domingo, 21 de julho de 2013
A Educação nos Primeiros Dias
Se nosso mundo parece imperfeito, injusto, repleto de indivíduos egoístas, onde o conflito pessoal parece ser uma coisa inevitável, nós, como adultos e educadores, precisamos aprender alguma coisa, algo além das fórmulas que já foram exaustivamente tentadas para resolver essa questão.
Mas, do mesmo modo do agricultor que deseja se tornar mestre em cultivo precisa conhecer porque sua colheita não se desenvolve adequadamente, como educadores, também precisamos saber porque nossas crianças e alunos continuam a repetir os antigos e distorcidos comportamentos, os mesmos que construíram o mundo repleto de vícios e imperfeições, que ora não nos agrada.
A lógica é bem simples: se não nos agrada - achamos que isso se aplica a uma maioria - por que razão se perpetua ao longo dos séculos o sofrimento humano e suas causas, os conflitos entre indivíduos, a violência, a inveja, e todas essas coisas que conhecemos bem? Por que continuam nossos filhos, e filhos destes, a repetirem os mesmos conflitos dos seus antepassados, as mesmas angústias, as mesmas formas de medo, tamanha confusão?
Será que, como educadores e pais, ainda não dos damos conta de tudo isso, incluindo os ciclos que se repetem, dos comportamentos que criam novos indivíduos a imagem e semelhança dos antigos, onde se incluem seus problemas? Especialmente como pais, será que não temos em nossos filhos uma cópia de nossas angústias pessoais, gostos e tradições, exatamente como também já fizeram conosco nossos pais, e como já herdaram nossos avós, dos seus predecessores?
Reconhecer onde está um problema deve ser a primeira providência a ser tomada por aquele que pretende solucioná-lo. Mas, se apenas deseja repassá-lo como herança à posteridade, então nada deve ser feito, apenas repetir o processo, replicar aquilo que já aprendemos.
Se de uma sementeira, apenas alguns grãos são capazes de germinar, reconhecer que ali, dentre os sadios, existem grãos defeituosos, deve ser o primeiro passo do agricultor que pretende ter uma boa colheita. Depois, como ele fará para separar os defeituosos dos sãos, deverá ser sua providência para resolver o problema.
O Cuidar tem hora para começar, jamais para terminar.
Supondo que assim seja por tradição, isto é, que sementes saudáveis, por força de antigos costumes praticados durante anos, onde, aquele que não serve é igualmente misturado ao que serve, continuar com tal prática, sugere que uma boa colheita jamais será possível. Ciente de que na antiga prática está o problema, parte da solução já está encaminhada.
Supondo que alguém, ao dirigir-se ao rio para coletar água e levar para sua casa, perceba que seu vasilhame está com muitos furos. Assim, depois de tentar várias vezes transportar a água, ele percebe que, se caminhar mais depressa, poderá chegar em casa, com uma quantidade maior de água. Então ele resolve que aquilo é a solução para o problema, e daí passa o costume para seus herdeiros.
Agindo dessa forma, não estaria resolvendo o problema, mas, apenas admitindo que tal prática ou processo defeituoso seja coisa válida. Seria o mesmo que tentar resolver o problema do sofrimento humano, apenas aumentando, por exemplo, as formas capazes de lhes proporcionar algum tipo de alegria.
Assim, como pais e educadores, se de verdade nos preocupamos com o futuro de nossos filhos e alunos, com a continuidade do homem sobre a terra, em primeiro lugar, precisamos estar cientes de que todas as deformações sociais, têm como base, nossos modelos de conduta que se arrastam através dos tempos. Estão incrustadas em nossas vidas, como tradições, como dogmas, como verdades intocáveis, incontestáveis, que acabamos por aceitar como coisas necessárias, imprescindíveis ao nosso viver.
Reconhecer onde está o problema é parte da solução. Depois, reconhecer que o novo modelo não pode ser derivado do antigo, é a solução em si. De que adianta descobrirmos uma nova forma de arar e preparar o terreno, novos fertilizantes e meios de irrigação, se as sementes continuam as mesmas de antes?
Cumpre como de extrema urgência a pais e educadores, descobrirem por si mesmos a verdade contida em tudo isso, pois apenas dessa forma serão capazes de não repetirem os antigos vícios, todas as antigas e mal sucedidas formas de conduta. E, apenas pelo reconhecimento inequívoco de que a solução não virá de fora, de uma espécie de entidade mágica que irá se materializar para resolver nossos problemas, a troco de nossos agrados e penitências, só assim, pela negação de tudo isso, poderemos, juntos, com seriedade, tentar resolver de uma vez a questão.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
A desvalorização do professor na sociedade atual
Desde que o mundo é mundo temos em nosso meio uma célebre frase: “no meu tempo as coisas eram bem melhores…”. Com certeza ela vem carregada de fortes ingredientes saudosistas e alguns outros de desconhecimento histórico. Quando se fala do professor, essa frase tem um peso ainda maior. Aqueles que hoje ultrapassaram os 40 ou 50 anos de idade e tiveram a oportunidade de estudar são os mais enfáticos nessa afirmação. Todavia, precisamos ter cuidado com as comparações, porque a história mostra claramente os motivos que levaram nossa sociedade a descaracterizar tão rapidamente o professor.
Não podemos nos esquecer que até os anos 60 do século passado, estudar era um privilégio de poucos. Menos de 30% das crianças tinham acesso aos estudos. Isso no chamado primário, pois para seguir existia o exame de admissão – uma espécie de “bloqueador” da continuidade – que só foi abolido nos anos finais daquela década. Privilégio que o Estado garantia para suas classes mais abastadas ou com maior capacidade de acesso por outros motivos, inclusive de localização territorial. Um dado que pode demonstrar isso é o de que quando da universalização do ensino fundamental, em 30 anos (1975-2005) o número de matrículas no norte do país aumentou de 780 mil alunos para 3.350.000, enquanto no sul do país a evolução foi de 3.590.000 para 4.228.000, ou seja, enquanto no primeiro foi da ordem de 329%, no segundo foi de 17%.
A universalização do ensino fundamental iniciada no final dos anos 70 do século passado e alcançada no ano 2000 foi acompanhada de uma série de outros fatores que levaram a profissão de professor perder seu valor social e econômico. Os investimentos em estrutura física não foram acompanhados por investimentos em pessoas. Pelo contrário, o grande aumento na oferta de vagas foi acompanhado pela admissão de profissionais com titulação inadequada para executar a profissão de professor, barateando o valor do trabalho. Isso trouxe outro fenômeno: a necessidade de “agilizar” a formação dos professores acabou trazendo para nossa realidade “cursos rápidos” de formação de professores que diminuíram e muito a qualidade dessa formação. Até bem pouco atrás tempo tínhamos cursos ditos universitários para professores com duração de dois anos. Isso porque até 1997 mais de 50% dos profissionais da educação só tinham o ensino médio completo.
Também nesse momento histórico o fenômeno do trabalho feminino ganhava força no país. E essa “força de trabalho emergente” na procura por seu espaço laboral, sujeitava-se a remunerações muito abaixo das dos homens. Não só na educação, mas principalmente nela isso foi determinante para as estratificações salariais observáveis no magistério em nosso país. Explicando: o maior contingente de professoras mulheres está na educação infantil e no ensino fundamental, onde os salários são os mais baixos do país e onde a demanda de educandos é infinitamente maior. Quando avançamos na hierarquia formativa, observamos uma inversão nesse quadro. No ensino médio existe quase que uma paridade entre homens e mulheres e no ensino superior, onde os salários são convidativos, a predominância de homens é significativa.
Portanto, a desvalorização do profissional da educação não aconteceu por acaso no Brasil. Hoje temos cerca de 2,3 milhões de professores espalhados por este país vivendo realidades as mais variadas. Só numa coisa eles têm uniformidade: sua desvalorização. É aviltante acompanharmos o atual debate do piso salarial dos professores onde diversos Estados e municípios não querem praticá-lo. Está mais do que na hora de o governo federal aumentar sua participação nos investimentos da educação básica. Dados de 2009 revelam que para cada R$ 1,00 investido na educação básica, os Estados investem $ 0,41, os municípios $ 0,39, a União entra com somente $ 0,20. Está mais do que na hora de os Estados e municípios aumentarem seus investimentos na educação – 25% não são suficientes para atingirmos os amplos objetivos educacionais que temos. Está mais do que na hora de se rever a Lei de Responsabilidade Fiscal no que tange a folha de pagamento da educação, já que a mesma é um fator inibidor para as esferas públicas investirem mais nos salários.
Concluo dizendo que hoje o maior desafio para nossa educação é a formação e a valorização do nosso professor. Se não resolvermos essa equação, não teremos muitas perspectivas no campo educacional. E isso não se dá com discurso. Só existe uma forma disso ser conquistado: investimentos maciços no sistema educacional brasileiro. Só assim poderemos ter além da universalização das vagas, professores reconhecidos e capacitados para sua profissão e para a educação de nossos filhos.
Educação no Brasil
Ao propor uma reflexão sobre a educação brasileira, vale lembrar que só em meados do século XX o processo de expansão da escolarização básica no país começou, e que o seu crescimento, em termos de rede pública de ensino, se deu no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980.
Com isso posto, podemos nos voltar aos dados nacionais:
O Brasil ocupa o 53º lugar em educação, entre 65 países avaliados (PISA). Mesmo com o programa social que incentivou a matrícula de 98% de crianças entre 6 e 12 anos, 731 mil crianças ainda estão fora da escola (IBGE). O analfabetismo funcional de pessoas entre 15 e 64 anos foi registrado em 28% no ano de 2009 (IBOPE); 34% dos alunos que chegam ao 5º ano de escolarização ainda não conseguem ler (Todos pela Educação); 20% dos jovens que concluem o ensino fundamental, e que moram nas grandes cidades, não dominam o uso da leitura e da escrita (Todos pela Educação). Professores recebem menos que o piso salarial (et. al., na mídia).
Frente aos dados, muitos podem se tornar críticos e até se indagar com questões a respeito dos avanços, concluindo que “se a sociedade muda, a escola só poderia evoluir com ela!”. Talvez o bom senso sugerisse pensarmos dessa forma. Entretanto, podemos notar que a evolução da sociedade, de certo modo, faz com que a escola se adapte para uma vida moderna, mas de maneira defensiva, tardia, sem garantir a elevação do nível da educação.
Logo, agora não mais pelo bom senso e sim pelo costume, a “culpa” tenderia a cair sobre o profissional docente. Dessa forma, os professores se tornam alvos ou ficam no fogo cruzado de muitas esperanças sociais e políticas em crise nos dias atuais. As críticas externas ao sistema educacional cobram dos professores cada vez mais trabalho, como se a educação, sozinha, tivesse que resolver todos os problemas sociais.
Já sabemos que não basta, como se pensou nos anos 1950 e 1960, dotar professores de livros e novos materiais pedagógicos. O fato é que a qualidade da educação está fortemente aliada à qualidade da formação dos professores. Outro fato é que o que o professor pensa sobre o ensino determina o que o professor faz quando ensina.
O desenvolvimento dos professores é uma precondição para o desenvolvimento da escola e, em geral, a experiência demonstra que os docentes são maus executores das ideias dos outros. Nenhuma reforma, inovação ou transformação – como queira chamar – perdura sem o docente.
É preciso abandonar a crença de que as atitudes dos professores só se modificam na medida em que os docentes percebem resultados positivos na aprendizagem dos alunos. Para uma mudança efetiva de crença e de atitude, caberia considerar os professores como sujeitos. Sujeitos que, em atividade profissional, são levados a se envolver em situações formais de aprendizagem.
Mudanças profundas só acontecerão quando a formação dos professores deixar de ser um processo de atualização, feita de cima para baixo, e se converter em um verdadeiro processo de aprendizagem, como um ganho individual e coletivo, e não como uma agressão.
Certamente, os professores não podem ser tomados como atores únicos nesse cenário. Podemos concordar que tal situação também é resultado de pouco engajamento e pressão por parte da população como um todo, que contribui à lentidão. Ainda sem citar o corporativismo das instâncias responsáveis pela gestão – não só do sistema de ensino, mas também das unidades escolares – e também os muitos de nossos contemporâneos que pensam, sem ousar dizer em voz alta, “que se todos fossem instruídos, quem varreria as ruas?”; ou que não veem problema “em dispensar a todos das formações de alto nível, quando os empregos disponíveis não as exigem”.
Enquanto isso, nós continuamos longe de atingir a meta de alfabetizar todas as crianças até os 8 anos de idade e carregando o fardo de um baixo desempenho no IDEB. Com o índice de aprovação na média de 0 a 10, os estudantes brasileiros tiveram a pontuação de 4,6 em 2009. A meta do país é de chegar a 6 em 2022.
Eliane da Costa Bruini
sábado, 8 de junho de 2013
Valorizar o professor, tem certeza?
Sou daquelas que não acredita em ideia brilhante que produza educação de qualidade sem educadores e, para mim, internet, livro, música, lousa, ferramenta, vídeo, robô ou o que for, vem depois de garantir uma pessoa preparada para lidar com os alunos . A maioria (fiquei tentada a dizer todos, mas vá lá) dos especialistas e autoridades de Educação que entrevisto juraria o mesmo e, pelo resultado da enquete com 25 mil votantes do iG sobre qual é a meta mais importante do Plano Nacional de Educação (PNE), essa é a prioridade para 78% das pessoas. Não pode ser.
Como para tudo na vida, virão os que gostam de dizer que a culpa é dos governantes. Claro que sim: se a valorização do professor não fosse apenas bordão, qualquer dinheiro de tablet, uniforme para crianças que nem querem usá-lo e compra de material didático que em geral já existe viraria investimento na formação e no bolso do professor. Inclusive, desconfio que há mais razões do que a simples ideologia para que governos privilegiem compras – e portanto pagamento a empresas que podem se tornar parceiras em campanhas – do que investimento em pessoal. Mas qual a reação que você leitor e cidadão tem quando vê o aluno com um computador portátil na rede pública? E quando se depara com professor em greve?
Há poucas semanas, mais ou menos quando as redes estadual e municipal de São Paulo estavam parcialmente paralisadas, os professores também pararam na Dinamarca. Lá foram quatro semanas inteiras em que todos deixaram de trabalhar e, como no país com um dos melhores sistemas de ensino do mundo educação pública não difere classe social, todos os pais se viram com seus filhos em casa por um mês. Confesso que encontrei um número reduzido de relatos sobre o assunto, mas em geral os depoimentos ou reportagens comentavam como as famílias se revezaram para cuidar das crianças umas das outras ou as empresas permitiram que os funcionários levassem visitantes mirins aos escritórios. Nenhum insultava as pessoas a quem depois seria confiada a educação das crianças e adolescentes.
Todos sabemos que no Brasil é diferente. Os alunos que agem com violência contra os mestres nas escolas são apenas reflexo da sociedade toda. Quando na matéria “As vidas que o PNE poderia mudar”, o professor Renato Ribeiro disse que chega a ganhar R$ 53 por mês – com holerite oficial do Governo do Estado de São Paulo na mão e explicação para o absurdo no texto – nem um, nem dois, mas vários leitores o acusaram de mentiroso. Nenhum prestou solidariedade. No máximo, outros professores corroboraram a informação.
Em um outro comentário, do Geraldo Donizete dos Santos, fica claro que não é só o salário que desvaloriza: “Sou aluno de ciências sociais e apesar da grande carência de professores na rede pública estadual, prefiro dar aula para cachorro, pois sou adestrador de cães e é com esta profissão que pago minha faculdade e mantenho minha família. Infelizmente o governo de São Paulo coloca o professor e os alunos abaixo de cães. Como adestrador mantenho minha dignidade.” Lembrei da Geni, do Chico Buarque.
Não se trata de mandar uma maçã para o professor – se bem que até um gesto simpático seria benvindo – mas ajustar o discurso à prática.
Autor: Cinthia Rodrigues
http://colunistas.ig.com.br/escola-publica/2013/06/07/valorizar-o-professor-tem-certeza/?doing_wp_cron
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Noções de Inclusão
Há várias maneiras de se compreender o processo de inclusão; uma delas é inserir socialmente um individuo contra o preconceito a sua volta. Seja ele por ser o indivíduo portador de necessidades especiais, obter ideologia religiosa, pertencer a classes sociais, raça ou cultura diferente, etc. Mas para que se possa entender o processo de inclusão deve-se compreender a falta dela.
Atualmente, pode-se observar que o conceito sobre exclusão é muito amplo. Segundo AMARO (2004), "vários fatores pode levar alguém a ser excluído socialmente". Tais como:
Fatores de natureza estrutural: Relacionado ao sistema econômico, desenvolvimento estrutural, ambientes dominantes, paradigmas culturais, etc.
Fatores de âmbito local: condições que interferem no cotidiano do individuo. Como preconceitos culturais e sociais, mercado de trabalho, normas e comportamentos sociais, etc.
Fatores de nível individual e familiar: Refere-se às situações pessoais e familiares, capacidades frustradas ou não valorizadas, situações de desemprego, grau de escolaridade, etc.
Uma das formas de trabalhar esses fatores em sala de aula é por meio do processo teoria-prática. Paulo Freire relaciona a teoria e a prática de forma indivisível. Para Freire não faz sentido a elaboração de uma teoria sem uma prática condizente com a realidade do aluno, que não esteja relacionada com o meio que o indivíduo está inserido. E é a partir deste processo teoria-prática que será planejado e organizado o processo ensino-aprendizagem, cabendo ao professor transmitir para o aluno uma mensagem por trás de tudo que é trabalhado em sala de aula, seja leituras, viagens, músicas, jogos, etc. Mas que transmita para o aluno algo que o leve a fazer uma relação com suas experiências dentro e fora da escola de uma forma interpessoal e multidimensional. É formar um aluno ativo e participante não apenas nas semanas das provas.
Propõe assim, que "falemos menos e trabalhemos mais", isto é, mais ação e menos teorias, o que na maioria das vezes ficam apenas no papel. Como por exemplo, alguns temas transversais do decálogo da educação em valores da LDB. Que seriam: Capacidade de convivência; Igualdade de direitos; Justiça; Respeito mútuo.
Os temas citados são basicamente obrigatórios, mas praticamente não são cumpridos por todos, na maiorias das vezes por causa da falta do diálogo.
Pode-se dizer que o diálogo é a palavra fundamental em toda e qualquer relação social. É uma forma de estar no mundo, convivendo com as outras pessoas e aprendendo sempre. Pois é por causa desta interação com as outras pessoas que somos seres sociáveis.
E, para que este diálogo seja posto em prática na sala de aula, a escola tem que fazer uma leitura social através de cada geração, cada século, de cada cultura para poder adaptar a escola ao aluno de acordo com seu ambiente fora da mesma.
Se o professor for parar para observar o motivo de muitos alunos tomarem determinadas atitudes dentro da sala de aula, ele irá ter a noção de que os alunos com problemas interpessoais não estão apenas nos livros dos professores ou nos noticiários, e sim que estes problemas e dificuldades estão bem vivos dentro e fora da escola. Sendo transmitido em seus alunos. Com isso, o professor irá perceber que cada aluno tem uma história de vida diferente, que cada um traz para a escola um pouco do que vivencia, e que não são uma ?tábua rasa? esperando apenas que o professor com sua educação bancária, deposite neles os conteúdos e espere o dia da prova para "sacar" exatamente a quantidade que foi depositada.
Outra forma que também pode levar à exclusão é a educação da opressão. De acordo com Paulo Freire (1996), "Se recusa, de um lado, silenciar a liberdade dos educandos, rejeita, de outro, a sua supressão do processo de construção da boa disciplina." Ou seja, faz do aluno um oprimido que acha que tudo dito pelo seu opressor (professor) seja de certeza plena.
Aos referentes lidos, pode ser afirmado que nenhum conhecimento é finito, isto é, o conhecimento não acaba quando o professor cala. O aluno não deve estar satisfeito apenas com o que lhe é dito pelo professor. Deve ter a paciência impaciente de sempre ir em busca de um algo mais, algo além do que lhe é transmitido.
Com isso, o professor também deve ter a consciência de que o conhecimento é inacabado. De que o que seu aluno aprende não apenas o que ele ensina; e que tudo o que o aluno ? excluído ou não ? de hoje aprende, vai refletir na sociedade do amanhã. Sociedade essa em que todos vão fazer parte, e também as futuras gerações dos próprios professores.
E para que seu aluno não se depare sendo mais um excluído entre tantos na sociedade, professor deve despertar no aluno uma autonomia. Dar ao mesmo o direito da decisão. E, a partir daí, mostrar-lhe que ele será o responsável pelos seus erros e atitudes diante do contexto cultural em que o mesmo está inserido. Assumindo o compromisso da liberdade. Tomando suas próprias decisões com um olhar critico perante a sociedade em que vive.
Pode-se dizer que o paradigma da inclusão é, justamente, tornar a sociedade um ambiente agradável para convivência entre as pessoas com todos os tipos de inteligências e capacidades na luta pela realização de seus direitos.
Para que o professor reconheça qual sua meta verdadeira com relação à educação de seus alunos é necessário que este se sinta realmente respeitado e valorizado perante todos da sociedade em que vive. Pois se qualquer pessoa que seja for desrespeitada por alguém, logo, a mesma irá inconscientemente ou não transmitir essa indignação pra todos à sua volta. Justamente como afirma Paulo Freire (1996), "o respeito que devemos como professores aos educandos dificilmente se cumpre, se não somos tratados com dignidade e decência pela administração privada ou publica da educação."
Autor: Nancí da Silva Tavares Abreu
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Maioria dos métodos de estudar para provas não funciona, diz estudo.
Os métodos favoritos de se preparar para provas escolares não são os que garantem os melhores resultados para os estudantes, segundo uma pesquisa feita por um grupo de psicólogos americanos.
Universidades e escolas sugerem aos estudantes uma grande variedade de formas de ajudá-los a lembrar o conteúdo dos cursos e garantir boas notas nos exames. Entre elas estão tabelas de revisão, canetas marcadoras, releitura de anotações ou resumos, além do uso de truques mnemônicos ou testar a si mesmo.
Mas segundo o professor John Dunlosky, da Kent State University, em Ohio, nos Estados Unidos, os professores não sabem o suficiente sobre como a memória funciona e quais as técnicas são mais efetivas. Dunlosky e seus colegas avaliaram centenas de pesquisas científicas que estudaram dez das estratégias de revisão mais populares, e verificaram que oito delas não funcionam ou mesmo, em alguns casos, atrapalham o aprendizado.
Por exemplo, muitos estudantes adoram marcar suas anotações com canetas marcadoras. Mas a pesquisa coordenada por Dunlosky - publicada pela Associação de Ciências Psicológicas - descobriu que marcar frases individuais em amarelo, verde ou rosa fosforescente pode prejudicar a revisão.
"Quando os estudantes estão usando um marcador, eles comumente se concentram em um conceito por vez e estão menos propensos a integrar a informação que eles estão lendo em um contexto mais amplo", diz ele. "Isso pode comprometer a compreensão sobre o material", afirma.
Mas ele não sugere o abandono dos marcadores, por reconhecer que elas são um "cobertor de segurança" para muitos estudantes.
Resumos e mnemônicos
Os professores regularmente sugerem ler as anotações e os ensaios das aulas e fazer resumos. Mas Dunlosky diz: "Para nossa surpresa, parece que escrever resumos não ajuda em nada".
"Os estudantes que voltam e releem o texto aprendem tanto quanto os estudantes que escrevem um resumo enquanto leem", diz.
Outros guias para estudo sugerem o uso de truques mnemônicos, técnicas para auxiliar a memorização de palavras, fórmulas ou conceitos. Dunlosky afirma que eles podem funcionar bem para lembrar de pontos específicos, como "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, Seno A Cosseno B, Seno B Cosseno A", para lembrar a fórmula matemática do seno da soma de dois ângulos: sen (a + b) = sena.cosb + senb.cosa.
Mas ele adverte que eles não devem ser aplicados para outros tipos de materiais: "Eles não vão te ajudar a aprender grandes conceitos de matemática ou física".
Repetição
Então, o que funciona?
Somente duas das dez técnicas avaliadas se mostraram efetivas - testar-se a si mesmo e espalhar a revisão em um período de tempo mais longo.
"Estudantes que testam a si mesmos ou tentam recuperar o material de sua memória vão aprender melhor aquele material no longo prazo", diz Dunlosky. "Comece lendo o livro-texto e então faça cartões de estudo com os principais conceitos e teste a si mesmo. Um século de pesquisas mostra que a repetição de testes funciona", afirma.
Isso aconteceria porque o estudante fica mais envolvido com o tema e menos propenso a devaneios da mente.
"Testar a si mesmo quando você tem a resposta certa parece produzir um rastro de memória mais elaborado conectado com seus conhecimentos anteriores, então você vai construir (o conhecimento) sobre o que já sabe", diz o pesquisador.
'Prática distribuída'
Porém a melhor estratégia é uma técnica chamada "prática distribuída", de planejar antecipadamente e estudar em espaços de tempo espalhados - evitando, assim, de deixar para estudar de uma vez só na véspera do teste.
Dunlosky diz que essa é a estratégia "mais poderosa". "Em qualquer outro contexto, os estudantes já usam essa técnica. Se você vai fazer um recital de dança, não vai começar a praticar uma hora antes, mas ainda assim os estudantes fazem isso para estudar para exames", observa.
"Os estudantes que concentram o estudo podem passar nos exames, mas não retêm o material", diz. "Uma boa dose de estudo concentrado após bastante prática distribuída é o melhor caminho", avalia.
Então, técnicas diferentes funcionam para indivíduos diferentes? Dunlosky afirma que não - as melhores técnicas funcionam para todos. E os especialistas acreditam que esse estudo possa ajudar os professores a ajudar seus alunos a estudar.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Escolas públicas terão prazo limite de até oito anos para alfabetizar crianças
O Senado Federal aprovou, nesta terça-feira (26), a Medida Provisória 586/12, que cria incentivos públicos para a alfabetização de todas as crianças com até oito anos de idade nas escolas públicas. O texto da medida será convertido em lei com a sanção da presidenta Dilma Rousseff.
A MP viabiliza as ações do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, uma iniciativa do governo federal, em parceria com estados e municípios. O objetivo é alfabetizar as crianças ao final do 3º ano do ensino fundamental da educação pública básica e, no máximo, com oito anos. Tudo para garantir que, até essa idade, elas saibam escrever, ler e interpretar textos simples, além de dominar as operações matemáticas básicas. Aproximadamente 5.270 municípios já aderiram ao Pacto.
O texto da MP estabelece o dia 31 de dezembro de 2022 como data limite para o cumprimento da meta de alfabetizar as crianças da rede pública até os oito anos de idade. O apoio financeiro, por exemplo, se dará pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), com o investimento na formação continuada dos professores alfabetizadores, a concessão de bolsas para os educadores e o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos, entre outras medidas.
O Pacto
O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa é um compromisso formal assumido pelos governos federal, do Distrito Federal, dos estados e municípios de assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3º ano do ensino fundamental.
Isto significa que, aos oito anos de idade, as crianças precisam ter a compreensão do funcionamento do sistema de escrita; o domínio das correspondências grafofônicas, mesmo que dominem poucas convenções ortográficas irregulares e poucas regularidades que exijam conhecimentos morfológicos mais complexos; a fluência de leitura e o domínio de estratégias de compreensão e de produção de textos escritos.
A alfabetização é uma das prioridades nacionais no contexto atual, pois o professor alfabetizador tem a função de auxiliar na formação para o bom exercício da cidadania. Para exercer sua função de forma plena é preciso ter clareza do que ensina e como ensina. Para isso, não basta ser um reprodutor de métodos que objetivem apenas o domínio de um código linguístico. É preciso ter clareza sobre qual concepção de alfabetização está subjacente à sua prática.
Ao aderir ao Pacto, os entes governamentais se comprometem a alfabetizar todas as crianças em língua portuguesa e em matemática, realizar avaliações anuais universais, aplicadas pelo INEP, junto aos concluintes do 3º ano do ensino fundamental e, no caso dos estados, apoiar os municípios que tenham aderido às Ações do Pacto, para sua efetiva implementação.
Apenas cinco estados cumprem integralmente lei do piso dos professores
Apenas quatro estados e o Distrito Federal cumprem integralmente a Lei do Piso Nacional do Magistério (Lei 11.738/2008), informou a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Desde que foi sancionada, a lei é motivo de embate entre professores, governos estaduais e prefeituras. Prefeitos e governadores argumentam não ser possível pagar o valor proposto com os repasses atuais para a educação. O valor piso salarial nacional do magistério da educação básica em 2011 é de R$ 1.567.
O Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que, embora tenha sido editada em 2008, a lei tem validade a partir de abril de 2011, data quando a Corte confirmou sua legalidade. Os ministros atenderam a recursos do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Ceará e Mato Grosso do Sul, que alegaram dificuldades para adaptar as finanças às novas regras. A decisão resolve dúvidas sobre a formação de passivo que poderia ser cobrado pelos professores pelos salários inferiores ao piso antes de 2011.
De acordo com o presidente da CNTE, Roberto Leão, a decisão do STF não deixa mais nenhuma brecha para o descumprimento da lei. Estados e municípios que, desde abril de 2011, não estavam pagando o piso, poderão ser acionados na Justiça para o pagamento retroativo de 2011 até o presente momento.
A categoria pretende se mobilizar para o cumprimento da lei com passeatas, e se necessário, greves. "Só queremos o cumprimento da lei, parece algo tão óbvio de se pedir", disse Leão. Além do valor do salário, a lei trata também sobre as condições de trabalho, estipulando, por exemplo, jornada de no máximo dois terços da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os alunos. Segundo a confederação, as únicas unidades federativas que cumprem a lei na totalidade são: Acre, Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso e Rondônia . Mais dez estados cumprem parcialmente e oito descumprem a lei. O restante está em negociação com os sindicatos.
O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) disse, em nota, que desde a aprovação da Lei 11.738/2008, os estados vêm ajustando os padrões de remuneração do magistério e acolhem "sem surpresa ou impacto" a decisão de hoje do STF. Na nota, o conselho diz que "todos [estados] já pagavam, em abril de 2011, o valor do piso aos seus professores com formação de nível médio na modalidade normal". Com relação à jornada de trabalho dos docentes, o conselho informou que "em breve" os estados também terão adotado o limite imposto pela lei - dois terços para interação com os estudantes e um terço para atividades.
Em relação aos municípios, não há um levantamento que indique quantos estão em conformidade com a lei. Para a presidenta da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho, é "importante que todos os municípios garantam o piso para atrair novos profissionais e valorizar os que estão nas escolas". No entanto, "boa parte" deles não consegue pagar os salários. "Precisamos da aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE) e dos recursos dos royalties e do pré-sal para conseguir cumprir as metas de universalização da educação do próprio plano".
domingo, 14 de abril de 2013
Quem tem medo da avaliação?
Na década de 80, tentar avaliar escolas ou alunos era um ato de guerra. Mas as assombrações foram vencidas na década de 90, com o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Provão (que avalia o desempenho nos cursos superiores) e com Estados começando a avaliar.
Hoje sabemos quais Estados avançaram, quais travaram ou regrediram. Que reputações eram fictícias e que façanhas permaneciam desconhecidas. O véu da ignorância encolheu.
O Provão recompensou os bons cursos com notas A e B. Os descuidados foram punidos com notas ruins e houve uma corrida para melhorar os cursos. Criou-se um gigantesco mercado para mestres e doutores, cuja presença no ensino privado aumentou 37% nos dois anos seguintes ao primeiro Provão.
O Enem é uma prova em que não é preciso decorar currículos imensos, mas sim haver dominado aquilo que é importante aprender. Se vier a substituir os vestibulares amadorísticos e enciclopédicos, permitirá às escolas médias concentrarem-se no que é importante ensinar.
Os remédios que salvam vidas têm sempre efeitos colaterais. Os médicos, pragmaticamente, optam pelo mal menor. Para curar o doente, dão o remédio e lidam, depois, com os efeitos colaterais e com as doenças iatrogênicas, isto é, aquelas que são geradas pelos tratamentos e hospitais.
Os testes são assim, têm também efeitos colaterais e criam as próprias moléstias. Mas note-se, nos países educacionalmente avançados, onde os testes quantitativos fazem parte da vida escolar, toda a acalorada discussão não é para eliminá-los, mas para melhorá-los e para aprender a conviver com suas limitações.
Precisamos igualmente reconhecer seus méritos e lidar criativamente com seus efeitos colaterais. Ademais, o objetivo de tais testes não é agradar a administradores ou estudantes, mas informar os interessados e permitir correções de rumo. Hoje, porém, vemos tanto as explosões emocionais contra os testes quanto tentativas dissimuladas de comer pelas bordas. Há perigo de retrocesso e volta ao obscurantismo.
Os testes quantitativos captam algumas dimensões do desempenho, mas não conseguem lidar com outras. Contudo, lembremo-nos do que já dizia Aristóteles: há algumas coisas que não podemos fazer com números e há outras que não podemos fazer sem eles.
Há excelentes razões para complementar os testes quantitativos com análises qualitativas. Só podem enriquecer nossos frágeis julgamentos. Mas substituir um pelo outro é voltar atrás. As avaliações qualitativas permitem entender como operam as escolas. No entanto, são os testes quantitativos que tornam possível comparar e situar as escolas ou os alunos em um universo mais amplo. Sem tal informação, voltaríamos a patinar nos "achismos" da década de 80.
Quando a educação atinge certos níveis de qualidade, as dimensões não captadas pelos testes (imaginação, valores etc.) adquirem maior relevo. Mas quando os níveis de aproveitamento são muito baixos, o que medem os testes é muito mais central. E quando eles dizem que os alunos não entendem o que lêem, pouco adianta reclamar que não medem outras coisas.
Quase todos os que falam do Provão cometem erros grosseiros de interpretação, pois suas propriedades estatísticas não são intuitivas (por exemplo, o Provão jamais disse quais cursos são bons, apenas quais são melhores ou piores. Igualmente, C representa a pontuação mais freqüente e não um resultado ruim). Estudar para o Provão tampouco é pecado, pois os alunos sempre estudam para a prova. Como o Provão é um exame mais bem-feito que os tipicamente preparados de véspera pelos professores, direciona melhor o esforço dos alunos.
Contudo, o Provão tem efeitos colaterais. Um deles é enrijecer os currículos, tirando dos cursos a liberdade de experimentar. Outro é a questão do valor adicionado. Sabemos que 80% dos resultados são determinados por diferenças dos alunos, já no vestibular. Portanto, não podemos execrar um curso que ofereça um ensino correto cujo único pecado é ter alunos mais fracos.
Em suma, não deixemos o acessório engolir o principal e não sejamos presa dos interesses pessoais dos que denunciam os testes por lhes trazerem notícias desagradáveis.
Será que o gigante está despertando?
De forma muito clara, agora, é mais fácil ver as mudanças. Há cerca de cinco anos, usei o termo "revolução silenciosa" para descrever a situação, e a revista VEJA adotou a expressão. Hoje, seria inadequado usar o mesmo termo. A revolução não é mais invisível. A característica mais marcante dos avanços na década de noventa é que o segmento mais dinâmico - a proporção da clientela terminando a educação básica - é exatamente aquele no qual o desempenho brasileiro era mais fraco.
Um outro aspecto muito interessante e pouco estudado desse processo é o papel dos grupos de interesse, em particular, os sindicatos de professores. Esses grupos de tendência esquerdista adquiriram grande força na década de 80 e no início da de 90 e dominaram as arenas de discussão. Na verdade, estabeleceu-se na prática um monopólio dos fóruns e conferências, criando um ambiente abertamente hostil a outras linhas de pensamento (as chamadas patrulhas ideológicas). De fato, a avaliação deste autor é que a presença de grupos de interesse foi, durante muito tempo, uma presença pouco construtiva no cenário educacional, sempre a queixar-se de que a educação é uma ferramenta que reproduz a estratificação social e desviando a discussão das políticas práticas para melhorar as escolas.
Todavia, muitos representantes desses grupos foram assumindo governos munici-pais e estaduais, enquanto alguns subgrupos mais ruidosos começaram a perder boa parte de seu poder e qualquer liderança intelectual fora de seus seguidores. Não obstante, há várias iniciativas respeitáveis sendo desenvolvidas pelos segmentos de esquerda. Ao mesmo tempo, o movimento sindical tem-se orientado para uma posição mais organizada e de crítica técnico-científica da política governamental, apresentando alternativas à ação governamental.
O que, hoje, faz mudar a educação é a feliz conjunção de todos os níveis de governo tentando acertar e um público, liderado pela sociedade civil, exigindo que acertem. Os governos estão fazendo mais, sobretudo, porque as forças vivas da sociedade querem uma educação melhor e não se contentam com menos. Falta muito, mas as mudanças estão mais ou menos no rumo correto.
As reformas acontecem, mesmo neste nosso Brasil de tão pobres tradições na área. Vivemos um momento único e precioso. O que falta, então, para que alguém se atreva a enfrentar assombrações e uma reforma de ensino que sugerem um amplo leque de mu-danças? Faltavam pessoas que vissem mais longe e que apostassem no futuro.
Este é o tema deste livro. Procuraremos examinar como nossa educação encami-nhou-se, de muito atrasada, à fase atual de tentativa de recuperação. Tínhamos um sistema que se construiu, tardiamente, mesmo para os padrões dos países latinos americanos. O problema que se nos coloca resume-se em uma interrogação: quais devem ser os rumos da educação brasileira, a partir de agora? Sem (ou com) espírito de polêmica, é possível alinhar seis problemas que merecem atenção: a melhoria da qualidade do Ensino Fundamental, a reforma e expansão do Ensino Médio, com grande preocu-pação com a qualidade; a diversificação e aprimoramento do Ensino Superior, pela busca de caminhos alternativos, também, no âmbito do ensino público; o desenvolvimento de uma estratégia inteligente para a Educação Infantil; a introdução de novas tecnologias, como instrumento de democratização da educação, e, finalmente, o desen-volvimento rápido e vigoroso de propostas diferenciadas de qualificação e re-qualificação de docentes.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Escolas empobrecidas: sem História nem Geografia
A escola vive uma profunda crise de legitimidade*. O mundo mudou, ficou complexo, novas demandas surgiram. Os estudantes na escola também são outros, diversos na origem e nos interesses. Os professores carecem de condições para um trabalho digno. A sociedade alterou suas expectativas referentes à escola e, assim, criou-se um complicado jogo de múltiplas contradições e, para essa complexidade, não cabem respostas e políticas simplistas.
Afinal, para que a escola existe? Para formar adequadamente as gerações futuras ou para preparar os estudantes para avaliações externas como Enem, Saresp, Prova Brasil, Pisa etc.?
A que se destinariam os conhecimentos? Deveriam eles compor um mosaico para criar curiosidades, desejos e perguntas nos estudantes ou só serviriam para produzir informações para uso em testes de avaliação?
Nós, pesquisadoras de educação, ficamos mais uma vez perplexas ao nos depararmos com a nova proposta curricular do ensino público do Estado de São Paulo. Para bem aprender o Português e a Matemática, sugere-se excluir os conhecimentos de História, Geografia e Ciências do 1º ao 3º ano e manter 10% dessas disciplinas no 4º e 5º anos do currículo básico. Por essa nova proposta, ficou assim decretado: doravante, por meio desse novo currículo básico, as crianças de escolas públicas estaduais só receberão, até o 3º ano, aulas de Português e Matemática! Partindo do pressuposto evidentemente errôneo de que um conhecimento atrapalha o outro, as aulas de História, Geografia e Ciências serão eliminadas do currículo desses estudantes.
Como consequência dessa política, nas escolas de tempo integral, o aluno terá aulas em um período e, no outro, oficinas temáticas das diferentes áreas do conhecimento, algumas obrigatórias e outras eletivas escolhidas de acordo com o projeto pedagógico da escola.
À primeira vista, esse currículo está “rico” e diversificado; no entanto, pelo olhar sério e comprometido, ele estará fatalmente fragmentado. Primeiramente porque verificamos que as oficinas obrigatórias também não objetivam, do mesmo modo, um trabalho com História, Ciências e Geografia; pelo contrário, voltam-se novamente para a Matemática e para o Português.
Além disso, como trabalhar a oficina optativa, por exemplo, de Saúde e Qualidade de Vida sem os fundamentos das ciências? Intriga a essa altura saber: por que oficinas e não estudo contínuo? O que se ganha com isso? Vários equívocos nos saltam aos olhos! O primeiro deles é considerar que o conhecimento de algumas áreas é acessório, ocupa espaço e ainda impede o bom aprendizado do Português e da Matemática!
As concepções de escrita e leitura, por exemplo, acabariam por ser responsabilidade exclusiva de uma única disciplina do currículo. Não seria essa uma visão muito simplista de aprendizagem, pois parece supor que o estudante não desenvolve processos de escrita e leitura também em outras disciplinas?
Outro equívoco é a suposição de que para estudantes de escola pública o mínimo basta! Para que sofisticar com lições da história, da natureza e do lugar do nosso povo? Conhecimento científico seria enfim útil para quê?
A aprendizagem não ocorre por partes. O aprendizado é todo ele integrado e sistêmico. Um bom ensino de História expande o pensamento e as referências e o estudante, assim, tem condições para perceber relações de fatos, tempo e espaço, tão necessárias à aprendizagem matemática.
A Geografia leva nossos pensamentos para viajar em outros espaços; possibilita compreender a diversidade das sociedades, conhecer e apreciar a natureza, aprender a observar e a estabelecer conexões entre lugares e culturas. Mergulhados, assim, nesses novos referenciais, os estudantes podem compreender melhor a própria realidade e encarar suas circunstâncias com pleno envolvimento. Isso certamente repercutirá na sua vida e no seu aprendizado, com consequência, por exemplo, em estudos simbólicos e gráficos.
Como deixar de aproveitar a natural curiosidade das crianças, seu espírito exploratório, suas perguntas intrigantes acerca dos fenômenos da natureza e, dessa forma, tecer as bases de um fundamental espírito científico, que por certo ajudará a compreender a Matemática e a recriar o Português?
Será que a estratégia de oficinas, ao invés do estudo contínuo, dará conta de captar tal complexidade e também de tornar possível um processo de ensino-aprendizagem que seja capaz de construir os conhecimentos de Geografia, História e Ciências que ficaram tão diminuídos no currículo básico?
De nosso ponto de vista entendemos que a questão não é separar para empobrecer. O que vale é democratizar as possibilidades de ser e de estar melhor no mundo. E para que isso aconteça precisamos da integração total de saberes e práticas.
As crianças de classe social mais favorecida possuem, antes já de chegar à escola, uma gama infindável de vivências. As crianças de classe popular, em sua maioria, chegam já à escola destituídas desse capital cultural. Possuem outras ricas e profícuas experiências que, nem sempre, são valorizadas e transformadas na escola. No entanto, o importante é trabalhar pedagogicamente com essas experiências de modo a transformá-las em vivências socialmente válidas. Pensamos que o fundamental é ampliar as oportunidades ao invés de restringi-las; para tanto, a experiência com as diferentes áreas do conhecimento é essencial.
Preocupa-nos o risco de a função da escola, para as crianças dos anos iniciais, limitar-se, a partir da reforma proposta, ao ensino das habilidades mínimas de leitura e escrita e de cálculo, retirando-se as cores e os sabores das descobertas que se fazem no contínuo do seu desenvolvimento. Preocupa-nos que esse projeto ganhe força e se concretize em outros níveis de ensino e em outros Estados. Preocupa-nos que as oficinas contribuam mais para o esvaziamento dos conteúdos do que para a construção de conhecimentos. O que será da nossa escola pública, então? Um reducionismo dos conhecimentos, um estreitamento das concepções de ensino-aprendizagem? O objetivo final será a quantificação em detrimento da qualidade? E, se atingir índices é o foco dos processos de ensino-aprendizagem, o que isso realmente significa? Qual é a verdadeira motivação da política educacional implícita nesse movimento?
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
MEC anuncia reajuste de 7,97% do piso salarial de professores
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou nesta quinta-feira (10) reajuste de 7,97268% do piso salarial de professores do ensino básico da rede pública brasileira, que abrange educação infantil e nível médio. Com o aumento, o piso salarial para os professores passa de R$ 1.451 para R$ 1.567.
O aumento é concedido com base no percentual de aumento, de 2011 a 2012, do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação).
Veja a evolução do piso salarial dos professores nos últimos anos
2010 R$ 1.024,67
2011 R$ 1.187,08
2012 R$ 1.451,00
2013 R$ 1.567,00
No ano passado, o reajuste do piso salarial dos professores de educação básica e que cumprem 40 horas semanais foi de 22,22%. Portanto, o reajuste deste ano representa quase um terço do aumento ocorrido em 2012.
“Dessa vez, [a correção] não tem o mesmo impacto que a correção do ano passado, mas é um reajuste acima da inflação. O problema é que nós partimos de um patamar muito baixo de salário. R$ 1.567 é pouco mais que dois salários mínimos”, afirmou.
O ministro disse que os estados e municípios precisam respeitar reajuste do piso salarial, ainda que tenham perdido receitas devido à desaceleração da economia brasileira. A correção deve ser aplicada já nos pagamentos salariais relativos a janeiro.
“Houve uma desaceleração da economia, uma queda de receitas, mas a lei é essa, e a lei está embasada num caminho de recuperação do piso para permitir que a educação brasileira dê um salto de qualidade”, disse.
Para o ministro, o aumento de R$ 14,2 bilhões, em 2013, dos repasses da União aos estados e municípios através do Fundeb pode ajudar a pagar o reajuste salarial de 7,97%. Em 2012, o Fundeb foi de R$ 102,6 bilhões. Em 2013, os repasses somarão R$ 116,8 bilhões, de acordo com Mercadante.
Impacto
O ministro afirmou que, segundo associações de estados e municípios, o impacto do piso de R$ 1.567 será de R$ R$ 2,1 bilhões aos cofres dos governos estaduais e prefeituras. Segundo o ministro a expectativa é de que em 2014 o reajuste do piso seja superior ao deste ano.
“O reajuste está vinculado ao desempenho econômico. Sempre é assim. À medida que a economia cresce, o reajuste cresce mais. O MEC continua empenhado em solução pactuada [com estados e municípios] porque no ano que vem o reajuste deve ser ainda maior”, afirmou.
Em 2012, estados e municípios criticaram o reajuste de 22,22%. De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios, o aumento custou cerca de R$ 7 bilhões, entre gastos com o salário de docentes, com a contratação de novos professores e com o reajuste na pensão dos professores aposentados.
Entenda como é feito o cálculo
Desde 2009, por lei, o reajuste do piso salarial é feito anualmente em janeiro seguindo como indicador o Fundeb. O fundo reúne recursos provenientes de tributos e da complementação da União, que são repassados aos governos municipais e estaduais.
Durante o ano vigente, o valor mínimo anual investido pelo fundo por aluno da educação básica é calculado com base em estimativas de arrecadação. A variação desse valor impacta na variação do salário dos professores.
Para o ano de 2012, a estimativa do custo por aluno era de R$ 2.096,68, o que representaria um aumento de 21,2% em relação ao valor final de 2011 (R$ 1.729,28). Assim, o reajuste estimado do piso salarial era maior do que o que de fato aconteceu.
Porém, em 28 de dezembro de 2012, o governo revisou o valor para baixo (R$ 1.867,15) porque as estimativas de receita não se concretizaram. A variação do valor por aluno entre 2011 e 2012, então, foi de 7,97%.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
O papel da escola no novo mercado de trabalho
Grande parte dos adolescentes ingressam no mercado de trabalho despreparados, isso é constatado no cotidiano, assim como é indicado por pesquisas de âmbito nacional.
A Revista Veja, no ano de 2009, publicou matérias neste sentido, indicando quão importante é o investimento da família e escola, juntas, na preparação destes adolescentes. Estudiosos indicam que, daqui a uma década, o mercado de trabalho estará drasticamente modificado.
Luiz Carlos Cabrera, consultor e professor da FVG-SP, em uma de suas entrevistas, aponta que o mercado será tomado por novas profissões e cargos, com exigência de autonomia e empreendedorismo elevados.
Atualmente, estudos indicam que 1/3 dos universitários acabam por fazer reopção de curso após gastarem tempo, esforços e dinheiro. Outros jovens, após a graduação, acabam por atuar em ramo não escolhido, por encontrarem o mercado saturado na profissão para a qual se prepararam.
Tendo como foco esta realidade, faz-se imprescindível o planejamento da carreira, ou seja, antes de os jovens fazerem a escolha profissional, importante que eles conheçam: a dimensão dos problemas no mercado de trabalho, quais as solicitações e carências do mesmo, os conhecimentos, habilidades e atitudes demandadas pelas empresas e quais os comportamentos desejados e indesejados pelos contratantes.
Importante que o jovem tenha ciência sobre leis trabalhistas, lei que regulamenta o estágio e programas como o Jovem Aprendiz, seus direitos e deveres.
A Orientação Profissional ocupa-se de propiciar o autoconhecimento necessário ao estudante, o conhecimento sobre as profissões, e ajuda-o a escolher a profissão e/ou curso de graduação.
Mas a nova configuração do mercado pede que este trabalho da Orientação Profissional seja expandido, assim, além das atividades previamente citadas, o estudante precisa conhecer o mercado de trabalho. Prepará-lo implica em instrumentalizá-lo de forma adequada para ser capaz de superar as dificuldades com as quais poderá deparar-se neste novo sistema. E conhecer esta configuração do mercado de trabalho antes mesmo de adentrá-lo, pode ser um grande trunfo.
Uma possível nova estratégia de atuação da Orientação Profissional tem o nome de "Potenciação" ou "Empowerment".
Esta, trabalha questões de participação democrática na vida social, escolar e profissional. É um grande auxilio, pois parte dos adolescentes não tem conhecimento adequado dos recursos de sua cidade, das dificuldades e realizações dos profissionais próximos, assim como também não têm um vasto autoconhecimento e da possível potenciação de suas habilidades.
Ao buscar por estes serviços (Orientação Profissional), a escola intensifica seu papel como espaço de crescimento intelectual, pessoal e, mais do que nunca, espaço de amadurecimento e preparação profissional.
As novas estratégias, além de possibilitarem uma melhor escolha e boa colocação dos jovens no mercado de trabalho, também podem auxiliar no cotidiano escolar, com atitudes e comportamentos mais assertivos e amadurecidos por parte dos estudantes.
Governo promete investir R$ 2,7 bilhões para alfabetizar crianças até os 8 anos
O governo federal vai investir R$ 2,7 bilhões nos próximos dois anos para que as crianças brasileiras sejam plenamente alfabetizadas em língua portuguesa e matemática até os 8 anos de idade, ao final do terceiro ano do ensino fundamental. O investimento faz parte do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa lançado nesta quinta-feira 8 pela presidenta Dilma Rousseff no Palácio do Planalto.
De acordo com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a média nacional de crianças não alfabetizadas aos oito anos chega a 15,2%. Essa taxa alcança índices ainda maiores e, em alguns casos chega a dobrar, em estados como Maranhão (34%) e Alagoas (35%). A menor taxa é registrada na Região Sul, com o índice de 4,9% de crianças não alfabetizadas. “Considero esse programa a prioridade das prioridades do MEC. É o maior desafio histórico e que esse país deveria colocar no topo de agenda de todos os gestores do Brasil”, assegurou Mercadante.
O ministro destacou que 8 milhões de crianças estão inseridas nesse primeiro ciclo de alfabetização. Ainda segundo ele, o prejuízo de uma criança que não é alfabetizada no período certo pode se estender a outras etapas do ensino.
Entre os objetivos da pasta está o de garantir a alfabetização e assim evitar a futura reprovação de alunos. Segundo o ministro, o impacto da reprovação de alunos, em toda a educação básica, vai de R$ 7 bilhões a R$ 9 bilhões.
Ao todo, 5.270 municípios e todas as 27 unidades federativas já aderiram ao pacto, que envolve a capacitação de 360 mil professores alfabetizadores. Trinta e seis universidades públicas vão preparar cursos de 200 horas para uniformizar procedimentos educacionais em todo país. Os recursos investidos no pacto também vão garantir uma bolsa de R$ 750 mensais aos orientadores, que vão capacitar os professores alfabetizadores.
Com o pacto, o Ministério da Educação vai distribuir 26,5 milhões de livros didáticos nas escolas de ensino regular e do campo, além de 4,6 milhões de dicionários, 10,7 milhões de obras de literatura e 17,3 milhões de livros paradidáticos.
Leia também:
O financiamento do novo Plano Nacional de Educação
Mercadante defende tema da redação do Enem
Carta na Escola vence prêmio de Melhor Capa do Ano
Para mensurar os resultados do pacto entre as crianças brasileiras, o MEC vai implementar duas avaliações. Ao final do 2º ano, será aplicada a nova versão da Provinha Brasil, realizada pelos próprios professores dentro de sala de aula para avaliar os conhecimentos sobre o sistema alfabético da escrita e quais habilidades de leitura as crianças dominam.
No final do 3º ano, será aplicada uma nova prova, ainda sem nome, regras ou datas definidas. Essa avaliação ficará a cargo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Além das medidas anunciadas, a pasta vai investir R$ 500 milhões em premiação para as melhores experiências de alfabetização. Para Mercadante, as ações do pacto estimulam os professores a voltarem a atuar na profissão.
sábado, 10 de março de 2012
O NOVO PAPEL DA EDUCAÇÃO
Acreditamos que a Terceira Onda introduza uma posição inédita na cultura humana: por um lado, o professor é um elemento altamente estratégico e, por outro, pode ser facilmente dispensável. No primeiro caso, ele pode auxiliar os alunos a aprender a selecionar melhor as suas alternativas e recursos de acesso à informação. Em segundo lugar, o professor precisará estar constantemente atualizado para não se tornar um elemento descartável.
Uma outra variável que não pode ser esquecida : tal como o professor o aluno precisará de reciclagens constantes. A diferença é que ele necessitará de um professor com um alto nível técnico de formação e informação.
Isto introduz uma alteração significativa no quadro de professores. A atualização de conhecimentos torna-se um processo estratégico. Alguns serão facilmente dispensáveis; aqueles não se atualizam. Para os demais, haverá sempre um novo campo de trabalho a ser tecido e estruturado, a partir da própria demanda dos alunos.
Em decorrência, pode-se dizer que a própria escola muda. Enquanto na Segunda Onda as informações básicas vinham através dela, na Terceira Onda os computadores parecem deter este lugar estratégico. A base de informações maiores não virá dos professores, mas dos próprios computadores que poderão ser acionados nos lares, nas bibliotecas ou na própria escola. O professor se tornará então um orientador de formas de estudo mais adaptadas às necessidades dos alunos. Assim, por exemplo, em vez de uma aula de história tradicional, um cd-room elaborado com os mais recentes recursos de multimídia propiciará ao aluno um contato mais aprofundado com a matéria. Ele poderá receber, além de um relato sobre os fatos mais importantes do evento histórico, outras informações complementares. Saber como se constituia a terra naquela época, como era o clima, o céu, a saúde dos sujeitos, etc. Ou seja, estamos saindo de uma história monocromática para uma hipercromática e de recursos de multimídia.
Cabe aos professores, se quiserem participar deste processo de transformação social, uma constante reciclagem. Para que eles não se tornem - como já ouvimos de muitos professores - o "lixo" descartável desta nova era. Um professor atualizado é aquele que tem olhos no futuro e a ação no presente, para não perder as possibilidades que o momento atual continuamente lhe apresenta. Porém, isto não é alguma coisa que o sistema educacional possa obrigar os professores a fazerem. A Informática é ainda uma opção, uma decisão do professor frente aos seus novos rumos de trabalho.
Uma outra variável que não pode ser esquecida : tal como o professor o aluno precisará de reciclagens constantes. A diferença é que ele necessitará de um professor com um alto nível técnico de formação e informação.
Isto introduz uma alteração significativa no quadro de professores. A atualização de conhecimentos torna-se um processo estratégico. Alguns serão facilmente dispensáveis; aqueles não se atualizam. Para os demais, haverá sempre um novo campo de trabalho a ser tecido e estruturado, a partir da própria demanda dos alunos.
Em decorrência, pode-se dizer que a própria escola muda. Enquanto na Segunda Onda as informações básicas vinham através dela, na Terceira Onda os computadores parecem deter este lugar estratégico. A base de informações maiores não virá dos professores, mas dos próprios computadores que poderão ser acionados nos lares, nas bibliotecas ou na própria escola. O professor se tornará então um orientador de formas de estudo mais adaptadas às necessidades dos alunos. Assim, por exemplo, em vez de uma aula de história tradicional, um cd-room elaborado com os mais recentes recursos de multimídia propiciará ao aluno um contato mais aprofundado com a matéria. Ele poderá receber, além de um relato sobre os fatos mais importantes do evento histórico, outras informações complementares. Saber como se constituia a terra naquela época, como era o clima, o céu, a saúde dos sujeitos, etc. Ou seja, estamos saindo de uma história monocromática para uma hipercromática e de recursos de multimídia.
Cabe aos professores, se quiserem participar deste processo de transformação social, uma constante reciclagem. Para que eles não se tornem - como já ouvimos de muitos professores - o "lixo" descartável desta nova era. Um professor atualizado é aquele que tem olhos no futuro e a ação no presente, para não perder as possibilidades que o momento atual continuamente lhe apresenta. Porém, isto não é alguma coisa que o sistema educacional possa obrigar os professores a fazerem. A Informática é ainda uma opção, uma decisão do professor frente aos seus novos rumos de trabalho.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Risco das ilusões
Por Cristovam Buarque
Mais do que o usual, os economistas se dividem diante das alternativas a serem seguidas pela Grécia: uns defendem austeridade reduzindo gastos do setor público para reencontrar o equilíbrio fiscal e retomar o crescimento; outros defendem exatamente o contrário, mais gastos públicos como forma de incentivar o crescimento na economia, para depois elevar a receita e equilibrar as finanças.
Mas faltou unanimidade na percepção de que a crise poderia ter sido evitada se a economia não tivesse criado ilusões. A ilusão do Euro, que dava ao consumidor um poder de compra muito acima da real possibilidade da economia; a ilusão do dinheiro fácil, que vinha dos bancos para financiar gastos como se eles não fossem ser exigidos de volta com juros; e a ilusão criada pelo governo que se endividava para pagar gastos correntes, sem retorno produtivo. Durante alguns anos essas ilusões de riqueza funcionaram, escondendo a realidade de uma economia pobre, sem competitividade, nem investimentos.
Quem não lembra dos argentinos comprando o litoral catarinense, depois os espanhóis e portugueses comprando as praias do Nordeste. Todos esses países depois entraram em crises parecidas.
A discussão, portanto, não deve se resumir a se é preciso austeridade ou elevação de gastos públicos, mas se a austeridade que está vindo é tardia ou não, se não teria havido um caminho capaz de combinar austeridade nos gastos correntes com a elevação nos gastos em investimentos produtivos e sociais. Um keynesianismo produtivo e social, como vem sendo defendido há alguns anos.
Quando se descobre que uma economia está funcionando na base de ilusões, ela desmorona, como as famosas pirâmides financeiras, hoje chamadas de bolhas, que encantam ingênuos e até enriquecem os que às criaram, apropriando-se do dinheiro dos que vêm depois. Mas, a simples austeridade – demitindo servidores, parando obras, desarticulando escolas e hospitais – não vai dar o resultado que se espera. O custo social que ela cria é insustentável moral e politicamente, e provavelmente não resistirá além das próximas eleições de abril, na Grécia. Entre políticos responsáveis e insensíveis à miséria, e os demagogos que prometem ilusões, os eleitores votarão pela ilusão. E a crise política agravará ainda mais a situação, até o dia em que a própria democracia desmorone e um regime autoritário, embora dentro de certo marco legal, imporá as saídas necessárias.
Para evitar este dilema maldito, entre a ilusão insustentável e o custo social inaceitável, as saídas deverão combinar austeridade – suspendendo gastos supérfluos, taxando rendas elevadas, reduzindo consumo desnecessário -, ao mesmo tempo mantendo empregos, ainda que reduzindo salários elevados e jornada de trabalho, mantendo os serviços públicos, reorientando gastos públicos para investimento, inclusive na educação, ciência e tecnologia para criar competitividade. Ao lado disso, seria necessária uma "moratória consentida" de pelo menos parte da dívida pelos credores e a redução interna de preços como uma forma de desvalorização sem sair do Euro.
Esta visão de Austeridade-com-Investimentos pode ser uma lição para o Brasil. Todos os países hoje em crise passaram por períodos com a mesma euforia ilusória. Se eles tivessem, no momento certo, eliminado as ilusões e feito as devidas correções de rumo, não estariam na crise da qual a Grécia é apenas o símbolo pelo tamanho de sua tragédia. Estamos passando por ilusões assemelhadas: moeda supervalorizada, Estado perdulário, financiamentos alavancados superficialmente, rendas elevadas para uma minoria, consumo aquecido, baixa poupança e investimentos, substanciais compras de bens e serviços importados que desindustrializam o país.
Os países em crise não aprenderam com as crises anteriores, como a Argentina há dez anos, e apresentam quadro ilusório parecido: euforia da moeda vinculada ao Dólar, como a Grécia fez ao entrar no Euro; gastos elevados com Copa do Mundo em Buenos Aires e as Olimpíadas em Atenas. Não podemos deixar de enxergar que uma parte de nossa economia está sob efeito de ilusões, na linha do que diz o texto “A economia está bem, mas não vai bem", que pode ser acessada no endereço eletrônico http://bit.ly/wVUR0j. Precisamos fazer hoje os ajustes que a Grécia e a Argentina não fizeram no momento certo, quando preferiram o risco das ilusões.
*Cristovam Buarque é professor da UnB e senador do PDT-DF
Mais do que o usual, os economistas se dividem diante das alternativas a serem seguidas pela Grécia: uns defendem austeridade reduzindo gastos do setor público para reencontrar o equilíbrio fiscal e retomar o crescimento; outros defendem exatamente o contrário, mais gastos públicos como forma de incentivar o crescimento na economia, para depois elevar a receita e equilibrar as finanças.
Mas faltou unanimidade na percepção de que a crise poderia ter sido evitada se a economia não tivesse criado ilusões. A ilusão do Euro, que dava ao consumidor um poder de compra muito acima da real possibilidade da economia; a ilusão do dinheiro fácil, que vinha dos bancos para financiar gastos como se eles não fossem ser exigidos de volta com juros; e a ilusão criada pelo governo que se endividava para pagar gastos correntes, sem retorno produtivo. Durante alguns anos essas ilusões de riqueza funcionaram, escondendo a realidade de uma economia pobre, sem competitividade, nem investimentos.
Quem não lembra dos argentinos comprando o litoral catarinense, depois os espanhóis e portugueses comprando as praias do Nordeste. Todos esses países depois entraram em crises parecidas.
A discussão, portanto, não deve se resumir a se é preciso austeridade ou elevação de gastos públicos, mas se a austeridade que está vindo é tardia ou não, se não teria havido um caminho capaz de combinar austeridade nos gastos correntes com a elevação nos gastos em investimentos produtivos e sociais. Um keynesianismo produtivo e social, como vem sendo defendido há alguns anos.
Quando se descobre que uma economia está funcionando na base de ilusões, ela desmorona, como as famosas pirâmides financeiras, hoje chamadas de bolhas, que encantam ingênuos e até enriquecem os que às criaram, apropriando-se do dinheiro dos que vêm depois. Mas, a simples austeridade – demitindo servidores, parando obras, desarticulando escolas e hospitais – não vai dar o resultado que se espera. O custo social que ela cria é insustentável moral e politicamente, e provavelmente não resistirá além das próximas eleições de abril, na Grécia. Entre políticos responsáveis e insensíveis à miséria, e os demagogos que prometem ilusões, os eleitores votarão pela ilusão. E a crise política agravará ainda mais a situação, até o dia em que a própria democracia desmorone e um regime autoritário, embora dentro de certo marco legal, imporá as saídas necessárias.
Para evitar este dilema maldito, entre a ilusão insustentável e o custo social inaceitável, as saídas deverão combinar austeridade – suspendendo gastos supérfluos, taxando rendas elevadas, reduzindo consumo desnecessário -, ao mesmo tempo mantendo empregos, ainda que reduzindo salários elevados e jornada de trabalho, mantendo os serviços públicos, reorientando gastos públicos para investimento, inclusive na educação, ciência e tecnologia para criar competitividade. Ao lado disso, seria necessária uma "moratória consentida" de pelo menos parte da dívida pelos credores e a redução interna de preços como uma forma de desvalorização sem sair do Euro.
Esta visão de Austeridade-com-Investimentos pode ser uma lição para o Brasil. Todos os países hoje em crise passaram por períodos com a mesma euforia ilusória. Se eles tivessem, no momento certo, eliminado as ilusões e feito as devidas correções de rumo, não estariam na crise da qual a Grécia é apenas o símbolo pelo tamanho de sua tragédia. Estamos passando por ilusões assemelhadas: moeda supervalorizada, Estado perdulário, financiamentos alavancados superficialmente, rendas elevadas para uma minoria, consumo aquecido, baixa poupança e investimentos, substanciais compras de bens e serviços importados que desindustrializam o país.
Os países em crise não aprenderam com as crises anteriores, como a Argentina há dez anos, e apresentam quadro ilusório parecido: euforia da moeda vinculada ao Dólar, como a Grécia fez ao entrar no Euro; gastos elevados com Copa do Mundo em Buenos Aires e as Olimpíadas em Atenas. Não podemos deixar de enxergar que uma parte de nossa economia está sob efeito de ilusões, na linha do que diz o texto “A economia está bem, mas não vai bem", que pode ser acessada no endereço eletrônico http://bit.ly/wVUR0j. Precisamos fazer hoje os ajustes que a Grécia e a Argentina não fizeram no momento certo, quando preferiram o risco das ilusões.
*Cristovam Buarque é professor da UnB e senador do PDT-DF
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Mundo melhor para quem?
Por Cláudia Werneck
Quem sabe no II Fórum Social Mundial pessoas com deficiências diversas tenham desaparecido da face terrestre. Como esta é uma proposta absurda, sugiro à comissão organizadora do Encontro trabalhar desde já para que indivíduos cegos, surdos, com deficiências física, motora e mental possam participar e se beneficiar dele. Só assim o II Fórum Social Mundial será um local de congraçamento universal de gerações humanas.
Estive no I Fórum Social, em Porto Alegre, participando de uma oficina. Por dois dias circulei pelo Centro de Eventos da PUC do Rio Grande do Sul, passeei pelos stands, conversei com integrantes do Fórum e organizadores constatando, mais uma vez, o quanto ainda estamos distantes de ultrapassar a fase de "respeitar os deficientes", passando finalmente a tomar decisões e adotar práticas para incluí-los no nosso dia a dia.
Neste I Fórum, pessoas surdas ficaram impossibilitadas de acompanhar conferências e se expressar nas oficinas. Não foram contratados intérpretes da língua brasileira de sinais, nem da língua espanhola de sinais, nem da língua inglesa de sinais, por exemplo. Quanto aos cadeirantes, havia vasos sanitários adaptados, sim, mas após usá-los os usuários não tinham como lavar as mãos sem ajuda, porque as pias dos banheiros (pelo menos dos que entrei) eram apoiadas em armários que impediam a aproximação das cadeiras. Notei ainda a ausência da programação em braile para que jovens e adultos cegos pudessem escolher e acompanhar os eixos temáticos.
Enfrentar o desafio da acessibilidade deve ser uma preocupação da comissão organizadora do próximo Fórum por, no mínimo, cinco razões: a) Vi o interesse público pela proposta do Fórum; b) É necessário que cada vez mais pessoas dispostas a se doar por um mundo melhor estejam reunidas em 2002; b) É básico garantir a todas as condições humanas - e não apenas a algumas - o acesso às reflexões propostas pelo Fórum; c) É coerente que num encontro onde se brada por inclusão social, fiquemos atentos às necessidades do próximo, de qualquer próximo, não necessariamente dos próximos sob risco social (só assim ficaremos à vontade para argumentar com os opositores do Fórum); d) É hora de cumprirmos as Leis que penalizam instituições ou indivíduos que impeçam o acesso e a permanência de cidadãos com deficiência nos ambientes públicos. A Lei Federal 7.853, de 24 de outubro de 1989, explicita a responsabilidade do poder público em relação à pessoa com deficiência e dispõe sobre a criminalização do preconceito, com pena de 1 a 4 anos de reclusão.
Não se muda mentalidade por força da lei. Mas, se punidos, os organizadores do Fórum não estariam sozinhos. Inexistem no mundo celas suficientes para conter tanta gente, tamanha é a freqüência com que violamos, diariamente, os direitos de humanos com deficiências e doenças crônicas. Eu mesma, que desde 1992 milito e escrevo artigos e livros sobre sociedade inclusiva e inclusão de grupos vulneráveis na sociedade, participando de movimentos nacionais e internacionais defensores do tema, talvez fosse a primeira a ser encarcerada.
Há uns 15 dias surpreendi-me com o tamanho da minha incoerência. Pego meus cartões de visita e o que leio? Nome, endereço, telefone, profissão, e-mail, tudo escrito apenas em português! Informações ininteligíveis para quem é cego ou tem visão subnormal. Bem, já providenciei cartões de visita em braile que também terão meus dados em letras maiores, para quem não chega a ser cego mas não enxerga bem. Desnecessário? Deixemos a idade avançar e talvez entendamos melhor o que significa acordar e dormir em um mundo inadequado às nossas necessidades básicas.
É absurdo propor inclusão social sem exercitar a inclusão humana. Insistindo em pular esta etapa, que nos remete a reflexões da ética do indivíduo para com sua própria espécie, reflexões estas consideradas menores por grande parte dos sociólogos, filósofos, jornalistas, educadores, governantes - brasileiros e não-brasileiros - etc, jamais construiremos um mundo melhor. Ir ao banheiro com conforto e ter sua intimidade preservada neste momento pode ser tão revolucionário quanto ter voz nas plenárias.
Faço aqui uma chamada para que entidades do Terceiro Setor, como o Instituto Pró-Sociedade Inclusiva, do qual faço parte, e que se coloca à disposição do Fórum Social Mundial, neste momento, mobilizem-se para colaborar com a organização do próximo Fórum no que diz respeito a acessibilidade de participantes com comprometimentos humanos diversos.
Claudia Werneck é reconhecida como "Jornalista Amiga da Criança" pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância e autora do livro "Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS?"
Quem sabe no II Fórum Social Mundial pessoas com deficiências diversas tenham desaparecido da face terrestre. Como esta é uma proposta absurda, sugiro à comissão organizadora do Encontro trabalhar desde já para que indivíduos cegos, surdos, com deficiências física, motora e mental possam participar e se beneficiar dele. Só assim o II Fórum Social Mundial será um local de congraçamento universal de gerações humanas.
Estive no I Fórum Social, em Porto Alegre, participando de uma oficina. Por dois dias circulei pelo Centro de Eventos da PUC do Rio Grande do Sul, passeei pelos stands, conversei com integrantes do Fórum e organizadores constatando, mais uma vez, o quanto ainda estamos distantes de ultrapassar a fase de "respeitar os deficientes", passando finalmente a tomar decisões e adotar práticas para incluí-los no nosso dia a dia.
Neste I Fórum, pessoas surdas ficaram impossibilitadas de acompanhar conferências e se expressar nas oficinas. Não foram contratados intérpretes da língua brasileira de sinais, nem da língua espanhola de sinais, nem da língua inglesa de sinais, por exemplo. Quanto aos cadeirantes, havia vasos sanitários adaptados, sim, mas após usá-los os usuários não tinham como lavar as mãos sem ajuda, porque as pias dos banheiros (pelo menos dos que entrei) eram apoiadas em armários que impediam a aproximação das cadeiras. Notei ainda a ausência da programação em braile para que jovens e adultos cegos pudessem escolher e acompanhar os eixos temáticos.
Enfrentar o desafio da acessibilidade deve ser uma preocupação da comissão organizadora do próximo Fórum por, no mínimo, cinco razões: a) Vi o interesse público pela proposta do Fórum; b) É necessário que cada vez mais pessoas dispostas a se doar por um mundo melhor estejam reunidas em 2002; b) É básico garantir a todas as condições humanas - e não apenas a algumas - o acesso às reflexões propostas pelo Fórum; c) É coerente que num encontro onde se brada por inclusão social, fiquemos atentos às necessidades do próximo, de qualquer próximo, não necessariamente dos próximos sob risco social (só assim ficaremos à vontade para argumentar com os opositores do Fórum); d) É hora de cumprirmos as Leis que penalizam instituições ou indivíduos que impeçam o acesso e a permanência de cidadãos com deficiência nos ambientes públicos. A Lei Federal 7.853, de 24 de outubro de 1989, explicita a responsabilidade do poder público em relação à pessoa com deficiência e dispõe sobre a criminalização do preconceito, com pena de 1 a 4 anos de reclusão.
Não se muda mentalidade por força da lei. Mas, se punidos, os organizadores do Fórum não estariam sozinhos. Inexistem no mundo celas suficientes para conter tanta gente, tamanha é a freqüência com que violamos, diariamente, os direitos de humanos com deficiências e doenças crônicas. Eu mesma, que desde 1992 milito e escrevo artigos e livros sobre sociedade inclusiva e inclusão de grupos vulneráveis na sociedade, participando de movimentos nacionais e internacionais defensores do tema, talvez fosse a primeira a ser encarcerada.
Há uns 15 dias surpreendi-me com o tamanho da minha incoerência. Pego meus cartões de visita e o que leio? Nome, endereço, telefone, profissão, e-mail, tudo escrito apenas em português! Informações ininteligíveis para quem é cego ou tem visão subnormal. Bem, já providenciei cartões de visita em braile que também terão meus dados em letras maiores, para quem não chega a ser cego mas não enxerga bem. Desnecessário? Deixemos a idade avançar e talvez entendamos melhor o que significa acordar e dormir em um mundo inadequado às nossas necessidades básicas.
É absurdo propor inclusão social sem exercitar a inclusão humana. Insistindo em pular esta etapa, que nos remete a reflexões da ética do indivíduo para com sua própria espécie, reflexões estas consideradas menores por grande parte dos sociólogos, filósofos, jornalistas, educadores, governantes - brasileiros e não-brasileiros - etc, jamais construiremos um mundo melhor. Ir ao banheiro com conforto e ter sua intimidade preservada neste momento pode ser tão revolucionário quanto ter voz nas plenárias.
Faço aqui uma chamada para que entidades do Terceiro Setor, como o Instituto Pró-Sociedade Inclusiva, do qual faço parte, e que se coloca à disposição do Fórum Social Mundial, neste momento, mobilizem-se para colaborar com a organização do próximo Fórum no que diz respeito a acessibilidade de participantes com comprometimentos humanos diversos.
Claudia Werneck é reconhecida como "Jornalista Amiga da Criança" pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância e autora do livro "Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS?"
sábado, 18 de fevereiro de 2012
A globalização e seus efeitos
A globalização trouxe principalmente os progressos (desejáveis) nos meios de comunicação, a melhor circulação de pessoas, de mercadorias, de capitais e opções para todos.Todos se beneficiam com a globalização, entretanto o beneficio não é igual para todos. Quanto maior a estruturação da sociedade maior o benefício, quanto menor for a estruturação maior “prejuízo”. Como conseqüência encontramos as desigualdades sociais cada vez mais visíveis.
Para minimizar precisamos de uma estruturação social, política, econômica e financeira, o que encontramos como variável interveniente é a velocidade da globalização frente ao desenvolvimento dos setores citados em cada estrutura social.
A globalização não é uma opção de sociedade, é inevitável, é imposta pela própria evolução de mundo, precisamos ter uma visão um pouco mais ampliada para poder entendê-la.
Poucos conseguem perceber as influências da globalização em todos os níveis de nossas vidas: pessoal, familiar, na cidade/estado ou país. Neste novo contexto sócio-econômico-cultural, a informação passa a ter um papel central, constituindo-se atualmente no maior poder de inter-relação existente, tendo inclusive, suplantado o poder econômico e tecnológico.
O poder da informação se faz através de livros, revistas, jornais especializados, TV a cabo em escala mundial e internet - a qual se quadruplicou em um ano e continua crescendo. A informação duplicando-se, em progressão geométrica, a cada 3 a 5 anos, logo se constituirá em um universo esmagador.
A capacidade de saber onde, como, com quem e a forma mais rápida de adquirir informações, analisá-las e aplicá-las adequadamente será o grande diferencial competitivo.
A globalização não vem trazer soluções para os problemas do mundo, contudo podemos ter a esperança de que alguns problemas sejam resolvidos que é muito diferente de esperar por algo mágico, onipotente e onisciente.
A globalização não se propõe a nada, é apenas uma “fatalidade” que deve ser pensada e compreendida para não sermos pegos de surpresa pelas forças de desestruturação. A própria desestruturação pode ser um fator de progresso, para repensarmos a realidade, mas também de violência e sofrimento humano.
Precisamos estar atentos para não achar que a melhor maneira de enfrentar a globalização seja a unificação, a perda de culturas regionais próprias de cada lugar, como a dissolução das características individuais e particulares, ficaríamos sem nossa história, cultura e identidade! Isto é muito sério. Desta forma a humanidade, em sua história já passou por diversas revoluções e sempre se beneficiou dos seus progressos, o que sabemos é que alguns grupos humanos se beneficiaram mais do que outros.
Para minimizar precisamos de uma estruturação social, política, econômica e financeira, o que encontramos como variável interveniente é a velocidade da globalização frente ao desenvolvimento dos setores citados em cada estrutura social.
A globalização não é uma opção de sociedade, é inevitável, é imposta pela própria evolução de mundo, precisamos ter uma visão um pouco mais ampliada para poder entendê-la.
Poucos conseguem perceber as influências da globalização em todos os níveis de nossas vidas: pessoal, familiar, na cidade/estado ou país. Neste novo contexto sócio-econômico-cultural, a informação passa a ter um papel central, constituindo-se atualmente no maior poder de inter-relação existente, tendo inclusive, suplantado o poder econômico e tecnológico.
O poder da informação se faz através de livros, revistas, jornais especializados, TV a cabo em escala mundial e internet - a qual se quadruplicou em um ano e continua crescendo. A informação duplicando-se, em progressão geométrica, a cada 3 a 5 anos, logo se constituirá em um universo esmagador.
A capacidade de saber onde, como, com quem e a forma mais rápida de adquirir informações, analisá-las e aplicá-las adequadamente será o grande diferencial competitivo.
A globalização não vem trazer soluções para os problemas do mundo, contudo podemos ter a esperança de que alguns problemas sejam resolvidos que é muito diferente de esperar por algo mágico, onipotente e onisciente.
A globalização não se propõe a nada, é apenas uma “fatalidade” que deve ser pensada e compreendida para não sermos pegos de surpresa pelas forças de desestruturação. A própria desestruturação pode ser um fator de progresso, para repensarmos a realidade, mas também de violência e sofrimento humano.
Precisamos estar atentos para não achar que a melhor maneira de enfrentar a globalização seja a unificação, a perda de culturas regionais próprias de cada lugar, como a dissolução das características individuais e particulares, ficaríamos sem nossa história, cultura e identidade! Isto é muito sério. Desta forma a humanidade, em sua história já passou por diversas revoluções e sempre se beneficiou dos seus progressos, o que sabemos é que alguns grupos humanos se beneficiaram mais do que outros.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
O que deveria ser a Pedagogia hoje
É preciso refletir sobre o que pode e deve ser a Pedagogia hoje : deve ser, por certo, a ciência que organiza ações, reflexões e pesquisas na direção das principais demandas educacionais brasileiras contemporâneas, com vistas à:
- qualificação da formação de docentes como um projeto político-emancipatório;
- organização do campo de conhecimento sobre a educação, na ótica do pedagógico;
- articulação científica da teoria educacional com prática educativa;
- transformação dos espaços potenciais educacionais em espaços educativos/formadores;
- qualificação do exercício da prática educativa na intencionalidade de diminuir práticas alienantes, injustas e excludentes encaminhando a sociedade para processos humanizatórios , formativos e emancipatórios.
Quando me refiro à formação do cientista educacional, estou me referindo à formação de um profissional :
- com capacidade de mediar um projeto político-educacional em consonância com os pressupostos da sociedade e as demandas presentes na práxis educativa;
- capacitado a ampliar a esfera do educativo dentro das possibilidades educacionais : que organize espaços e ações para pedagogizar o educacional latente na sociedade;
- capaz de organizar, supervisionar e avaliar processos institucionais de forma a transformar a prática educativa mecânica, alienada e técnica, em práxis educativa, comprometida social e politicamente;
- capaz de responsabilizar-se na organização e direção de projetos de formação inicial e contínua dos educadores da sociedade, docentes e não docentes;
- que transforme saberes da prática educativa em saberes pedagógicos, cientificizando o artesanal/intuitivo do fazer da prática em saberes pedagógicos;
- que organize processos de pesquisa de cunho formativo-emancipatório de forma a estruturar as inovações educativas pressentidas como necessárias, a partir das demandas emanadas da práxis;
- que atue como gestor/pesquisador/coordenador de diversos projetos educativos, dentro e fora da escola: pressupondo sua atuação em atividades de lazer comunitário; em espaços pedagógicos nos hospitais e presídios; na formação de pessoas dentro das empresas; que saiba organizar processos de formação de educadores de ONGs; que possa assessorar atividades pedagógicas nos diversos meios de comunicação como TV, rádio, internet, quadrinhos, revistas, editoras, tornando mais pedagógicas campanhas sociais educativas sobre violência, drogas, aids, dengue; que esteja habilitado à criação e elaboração de brinquedos, materiais de auto estudo, programas de educação à distância; que organize, avalie e desenvolva pesquisas educacionais em diversos contextos sociais; que planeje projetos culturais e afins;
- que na escola, seja o mediador de processos administrativos e pedagógicos, quer na gestão, supervisão, orientação, acompanhamento e avaliação de projeto político pedagógico da unidade escolar, bem como estabelecendo e articulando as vinculações da escola com a comunidade e sociedade.
- que seja o organizador privilegiado do campo de conhecimento da Pedagogia e interlocutor preferencial nas articulações e construções coletivas com ciências afins;
- profissional empenhado na busca de respostas à construção de práticas educativas inovadoras que cumpram seu papel social na humanização dos cidadãos;
- integrador dos demais espaços educativos com o espaço escolar na busca de uma nova lógica educacional capaz de reconduzir a representação de ensino como transmissão de informação para concepções que priorizem a articulação dialética entre ser, saber e construir novas configurações de existência;
- profissional enfim, envolvido com a construção da profissionalidade docente, na busca de condições políticas e institucionais favorecedoras de novas e significativas relações sociais desejadas pelo coletivo.
- qualificação da formação de docentes como um projeto político-emancipatório;
- organização do campo de conhecimento sobre a educação, na ótica do pedagógico;
- articulação científica da teoria educacional com prática educativa;
- transformação dos espaços potenciais educacionais em espaços educativos/formadores;
- qualificação do exercício da prática educativa na intencionalidade de diminuir práticas alienantes, injustas e excludentes encaminhando a sociedade para processos humanizatórios , formativos e emancipatórios.
Quando me refiro à formação do cientista educacional, estou me referindo à formação de um profissional :
- com capacidade de mediar um projeto político-educacional em consonância com os pressupostos da sociedade e as demandas presentes na práxis educativa;
- capacitado a ampliar a esfera do educativo dentro das possibilidades educacionais : que organize espaços e ações para pedagogizar o educacional latente na sociedade;
- capaz de organizar, supervisionar e avaliar processos institucionais de forma a transformar a prática educativa mecânica, alienada e técnica, em práxis educativa, comprometida social e politicamente;
- capaz de responsabilizar-se na organização e direção de projetos de formação inicial e contínua dos educadores da sociedade, docentes e não docentes;
- que transforme saberes da prática educativa em saberes pedagógicos, cientificizando o artesanal/intuitivo do fazer da prática em saberes pedagógicos;
- que organize processos de pesquisa de cunho formativo-emancipatório de forma a estruturar as inovações educativas pressentidas como necessárias, a partir das demandas emanadas da práxis;
- que atue como gestor/pesquisador/coordenador de diversos projetos educativos, dentro e fora da escola: pressupondo sua atuação em atividades de lazer comunitário; em espaços pedagógicos nos hospitais e presídios; na formação de pessoas dentro das empresas; que saiba organizar processos de formação de educadores de ONGs; que possa assessorar atividades pedagógicas nos diversos meios de comunicação como TV, rádio, internet, quadrinhos, revistas, editoras, tornando mais pedagógicas campanhas sociais educativas sobre violência, drogas, aids, dengue; que esteja habilitado à criação e elaboração de brinquedos, materiais de auto estudo, programas de educação à distância; que organize, avalie e desenvolva pesquisas educacionais em diversos contextos sociais; que planeje projetos culturais e afins;
- que na escola, seja o mediador de processos administrativos e pedagógicos, quer na gestão, supervisão, orientação, acompanhamento e avaliação de projeto político pedagógico da unidade escolar, bem como estabelecendo e articulando as vinculações da escola com a comunidade e sociedade.
- que seja o organizador privilegiado do campo de conhecimento da Pedagogia e interlocutor preferencial nas articulações e construções coletivas com ciências afins;
- profissional empenhado na busca de respostas à construção de práticas educativas inovadoras que cumpram seu papel social na humanização dos cidadãos;
- integrador dos demais espaços educativos com o espaço escolar na busca de uma nova lógica educacional capaz de reconduzir a representação de ensino como transmissão de informação para concepções que priorizem a articulação dialética entre ser, saber e construir novas configurações de existência;
- profissional enfim, envolvido com a construção da profissionalidade docente, na busca de condições políticas e institucionais favorecedoras de novas e significativas relações sociais desejadas pelo coletivo.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Como virar a página?
Se não colocar a educação de cabeça para baixo, o Brasil não passará para a primeira divisão da economia mundial
Nely Caixetaí
Revista Brasil em Exame Setembro de 1997
Se é tão fundamental para a competitividade das empresas brasileiras e do país, como nação, contar com uma força de trabalho mais educada, por que não começar a virar o jogo desde já? Para passar à primeira divisão da econômica mundial, algumas lições precisam ser colocadas em prática. Uma delas é garantir uma moeda estável. Mas a estabilidade econômica que hoje experimentamos não irá nos levar muito longe se não for acompanhada de um esforço de toda a sociedade para enfrentar o quadro desastroso em que se encontra hoje a educação no país. Dados do último censo escolar mostram que 2,7 milhões de crianças brasileiras, entre 7 e 14 anos, estão fora da escola. Que tipo de função, se é que há alguma, essas crianças estarão aptas a desempenhar quando atingir a vida adulta?
A abertura econômica, que jogou o país na competição globalizada, serviu para escancarar nossas deficiências diante dos concorrentes estrangeiros. De uma hora para outra, os brasileiros passaram a consumir uma gama variada de produtos melhores e mais baratos, produzidos lá fora por trabalhadores com um grau de instrução bem mais elevado. As estatísticas a esse respeito são cruéis para o nosso lado. A escolaridade média dos 71 milhões de brasileiros que compõem a população economicamente ativa é de 3,8 anos, um dos níveis mais baixos do mundo, comparável aos do Haiti e de Honduras. Na Argentina, a média é de 8,7 anos, no Paraguai, 9 anos, e na Coréia do Sul, I I anos. Sempre que cita esses dados, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, diz que deveriam envergonhar e humilhar as elites do país. Deveriam mesmo.
O que nunca faltou no Brasil foi discurso, alguns com pensamentos de ponta, sobre a melhor maneira de enfrentar o problema da educação brasileira. A educadora Rose Neubauer, secretária da Educação do estado de São Paulo, é uma crítica impiedosa dos modismos que sempre cercaram a questão. "Nunca houve no país um projeto sério em favor da educação", afirma Rose. Enquanto isso, lá fora, a consciência de que era preciso investir pesadamente no ensino básico disseminou-se, desde o século passado, por muitos países, como os Estados Unidos, o Japão e algumas naçõe européias. "Os países que investiram volume considerável de recursos para educar suas populações são aqueles que obtiveram maior desenvolvimento econômico", diz o americano Gary Becker, prêmio Nobel de Economia de 1992. A tarefa à nossa frente é colossal. Não basta conseguir taxas de alfabetização semelhantes às dos países industrializados. É preciso garantir também um ensino de boa qualidade. A partir de um ensino básico bem-feito é que as nossas crianças irão adquirir as ferramentas necessárias para enfrentar o mundo do trabalho, cada vez mais exigente e competitivo. É nesse período escolar que elas recebem as noções básicas e fundamentais que irão carregar para o resto da vida, em termos de conhecimento da língua pátria, uma ou outra estrangeira, literatura, história, matemática, geografia e ciências. Assentam-se aí as bases para o pensamento racional e lógico. Sem isso, elas ficarão à margem dessa nova sociedade da informação e da tecnologia, que exige cidadãos preparados para acompanhar a rápida evolução do conhecimento. "Essa nova etapa do capitalismo entrega ao sistema educacional uma imensa responsabilidade", diz o ministro da Educação, Paulo Renato Souza.
Não é por outra razão que a questão do ensino virou tema candente em todo o mundo. A boa notícia no Brasil é que começa a tomar corpo na sociedade a consciência de que a educação é uma ferramenta estratégica para o crescimento sustentado que o país deseja alcançar. O fato é que muitos empresários passaram a sentir na própria carne o que é ter mão-de-obra despreparada, destituída dos conhecimentos mais elementares da educação básica. Para muitos deles, a questão passou a ser de sobrevivência.
Eles descobriram que muitos de seus funcionários eram analfabetos funcionais, incapazes de manejar a nova tecnologia disponível na empresa. O chão de fábrica passa por uma revolução. Um ferramenteiro hoje tem de ter conhecimento de desenho mecânico e noções de engenharia para projetar no computador os moldes das peças a ser produzidas em série. Para o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, da Universidade de São Paulo, o analfabeto do futuro não será aquele que não sabe ler nem escrever, mas sim alguém incapaz de interagir com máquinas inteligentes e participar de um processo no qual é preciso tomar iniciativas. "Quem não tiver essas habilidades vai ficar excluído", diz Gianetti.
Também o trabalhador rural tem de se adaptar aos novos tempos. Antigamente, o pai ameaçava o filho que não queria ir para a escola, dizendo que se ele não estudasse iria para a roça. Hoje, nem essa alternativa lhe resta. Para aumentar a produtividade, começa a ser introduzida no país a chamada agricultura de precisão. O grupo Algar, de Uberlândia, em Minas Gerais, passou a usar instrumentos de última geração em suas fazendas cultivadas com soja e milho. Sensores instalados nas plantações e o sistema de monitoramento por satélite ajudam os agrônomos a mapear a produtividade em cada metro quadrado da área plantada. A deficiência de fertilizantes ou a ocorrência de praga são detectadas, e as providências tomadas rapidamente.
Para lidar com esse tipo de agricultura, o trabalhador rural precisa saber bem mais do que ler e escrever. Em Paracatu. município do cerrado mineiro, as crianças da zona rural passaram a receber um tratamento muito diferente da costumeira negligência com que vêm sendo relegadas séculos a fio. Há apenas cinco anos, de 2 600 crianças em idade escolar, apenas 300 freqüentavam escolas. Hoje, o número subiu para 2 300 alunos (quase 90% do total), graças a uma série de iniciativas tomadas pela prefeitura para incentivar a educação no campo. O programa, batizado de Educar Plantando, compreende oito escolas-pólos, com cursos da 5ª à 8ª série, e 44 escolas multisseriadas, do pré-primário à 4ª série. Todas as manhãs, 13 Kombis e 12 ônibus contratados pela prefeitura recolhem os alunos na porta de casa para levá-los à aula.
No início, foi preciso convencer os pais a mandar seus filhos para a escola. Eles não queriam perder a ajuda dada pelas crianças no trabalho familiar. A solução encontrada pela prefeitura de Paracatu foi integrá-los ao projeto. São os pais dos alunos que fornecem a carne, ovos, leite, frutas e legumes usados na merenda escolar. Desde o lançamento do programa os índices de evasão caíram para mais da metade. Está em cerca de 5,6%, contra 8,8% na área urbana. A Fundação Banco do Brasil, que passou a apoiar o programa. está estendendo a iniciativa para mais de 60 municípios em todo o país.
Está claro que, num mundo moderno, a produtividade está associada diretamente à qualificação do trabalhador. Não é possível atingir prosperidade sem investimento em capital humano. Em seu livro Human Capital, Becker cita o inglês Alfred Marshall, para quem a essência do desenvolvimento residia no emprego das potencialidades das pessoas. Muitos dos problemas que Marshall viu na Inglaterra do fim do século - mau aproveitamento dos recursos humanos e desperdício na escola gerado por um alto grau de repetência e evasão ainda são os nossos problemas.
Por causa da repetência, os brasileiros levam em média cerca de 11,2 anos para concluir as oito séries do ensino obrigatório. No Nordeste, 80% dos alunos matriculados na escola fundamental têm idade superior à faixa etária correspondente à série em que estudam. O resultado é um alto nível de evasão escolar - cerca de 4% no ensino fundamental. Desestimuladas pelos maus resultados e pressionadas pelos pais a ajudar no sustento da casa, muitas crianças abandonam definitivamente os estudos. Sempre se jogou sobre as costas dos alunos a culpa pelo fracasso escolar. Quando tantas crianças abandonam os estudos, é claro que os verdadeiros responsáveis estão em outro lugar. Os dados do último censo escolar revelaram, porém, uma tendência alentadora. Apesar de alto, o número de alunos que deixam a escola está em queda. Isso pode ser atestado pelo crescimento das matrículas no ensino médio (o antigo segundo grau), que aumentaram 52,2% entre 1991 e 1996.
O governo, empresários e estudiosos do problema estão convencidos de que as oito séries do nível fundamental constituem a melhor base para qualquer aspirante a uma vaga no mercado de trabalho. O que afinal aconteceu para que houvesse essa guinada tão radical? O fato é que num mundo de fronteiras abertas, onde o acesso ao capital e aos fatores de produção foram internacionalizados, o que faz a diferença atualmente é a qualidade da mão-de-obra nacional. Na dúvida entre investir neste ou naquele país, ganhará o que for capaz de oferecer uma força de trabalho mais bem preparada. É isso o que os especialistas chamam de worker effect, o que, em última instância, garantirá a competitividade internacional dos produtos a ser produzidos.
Os índices de produtividade do trabalhador brasileiro tiveram um salto espetacular desde o início do Plano Real, mas ainda estão muito longe daqueles que vêm sendo obtidos pelos seus pares na Coréia, onde a escola fundamental foi universalizada e a educação é cultuada como um bem valioso. Por isso, nada soa mais ultrapassado hoje do que aquela qualificação excludente do passado, em que os filhos das classes menos favorecidas substituíam a formação acadêmica pelos cursos profissionalizantes oferecidos no local de trabalho. Tal modelo ajudou a perpetuar uma casta de brasileiros de segunda categoria, mantendo, geração após geração, as desigualdades sociais de seus grupos. Enquanto isso, o ensino acadêmico era garantido aos filhos das classes médias e mais abastadas, que acabavam ficando com as vagas nas universidades e, mais tarde, com os cargos de comando nas empresas e fora delas.
Não se pode menosprezar o fato de que, além de contribuir ara formar continentes de mão-de-obra capazes de atrair para o parque industrial brasileiro as chamadas indústrias de ponta, a educação também terá seu papel na consolidação do mercado brasileiro. Como afirma o economista carioca Sérgio Werlang, cada ano adicional de estudo acrescenta ao trabalhador brasileiro um aumento anual de renda em tomo de 16%. Mais renda, mais consumo.
Quanto maior a base acadêmica, maior a chance de um trabalhador integrar-se às novas exigências do trabalho e expandir suas habilidades, mediante cursos de reciclagem constantes. É assim que irá garantir sua empregabilidade, uma dessas palavras feias que os consultores e técnicos inventam de vez em quando, mas que significa apenas a capacidade do trabalhador de tornar seus préstimos úteis para alguma empresa. "A principal política de emprego é a política educacional", diz o ministro do Trabalho, Paulo Paiva.
Dados do Ministério do Trabalho indicam que o contingente de pessoas analfabetas ou subescolarizadas empregadas hoje nos diversos setores da economia é superior a 10 milhões. Uma série de iniciativas está em curso para enfrentar o problema. A Confederação Nacional da Indústria, CNI, através do Sesi, anunciou recentemente uma meta ambiciosa: alfabetizar e elevar a escolaridade de 3,6 milhões de trabalhadores acima de 14 anos, empregados na indústria, no setor de comunicações e na pesca. O programa pretende fazer com que 2,6 milhões de trabalhadores concluam a 8ª série do ensino fundamental num período de seis anos.
Empresas como a Black & Decker, Volkswagen, Honda e Natura estão investindo na educação básica de seus funcionários. Muitas empresas, como a Natura, só admitem funcionários que tenham o segundo grau completo. A política começou a ser implantada há cerca de três anos, quando muitos deles, com baixa escolaridade, começaram a ter dificuldades para absorver os novos conceitos de qualidade total que estavam sendo introduzidos na empresa. O recurso foi firmar um convênio com uma escola pública da vizinhança para que voltassem a estudar. Hoje, 78% dos funcionários da Natura já atendem àquela exigência. "Precisamos de pessoas que saibam tirar conteúdo de um texto e entendam nossos treinamentos operacionais", afirma o diretor de recursos humanos e qualidade total da Natura, Femando Porchat.
Para fazer essa revolução do giz, - caderno e compasso (sem falar da calculadora eletrônica e do computador) é preciso que a sociedade se mobilize. Há muito se sabe que um dos nós da educação brasileira é a prioridade dada pelo governo ao ensino universitário em detrimento do ensino básico. A questão sobre se a universidade pública deve ou não ser paga é um vespeiro no qual o governo não pretende meter a mão, ao menos por enquanto. "Esse não é um tema central neste momento", diz o ministro Paulo Renato. Para ele, as atenções devem ser centradas na reforma universitária que se encontra em discussão no Congresso. Sua esperança é que por meio dessa reforma, que pretende dar maior autonomia administrativa e financeira às universidades federais, elas possam melhorar seu desempenho, inclusive baixando os custos - hoje tão altos - por aluno matriculado.
O outro nó é a altíssima taxa de repetência, que atinge cerca de 30% dos alunos matriculados no ensino fundamental. O resultado é uma massa de estudantes com auto-estima baixa e desmotivados, que acabam abandonando para sempre os bancos escolares. Os números da evasão escolar são espantosos. De cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, apenas 35 concluem a 8ª série. O que o governo está fazendo para solucionar o problema da repetência? "Estamos centrando nossos esforços na melhoria da qualidade do ensino", diz o ministro Paulo Renato.
Uma série de ações está em curso. A principal delas foi a promulgação, no ano passado, da Emenda Constitucional n.º 14, que estabelece o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério. A partir de 1998, 60% dos recursos que estados e municípios têm de reservar, obrigatoriamente, para a educação, vão ser canalizados para o ensino fundamental. Esses recursos serão redistribuídos aos municípios e estados de acordo com o número de alunos matriculados nas respectivas redes. Isso significa que, para ter acesso às verbas, prefeitos e governadores precisarão investir nas escolas da 111 à 8a série. O investimento em cada aluno será de 300 dólares por ano, o mesmo valor do salário mínimo que passará a ser pago aos professores de todo o país por 20 horas de aula semanais. Começa-se a corrigir, assim, a vexatória situação que faz muitos professores, em algumas partes do país, receberem salários de 30 reais por mês.
Para melhorar a qualificação dos mestres, o governo lançou no ano passado o programa TV Escola. Cerca de 45 000 escolas do país já contam com equipamento para recepção e gravação dos cursos de aperfeiçoamento oferecidos aos professores. A intenção do governo é que, em cinco anos, todos eles tenham pelo menos o segundo grau completo. Hoje, apenas 47% deles estão nessa situação. Também no ano passado foi criado o programa de Aceleração de Aprendizagem, voltado para alunos com mais de dois anos de repetência. Lançado inicialmente nos estados de Minas Gerais, do Maranhão e de São Paulo, a iniciativa tem colhido bons resultados. O Ceará é outro estado que tem priorizado o combate à repetência e à evasão escolares. Ali, agentes comunitários visitam as áreas mais pobres do estado para convencer os pais a mandarem seus filhos novamente para a escola Essa e outras iniciativas fizeram com que a matrícula nas escolas cearenses do ensino fundamental tivesse um aumento de 25% do ano passado para cá.
Há várias outras iniciativas adotadas pelo governo federal para melhorar o nível de ensino. O MEC implantou, por exemplo, um sistema de avaliação do livro didático, para orientar a escolha dos professores. Este ano foram distribuídos, no início e não no meio do ano letivo, como acontecia tradicionalmente, um total de 110 milhões de livros didáticos, o que significa um aumento de 83% sobre 1996.
Outra novidade diz respeito aos novos parâmetros curriculares que estão sendo estabelecidos para o ensino fundamental. Já a partir do próximo ano, as disciplinas clássicas, como português, ciências sociais e matemática, vão ser permeadas, nas escolas da 14 à 4& série, por temas como saúde, pluralidade cultural, ética da cidadania e meio ambiente. No próximo mês, o presidente Femando Henrique Cardoso vai divulgar as bases do programa Nenhuma Criança fora da Escola, que tem por fim apoiar os estados e os municípios a expandirem o número de suas matrículas e eliminar o déficit no atendimento já a partir do ano letivo de 1998.
Em meio a todos os dados desalentadores da educação brasileira, uma boa notícia. De 1991 a 1995, o número de alunos que concluíram o ensino fundamental cresceu 61,9%. No mesmo período, o número daqueles que terminaram o ensino médio foi 45,9% maior.
Tudo isso mostra que alguma coisa está sendo feita para desatar o nó do ensino no Brasil. Não se trata evidentemente, de uma tarefa que se possa executar da noite para o dia, mas é preciso correr. Outros países, com sistemas educacionais mais funcionais do que o nosso, estão discutindo os seus erros e procurando corrigi-los, sob pena de serem punidos mais adiante. É possível, sim, resolver o problema da educação no Brasil. Talvez seja uma tarefa para apenas uma geração. Convém desmitificar as dificuldades à frente. Houve um tempo em que quase chegamos a perder a confiança em nossa capacidade de ter uma moeda estável. Hoje, a inflação está aí com índices de apenas um dígito - uma miragem não faz tanto tempo assim. Se toda a sociedade quiser, não vai ser diferente com a educação. Só com uma profunda reforma do ensino, que resgate a cidadania de sua enorme parcela de excluídos, é que o Brasil vai poder, finalmente, deixar a segunda divisão dos países e marcar, quem sabe, um gol de placa no século XXI.
Nely Caixetaí
Revista Brasil em Exame Setembro de 1997
Se é tão fundamental para a competitividade das empresas brasileiras e do país, como nação, contar com uma força de trabalho mais educada, por que não começar a virar o jogo desde já? Para passar à primeira divisão da econômica mundial, algumas lições precisam ser colocadas em prática. Uma delas é garantir uma moeda estável. Mas a estabilidade econômica que hoje experimentamos não irá nos levar muito longe se não for acompanhada de um esforço de toda a sociedade para enfrentar o quadro desastroso em que se encontra hoje a educação no país. Dados do último censo escolar mostram que 2,7 milhões de crianças brasileiras, entre 7 e 14 anos, estão fora da escola. Que tipo de função, se é que há alguma, essas crianças estarão aptas a desempenhar quando atingir a vida adulta?
A abertura econômica, que jogou o país na competição globalizada, serviu para escancarar nossas deficiências diante dos concorrentes estrangeiros. De uma hora para outra, os brasileiros passaram a consumir uma gama variada de produtos melhores e mais baratos, produzidos lá fora por trabalhadores com um grau de instrução bem mais elevado. As estatísticas a esse respeito são cruéis para o nosso lado. A escolaridade média dos 71 milhões de brasileiros que compõem a população economicamente ativa é de 3,8 anos, um dos níveis mais baixos do mundo, comparável aos do Haiti e de Honduras. Na Argentina, a média é de 8,7 anos, no Paraguai, 9 anos, e na Coréia do Sul, I I anos. Sempre que cita esses dados, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, diz que deveriam envergonhar e humilhar as elites do país. Deveriam mesmo.
O que nunca faltou no Brasil foi discurso, alguns com pensamentos de ponta, sobre a melhor maneira de enfrentar o problema da educação brasileira. A educadora Rose Neubauer, secretária da Educação do estado de São Paulo, é uma crítica impiedosa dos modismos que sempre cercaram a questão. "Nunca houve no país um projeto sério em favor da educação", afirma Rose. Enquanto isso, lá fora, a consciência de que era preciso investir pesadamente no ensino básico disseminou-se, desde o século passado, por muitos países, como os Estados Unidos, o Japão e algumas naçõe européias. "Os países que investiram volume considerável de recursos para educar suas populações são aqueles que obtiveram maior desenvolvimento econômico", diz o americano Gary Becker, prêmio Nobel de Economia de 1992. A tarefa à nossa frente é colossal. Não basta conseguir taxas de alfabetização semelhantes às dos países industrializados. É preciso garantir também um ensino de boa qualidade. A partir de um ensino básico bem-feito é que as nossas crianças irão adquirir as ferramentas necessárias para enfrentar o mundo do trabalho, cada vez mais exigente e competitivo. É nesse período escolar que elas recebem as noções básicas e fundamentais que irão carregar para o resto da vida, em termos de conhecimento da língua pátria, uma ou outra estrangeira, literatura, história, matemática, geografia e ciências. Assentam-se aí as bases para o pensamento racional e lógico. Sem isso, elas ficarão à margem dessa nova sociedade da informação e da tecnologia, que exige cidadãos preparados para acompanhar a rápida evolução do conhecimento. "Essa nova etapa do capitalismo entrega ao sistema educacional uma imensa responsabilidade", diz o ministro da Educação, Paulo Renato Souza.
Não é por outra razão que a questão do ensino virou tema candente em todo o mundo. A boa notícia no Brasil é que começa a tomar corpo na sociedade a consciência de que a educação é uma ferramenta estratégica para o crescimento sustentado que o país deseja alcançar. O fato é que muitos empresários passaram a sentir na própria carne o que é ter mão-de-obra despreparada, destituída dos conhecimentos mais elementares da educação básica. Para muitos deles, a questão passou a ser de sobrevivência.
Eles descobriram que muitos de seus funcionários eram analfabetos funcionais, incapazes de manejar a nova tecnologia disponível na empresa. O chão de fábrica passa por uma revolução. Um ferramenteiro hoje tem de ter conhecimento de desenho mecânico e noções de engenharia para projetar no computador os moldes das peças a ser produzidas em série. Para o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, da Universidade de São Paulo, o analfabeto do futuro não será aquele que não sabe ler nem escrever, mas sim alguém incapaz de interagir com máquinas inteligentes e participar de um processo no qual é preciso tomar iniciativas. "Quem não tiver essas habilidades vai ficar excluído", diz Gianetti.
Também o trabalhador rural tem de se adaptar aos novos tempos. Antigamente, o pai ameaçava o filho que não queria ir para a escola, dizendo que se ele não estudasse iria para a roça. Hoje, nem essa alternativa lhe resta. Para aumentar a produtividade, começa a ser introduzida no país a chamada agricultura de precisão. O grupo Algar, de Uberlândia, em Minas Gerais, passou a usar instrumentos de última geração em suas fazendas cultivadas com soja e milho. Sensores instalados nas plantações e o sistema de monitoramento por satélite ajudam os agrônomos a mapear a produtividade em cada metro quadrado da área plantada. A deficiência de fertilizantes ou a ocorrência de praga são detectadas, e as providências tomadas rapidamente.
Para lidar com esse tipo de agricultura, o trabalhador rural precisa saber bem mais do que ler e escrever. Em Paracatu. município do cerrado mineiro, as crianças da zona rural passaram a receber um tratamento muito diferente da costumeira negligência com que vêm sendo relegadas séculos a fio. Há apenas cinco anos, de 2 600 crianças em idade escolar, apenas 300 freqüentavam escolas. Hoje, o número subiu para 2 300 alunos (quase 90% do total), graças a uma série de iniciativas tomadas pela prefeitura para incentivar a educação no campo. O programa, batizado de Educar Plantando, compreende oito escolas-pólos, com cursos da 5ª à 8ª série, e 44 escolas multisseriadas, do pré-primário à 4ª série. Todas as manhãs, 13 Kombis e 12 ônibus contratados pela prefeitura recolhem os alunos na porta de casa para levá-los à aula.
No início, foi preciso convencer os pais a mandar seus filhos para a escola. Eles não queriam perder a ajuda dada pelas crianças no trabalho familiar. A solução encontrada pela prefeitura de Paracatu foi integrá-los ao projeto. São os pais dos alunos que fornecem a carne, ovos, leite, frutas e legumes usados na merenda escolar. Desde o lançamento do programa os índices de evasão caíram para mais da metade. Está em cerca de 5,6%, contra 8,8% na área urbana. A Fundação Banco do Brasil, que passou a apoiar o programa. está estendendo a iniciativa para mais de 60 municípios em todo o país.
Está claro que, num mundo moderno, a produtividade está associada diretamente à qualificação do trabalhador. Não é possível atingir prosperidade sem investimento em capital humano. Em seu livro Human Capital, Becker cita o inglês Alfred Marshall, para quem a essência do desenvolvimento residia no emprego das potencialidades das pessoas. Muitos dos problemas que Marshall viu na Inglaterra do fim do século - mau aproveitamento dos recursos humanos e desperdício na escola gerado por um alto grau de repetência e evasão ainda são os nossos problemas.
Por causa da repetência, os brasileiros levam em média cerca de 11,2 anos para concluir as oito séries do ensino obrigatório. No Nordeste, 80% dos alunos matriculados na escola fundamental têm idade superior à faixa etária correspondente à série em que estudam. O resultado é um alto nível de evasão escolar - cerca de 4% no ensino fundamental. Desestimuladas pelos maus resultados e pressionadas pelos pais a ajudar no sustento da casa, muitas crianças abandonam definitivamente os estudos. Sempre se jogou sobre as costas dos alunos a culpa pelo fracasso escolar. Quando tantas crianças abandonam os estudos, é claro que os verdadeiros responsáveis estão em outro lugar. Os dados do último censo escolar revelaram, porém, uma tendência alentadora. Apesar de alto, o número de alunos que deixam a escola está em queda. Isso pode ser atestado pelo crescimento das matrículas no ensino médio (o antigo segundo grau), que aumentaram 52,2% entre 1991 e 1996.
O governo, empresários e estudiosos do problema estão convencidos de que as oito séries do nível fundamental constituem a melhor base para qualquer aspirante a uma vaga no mercado de trabalho. O que afinal aconteceu para que houvesse essa guinada tão radical? O fato é que num mundo de fronteiras abertas, onde o acesso ao capital e aos fatores de produção foram internacionalizados, o que faz a diferença atualmente é a qualidade da mão-de-obra nacional. Na dúvida entre investir neste ou naquele país, ganhará o que for capaz de oferecer uma força de trabalho mais bem preparada. É isso o que os especialistas chamam de worker effect, o que, em última instância, garantirá a competitividade internacional dos produtos a ser produzidos.
Os índices de produtividade do trabalhador brasileiro tiveram um salto espetacular desde o início do Plano Real, mas ainda estão muito longe daqueles que vêm sendo obtidos pelos seus pares na Coréia, onde a escola fundamental foi universalizada e a educação é cultuada como um bem valioso. Por isso, nada soa mais ultrapassado hoje do que aquela qualificação excludente do passado, em que os filhos das classes menos favorecidas substituíam a formação acadêmica pelos cursos profissionalizantes oferecidos no local de trabalho. Tal modelo ajudou a perpetuar uma casta de brasileiros de segunda categoria, mantendo, geração após geração, as desigualdades sociais de seus grupos. Enquanto isso, o ensino acadêmico era garantido aos filhos das classes médias e mais abastadas, que acabavam ficando com as vagas nas universidades e, mais tarde, com os cargos de comando nas empresas e fora delas.
Não se pode menosprezar o fato de que, além de contribuir ara formar continentes de mão-de-obra capazes de atrair para o parque industrial brasileiro as chamadas indústrias de ponta, a educação também terá seu papel na consolidação do mercado brasileiro. Como afirma o economista carioca Sérgio Werlang, cada ano adicional de estudo acrescenta ao trabalhador brasileiro um aumento anual de renda em tomo de 16%. Mais renda, mais consumo.
Quanto maior a base acadêmica, maior a chance de um trabalhador integrar-se às novas exigências do trabalho e expandir suas habilidades, mediante cursos de reciclagem constantes. É assim que irá garantir sua empregabilidade, uma dessas palavras feias que os consultores e técnicos inventam de vez em quando, mas que significa apenas a capacidade do trabalhador de tornar seus préstimos úteis para alguma empresa. "A principal política de emprego é a política educacional", diz o ministro do Trabalho, Paulo Paiva.
Dados do Ministério do Trabalho indicam que o contingente de pessoas analfabetas ou subescolarizadas empregadas hoje nos diversos setores da economia é superior a 10 milhões. Uma série de iniciativas está em curso para enfrentar o problema. A Confederação Nacional da Indústria, CNI, através do Sesi, anunciou recentemente uma meta ambiciosa: alfabetizar e elevar a escolaridade de 3,6 milhões de trabalhadores acima de 14 anos, empregados na indústria, no setor de comunicações e na pesca. O programa pretende fazer com que 2,6 milhões de trabalhadores concluam a 8ª série do ensino fundamental num período de seis anos.
Empresas como a Black & Decker, Volkswagen, Honda e Natura estão investindo na educação básica de seus funcionários. Muitas empresas, como a Natura, só admitem funcionários que tenham o segundo grau completo. A política começou a ser implantada há cerca de três anos, quando muitos deles, com baixa escolaridade, começaram a ter dificuldades para absorver os novos conceitos de qualidade total que estavam sendo introduzidos na empresa. O recurso foi firmar um convênio com uma escola pública da vizinhança para que voltassem a estudar. Hoje, 78% dos funcionários da Natura já atendem àquela exigência. "Precisamos de pessoas que saibam tirar conteúdo de um texto e entendam nossos treinamentos operacionais", afirma o diretor de recursos humanos e qualidade total da Natura, Femando Porchat.
Para fazer essa revolução do giz, - caderno e compasso (sem falar da calculadora eletrônica e do computador) é preciso que a sociedade se mobilize. Há muito se sabe que um dos nós da educação brasileira é a prioridade dada pelo governo ao ensino universitário em detrimento do ensino básico. A questão sobre se a universidade pública deve ou não ser paga é um vespeiro no qual o governo não pretende meter a mão, ao menos por enquanto. "Esse não é um tema central neste momento", diz o ministro Paulo Renato. Para ele, as atenções devem ser centradas na reforma universitária que se encontra em discussão no Congresso. Sua esperança é que por meio dessa reforma, que pretende dar maior autonomia administrativa e financeira às universidades federais, elas possam melhorar seu desempenho, inclusive baixando os custos - hoje tão altos - por aluno matriculado.
O outro nó é a altíssima taxa de repetência, que atinge cerca de 30% dos alunos matriculados no ensino fundamental. O resultado é uma massa de estudantes com auto-estima baixa e desmotivados, que acabam abandonando para sempre os bancos escolares. Os números da evasão escolar são espantosos. De cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, apenas 35 concluem a 8ª série. O que o governo está fazendo para solucionar o problema da repetência? "Estamos centrando nossos esforços na melhoria da qualidade do ensino", diz o ministro Paulo Renato.
Uma série de ações está em curso. A principal delas foi a promulgação, no ano passado, da Emenda Constitucional n.º 14, que estabelece o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério. A partir de 1998, 60% dos recursos que estados e municípios têm de reservar, obrigatoriamente, para a educação, vão ser canalizados para o ensino fundamental. Esses recursos serão redistribuídos aos municípios e estados de acordo com o número de alunos matriculados nas respectivas redes. Isso significa que, para ter acesso às verbas, prefeitos e governadores precisarão investir nas escolas da 111 à 8a série. O investimento em cada aluno será de 300 dólares por ano, o mesmo valor do salário mínimo que passará a ser pago aos professores de todo o país por 20 horas de aula semanais. Começa-se a corrigir, assim, a vexatória situação que faz muitos professores, em algumas partes do país, receberem salários de 30 reais por mês.
Para melhorar a qualificação dos mestres, o governo lançou no ano passado o programa TV Escola. Cerca de 45 000 escolas do país já contam com equipamento para recepção e gravação dos cursos de aperfeiçoamento oferecidos aos professores. A intenção do governo é que, em cinco anos, todos eles tenham pelo menos o segundo grau completo. Hoje, apenas 47% deles estão nessa situação. Também no ano passado foi criado o programa de Aceleração de Aprendizagem, voltado para alunos com mais de dois anos de repetência. Lançado inicialmente nos estados de Minas Gerais, do Maranhão e de São Paulo, a iniciativa tem colhido bons resultados. O Ceará é outro estado que tem priorizado o combate à repetência e à evasão escolares. Ali, agentes comunitários visitam as áreas mais pobres do estado para convencer os pais a mandarem seus filhos novamente para a escola Essa e outras iniciativas fizeram com que a matrícula nas escolas cearenses do ensino fundamental tivesse um aumento de 25% do ano passado para cá.
Há várias outras iniciativas adotadas pelo governo federal para melhorar o nível de ensino. O MEC implantou, por exemplo, um sistema de avaliação do livro didático, para orientar a escolha dos professores. Este ano foram distribuídos, no início e não no meio do ano letivo, como acontecia tradicionalmente, um total de 110 milhões de livros didáticos, o que significa um aumento de 83% sobre 1996.
Outra novidade diz respeito aos novos parâmetros curriculares que estão sendo estabelecidos para o ensino fundamental. Já a partir do próximo ano, as disciplinas clássicas, como português, ciências sociais e matemática, vão ser permeadas, nas escolas da 14 à 4& série, por temas como saúde, pluralidade cultural, ética da cidadania e meio ambiente. No próximo mês, o presidente Femando Henrique Cardoso vai divulgar as bases do programa Nenhuma Criança fora da Escola, que tem por fim apoiar os estados e os municípios a expandirem o número de suas matrículas e eliminar o déficit no atendimento já a partir do ano letivo de 1998.
Em meio a todos os dados desalentadores da educação brasileira, uma boa notícia. De 1991 a 1995, o número de alunos que concluíram o ensino fundamental cresceu 61,9%. No mesmo período, o número daqueles que terminaram o ensino médio foi 45,9% maior.
Tudo isso mostra que alguma coisa está sendo feita para desatar o nó do ensino no Brasil. Não se trata evidentemente, de uma tarefa que se possa executar da noite para o dia, mas é preciso correr. Outros países, com sistemas educacionais mais funcionais do que o nosso, estão discutindo os seus erros e procurando corrigi-los, sob pena de serem punidos mais adiante. É possível, sim, resolver o problema da educação no Brasil. Talvez seja uma tarefa para apenas uma geração. Convém desmitificar as dificuldades à frente. Houve um tempo em que quase chegamos a perder a confiança em nossa capacidade de ter uma moeda estável. Hoje, a inflação está aí com índices de apenas um dígito - uma miragem não faz tanto tempo assim. Se toda a sociedade quiser, não vai ser diferente com a educação. Só com uma profunda reforma do ensino, que resgate a cidadania de sua enorme parcela de excluídos, é que o Brasil vai poder, finalmente, deixar a segunda divisão dos países e marcar, quem sabe, um gol de placa no século XXI.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
A importância dos valores internos
Esse estudo visa uma compreensão mais aprofundada a respeito da estrutura de valores que possui o ser humano em seu projeto de vida. Primeiramente, faz-se necessária uma reflexão acerca dos valores internos, buscando a suas origens na formação do psiquismo humano. Ao investigar o desenvolvimento da personalidade infantil encontram-se aspectos ligados a temperamento. É como descreve Fadiman (1986), estudos realizados por Carl Gustav Jung trouxeram os conceitos de pessoas introvertidas e extrovertidas, cada qual com as suas peculiaridades de pensamento, sensação, percepção e intuição.
Ainda em Fadiman (1986), há a conceituação deixada por Skinner, psicólogo americano, na qual sinaliza as influências que o meio ambiente exerce sobre as pessoas, levando-as a terem um comportamento ou outro. Seus estudos incluíram o campo da educação, valorizando as recompensas para a aquisição de bons comportamentos e a punição para a correção dos inadequados.
Na esfera da moral, em Piaget (1977), existe a idéia de noção de justiça na criança, ao referir-se a uma oposição existente entre dois tipos de respeito, e conseqüentemente, entre duas morais: a de obrigação e a de cooperação. Uma trata do dever, a outra do respeito mútuo. Quando a criança desenvolve uma formação baseada na justiça de cooperação é possível que ela possua um senso de justiça igualitário ao longo de sua vida.
As bases sobre justiça podem ser encontradas no filósofo clássico Aristóteles (1986), através de suas reflexões éticas, ao afirmar que aquele que pratica atos justos não necessariamente é um ”homem justo”; pode ser um “bom cidadão”, contudo, jamais será um “homem justo” ou um “homem bom” de per si. O “homem bom” é, por si mesmo, independentemente da sociedade, completo em sua interioridade; a justiça lhe é uma virtude vivida, por meio da ação voluntária. A moral obedece às regras, a ética possui seus próprios valores.
La Taille (2002), descreve o cenário da educação infantil apontando as duas grandes fontes educacionais da criança: família e escola, como agentes que devem tornar claros os seus valores e definições sobre uma vida plena. A sociedade e a mídia acabam ocupando um espaço considerável na formação desses conceitos fundamentais. Com o passar do tempo os valores aprendidos na família e na escola foram perdendo terreno, e quem encontrou espaço para implantar diferentes valores foi a forte idéia comercial. Tudo parece estar voltado para o mercado, o consumismo e a superficialidade. Muito tem se perdido com esta maneira de formar valores.
Tendo em vista os vários fatores que compõem a personalidade do ser humano, torna-se importante o exercício de compreender que formas de valor podem estar presentes nas pessoas. Dependendo das características existentes desde o nascimento, somadas as aprendizagens e experiências vividas, resultará em diferentes valores encontrados em cada um.
A criança recebe determinada cultura de seus cuidadores, bem como influências do meio em que vive. Caso ela não obtenha valores de uma vida mais plena, dificilmente formará um conceito interno a respeito. A preocupação nesta altura das reflexões alcança os valores que o ser humano formou e os vive a partir de uma condição intrínseca. Ao contrário de alguém que percebe a necessidade de ter de se adequar às regras e normas circunstanciais de um dado momento, para uma demanda específica. Temos, então, valores adaptados e considerados extrínsecos. Seu efeito pode durar tanto quanto os seus objetivos permaneçam disponíveis.
Aquele que possui valores intrínsecos tem maior chance de resistir às atribulações que a vida reserva. Sofre, contudo, encontra sustentação diante das dificuldades existentes. Vê o campo de batalha no qual se situa, porém, tem ânimo e força para continuar lutando e planejando as perspectivas. É como se encontrasse uma companhia vital para continuar a jornada. Os valores religiosos são forte exemplo desse tipo de sustentação. Vemos claramente em (2 Co 5.1.): “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.”
Por outro lado, quem convive com valores extrínsecos, é presa fácil dos problemas. Sucumbe, quase sempre, ao primeiro vento que sopra contrariamente. Não há uma estrutura formada que ofereça apoio e perseverança. Encontra, na maioria das vezes, o desespero como aliado. Sente-se só.
Como tratar da questão em pauta? Valores positivos internos, se eles pouco representam para as pessoas que não o obtiveram. Observe que o número de crianças com pouco contato nesta esfera do desenvolvimento vêm aumentando, haja vista o distanciamento que ocorre entre pais e filhos. A educação perde terreno nesta relação já enfraquecida, onde a responsabilidade primária (dos pais) está sendo passada, ou há uma constante tentativa, para a secundária (escola). As razões deste fenômeno vão desde o conceito errôneo que muitos pais têm a respeito do eixo liberdade-limites, até o comprometimento com as suas atividades profissionais em virtude do dinheiro e do próprio desenvolvimento. Não é uma situação fácil (Siqueira, 2003).
Os educadores têm um papel relevante junto a seus alunos, bem como aos pais deles. É papel de liderança que deve estar presente todo dia na vida das crianças e adolescentes. Declarar valores pessoais e estimular o seu desenvolvimento pode auxiliar nesta tentativa. Em qualquer oportunidade de tempo, desde que seja feito.
Imaginemos, então, se ampliarmos esta dificuldade para a vida social em grupo. Muitas pessoas, de diferentes valores, ainda que alguns estejam relativamente próximos, calcule como é o alinhamento entre aquele que possui valores internos de boa conduta, mediante valores globais negativos de um sistema organizado? O contrário também.
Outro empecilho ocorre na hora de compreender ou formar os planos futuros de vida. Que sonhos ter? O que vislumbrar como algo que possua grandeza e nos inspire a caminhar em sua direção? Que horizonte observar e nele estarem depositadas importantes convicções pessoais?
Ainda mais, como conceber as metas desses planos? Se a perspectiva não inclui uma visão estimuladora? Que objetivos tangíveis devemos alcançar para manter a chama acesa?
Se não há valores profundos e positivos, não há, em essência, o que visionar e tornar, em decorrência, objeto de qualquer missão. Tal infortúnio, num convívio grupal, desmotiva aquele que é desprovido de valores fundamentais. Quer apenas resultados imediatos e se frustra facilmente quando não os obtêm. Seus objetivos incluem somente o fazer e a resposta que ocorra de acordo com as suas aspirações, excluindo os seus propósitos educativos, tais como o errar, parte inseparável do ser humano. Não há paciência, muito menos sabedoria em entender as muitas possibilidades que podem estar presentes em cada idéia e ato que emitimos.
Quando a pessoa carrega valores internos, é capaz de empreender atividades que busquem se aproximar de seus sonhos. Avaliar as novas situações, respeitando as mudanças e resultados que surjam, diferentemente do que antevia. Compreender o valor do tempo e saber esperar quando assim se faz necessário. É crente de suas convicções e sabe articulá-las com as diferenças que encontra no grupo. Busca adaptar-se, até certo limite, aos valores da comunidade que faz parte. Alinha seus valores, sonhos e metas. Encontra na própria estrutura desses conceitos um objetivo a ser alcançado em cada lugar e em cada tempo.
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora da UNB, l985.
FADIMAN, James. Teorias da Personalidade. São Paulo: Editora Harbra, 1986.
PIAGET, J. O julgamento moral da criança. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.
SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Educação sem limites. Internet, disponível em: www.psicopedagogia.com.br. Acesso em 03/11/03.
TAILLE, Yves de La. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: editora Ática, 2002.
Ainda em Fadiman (1986), há a conceituação deixada por Skinner, psicólogo americano, na qual sinaliza as influências que o meio ambiente exerce sobre as pessoas, levando-as a terem um comportamento ou outro. Seus estudos incluíram o campo da educação, valorizando as recompensas para a aquisição de bons comportamentos e a punição para a correção dos inadequados.
Na esfera da moral, em Piaget (1977), existe a idéia de noção de justiça na criança, ao referir-se a uma oposição existente entre dois tipos de respeito, e conseqüentemente, entre duas morais: a de obrigação e a de cooperação. Uma trata do dever, a outra do respeito mútuo. Quando a criança desenvolve uma formação baseada na justiça de cooperação é possível que ela possua um senso de justiça igualitário ao longo de sua vida.
As bases sobre justiça podem ser encontradas no filósofo clássico Aristóteles (1986), através de suas reflexões éticas, ao afirmar que aquele que pratica atos justos não necessariamente é um ”homem justo”; pode ser um “bom cidadão”, contudo, jamais será um “homem justo” ou um “homem bom” de per si. O “homem bom” é, por si mesmo, independentemente da sociedade, completo em sua interioridade; a justiça lhe é uma virtude vivida, por meio da ação voluntária. A moral obedece às regras, a ética possui seus próprios valores.
La Taille (2002), descreve o cenário da educação infantil apontando as duas grandes fontes educacionais da criança: família e escola, como agentes que devem tornar claros os seus valores e definições sobre uma vida plena. A sociedade e a mídia acabam ocupando um espaço considerável na formação desses conceitos fundamentais. Com o passar do tempo os valores aprendidos na família e na escola foram perdendo terreno, e quem encontrou espaço para implantar diferentes valores foi a forte idéia comercial. Tudo parece estar voltado para o mercado, o consumismo e a superficialidade. Muito tem se perdido com esta maneira de formar valores.
Tendo em vista os vários fatores que compõem a personalidade do ser humano, torna-se importante o exercício de compreender que formas de valor podem estar presentes nas pessoas. Dependendo das características existentes desde o nascimento, somadas as aprendizagens e experiências vividas, resultará em diferentes valores encontrados em cada um.
A criança recebe determinada cultura de seus cuidadores, bem como influências do meio em que vive. Caso ela não obtenha valores de uma vida mais plena, dificilmente formará um conceito interno a respeito. A preocupação nesta altura das reflexões alcança os valores que o ser humano formou e os vive a partir de uma condição intrínseca. Ao contrário de alguém que percebe a necessidade de ter de se adequar às regras e normas circunstanciais de um dado momento, para uma demanda específica. Temos, então, valores adaptados e considerados extrínsecos. Seu efeito pode durar tanto quanto os seus objetivos permaneçam disponíveis.
Aquele que possui valores intrínsecos tem maior chance de resistir às atribulações que a vida reserva. Sofre, contudo, encontra sustentação diante das dificuldades existentes. Vê o campo de batalha no qual se situa, porém, tem ânimo e força para continuar lutando e planejando as perspectivas. É como se encontrasse uma companhia vital para continuar a jornada. Os valores religiosos são forte exemplo desse tipo de sustentação. Vemos claramente em (2 Co 5.1.): “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.”
Por outro lado, quem convive com valores extrínsecos, é presa fácil dos problemas. Sucumbe, quase sempre, ao primeiro vento que sopra contrariamente. Não há uma estrutura formada que ofereça apoio e perseverança. Encontra, na maioria das vezes, o desespero como aliado. Sente-se só.
Como tratar da questão em pauta? Valores positivos internos, se eles pouco representam para as pessoas que não o obtiveram. Observe que o número de crianças com pouco contato nesta esfera do desenvolvimento vêm aumentando, haja vista o distanciamento que ocorre entre pais e filhos. A educação perde terreno nesta relação já enfraquecida, onde a responsabilidade primária (dos pais) está sendo passada, ou há uma constante tentativa, para a secundária (escola). As razões deste fenômeno vão desde o conceito errôneo que muitos pais têm a respeito do eixo liberdade-limites, até o comprometimento com as suas atividades profissionais em virtude do dinheiro e do próprio desenvolvimento. Não é uma situação fácil (Siqueira, 2003).
Os educadores têm um papel relevante junto a seus alunos, bem como aos pais deles. É papel de liderança que deve estar presente todo dia na vida das crianças e adolescentes. Declarar valores pessoais e estimular o seu desenvolvimento pode auxiliar nesta tentativa. Em qualquer oportunidade de tempo, desde que seja feito.
Imaginemos, então, se ampliarmos esta dificuldade para a vida social em grupo. Muitas pessoas, de diferentes valores, ainda que alguns estejam relativamente próximos, calcule como é o alinhamento entre aquele que possui valores internos de boa conduta, mediante valores globais negativos de um sistema organizado? O contrário também.
Outro empecilho ocorre na hora de compreender ou formar os planos futuros de vida. Que sonhos ter? O que vislumbrar como algo que possua grandeza e nos inspire a caminhar em sua direção? Que horizonte observar e nele estarem depositadas importantes convicções pessoais?
Ainda mais, como conceber as metas desses planos? Se a perspectiva não inclui uma visão estimuladora? Que objetivos tangíveis devemos alcançar para manter a chama acesa?
Se não há valores profundos e positivos, não há, em essência, o que visionar e tornar, em decorrência, objeto de qualquer missão. Tal infortúnio, num convívio grupal, desmotiva aquele que é desprovido de valores fundamentais. Quer apenas resultados imediatos e se frustra facilmente quando não os obtêm. Seus objetivos incluem somente o fazer e a resposta que ocorra de acordo com as suas aspirações, excluindo os seus propósitos educativos, tais como o errar, parte inseparável do ser humano. Não há paciência, muito menos sabedoria em entender as muitas possibilidades que podem estar presentes em cada idéia e ato que emitimos.
Quando a pessoa carrega valores internos, é capaz de empreender atividades que busquem se aproximar de seus sonhos. Avaliar as novas situações, respeitando as mudanças e resultados que surjam, diferentemente do que antevia. Compreender o valor do tempo e saber esperar quando assim se faz necessário. É crente de suas convicções e sabe articulá-las com as diferenças que encontra no grupo. Busca adaptar-se, até certo limite, aos valores da comunidade que faz parte. Alinha seus valores, sonhos e metas. Encontra na própria estrutura desses conceitos um objetivo a ser alcançado em cada lugar e em cada tempo.
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora da UNB, l985.
FADIMAN, James. Teorias da Personalidade. São Paulo: Editora Harbra, 1986.
PIAGET, J. O julgamento moral da criança. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.
SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Educação sem limites. Internet, disponível em: www.psicopedagogia.com.br. Acesso em 03/11/03.
TAILLE, Yves de La. Limites: três dimensões educacionais. São Paulo: editora Ática, 2002.
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