalhar até 80 horas por semana (na verdade, 60 horas). A declaração foi dada após um encontro com Michel Temer e cerca de 100 empresários do Comitê de Líderes da Mobilização Empresarial pela Inovação. Em nota, a CNI afirmou que seu presidente não defendeu o aumento da jornada. Fico pensando o que deve passar pela cabeça de uma pessoa que mora no interior do país, trabalha até não aguentar mais, recebendo um salário de fome, tendo que depender de programas de renda mínima para comprar o frango do aniversário do filho, quando vê na sua TV empresários culpando a jornada de trabalho, as leis trabalhistas e a Previdência Social pelas desgraças planetárias. E, na sequência, vê notícias de bilhões desviados em escândalos de corrupção envolvendo políticos e empresas, como nas operações Lava Jato e a Zelotes. Ou quando descobre que será ele, a xepa, que vai ter que ralar duro para tirar o Brasil da crise econômica porque os mais ricos não terão que pagar mais impostos por isso. Taxação de dividendos recebidos de empresas? Alteração decente na tabela do Imposto de Renda – criando alíquotas de 35% a 40% para cobrar mais de quem ganha muito e isentando a maior parte da classe média? Regulamentação de um imposto sobre grandes fortunas? Aumento na taxação de grandes heranças? Auditoria da dívida pública? Não, nunca! O que vocês pensam que isto aqui é? Uma democracia? A CNI pede que o presidente interino estale o chicote – mas apenas nas costas dos trabalhadores. Michel responde com uma proposta de limita de gastos com educação e saúde públicas. Mas também com o apoio a um projeto que autoriza a terceirização de todas atividades de uma empresa e a outro que afirma que o que é negociado entre patrões e trabalhadores está acima do que está previsto na legislação, mesmo em prejuízo aos trabalhadores. E, como esquecer, com propostas para aumentar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos (para quem jea está no sistema) e 70 anos (aos que vão entrar). Vale lembrar que, no Maranhão, a expectativa de vida é de 66 anos. Nesse momento, algumas dessas pessoas sentem-se otárias, engolem o choro da raiva ou da frustração de ganharem como um passarinho, apesar de trabalharem como um camelo e torcem para a novela começar rápido e poderem, enfim, ver outra tragédia. Não porque precisam se mostrarem fortes – sabem que são. Mas porque percebem que o país não é deles mesmo. O desejo dos industriais representados pela fala de Andrade vai na direção oposta às demandas das centrais sindicais, que possuem, entre suas principais reivindicações, a redução da jornada de 44 para 40 horas semanas. A última redução ocorreu há 25 anos, na Constituição de 1988, quando caiu de 48 para 44 horas semanais. Aos catastrofistas de plantão: o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese) calculou que uma jornada de 40 horas com manutenção de salário aumentaria os custos de produção em apenas 1,99%. O aumento na qualidade de vida do trabalhador, por outro lado, seria muito maior: mais tempo com a família, mais tempo para o lazer e o descanso, mais tempo para formação pessoal. Há uma proposta de emenda constitucional que propõe essa mudança e também aumenta de 50% para 75% o valor a ser acrescido na remuneração das horas extras. Ou seja, quer o empregado trabalhando mais? Que se pague (muito) bem por isso, pois eles estarão abrindo mão de sua qualidade de vida. Outros vão dizer que boa parte das empresas já opera com o chamado oito horas por dia, cinco dias por semana. Mas não todas. Principalmente em atividades rurais. Mas se ficar decidido que o crescimento econômico é mais importante que a dignidade das pessoas, podemos – em um esforço da nação – revogar também a Lei Áurea. Olha que ideia excelente para ser abraçada pelos empresários! Convenhamos que nunca conseguimos inserir a população libertada no final do século 19 e seus descendentes continuam a ser tratados como carne de segunda, a sofrer todo o tipo de preconceitos e a receber bem menos que os brancos pela mesma função, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho. E isso iria ao encontro de um pedido de mão de obra barata e de uma das frases de caminhoneiro que nosso presidente interino mais gosta: “não fale de crise, trabalhe''. Que tal? Por Leonardo Sakamoto 08/07/2016 17:56

terça-feira, 5 de julho de 2016

Tecendo palavras, tecendo sonhos!

“Tecer” significa “entrelaçar”, “ato de produzir teia ou tecido ligando um fio a outro”. E assim eu encaro a vida, como fios entrelaçados, fios ligados, fios que podem tecer os mais belos sentimentos ou até o pior deles. Vai depender de quem os tece, vai depender de quem sonha. E será que as pessoas tecem sonhos? Ou não acreditam mais neles? Não consigo imaginar uma vida sem sonhos e sem palavras que marquem e que delineiem esses sonhos. A vida sem sonhos é como uma música sem melodia, as palavras marcam, têm sentido, mas a melodia embala, a melodia emociona, a melodia encanta. Teço palavras como quem sonha, pois cada palavra carrega o sonho, o sentimento e a crença de que sonhos podem e devem ser realizados. E se o sonho acabar? Teço outros, teço sempre. Sonho sempre. A vida nos dá esse presente todos os dias, o presente de nos reinventarmos, de refazermos nossos sonhos, de tecer outros fios, de escutar outras músicas, de viver outros amores, de ressiginificar valores, de nos transformar, de (re) viver. Teço palavras porque acredito na força que elas têm. Teço palavras porque sinto tudo o que escrevo. Teço palavras porque a vida pode ser desenhada por elas. Teço palavras porque elas reinventam. Teço palavras porque elas revelam. Teço palavras porque elas traduzem, elas marcam. Teço palavras porque escrever, também é sonhar e sonhar é viver! E um “homem sem sonhos, é um homem sem vida”. (Eça de Queiroz) Então, que teçamos e sonhemos, pois assim a vida pulsa. Assim a gente tece a vida com seus sabores e dissabores, alegrias e tristezas, saudades, inícios e fins, chegadas e partidas, começos e recomeços, fios entrelaçados e fios soltos. Assim, a gente vive, tecendo palavras, tecendo sonhos. Monique Pimentel, 14 de abril de 2013