domingo, 25 de março de 2018

PILARES DA EDUCAÇÃO

A quase totalidade das mesas existentes no mercado possui quatro pernas. A mesa do professor, a que fica na cozinha e as mesas metálicas que enfeiam calçadas, são exemplos que garantem essa certeza. O sereno e necessário equilíbrio ao apoio de uma boa mesa serve de metáfora para ensinar que a Educação que prepara o aluno planetário dos tempos de agora também se equilibram em quatro pilares, que tais como pernas de mesa, garantem sustentação. Escola que é escola de verdade e aula que não finge ser aula precisa assim ensinar o aluno a “aprender”, ajuda-lo a “saber fazer” (competência), despertar seu “sentimento de grupo e solidariedade” e, finalmente, buscar ajuda-lo a “ser”.

Mas, nem todos os apoios materiais necessitam de quatro pernas. Existem raras mesas, mas frequentes tripés que sustentam câmeras e ainda outras geringonças que vivem muito bem com três pés. E se os quatro pés de uma mesa representam inequívocos pilares para a escola que precisamos o exemplo de objetos apoiados em três pernas também constitui metáfora para se pensar em condições essenciais a uma escola pública, para sucesso de seus alunos em exames do IDEB ou do ENEM. Nesse caso, esses apoios sempre se fazem presente em redes de ensino que, mesmo em lugares pobres, apresentam resultados excelentes, caracterizando “ilhas de exceção” no oceano da mediocridade escolar brasileira. E quais são esses pilares? Parece não haver dúvida que esse sucesso tem sempre a certeza de um ou uma excelente “Secretário ou Secretária de Educação”, “diretores de unidades escolares” dedicados, empenhados, estudiosos e corajosos e “funcionários administrativos” que não sendo professores, são preparados para serem verdadeiros educadores.

Continuando a analogia entre apoios e a educação, chegam-se aos dois pés, comuns na maior parte dos bancos dos jardins. De forma igual ao exemplo da mesa e do tripé, os apoios são essenciais e a falta de um implica em fracasso e tombo literal. Em educação o que mais se parecem aos bancos de dois imprescindíveis pés é sempre o feliz binômio “aluno” e “família”. Escolas com alunos entusiasmados e familiares plenamente envolvidos a essa escola e impulsores desse entusiasmo. Tal como na mesa, no tripé e no banco a presença isolada de apenas um dificulta a aprendizagem e afasta sucesso perene. Como se percebe, chegam-se agora a objetos que se apoiam em pé único, verdadeira coluna e essencial sustentáculo e ainda assim para esses apoios a metáfora é plausível. Se não há sustentação para mesa de cozinha de três pernas ou menos, se também não há para seguros tripés com apenas duas pernas e nem mesmo para banco de jardim de perna única, não há e não pode existir educação, escola e futuro sem a coluna essencial e insubstituível. O “professor”, aqui e ali, é sempre o sustentáculo dos sonhos de amanhã.

Por Celso Antunes


fonte: http://www.celsoantunes.com.br/pilares-da-educacao/

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Há recursos suficientes para a educação?

Considerando a nossa carga tributária e a capacidade brasileira de gerar riquezas -o Brasil é hoje a nona maior economia do mundo-, seguramente não deveriam faltar recursos para educarmos nossas crianças, desde que as verbas fossem adequadamente priorizadas e administradas. Contudo, a cada dia ficamos estarrecidos com mais casos de corrupção, malversação de dinheiro e assalto aos cofres públicos.
A situação se agrava ainda mais ao assistirmos corruptos condenados cumprirem penas mínimas e serem soltos pelo Supremo Tribunal Federal. Não obstante, temos um enorme contingente que nem sequer foi julgado, graças ao absurdo mecanismo do foro privilegiado, que nada mais faz do que abarrotar o STF. Além de subtrair recursos públicos fundamentais da educação, essas pessoas espúrias submetem nossas crianças a péssimos exemplos de comportamento.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil gasta anualmente US$ 3,8 mil (R$ 12,2 mil) por aluno do primeiro ciclo do ensino fundamental. A cifra representa menos da metade da quantia média desembolsada por ano com cada estudante nessa fase escolar pelos países da OCDE, que é de US$ 8,7 mil (R$ 27,9 mil).
Nos anos finais dos ensinos fundamental e médio, a situação não é diferente. O Brasil gasta, por ano, a mesma soma de US$ 3,8 mil (R$ 12,2 mil) por aluno desses ciclos e ocupa, assim, um dos últimos lugares entre os 39 países que forneceram dados para a organização. Nos últimos anos, essas nações investiram, em média, US$ 10,5 mil (R$ 33,7 mil) por aluno, o que representa 176% a mais do que o gasto brasileiro.
Esse estado de coisas tem de mudar rapidamente. Há que se louvar e aplaudir aqueles que estão lutando para desbaratar essas quadrilhas de corruptos, apesar de sabermos que essa é uma tarefa árdua, principalmente porque há indícios da perpetuação desse modelo de corrupção por estados e municípios em todo o país. Esses esquemas subtrairiam, não se sabe ao certo, bilhões de reais, não só da educação.
Se quisermos ser uma nação desenvolvida e competitiva, é urgente reestruturar o nosso programa educacional. E permanecer no caminho de combate à corrupção, sem esmorecer e de forma inflexível, é um grande passo para alcançar esse objetivo.
Se quisermos nos transformar num país evoluído econômica e socialmente temos de, inexoravelmente, cuidar para que nossas crianças sejam educadas e preparadas para viver e vivenciar uma nação diferente, onde todas tenham oportunidades equânimes de adquirir conhecimentos com qualidade, e possam aprender a viver harmonicamente numa sociedade com valores éticos, morais, respeito ao meio ambiente e, principalmente, aos seus semelhantes.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A importância do vínculo entre professor e criança

No contexto da educação infantil, o vínculo criado entre educador e criança é tão importante quanto outros parâmetros considerados primordiais pelos referenciais de qualidade. É por meio da construção de uma relação afetiva acolhedora que a criança se sente segura e disponível para as atividades entre pares e o consequente desenvolvimento de suas possibilidades.
O vínculo é uma relação afetiva preferencial que se estabelece entre o aluno e seu professor. E à medida que cresce, a criança amplia o forte apego dos primeiros anos de vida aos pais para outras pessoas e o apego passa então a ser chamado de vínculo. Nesse contexto, o vínculo é uma relação em que o professor passa a ser uma espécie de amigo preferido no espaço escolar.
O vínculo é, sim, uma relação afetiva, mas não significa bajular, dar beijos ou passar a mão na cabeça da criança, no sentido da superproteção, mas fazê-la sentir-se segura, valorizada e acolhida no ambiente escolar.
É fácil perceber se há vínculo entre a criança e seu educador. A busca de proximidade é o maior sinal de que o vínculo foi instaurado. Há vínculo se a criança procura o professor, confere suas dúvidas com ele. Se ela evita o professor e fica retraída em sala é porque não tem nele seu porto seguro.
Outra evidência da presença ou da falta de vínculo é a vontade que a criança tem de ir à escola. O normal é que a criança ame ir à escola. Se chora e não quer ir, há um desajustamento que pode significar a falta de vínculo. A criança não se sente protegida, acolhida.
Uma das funções do vínculo é exatamente dar a sensação de proteção e conforto para a criança, cujo primeiro impulso é transferir para o professor a relação de segurança que teria com a mãe. Nesse momento, o educador é o mediador afetivo da criança nesse espaço escolar, e quem facilita sua adaptação. No caso de uma criança que chora e não quer entrar no ambiente desconhecido, quando estabelece esse vínculo afetivo, ela passa a entender que neste espaço o educador cuida, protege e sana suas necessidades, ele é o substituto da mãe.
O primeiro papel do vínculo é favorecer a adaptação da criança na creche ou na escola, mas não se encerra por aí. Um segundo aspecto é a mediação com o conhecimento. O educador lida com esta acolhida afetiva que a criança tem de ter e, por outro lado, com a ampliação dos horizontes e a aquisição de novos conhecimentos. A creche ou a escola são mundos muito novos e distantes da realidade vivida pela criança até ali. Há outras regras, horários, espaços e modos de funcionamento, assim como estímulos diversos – de socialização, habilidades motoras, artísticos e contato com a língua. O educador viabiliza a entrada da criança em todo este universo do conhecimento.

Se há no espaço escolar todo um mundo a descobrir, a criança precisa do vínculo para sentir que o espaço é afetivo e lidar bem com os novos desafios. Se não tiver segurança afetiva, ela se encolhe, se protege e não se lança à aventura da brincadeira e da expressão. Ela vai se retrair e não vai se envolver, o que afeta seu aprendizado no curto e no longo prazo.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Com eleições em 2018, educação segue em ponto morto e sem projeto que a torne prioridade

Época de promessas, o ano eleitoral não traz grandes expectativas para a educação. O clima polarizado das discussões pré-eleitorais não tem indicado boas perspectivas para os desafios educacionais.
Muito pelo contrário. A avaliação é de que o país está distante de um projeto que coloque o tema no centro da agenda política e econômica. A educação viveu em 2017 mais um ano de estagnação de recursos, contrariando os diagnósticos que apontam para a necessidade de mais investimentos. Tanto para incluir os quase 2,5 milhões de crianças e jovens entre 4 e 17 anos que estão fora da escola quanto para melhorar os índices de qualidade.
Sob o governo Michel Temer, a crise econômica e a falta de prioridade colocaram em ponto morto o principal desses diagnósticos, PNE (Plano Nacional de Educação), que traça metas para o setor até 2024.
Ao analisar a maioria dos temas sobre educação, o leitor pode concluir que a garantia de uma escola de qualidade (para todos) se relaciona com os desafios do país. Evidências não faltam: a cada 1% a mais de jovens na escola, há queda em 2% nos homicídios; cada ano a mais de escolaridade aumenta em 10% a renda do trabalhador para o resto da vida; três anos a mais de escolaridade média tendem a levar a um crescimento de mais de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) de uma nação.
Apesar disso, a crise econômica consolida o entendimento de que os custos da educação pública são gastos a serem enxugados. É bom lembrar: mais de 80% dos estudantes do país estão na rede pública.
Educação inclusiva e de qualidade custa caro. A sociedade precisa refletir como o mantra da prioridade da educação se reflete na prática —e nos orçamentos.


Metade dos brasileiros não tem ensino fundamental

Metade dos brasileiros adultos não frequentou a escola além do ensino fundamental, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua): Educação, divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE. De acordo com o levantamento, existem 11,8 milhões de analfabetos no país, e as dificuldades atingem mais pretos e pardos que brancos.
A conta da escolaridade leva em consideração pessoas de 25 anos ou mais de idade porque já poderiam ter concluído o processo regular de escolarização. No Brasil, 51,0% da população de 25 anos ou mais de idade possuía o ensino fundamental completo ou equivalente; 26,3% tinham o ensino médio completo ou equivalente; e 15,3%, o superior completo.
Em 2016, o número médio de anos de estudo para essa faixa etária foi de 8,0 anos. No Nordeste, apenas 6,7 anos. Com relação à cor ou raça, mais uma vez a diferença foi considerável, 9,0 anos de estudo para as pessoas brancas e 7,1 anos para as pessoas de cor preta ou parda.
“As pessoas brancas historicamente sempre tiveram mais acesso a educação. A questão do rendimento é muito importante. O rendimento das pessoas brancas é historicamente muito maior, então eles acabam tendo mais oportunidade”, disse Helena Monteiro, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Região

O Plano Nacional de Educação instituído pela Lei n. 13.005, de 2014, estabelece como uma das metas para 2024 que a escolaridade média da população de 18 a 29 anos alcance 12 anos, no mínimo, para alguns grupos mais vulneráveis, entre eles as pessoas pretas ou pardas e a população da Região Nordeste. Além disso, a meta estipula a igualdade da escolaridade média entre as pessoas pretas ou pardas e as pessoas não pretas ou pardas.
Em 2016, no grupo de 18 a 29 anos, o número médio de anos de estudo foi de 9,4 anos para a Região Nordeste e de 9,6 anos para as pessoas pretas ou pardas. Por outro lado, entre as pessoas brancas de 18 a 29 anos, a média alcançou 11,0 anos de estudo. A Região Sudeste apresentou a maior média de escolaridade entre as Grandes Regiões, 10,7 anos. “Os dados refletem muito as diferenças tanto regionais quanto históricas no País”, ressaltou Marina Aguas, também analista do IBGE.

Idade

Quando o corte etário é ampliado para 25 anos ou mais, as Regiões Norte e Nordeste registraram os maiores porcentuais de pessoas sem nenhuma instrução (14,5% e 19,9%, respectivamente). As maiores proporções de nível superior completo ocorreram nas Regiões Centro-Oeste (17,4%) e Sudeste (18,6%).
Na Região Nordeste, 52,5% da população não alcançaram o ensino fundamental completo, ao passo que na Região Sudeste 51,1% tinham pelo menos o ensino médio completo.
Considerando a cor ou raça, as diferenças no nível de instrução se mostraram ainda maiores: enquanto 7,3% das pessoas brancas não tinham instrução, 14,7% das pessoas pretas ou pardas estavam nesse grupo. No nível superior completo, ocorreu o fenômeno oposto: 22,2% das pessoas brancas tinham terminado a graduação, mas entre as pretas ou pardas a proporção era de 8,8%.

domingo, 17 de dezembro de 2017

A participação ativa dos pais é crucial para o bom desempenho educacional dos filhos.

A participação ativa dos pais é crucial para o bom desempenho educacional dos filhos.
Se essa afirmação for óbvia, ela é ignorada por uma parcela não desprezível de famílias brasileiras, como revela um levantamento do IBGE de 2015.
Segundo a PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), os pais de quatro em cada dez adolescentes do 9º ano do ensino fundamental não verificam se suas lições de casa foram feitas.
As famílias de 23,4% dos alunos desconhecem o fato de que eles faltaram a aulas nos 30 dias anteriores à enquete, e um percentual parecido não sabe o que os jovens fazem em seu tempo livre.
Em 26% das famílias, nenhum dos pais está presente em pelo menos uma refeição durante a semana.
Todas essas atividades de engajamento entre pais e filhos têm efeito positivo no desempenho escolar, segundo um amplo conjunto de pesquisas.
Segundo um estudo da OCDE uma única refeição semanal familiar está associada a um aumento de pelo menos 12 pontos na nota dos jovens em ciências no exame internacional Pisa.
O que pesquisas como essa parecem capturar é que demonstrações de interesse sobre a vida de crianças e jovens melhoram sua aprendizagem.
Pode ser que os pais omissos nesse sentido desconheçam essa relação ou que simplesmente se esqueçam dela no dia a dia corrido.
Mas experimentos recentes mostram que basta lembrar às famílias sobre a importância de acompanhar a rotina escolar dos filhos para que elas reajam de forma positiva.
À medida que esses resultados começaram a circular, os governos têm acordado para o fato de que mediar e incentivar a aproximação entre pais e escolas pode ajudar, e muito, a melhorar a educação.
Provavelmente não será a salvação da pátria, mas é um caminho que, se perseguido em larga escala, talvez ajude o Brasil a superar um quadro de fracasso educacional, principalmente no ensino médio, em que outras medidas tentadas até agora têm surtido efeito reduzido.
"O que a gente nota é que não está havendo um efeito milagroso de fazer o aluno voltar para a sala de aula", me disse na semana passada José Renato Nalini, secretário de Educação do Estado de São Paulo.
Um dos principais problemas que desafiam os gestores educacionais é a elevada evasão escolar na adolescência, como ressalta Nalini: "A escola tem salas um pouco ociosas e os barezinhos das imediações estão cheios".
Com a assessoria do Insper Metricis e do BID, o governo de São Paulo identificou que a aproximação dos pais com as escolas é uma das medidas que podem ajudar a reverter o problema.
O Estado teve uma experiência avaliada como positiva nessa direção. Em 2016, testou em uma parte pequena da rede um programa chamado EduqMais, que envolvia mandar mensagens simples de texto para os pais, via SMS, alertando para a importância da frequência escolar.
Há evidências, medidas em uma avaliação de impacto, de que a taxa de reprovação caiu e a aprendizagem dos alunos aumentou como consequência do experimento.
Desde agosto, Mato Grosso também tem feito uma intervenção que envolve a comunicação com pais, via SMS, por meio de outro programa, chamado Mira Aula. Seu impacto será testado em breve.
Outros Estados e municípios vêm testando esses e outros programas.
A comunicação via SMS com os pais é barata e tem a vantagem de atingir famílias que têm celular —a vasta maioria—, mas não necessariamente acesso à internet.
Até então, experiências desse tipo têm sido implementadas da seguinte forma: as start-ups ou organizações criadoras das ferramentas convencem governos a implementá-las experimentalmente e com um modelo que permita que os resultados sejam avaliados de forma séria.
São Paulo dará um passo mais ousado no sentido de tentar fomentar a inovação na política pública educacional. O Estado testará um modelo importado do Reino Unido e já usado em quase 20 países que se chama contrato de impacto social.
Nesse formato, o governo abre um edital para receber propostas com objetivo de melhorar indicadores específicos.
A escolha do provedor é feita por meio de competição, como num leilão. E o eleito só recebe se atingir os objetivos estabelecidos ao longo do tempo do contrato.
No caso de SP, as metas envolvem melhorar índices de aprovação e conclusão no ensino médio, etapa em que a evasão escolar se agrava muito.
Uma das exigências que devem constar do edital —que está atualmente aberto a consulta pública— é que, seja qual for a ferramenta proposta, ela precisa incluir medidas para aproximar os pais da vida escolar dos filhos.
Pode soar como paternalismo, mas as famílias não são obrigadas a agir. Estão sendo apenas estimuladas a ficar atentas. Como propõe o vencedor do Nobel de Economista deste ano, Richard Thaler, é empurrão ("nudge") na direção correta.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Governar o Brasil não é difícil nem impossível: é inútil

Texto de Carlos Heitor Cony

Benito Mussolini terminou seus dias na face da Terra numa posição incômoda: pendurado de cabeça para baixo num gancho de açougue. Um fim de vida coerente com uma de suas frases mais famosas: "Governar a Itália não é difícil, é impossível". Menos trágicos, os presidentes do Brasil, mesmo sem o fim lastimável do ditador italiano, poderiam dizer: "governar o Brasil não é difícil nem impossível: é inútil".
Citando Suetônio poderíamos dizer que os 12 Césares tiveram as mesmas dificuldades dos presidentes dos dias de hoje. Um deles resolveu seus problemas e os problemas do Império Romano nomeando um cavalo para senador, que nada ficou devendo aos senadores que o sucederam.
Ernest Renan, no meu entender o maior estilista da língua francesa, considerou a linhagem dos Pios não só o melhor período do império como o período mais feliz da humanidade do seu tempo. Teve razões para isso, uma vez que seus antecessores e sucessores, segundo Cesare Cantù, não eram coisas que prestavam.
Falta ao Brasil um Suetônio e um Cantù, apesar de termos césares demais. Somente para ficar no ano da Graça de 2017, temos três ex-presidentes e estamos na iminência de termos mais um, além de outros que estão na fila.
Nenhum deles ficou pendurado num gancho de açougue, mas tivemos um suicida, um louco que renunciou, outro que foi exilado e dois que foram impedidos. Disso tudo resultou que o Brasil pode ter governantes em excesso, que prometerão pão e leite para todos, descobrirão a inutilidade do leite e do pão, mas farão licitações que abastecerão corruptos e corruptores.
Um ex-presidente que foi exilado dizia que governar era abrir estradas. A maioria preferiu abrir as burras da nação, tornando inúteis suas promessas e nomeando cavalos para os altos escalões.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/carlosheitorcony/2017/06/1893728-governar-o-brasil-nao-e-dificil-nem-impossivel-e-inutil.shtml

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Falta de grana mata o amor porque ele perece diante da falta de horizontes

Afeto tem preço? Sim, tem. E, enquanto você não descobriu o seu preço, ainda não pensou a fundo no tema.
Enquanto não pensarmos claramente no quanto amor e grana se misturam, não veremos nenhuma fronteira entre os dois.
Em nossa época, mentiras viraram moeda de troca no mercado do pensamento público. Agradar aos outros é métrica de valor. Eu não jogo esse jogo.
Devemos escapar da armadilha comum de pensar que assumir um preço para o afeto implica ser uma pessoa interesseira. Claro que esse caso óbvio também existe. Penso em pessoas motivadas pelo afeto mesmo e que, tristemente, às vezes, se batem com o limite material delas. Não era outra coisa que o grande Nelson Rodrigues tinha em mente quando dizia que dinheiro compra até amor verdadeiro.
O fato é que grana é um potencializador da vida. Com ela você pode criar um ambiente no qual confiança, bem-estar e um forte sentimento de muitas perspectivas se abrem diante de você. Onde bons sentimentos nascem? Num final de semana prolongado em Roma ou no trânsito de oito horas para Praia Grande?
Grana cria horizontes no quais você se desenvolve e pode sonhar com melhores modelos de você mesmo. Grana dá a você a chance de ser generoso, ousado, seguro de si mesmo. No caso das meninas se dá a mesma coisa.
Acrescentaria que no caso das meninas existe também um delicado sentimento (às vezes enterrado no mais fundo do cotidiano) de que, se alguém te dá uma bijuteria no lugar de uma joia, você se sente uma bijuteria, e não uma joia. E, em alguma medida, com razão. Porque o preço de uma joia representa o valor investido na mulher para quem você dá essa joia.
Homens, que na maioria das vezes ganham mais e são mais escravos da obrigação do sucesso material, se sentem investidos de amor pela mulher quando ela demonstra serem eles a sua prioridade. Quando ela reconhece potência em tudo o que eles fazem –o que não significa só ganhar dinheiro.
Falta de grana mata o amor porque ele perece diante da falta de horizontes. Do sentimento de que a vida está acabada naquela fórmula pobre de ser. Num cotidiano em que a rotina é sempre a da falta de liberdade de escolha. A dificuldade de enxergar isso torna ainda mais o afeto dependente da grana. A mentira sobre isso torna o amor ainda mais barato porque mais indefeso diante das contingências do dia a dia.
Quer outro exemplo? Você se casa com um cara que tem uma ex-mulher. Se ele der muita atenção para ela e se preocupar muito em deixá-la "bem materialmente" mesmo depois da separação, você vai, sim, achar que ele ainda a ama. Não minta sobre isso só pra ficar bem com o marketing do bem, que deixa o mundo ainda mais cretino do que ele já é normalmente.
O caso do amor entre pais e filhos não é tão diferente, apesar de depender mais da classe social e da cultura do país. No Brasil, da classe média alta pra cima, se você não der um apartamento para cada filho, fracassou como pai.
Imagine que seu pai deixou sua mãe por uma mulher 20 anos mais nova do que ele, e que ele teve um filho com ela. Sei, sei, dizem por aí que todos os jovens tiram isso de letra hoje, mas isso é, também, uma mentira do marketing do bem.
Agora imagine que ele nega para você uma viagem para Paris nas férias, mas faz um lindo quarto de bebê com todas as frescuras que sua nova jovem mulher pede. Quando encontra com você, só fala do novo "irmãozinho". Que tal?
Invertamos a situação. Imagine que você dedicou 40 anos da sua vida para seu filho. Imagine que agora ele é bem-sucedido profissionalmente, mas deixa você viver numa casa de repouso miserável paga com sua aposentadoria.
Onde está a fronteira entre amor e grana aí? Em Roma ou Praia Grande?

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Dizer para a criança que ela pode aprender tem impacto enorme

Você pode treinar seu cérebro e se tornar mais inteligente.
Essa é a mensagem de um programa educacional simples e barato, chamado "Expande tu mente", que o governo Peru tem testado em suas escolas com impacto relevante na aprendizagem de alguns alunos.
O projeto se baseia em pesquisas feitas nas últimas décadas por especialistas como Carol Dweck e Lisa S. Blackwell que mostram que a inteligência não é um ativo fixo e inalterável.
Quem acredita que pode desenvolver mais habilidades tem maiores chances de atingir seus objetivos, segundo esses estudos.
Partindo dessa premissa, o programa —que tem apoio do Banco Mundial, da Universidade de Oxford e do grupo peruano de pesquisa Grade— consiste em uma única sessão na qual os alunos de ensino médio recebem um artigo curto chamado "Sabias que puedes hacer crecer tu inteligencia?"
O texto explica, de forma amigável e com ilustrações, como a nossa capacidade cognitiva é maleável, como o cérebro funciona e como as conexões entre suas células nervosas crescem e se fortalecem à medida que aprendemos coisas novas.
Em seguida, a classe discute o artigo com o professor encarregado pela monitoria. Um cartaz para que os alunos se lembrem constantemente do que leram é pendurado na sala de aula.
E, no fim, cada estudante escreve uma carta contando para um familiar ou amigo o que aprendeu sobre o assunto e dando conselhos.
Segundo o Banco Mundial, o programa-piloto —que começou a ser testado em 2015— gerou um impacto positivo nas notas dos alunos, que, em média, equivaleria ao que seria conseguido por um aumento de dois a três anos na escolaridade de seus pais.
Esse tipo de comparação costuma ser usada porque há farta evidência de que o número de anos de estudo dos pais tem forte relação causal com o desempenho acadêmico dos filhos.
Embora o aumento da escolaridade da população adulta seja desejável, por inúmeros motivos, trata-se de um processo demorado. Não daria para contar só com isso como estratégia para melhorar a aprendizagem das crianças no curto prazo.
O que o governo do Peru está tentando fazer é justamente identificar soluções efetivas, escaláveis, com uma boa relação entre custo e benefício, que ajudem o país a melhorar a qualidade da educação em um horizonte mais próximo de tempo.
Criou para isso uma espécie de laboratório de inovações educacionais (MineduLAB) que se associa a pesquisadores da área para implementar, testar e mensurar novas iniciativas.
Foi nesse contexto que o "Expande tu mente" foi implantado em um grupo grande de escolas de três regiões do país e seus resultados, aferidos em um teste de aprendizagem nacional comparados posteriormente com os de outras instituições que não receberam a intervenção.
Segundo um relatório divulgado há duas semanas pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), as poucas iniciativas em países em desenvolvimento que buscam motivar os alunos e tiveram sua efetividade mensurada apresentaram efeito positivo sobre a aprendizagem.
Esse tipo de programa tem a vantagem de ser relativamente barato.
O estudo da instituição, cujo foco são as políticas públicas para o desenvolvimento de habilidades, ressalta que o "Expande tu mente" teve um custo de apenas US$ 0,1 por cada ponto a mais de aprendizagem dos alunos em testes padronizados. Iniciativas mais populares como reduzir o tamanho da classe e expandir a jornada escolar, diz o BID, custam, respectivamente, US$ 47 e US$ 210 por cada ponto a mais de aprendizagem gerado.
Num website que acabou de lançar, o BID fornece um resumo da evidência internacional da efetividade de diversas políticas educacionais, com foco em distintos objetivos e faixas etárias.
A mensagem da instituição multilateral para os formuladores de políticas públicas é clara, direta: não adianta aumentar os recursos investidos em educação sem mensurar, de forma bem-feita, com critérios e metodologia apropriados, os resultados de suas iniciativas.
É preciso saber se os tiros que damos têm atingido seu alvo e a que custo.
A julgar pelos resultados ainda decepcionantes da região em testes internacionais de aprendizagem, a despeito do aumento dos nossos gastos em educação nos últimos anos, essa mensagem ainda não parece ter sido bem apreendida. Mas iniciativas como a do governo peruano são um alento.
No mais, para quem lida com crianças, os resultados preliminares do "Expande tu mente" indicam que vale muito a pena explicar para elas, de forma simples, que elas conseguem aprender, podem melhorar, são capazes de desenvolver talentos se treinarem para isso.
É uma atitude simples que, na correria do dia a dia, dificilmente entra no nosso radar.

domingo, 24 de setembro de 2017

Professor Uber: a precarização do trabalho invade as salas de aula

Sob o comando do tucano Duarte Nogueira, a prefeitura de Ribeirão Preto, no interior paulista, apresentou em julho um projeto para contratar aulas avulsas de professores por meio de um aplicativo de celular, com o objetivo de suprir as ausências de docentes da rede municipal.
No “Uber da Educação”, como a proposta foi apelidada, o profissional não teria vínculo empregatício. Após receber a chamada, ele teria 30 minutos para responder se aceita a tarefa e uma hora para chegar à escola.
Com cerca de 5 mil habitantes, a cidade catarinense de Angelina, na Grande Florianópolis, também inovou, com a criação de uma espécie de leilão reverso para a contratação de professores. Em abril, a prefeitura publicou o Pregão nº 018/2017, baseado em uma licitação de “menor preço global”.
O edital partia de um pagamento máximo de 1.200 reais para uma jornada de 20 horas semanais, mas atrelava sua definição a um leilão que deveria ser feito com o envio de propostas salariais a menores custos. O processo só não foi adiante porque foi interpelado pelo Ministério Público de Contas do Estado.
Há tempos os professores da educação básica convivem com a precarização das relações de trabalho, um problema que deve aprofundar-se com a nova Lei de Terceirização e a reforma trabalhista sancionada por Temer. Diante do cenário, não chega a surpreender a iniciativa do Grupo Anhanguera, de buscar atrair novos estudantes para cursos de formação pedagógica com a promessa de uma fonte complementar de rendimentos.
“Torne-se professor e aumente a sua renda”, dizia a peça publicitária, com Luciano Huck de garoto-propaganda. Após a repercussão negativa da campanha nas redes sociais, a instituição de ensino superior pediu desculpas pela “mensagem equivocada sobre a função e importância do professor”.
A precariedade cobra um elevado preço dos profissionais. Em 34 anos de carreira, esta é a primeira vez que Maria Fátima Maia da Silva, 50 anos, se vê longe das salas de aula. Por recomendação médica, ela está afastada há dois meses em consequência de estresse acumulado ao lecionar em sete escolas do Paraná.
A peregrinação pelas unidades da rede estadual começou em fevereiro, quando o governo de Beto Richa (PSDB) reduziu as horas-atividade dos docentes, passando de 7 para 5, em uma carga horária de 20 horas/aulas semanais.
Até a decisão, Maia da Silva trabalhava em uma única escola de Curitiba, com uma jornada de 40 horas semanais, 20 horas dedicadas a aulas de Biologia e o tempo restante para ministrar a disciplina de Ciências. Após a medida, a professora teve as horas de trabalho reduzidas para 13 e viu-se forçada a procurar por outras instituições para compor o tempo de cada matéria.
“Na parte da manhã, passei a trabalhar em duas escolas. Para cumprir as 20 horas restantes, peguei mais cinco escolas para lecionar à noite, cumprindo por dia da semana uma carga de quatro horas em cada uma delas”, conta a professora.
Além da jornada exaustiva em diferentes salas de aula, pesava o tempo de deslocamento até cada um dos endereços. Entre idas e vindas, a professora chegava a passar quatro horas no transporte público. A rotina foi interrompida em junho, quando a estafa a afastou do trabalho.
Na avaliação da vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Marlei Fernandes de Carvalho, o caso desrespeita a Lei Federal nº 11.738/2008, que instituiu o piso salarial dos profissionais do magistério público da educação básica. Os professores deveriam ter assegurados dois terços da carga horária para a interação com os estudantes.
“O terço restante é reservado para o planejamento”, explica Carvalho. “Com a redução das horas, descarta-se esse tempo de trabalho fora da sala de aula, o que deve fazer com que muitos professores sacrifiquem o seu tempo livre, de descanso, para cumprir todas as demandas da escola.”
Presidente da CNTE, Heleno Araújo também se preocupa com os impactos da Emenda Constitucional 95, que congela os gastos públicos por 20 anos. “Com menos recursos para a educação, temos prejudicadas as metas 15 a 18 do Plano Nacional de Educação, que preveem a valorização docente.”
Hoje, muitos professores atuam como temporários na rede pública, ou seja, não fazem parte do quadro efetivo. Em Mato Grosso, por exemplo, 60% dos docentes estão contratados nesse regime, mas são igualmente expressivos os porcentuais em Santa Catarina (57%), Mato Grosso do Sul (50%), Minas Gerais (48%), Pernambuco (44%) e São Paulo (34%).
“Pela Constituição, o ingresso no serviço público deve ser feito exclusivamente por meio de concurso”, observa Araújo. Como os temporários não podem criar vínculo com as redes de ensino, esses profissionais precisam alternar tempo de aula com tempo de afastamento.
De acordo com a presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Azevedo Noronha, os professores temporários eram obrigados a cumprir uma quarentena para voltar a lecionar na rede paulista.
“Na greve de 2015, conseguimos assegurar a contratação de quatro anos sem quebra de contrato”, lembra. Benefícios como o quinquênio ou a sexta parte, gratificações por tempo de trabalho, só foram adquiridos para a categoria há três anos.
No contexto de liberação das terceirizações, teme-se que os concursos públicos deixem de ser realizados. Os professores efetivos dariam lugar a prestadores de serviços. Outra ameaça é a entrega da administração das escolas para organizações sociais.
A ação não seria novidade. No ano passado, o estado de Goiás publicou um edital chamando entidades a assumirem a gestão escolar. Contrários à proposta, estudantes ocuparam 28 escolas estaduais. O edital foi suspenso pela Justiça goiana.
Resposta da prefeitura de Ribeirão Preto
Em nota enviada à CartaCapital, a prefeitura de Ribeirão Preto afirma que "não existe projeto 'Uber da Educação' em andamento no município".
"A proposta que se encontra em fase de elaboração denomina-se “Professor Substituto” e visa a solucionar a grave situação de ausências de professores em sala de aula, motivadas por faltas ou licença saúde, em período inferior a 30 dias. As faltas acima de 30 dias são resolvidas com nova atribuição de aulas a outro professor.
A proposta é que o professor substituto seja aprovado por processo seletivo e receba atribuição de aulas por conjunto de escolas, formado por duas ou três unidades. O contato com o profissional para chamá-lo até a unidade escolar poderá ocorrer com a utilização de tecnologias hoje disponíveis, o que agregará agilidade ao processo.
Quanto à relação empregatícia, o projeto é objeto de análise por parte da Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos. Portanto, não há nenhuma solução definitiva a respeito do assunto."

 Fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/professor-uber-a-precarizacao-do-trabalho-invade-as-salas-de-aula

domingo, 3 de setembro de 2017

Pedagogia do amor é futuro da educação

Fala-se menos do que se deveria na pedagogia do amor e o pouco que se fala é, muitas vezes, vago. O tema, então, se perde pela sua abstração e incompreensão das pessoas, o que ocasiona desconfiança e desinteresse; todavia, tanto como parte do método pedagógico quanto como um dos objetos de estudo, o amor é aquilo que pode mudar completamente o mundo para melhor desde que seja bem entendido.
A noção predominante de amor é a romântica, que o entende como um sentimento afetivo entre dois seres, normalmente um homem e uma mulher, e daí surge, inclusive, o preconceito lastimável contra aqueles que procuram relacionamentos homossexuais. Esses dois seres buscam uma união quase sempre calcada na atração física e/ou sexual, quando a motivação não é ainda mais superficial, como financeira ou outra similar.
Para além dessa ótica predominante, há uma segunda, muito parecida, que estende o amor a um sentimento afetivo entre dois seres por laços familiares ou por simpatia. Esta é uma sintonia gerada por interesses ou outros elementos em comum, que podem ser positivos ou negativos.
Não existe amor ou desamor à primeira vista, mas apenas simpatia ou antipatia à primeira vista. Simpatia é sentimento direcionado a uma pessoa. Amor é um sentimento sem direção, que ultrapassa o ser humano, estendendo-se aos animais, ao elementos naturais (fogo, água, terra, vento), ao planeta, ao cosmo.
O amor amplamente prevalecente, almejado e praticado na humanidade não é aquele em sua profundidade e amplitude. É um amor romantizado, vendido em filmes, novelas e propagandas, muito mais ligado a paixões e interesses menores do que a sentimentos edificantes e libertadores.
Por tal razão, ele degenera facilmente em apego, cobrança, manipulação, quando não se transforma em ódio por conta da frustração das paixões e interesses mencionados. Quase sempre, o amor é praticado com egoísmo, muito mais em busca de algo em troca do que de apenas se doar ao outro e de fazê-lo um ser melhor.   
O amor, como deve ser compreendido em uma comunidade mais desenvolvida, é um sentimento muito mais próximo da fraternidade em um nível ótimo, um “‘estado afetivo de plenitude’, incondicional, imparcial e crescente”, como diria Ermance Dufaux.
O verdadeiro amor preenche, eleva o ser a um estado de felicidade incomparável, inabalável pelos arrastamentos menores das paixões humanas. Ele não é condicionado a retorno; não é diferente de acordo com o ser ou com qualquer outro critério; e só vai crescendo na medida em que a pessoa se desenvolve.
O verdadeiro amor é profundo, pois submete as paixões e interesses individuais em prol de uma ligação com tudo e todos, gerando respeito, paciência, indulgência, tolerância, unicidade com a natureza; sentimentos muito mais edificantes do que aqueles gerados, em regra, pela ótica de amor hoje predominante.
O verdadeiro amor não diferencia o sentimento que se tem do filho e do vizinho que causa incômodo, por mais utópico que isso possa parecer. O amor dos pais para com os filhos é talvez o mais puro que existe hoje. É, em diversos casos, um amor incondicional, que tira o fôlego e que perdura, não importa o que aconteça. No entanto, as pessoas não são ensinadas a amar os demais. “Os outros são os outros”. “A família antes de tudo”. Quantos chavões não existem hoje para expressar que só devemos nos preocupar com “os nossos” e os outros que se danem?
Devido à falta de amor da humanidade, se não houvesse a família, dentro da qual se estimula o amor pelos laços de sangue e pela convivência muitas vezes forçada, o planeta provavelmente já teria sido destruído, e observem que, mesmo assim, não falta muito para isso.
O problema é que as relações familiares se tornaram as únicas importantes para muitos, até porque da felicidade do cônjuge e dos filhos muitas vezes depende a felicidade do próprio indivíduo. Então, há frequentemente mais egoísmo do que amor por trás de certas atitudes protetivas da família. 
Com verdadeiro amor, não haverá escolhas em torno de quem deve ser protegido e quem deve ser prejudicado, a não ser sob critérios de justiça; não haverá injustiças aos outros em prol da família ou de si mesmo; não haverá nacionalismos que prejudicam outros países sem remorso; etc. O amor une a todos, torna a sociedade uma única família.
É esse sentimento que deve ser utilizado para ensinar nos lares e nas escolas por meio, sobretudo, de atividades práticas e do exemplo. Na medida em que se ensina pela pedagogia do amor, já se ensina o amor pelo exemplo, a melhor forma de ensino, por ser sentida e, principalmente, vivida, e não apenas racionalizada. Quando o outro compreende o verdadeiro amor em alguém, é difícil que não queria praticá-lo, pois nota como quem ama verdadeiramente emana positividade, é pleno e feliz.    
Diversos estudos comprovam que países mais desenvolvidos em termos de qualidade de vida e desenvolvimento em sentido amplo revelam altos graus de fraternidade. Sociedades com mais qualidade de vida são as que desenvolveram melhor o sentimento de verdadeiro amor, criando, por consequência, instituições mais inclusivas, fraternas. 
A pedagogia do amor foi o centro do método Pestalozzi, que tanto sucesso obteve na Europa no século XIX e que influenciou reformas educacionais em vários países que se tornaram muito desenvolvidos em seguida.
Pestalozzi dizia que o mérito da sua experiência na cidade de Stans foi transformar cerca de 70 crianças órfãs, embrutecidas pela vida, em irmãos, em indivíduos generosos, justos e morais.
O seu método era, primeiro, satisfazer as necessidades mínimas das crianças, garantindo-lhes condições básicas para a aprendizagem e para o desenvolvimento de sentimentos positivos. Deste modo, sem políticas sociais que garantam o mínimo de alimentação, saúde, lazer etc., é difícil que a criança tenha um desenvolvimento adequado e que cresça amorosa, pois o embrutecimento tende a gerar negatividade. Uma das principais tarefas da educação é estimular a sensibilidade natural, a conectividade e a fraternidade com as quais todos nascem.
Não se entenda a pedagogia do amor como mimos e tratamento infantil. Ao contrário, é dar o respeito necessário a cada indivíduo independentemente da sua idade; é corrigir comportamentos os mais negativos com instrução sábia e até mesmo rígida, porém com o máximo de paciência, tolerância e indulgência, entendendo profundamente a individualidade de cada um. 
A pedagogia do amor não quer modificar a essência natural do ser, mas dar as condições para que suas habilidades sejam maximizadas. Ao contrário da educação atual, que tem a presunção de saber aquilo o que os indivíduos precisam aprender, a pedagogia do amor lhes dá certa liberdade para escolher o que preferem aprender e percebe os talentos de cada um.
A pedagogia do amor foi, de certa forma, apresentada neste blog nos textos que trataram de Pestalozzi e sua eficiência foi, em alguma medida, cientificamente comprovada nos textos que trataram da Aprendizagem Socioemocional, que pode ser muito bem aperfeiçoada para uma maximização das habilidades morais e emocionais dos indivíduos, tão ou mais importantes do que a intelectualidade acadêmica.
Fala-se pouco na pedagogia do amor, pois não se compreende que ela representa muito do que se tem hoje por mais avançado em termos de pedagogia: a) mais liberdade aos educandos de escolherem o que querem estudar; b) menos imposição de ideias; c) desenvolvimento crítico; d) educação pelo exemplo; e) estímulos à sensibilidade, à conectividade, à empatia e à fraternidade; f) trabalho das mais diferentes habilidades (ou talentos, ou inteligências), considerando que cada ser é único, especial e suas inteligências se manifestam distintamente; etc.
Rivail, um dos principais discípulos de Pestalozzi, em obra publicada ainda no ano de 1857, deu contornos à contemporânea teoria das múltiplas inteligências e a muitas outras teorias tidas hoje por avançadas:
“A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação”.
Como se dá pouco valor aos grandes pensadores da história, a exemplo desses citados aqui e em outros textos, iremos analisar em artigos futuros a contemporânea teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner (Universidade de Harvard), buscando comprovar que a pedagogia do amor, preocupada com os diferentes tipos de inteligência, mas especialmente com as esquecidas inteligências moral e emocional, é um dos caminhos para um futuro com amplo desenvolvimento, sustentabilidade e elevada qualidade de vida para a humanidade.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Beber moderadamente reduz em até 34% o risco de morte

Boa notícia para quem não abre mão de um drink no final do dia. De acordo com um novo estudo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, e da Universidade Shandong, na China, o consumo regular moderado de bebida alcoólica pode ajudar as pessoas a viverem mais.
Depois de analisar dados de 333.247 americanos que participaram da pesquisa nacional de saúde entre os anos de 1997 e 2009, levando em conta os hábitos dos participantes em relação ao consumo de álcool, os pesquisadores concluíram que a ingestão moderada de bebidas alcoólicas pode reduzir o risco de morte prematura e por doenças cardiovasculares.
Os autores consideraram o consumo moderado como menos de 14 doses para homens e sete para mulheres por semana, sendo que uma dose equivale a 285 ml de cerveja, 120 ml de vinho e aproximadamente 30 ml de destilado.

Redução do risco

Ao longo dos anos, 34.754 participantes morreram de diversas causas. Entre eles, 8.947 mortes estavam relacionadas especificamente à doença cardiovascular e 8.427, ao câncer.
A partir desses dados, os cientistas chegaram a conclusão de que o consumo moderado do álcool estava associado a uma redução de morte prematura de 13% em homens e 25% em mulheres. Em relação à probabilidade de morte por doença cardiovascular, houve uma diminuição de 21% em homens e 34% em mulheres.

Consumo exagerado tem efeito contrário

Em contrapartida, os homens que bebiam quantidades acima do limite tinham 25% mais chances de morrer precocemente, de diversas causas, e 67% mais chances de morrer devido ao câncer. Nas mulheres, entretanto, esses riscos relacionados ao consumo excessivo não foram percebidos de forma significativa.
“Nosso estudo mostra que o consumo leve e moderado pode ter um efeito protetor contra doença cardiovascular, enquanto o consumo exagerado pode levar à morte”, disse Bo Xi, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Shandong, na China, e principal autor do estudo, ao jornal on-line britânico The Telegraph. “Existe um equilíbrio delicado entre os efeitos benéficos e prejudiciais do consumo do álcool, que devem ser postos em evidência.”

Estudo rigoroso

No estudo, os participantes foram divididos em seis grupos baseados nos diferentes padrões de consumo de álcool: pessoas abstêmias; pessoas que, em geral, beberam pouco ao longo da vida; pessoas que costumavam beber, mas reduziram o consumo consideravelmente (menos de três doses por semana); pessoas que bebem com moderação (mais de três doses por semana, mas dentro do limite) e pessoas que bebem em excesso (mais de 14 doses por semana entre os homens e mais de sete entre as mulheres).
“Nós consideramos abordagens estatísticas rigorosas para abordar questões relatadas em estudos anteriores, como o viés da pessoa que se absteve a vida inteira, o fenômeno do paciente que decidiu parar de beber e o ajuste de possíveis fatores limitadores”, explicou Sreenivas Veeranki, professor de medicina preventiva e saúde comunitária da Universidade do Texas. “Ainda assim, existe uma relação proporcional entre o consumo de álcool e a mortalidade, então as pessoas devem beber com consciência.”

Idosos

Segundo os especialistas, as descobertas mostram que, para a maioria das pessoas idosas, os benefícios gerais do consumo do álcool podem superar o possível risco de câncer. Apesar de o consumo excessivo do álcool estar associado a uma série de problemas de saúde, inclusive o risco cardíaco, ele pode ter um efeito protetor contra doenças se consumido com moderação.

domingo, 6 de agosto de 2017

Repetência não muda rota de fracasso escolar

Alunos brasileiros com bom desempenho no Pisa, teste internacional de aprendizagem, são minoria.
Pouquíssimos estudantes de 15 anos demonstram proficiência nas disciplinas testadas (matemática, ciências e leitura).
Isso vale até para a rede privada de ensino, embora a situação da rede pública seja ainda mais grave.
Entre os alunos das escolas públicas que prestaram o exame em 2015, cerca de 105 –que representam ínfimos 0,7% do total– atingiram pelo menos o nível 4 de conhecimento nas três áreas (em uma escala que vai de 0 a 6).
Os dados são estimativas feitas pela Fundação Lemann com base nas estatísticas do Pisa, aplicado a cada três anos pela OCDE.
O recorte é ainda mais chocante se for analisado o desempenho específico de adolescentes que já foram reprovados no início da vida escolar.
Apenas 1 aluno que havia repetido uma vez nos primeiros anos do ensino fundamental estava entre as 105 exceções de escolas públicas que obtiveram um bom resultado em 2015.
Se, em vez de olharmos os poucos adolescentes que conseguem ir bem, focarmos na maioria que vai mal, a análise é ainda mais angustiante.
Na rede pública, os alunos que não conseguiram atingir o nível 2 –considerado o mínimo para exercer a cidadania– nas três áreas de conhecimento do Pisa representavam metade do total. Entre eles, 38,3% tinham repetido pelo menos uma série nos anos iniciais do ensino fundamental.
Esses números reforçam as conclusões de outros estudos que indicam que a repetência raramente recupera quem já está numa rota de dificuldade escolar.
"A ideia por trás da reprovação é que a escola precisa reter por mais um ano o aluno com dificuldades para que ele consiga alcançar um bom desempenho. Mas sistematicamente isso tem falhado", diz Ernesto Martins Faria, economista da Fundação Lemann, responsável pelo levantamento.
Muitas vezes, o que ocorre é o oposto desse objetivo. Ao ficar atrasado em relação aos colegas, o aluno se sente desestimulado. Isso tende a piorar ainda mais o desempenho escolar e não raro termina no pior dos mundos: a evasão.
A repetência no Brasil tem caído, mas em um ritmo lento para um país com níveis ainda altos de reprovação.
No ensino médio, por exemplo, a taxa de repetência recuou de 12,2% em 2012 para 11,9% no ano passado.
Além disso, os dados de reprovação oscilam enormemente entre os diferentes municípios e estados.
Muitas escolas e redes que têm conseguido reduzi-la dizem investir no acompanhamento do aluno, procurando "recuperar" os que apresentam maior dificuldade constantemente e não apenas no final de ciclos específicos.
Mas vários programas nessa linha, chamados de correção de fluxo escolar, foram abandonados nos últimos anos sem que seus resultados tenham sido mensurados.
Falta ao Brasil uma cultura de análise da eficácia de políticas públicas que apoie os gestores a tomar decisões certeiras em meio a tantos problemas que precisam ser atacados ao mesmo tempo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O seu eu digital: a imagem projetada nas redes sociais

Selfie é o neologismo que melhor define a nossa era. É um autorretrato da superexposição voluntária nesta enorme praça pública que são as mídias sociais.
As fotos que tiramos e postamos continuamente na internet são parte de uma nova identidade, um "eu" digital que ganha a cada dia novas pinceladas. Um novo ser que parece ter vida própria e que vai sendo moldado também pelos "likes" e pelas interações em um imenso mosaico costurado por algoritmos, os códigos que acabam por desenhar esta nossa nova face pública.
Quem é esse outro eu digital que tem a sua cara e até os mesmos gostos? Que imagem você projeta a partir de suas pegadas digitais? Estamos o tempo todo fornecendo informações preciosas sobre nós mesmos nos nossos perfis no Facebook, no Instagram. Dados que podem ser coletados e usados por empresas, governos, concorrentes, amigos e inimigos.
A grande maioria de nós ainda é analfabeto digital, está engatinhando nestes intrincados caminhos da revolução tecnológica. Por esta razão, refletir sobre o uso responsável das tecnologias e da internet é questão de sobrevivência. É vital para podermos nos relacionar bem, aproveitarmos melhor as oportunidades, potencializarmos o nosso trabalho e até exercer a nossa cidadania. 
A vida é bem maior do que os nossos incessantes posts em redes sociais. Um "like" offline aquece mais o coração do que milhares de falsas interações no Facebook ou no Instagram.
Não custa lembrar que a vida é aquilo que acontece enquanto você está postando, curtindo fotos de amigos e desconhecidos ou até stalkeando (ato de perseguir virtualmente uma pessoa, analisando cada postagem) alguém na internet.
Portanto, mais importante do que a "selfie" é o "self" –um conceito da psicologia que pode ser resumido como o seu "eu", constituído de personalidade, cognições, pensamentos e sentimentos. Uma identidade que se forma a partir de aspectos conscientes e inconscientes, nuances que a inteligência artificial ainda não parece capaz de captar e traduzir.
E vai além de sua pegada digital, aquela que faz pipocar na sua timeline ofertas e mais ofertas de hotéis para um destino apenas pesquisado.
É tudo aquilo que nos faz únicos, é aquela digital que se imprime fora do mundo digital, no universo dos afetos, das trocas interpessoais, em meio a um dia a dia cada vez mais impactado pelas novas tecnologias.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O ato de escrever nos modifica, e é por essa razão que ele faz sentido

Há muitos anos, o escritor português Augusto Abelaira (1926-2003) classificou toda a literatura do mundo em apenas duas famílias: "Grandes Esperanças" e "Ilusões Perdidas". A brincadeira com as obras-primas de Dickens e Balzac poderia ser estendida ao temperamento dos escritores, os soturnos e os solares.
Como classificar e coçar é só começar, e a ficção -o nome já o diz- não é uma ciência, pensei em separar os escritores em função de como eles veem o mundo que pretendem "revelar". As aspas se explicam adiante.
A primeira vertente seria a conspiratória. Segundo ela, somos naturalmente seres negativos que se dirigem à morte. Infelizmente, não há nada que se possa fazer a respeito porque a natureza é soberana e a subjetividade, uma mentira. Pela escrita, fomos arrancados do aqui e agora do mundo natural, ao qual não podemos voltar.
Assim, escrever será sempre um processo insidioso de ocultação, e são impressionantes os meios de que dispõe a escrita para nos enganar, criando fantasmas paralelos e arbitrários que asfixiam o real tentando simular um impossível retorno à suposta paz primitiva.
É falsa portanto a distinção entre ficção e não ficção -tudo é ficção; ou, pior, tudo é uma mentira, e a penosa ética da escrita seria torná-la límpida, trazer a mentira à luz do sol, denunciando perpetuamente o fracasso, que, queiramos ou não, se volta sobre si mesmo. Não há escape ou segurança, exceto no próprio ato de escrever, que é, necessariamente, um ato de desespero.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quando a escola 'mata' o aluno

Fazendo leituras por aí, encontrei este texto e resolvi reproduzi-lo.

Texto de Érica Fraga

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ericafraga/2017/06/1892819-quando-a-escola-mata-o-aluno.shtml


"Se a escola destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre."
Quando ouvi a frase acima durante entrevista recente com o pesquisador Ricardo Paes de Barros, foi como um soco na boca do estômago.
As palavras dele me remeteram a histórias que tenho escutado de pais convocados para reuniões escolares nas quais ouvem dos responsáveis pedagógicos que seus filhos são incapazes de acompanhar o ritmo, de se comportar ou de se concentrar.
Vou me restringir a narrar uma delas com algum detalhe aqui.
Há pouco tempo uma amiga psicóloga me contou que sua empregada doméstica chegou a sua casa aos prantos depois de participar de uma reunião na escola pública municipal do filho, localizada em um bairro de classe alta de São Paulo.
A convocação ocorreu porque o menino, de cinco anos, vinha apresentando comportamento desobediente e, por vezes, explosivo (como chutar brinquedos quando era contrariado por amigos).
Essa mãe foi recebida pela coordenadora pedagógica, que comandou a conversa, e por uma assistente de direção.
Começou ouvindo, segundo seu relato, que seu filho era o principal desestabilizador de sua turma, que tinha tendência à agressividade e era insubordinado. Assustada, a mãe começou a chorar.
Ela tentou contar algo positivo que pensava em fazer para ajudar o filho: colocá-lo no judô para aumentar sua disciplina e concentração.
A coordenadora teria retrucado que isso só iria piorar as coisas pois ele se tornaria ainda mais violento. E a mãe continuou chorando.
Em um momento, a coordenadora pediu que chamassem o aluno à sala. Quando a criança entrou, ouviu dela que era o responsável pelo estado emotivo de sua mãe e que, se ela perdesse o emprego por estar ali na hora do trabalho, a culpa seria dele.
O menino, claro, caiu no choro também.
A mãe ficou arrasada e envergonhada. Seu primeiro pensamento foi o de persistir na estratégia que já vinha tentando: brigar com o menino em casa e puni-lo com castigo.
Mas contou toda a história para sua empregadora, que, chocada, resolveu agir em duas frentes.
Confirmou para sua funcionária o que ela já suspeitava, que a profissional que a recebeu havia se excedido, e a orientou a mudar de estratégia com o menino, a falar que juntos iriam superar aquilo, que ela iria ajuda-lo, que ele conseguiria melhorar seu comportamento.
Minha amiga ligou também para a escola, se desculpou pela intervenção, mas argumentou que, diante da gravidade do fato, gostaria de conversar pessoalmente com a diretora.
Foi bem recebida pela profissional que contou ter assumido há pouco tempo, vinda de outro estabelecimento, e afirmou não estar presente no dia da reunião com a mãe.
A assistente de direção, que havia presenciado a conversa entre coordenadora e mãe, confirmou a maior parte das informações relatada por ela.
Alegou que não fez nenhuma intervenção porque, como a diretora, era recém-chegada ao estabelecimento, mas afirmou que elas estavam tentando mudar a atitude de profissionais como aquela coordenadora.
Minha amiga perguntou se elas conheciam a história do menino e da mãe, que foram abandonados pelo pai dele ainda na gravidez. As profissionais admitiram que não e que isso era uma falha.
Ela saiu da escola com a impressão de que as duas tinham sido sinceras e com uma ponta de esperança de que realmente estavam empenhadas em mudar as coisas.
Essa história é chocante. Chamar uma criança de cinco anos para assistir ao sofrimento da mãe e ainda dizer que ela é a causadora de tudo aquilo é mais do que despreparo e abuso. Entra na classificação de crueldade.
Será que acontecimentos assim são uma exceção? Quero muito acreditar que sim, mas, com base em outros relatos que ouço, não tenho certeza.
Por isso entendi Paes de Barros, que é economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, quando ele afirmou que a escola pode matar o aluno.
É uma morte simbólica, da confiança, que geralmente deixa marcas.
Ele acrescentou que, embora isso também ocorra em escolas de classe alta, os pais, nesses casos, estão mais bem equipados para ajudar seus filhos a reconstruir sua autoestima.
Concordo. Mas, mesmo nessas situações, quando a escola sugere que o aluno é incapaz —ainda que a palavra usada não seja essa e que a abordagem seja mais polida—, há consequências.
A filha de uma família conhecida trocou de escola há pouco tempo porque "não estava acompanhando o ritmo" do estabelecimento, considerado muito puxado e exigente.
A transição não tem sido fácil. Ora ela se sente bem, mais valorizada na escola nova, ora se sente inferior aos amigos antigos que não precisaram fazer a mesma transição.
Parece que ainda falta compreensão sobre o verdadeiro papel da educação, que não é o de fazer com que todos cheguem ao mesmo patamar, mas ajudar cada um a atingir seu próprio potencial, a acreditar que tem uma vocação e a perseguir seus sonhos. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A FORMA DE FALAR (LINGUAGEM), TAMBÉM É UMA FORMA DE EXCLUSÃO E DE PODER!

É ingenuidade achar que a linguagem existe para facilitar o entendimento e a comunicação, e que qualquer desvio desse caminho solar deve ser classificado como erro, ruído, falha. A LINGUAGEM É UMA FORMA DE PODER.
A linguagem tem seu lado iluminado e seu lado escuro. É feita para explicar e confundir, revelar e esconder, promover a compreensão e desnortear, incluir e excluir. Às vezes, faz tudo isso na mesma frase.
Nem tudo o que habita as regiões trevosas é ruim ou mal-intencionado. Acreditar nisso seria –mais uma vez– ingênuo, por pressupor a possibilidade de uma linguagem toda reta e franca.
É na escuridão ou na penumbra que nascem os textos sagrados, as fórmulas encantatórias, a criptografia, grande parte da literatura, as gírias e a língua cifrada dos amantes. Infelizmente, também vem de lá a vasta legião dos embromadores.
"Como Escrever Bem" (Três Estrelas), o clássico manual de escrita do americano William Zinsser, faz uma defesa intransigente da clareza do texto. A certa altura, volta sua artilharia para o lero-lero da política.
"Permanecem os motivos para sérias preocupações, e a situação continua muito séria. E, quanto mais ela continuar a ser séria, mais motivos haverá para estarmos seriamente preocupados", disse em 1984, sobre a crise política na Polônia, o então secretário de Defesa dos EUA, Caspar Weinberger.
Se incluísse a política brasileira em sua pesquisa, Zinsser teria tido tempo –morreu em maio de 2015– de se deliciar com esta joia incomparável da arca de Dilma Rousseff: "Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder".
O discurso político que, por ensaboamento ou desarticulação, tece uma capa de palavras em torno do seu vazio é só uma das modalidades de abuso da boa-fé pública que a linguagem possibilita.
Outra é o eufemismo descarado que transforma o fechamento da fábrica em "descontinuação da unidade de produção" e vítimas civis de bombardeios em "danos colaterais".
Há ainda o jargão cascudo dos especialistas, com seus hermetismos arquitetados para excluir da conversa a maior parte da humanidade. E muitas vezes, como ocorre no trololó acadêmico mais opaco, também para disfarçar seu núcleo feito de coisa nenhuma.
Nada disso é contingente, falha infeliz num projeto de comunicação. Trata-se de um sistema que usa como instrumento de poder a distribuição antidemocrática do conhecimento e da compreensão. E que defende seu direito à embromação de forma aguerrida.
Uma notícia da semana passada ilustra bem o parágrafo anterior. O economista-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, foi afastado do comando do departamento de pesquisa da instituição por pressão dos subordinados.
Romer liderava uma cruzada para tornar mais clara a linguagem do banco. Nas palavras de Andrew Mayeda, o repórter da agência Bloomberg que deu a notícia, ele estava "frustrado com o estilo denso e enrolado de muitos dos relatórios do departamento" e pressionava seus subordinados a "escrever com mais clareza, usando a voz ativa para serem mais diretos".
Não sei se Romer era leitor de Zinsser, mas combatia o mesmo bom combate que o autor de "Como Escrever Bem". Perdeu, mas a luta continua.

7 sinais de que você está num relacionamento feliz, segundo a ciência (Para refletir)

Muitos relacionamentos passam por altos e baixos. Apenas alguns vão resistir à passagem do tempo.
Na ausência de uma bola de cristal que revele como será nosso futuro romântico, fomos buscar na ciência algumas evidências sólidas e até antiquadas de que nosso relacionamento é tão bom quanto achamos que ele é.
Veja sete sinais de que tudo vai bem com você e com o seu par.

1. Vocês dois já tiveram relacionamentos longos anteriores.

Ninguém gosta de ficar pensando em relacionamentos passados quando está apaixonado por uma pessoa nova. Mas, na realidade, lembrar dos amores passados pode nos ajudar em nosso relacionamento novo.
Segundo a Dra. Jacqui Gabb, especialista em relacionamentos, quem já amou antes não deve "fechar aquela experiência passada numa gaveta e esquecê-la". Em vez disso, é recomendável aprender com nossas experiências amorosas passadas, captando os sinais de alerta quando algo não vai bem e aprendendo quem merece continuar ao nosso lado.

2. Vocês se conheceram no Tinder.

...ou qualquer outro aplicativo online de namoro.
Um estudo descobriu que casais que se conheceram online, em vez de no trabalho ou em um bar, estão mais satisfeitos um com o outro, e as chances de seu relacionamento terminar são menores.
Segundo o estudo, "esses dados sugerem que a internet pode estar modificando a dinâmica e os resultados do casamento".

3. Vocês não postam fotos irritantes no Facebook.

Por mais que possa parecer tentador postar aquela selfie com a hashtag #metasdocasal no Facebook, um estudo constatou que os casais que não postam suas fotos em toda parte na internet geralmente são os mais felizes.
Isso é porque eles não ficam ansiosamente esperando que seu romance seja validado por outras pessoas. Lembre-se disso da próxima vez que estiver escolhendo o melhor filtro para otimizar as fotos tão descoladas de vocês dois.

4. Vocês dois curtem assistir ao Netflix juntos.

É a terceira noite de sexta-feira seguida que vocês dois pedem um jantar para delivery e se preparam para curtir horas diante da televisão. Pode parecer que vocês não estão tendo uma vida social incrível, mas, segundo pesquisadores, assistir a filmes e seriados juntos faz bem para os relacionamentos e para sua saúde.
Supostamente, fazer isso melhora a qualidade do tempo que vocês passam juntos. Evidentemente esses pesquisadores nunca viram vocês dois discutindo sobre spoilers de "Game of Thrones"....

5. Vocês dois se lembram de elogiar um ao outro.

Todo o mundo gosta de ouvir um elogio. Mas em um relacionamento estável, é fácil as pessoas se habituarem uma com a outra e deixar que falar bem uma da outra fique parecendo algo forçado.
Você vai gostar de saber que a ciência recomenda fazermos mais elogios aos nossos companheiros e lhes dizermos "obrigado" com mais frequência. Essas duas coisas estão entre os fatores mais importantes para manter seu relacionamento saudável.

6. Vocês fazem sexo uma vez por semana.

Se você estiver preocupado, pensando que as outras pessoas transam mais que vocês dois, sentirá alívio ao saber que, para um relacionamento feliz, o melhor é fazer sexo apenas uma vez por semana.
É claro que passar a noite com seu amor mais que uma vez por semana não fará mal nenhum, mas também não fará diferença para o nível de felicidade de vocês dois. Então talvez vocês prefiram conservar um pouco de sua energia.

7. Vocês dois não tiverem filhos juntos.

Talvez este não seja seu plano para sempre, mas curtam seus anos juntos sem filhos. Um dos maiores estudos de relacionamentos já conduzido no Reino Unido revelou que, se vocês quiserem ser superfelizes, é melhor não terem filhos.
Homens e mulheres sem filhos ficam mais satisfeitos com seus relacionamentos e têm mais chances de se sentirem valorizados por seus companheiros.

domingo, 28 de maio de 2017

Os alunos estão na rede! E a escola, o que tem a ver com isso?

Seguem youtubers – e há os que criam seus próprios canais e colecionam seguidores, criam grupos no WhatsApp, fazem buscas no Google, conhecem a “Siri”, acompanham séries, sabem dos últimos lançamentos em jogos online, constroem cidades no Minecraft, postam fotos no Instagram, fazem vídeos no Snapchat, acham o Facebook ultrapassado, ouvem música pelo Spotify… Nossos alunos são usuários de tecnologia, interessam-se por ela, são atingidos pelos seus mecanismos em diferentes âmbitos da vida social e da percepção de mundo. Numa dada realidade social, este é um fato: os meios digitais pularam os muros para dentro da escola! E nós, o que fazemos com isso?

Não se trata da vida fora da escola? Já não cuidamos de tantas coisas? São tantos conteúdos, tantas demandas, tantos planejamentos, tantas ideias, tantas provas a corrigir, tantos cadernos na nossa mesa… É preciso estabelecer prioridades! Mas não podemos ignorar o fato de que os meios digitais integram a nossa cultura e que nossos alunos são afetados por eles. A cultura contemporânea é midiática, formada por meios massivos de comunicação e tecnologia. Somos atores sociais imersos nesse caldo, que é atravessado por interesses de diferentes âmbitos: educacionais, sociais, políticos, culturais, entre tantos outros.
Olhar atentamente para esses aspectos e considerá-los na nossa ação educativa é partir do pressuposto de que nossa tarefa vai além dos currículos preestabelecidos para os contextos escolares, trata-se de atuar visando contribuir com uma formação cidadã das crianças e dos jovens que circulam nas escolas.
Nesse sentido, parece importante conhecer os usos que os alunos fazem dos meios digitais e elaborar propostas que tenham como objetivo aproximar-se de uma leitura crítica dos mesmos.
Saber o uso que os alunos fazem dos meios digitais? Para quê?!
“Como você não conhece?!”, a frase citada com olhos arregalados e entonação de espanto foi dita por alguns alunos de dez anos em uma situação em que comentavam sobre youtubers que seguiam. É para eles tão natural circular entre esses canais que o “não saber” gera estranhamento. Por caminhos variados, mas tendo como braço-forte o grande alcance e a força de se tornar parte da rotina, as redes sociais, os aplicativos, entre outros tantos aparatos, chegam sem pedir licença e fazem morada no cotidiano das crianças.
Como professoras, ouvimos os comentários que fazem em conversas informais, ficamos sabendo – e não é raro termos que intervir – em conflitos relacionados às redes sociais, como divulgação de fotos pessoais ou compartilhamento de senhas. Uma geração de links, senhas, abas, redes e conexões que chegam diariamente às escolas e com as quais damos de cara sem saber muito bem o que se passa, mas com a certeza de que esses meios digitais são parte do que vai constituindo essas crianças e jovens.
Com o intuito de conhecer um pouco mais sobre os meios digitais de que nossos alunos fazem uso, propusemos a duas turmas de 5ºs anos uma brincadeira ao estilo de um “Stop”. A proposta havia sido realizada com o grupo de educadores que participou daViagem Pedagógica da Vila durante aula com Débora Nakache e Gabriela Rubinovich, em que trataram de propostas e experiências acerca do trabalho em escolas com a produção e leitura de meios audiovisuais.
Na brincadeira, deveriam entrevistar o maior número possível de colegas sobre quais meios costumam usar, dentre eles: onde ouvem música, o que assistem na TV, como se comunicam com os colegas a distância, se seguem algum youtuber, qual rede social mais usam, etc. Para as crianças, um momento de diversão; para nós, um bom quadro revelador dessa relação e uso dos meios.
Ao ler as respostas, tivemos a comprovação de nossas percepções sobre o grande uso desses meios na vida cotidiana das crianças. Em uma das turmas de 25 alunos, por exemplo, 19 seguem algum canal do YouTube, 13 utilizam WhatsApp, apenas 1 não acompanha uma série. Considerar essa realidade parece-nos um elemento importante se optamos por um trabalho que vise uma formação cidadã mais abrangente.
Ampliar potencialidades de saber mais sobre um tempo, sobre um espaço e sobre uma forma de conceber a sociedade e seus sujeitos é papel da escola, e não se pode desconsiderar que em nosso tempo e espaço os meios digitais são uma realidade. Se sabemos melhor como pensam os alunos, que ferramentas usam, que leituras – na maior parte das vezes ingênuas – fazem desses usos, podemos escolher caminhos e ajustar intervenções visando criticidade.
Mas afinal, o que cabe à escola?
As crianças usam os meios digitais de maneira intuitiva porque fazem esse manejo cotidianamente. Mas, no contexto escolar, é com a mediação do professor que pode haver reflexões mais intencionais sobre eles, possibilitando construir e desconstruir sentidos do que é observado e vivido.
“Os meios constituem uma dimensão fundamental de nossa experiência contemporânea. Estão em todas as partes, são cotidianos e permanentes. Não podemos fugir da presença deles e de suas representações. Dependemos deles para nos informar, para o prazer, para usar o tempo livre, para conforto e segurança. Estão com intensidade em nossa vida cotidiana.” (R. Silverstone)
Um ensino que considera o aluno como sujeito atuante, reflexivo, de um determinado espaço e tempo dinâmicos precisa oferecer situações nas quais ele possa olhar para os meios digitais como fruto de uma construção social e que, assim sendo, não são neutros ou isentos de intencionalidades, ao contrário, são resultados de escolhas, de recortes, de interpretações, assim como os livros, os filmes. O que determinará o caminho a trilhar e as propostas a serem construídas diante dessa nova realidade posta está muito mais relacionado à escolha do tipo de aluno que queremos ajudar a formar e a forma como enxergarmos nossas crianças do que o tipo de ferramenta ou tecnologia que serão usadas.
Para NAKACHE, os professores “deveriam ensinar-lhes [aos alunos] a orientar-se em um mundo contemporâneo, ensinar-lhes aquilo que a tecnologia por si só não pode ensinar e que um indivíduo isolado não pode construir”. (NAKACHE, 2003).
Todos os sites do mundo aparecem em uma pesquisa no Google? Você já reparou nas propagandas que aparecem no Youtube? Por que os programas de TV têm determinados cenários e trilhas sonoras, o que provocariam em quem assiste se as escolhas fossem outras? São muitas as possíveis perguntas que podem ser feitas dentro de um projeto de trabalho que procure promover o exercício de práticas sociais de interpretação e produção em meios digitais para que possam ampliar estratégias de entendimento de seus modos de funcionamento, suas lógicas de produção e circulação.
Os meios digitais na escola podem ser conteúdo e recurso de ensino, desde que as ferramentas escolhidas não ocupem o centro do trabalho, mas que estejam a serviço de resolver problemas postos tendo como grande objetivo a formação de alunos críticos que gradativamente passem a perceber que esses meios são produtos que geram determinados sentidos e significados para, dessa forma, desnaturalizá-los.
Finalizando, entendemos que compete à escola encarar a formação do usuário de tecnologias e converter seus usos em ricos processos de aprendizagem.